Dairan Paul
Doutorando em Jornalismo pelo PPGJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

Com cinco candidatos a vice nascidos no Rio Grande do Sul, dentre os 13 que disputam as eleições deste ano, era previsível que o tema se tornasse pauta no jornal Zero Hora, conhecido pela sua ênfase – por vezes exagerada – no valor-notícia hiperlocal. O caxiense Germano Rigotto (MDB) concorre ao lado de Henrique Meirelles, enquanto que Léo da Silva (PPL), de Rosário do Sul, é companheiro de chapa de João Vicente Goulart. O general porto-alegrense Hamilton Mourão (PRTB) sobrou como vice de Jair Bolsonaro. Geraldo Alckmin, por sua vez, escolheu Ana Amélia Lemos (PP), nascida em Lagoa Vermelha, para acompanhá-lo. A candidatura de Lula registrou Fernando Haddad, do PT, como vice-candidato; o partido, no entanto, deve colocar Manuela D’Ávila (PCdoB) no seu lugar caso a Justiça impeça o ex-presidente de concorrer às eleições. Em caso contrário, a porto-alegrense será vice de Haddad.

A pauta é um prato cheio para o veículo, cujo bairrismo molda há anos a identidade gaúcha no Estado. Diversas pesquisas já analisaram como Zero Hora aciona sentidos que afloram o “nacionalismo às avessas” daqueles nascidos no Rio Grande do Sul. Para citar um exemplo, a pesquisadora Patrícia Pérsigo relembra em artigo que o bairrismo do veículo acaba, por vezes, silenciando pautas mais complexas – fragmentos são mais destacados do que o todo de uma questão. Até mesmo um site humorístico chegou a ser criado para satirizar a escrita do veículo. O Bairrista, lançado em 2010, é um portal que reúne notícias falsas satirizando o gaúcho enquanto valor-notícia, algo que normalmente já acontece em Zero Hora. Criado pelo então estudante Júnior Maicá, o projeto foi curiosamente incorporado à própria RBS, empresa de comunicação que detém ZH. A parceria entre ambos encerrou este ano.

O hiperlocalismo de Zero Hora, contudo, não impõe o mesmo tratamento a todos os candidatos. Os “vices que não tiram o sono”, nos dizeres da colunista Rosane de Oliveira, são algo seletivo. A jornalista acrescenta: “Geraldo Alckmin (PSDB), Henrique Meirelles (MDB) e Jair Bolsonaro (PSL), que terão vices nascidos no Rio Grande do Sul, podem dormir tranquilos, com a certeza de que não serão traídos por seus companheiros de chapa. Ana Amélia Lemos, vice de Alckmin, e Germano Rigotto, vice de Meirelles, são conhecidos pela lealdade e pela integridade. Ninguém os imaginaria conspirando contra o titular. Embora seja vice de um capitão (Bolsonaro), o general Hamilton Mourão entende de hierarquia e sabe que, na vida civil, o vice está abaixo do presidente”.

É a própria Manuela D’Ávila quem chamou a atenção para essa seletividade na terça-feira (7), em sua conta no Twitter, quando nomeou de “bairrismo fake a cobertura do veículo sobre os vices. Segundo a futura vice-candidata, ZH teria dispensado a ela adjetivos mais amigáveis, o que não ocorreu quando uma “senadora ou ex-governador viram vices de chapas conservadoras”, em alusão a Ana Amélia Lemos e Germano Rigotto, respectivamente.

De fato, Manuela não está errada em sua crítica. Dentre as diferenças na cobertura do lançamento das candidaturas, talvez a mais gritante aconteça entre a militante do partido comunista e Ana Amélia Lemos, ex-prata da casa – ela trabalhou como jornalista por mais de 30 anos no Grupo RBS.

Duas gaúchas, dois bairrismos

Uma comparação inicial pode ser feita nas capas das edições de três e sete de agosto, ambas um dia após a confirmação das duas políticas em suas novas chapas. O enorme destaque reservado à Ana Amélia contrasta com o tímido espaço de Manuela. A primeira é agente ativa de sua candidatura e “muda o cenário do RS”, por conta dos rearranjos que tiraram Luis Carlos Heinze (PP) da disputa pelo governo. Manuela decresce: vai “de presidenciável a ‘suplente’”, numa complexa articulação interna, parte da estratégia petista para garantir permanência no poder.

Mas o bairrismo seletivo de Zero Hora está mais explícito nas construções das matérias e colunas de opinião. A candidata pelo Partido Progressista tem sua imagem construída pelo jornal como a política honesta, imune ao Ficha Limpa e até mesmo como um antídoto menos reacionário a Jair Bolsonaro. É o que se pode ver, por exemplo, na reportagem “Ana Amélia será vice de Alckmin no Planalto”, quando é explicado ao leitor o que levou à escolha do presidenciável: “depois de conseguir o apoio do centrão, os tucanos buscavam alguém sem manchas éticas para compensar a má fama do bloco capitaneado por figuras como Valdemar Cosa Neto, do PR, e Ciro Nogueira, do PP, envolvidos na Lava-Jato. Ana Amélia resistia”.

A decisão da então senadora também é permeada de tensões, com certo pé no melodrama numa tentativa de humaniza-la. É, na coluna de Rosane de Oliveira, “a decisão mais difícil da vida”, que “foi amadurecida nos últimos quatro dias, incluindo a noite em que passou em observação no Hospital Geral de Caxias do Sul, depois de uma crise de hipertensão”. A jornalista detalha que “(…) o que angustiava Ana Amélia naquele dia era o dilema entre ser candidata à reeleição, seu caminho natural, e o desafio de concorrer a vice-presidente da República”. E, por fim, deixa escapar sua aprovação: “pesou a convicção de que, depois de oito anos no Senado, é preferível se arrepender de aceitar um desafio do que se cobrar por não ter contribuído para viabilizar uma opção de centro em um país partido ao meio”.

Para o ânimo do mercado, Rosane de Oliveira ainda relaciona em outra coluna a alta da bolsa à candidatura de Ana Amélia como vice de Alckmin.

A correspondente de política Carolina Bahia também não dispensa adjetivações para Ana Amélia: ela é “a vice ideal de Alckmin”, sua aposta para atrair votos femininos, aproximar eleitores do Sul amparada “na imagem de senadora ficha-limpa que a gaúcha carrega”. A política representaria uma versão light do PP, algo conservador pero no mucho, para demarcar uma diferença com Jair Bolsonaro.

Bahia ainda questiona por que o RS se tornou um ninho de vices. Em sua resposta, a colunista cita Ana Amélia Lemos e Germano Rigotto como “os dois gaúchos [que] têm a vantagem de não serem investigados ou réus da Lava-Jato, o que nos dias de hoje virou um grande ativo”.

Ao construírem a imagem da senadora do Partido Progressista como aquela imune a corrupções ou mesmo distante dos valores mais conservadores reservados apenas a Jair Bolsonaro, parte da história de Ana Amélia Lemos é devidamente esquecida pelos jornalistas de Zero Hora. Igor Natusch recupera a sua contestada biografia em matéria para The Intercept Brasil: “rainha da tradicional família gaúcha desde os tempos em que comentava política na afiliada local da Rede Globo, a RBS, a senadora tem se esforçado de uns tempos para cá para conquistar o coração do gaúcho que odeia a esquerda e acha Bolsonaro uma boa ideia – tudo isso sem jamais apoiar abertamente a aberração bolsonarista, bem pelo contrário”.

Na linha de frente contra a corrupção, a jornalista já foi acusada, nos anos 1980, de ocupar um cargo fantasma no gabinete do então marido, o senador Octávio Cardoso, conforme denunciou o jornal Sul 21 em 2014. Supostamente distante do radicalismo de Bolsonaro, Ana Amélia possui boas relações com líderes do agronegócio, é aliada de movimentos armamentistas e, mais recentemente, elogiou os ataques contra a caravana de Lula no Rio Grande do Sul: “botaram para correr aquele povo que foi lá, levando um condenado se queixando da democracia. Atirar ovo, levantar o relho, levantar o rebenque é mostrar onde estão os gaúchos”. Nada desse histórico da senadora pareceu interessar aos jornalistas e colunistas de Zero Hora, quando a descreveram como uma política “sem manchas éticas”.

Em que pese o lançamento mais recente da candidatura de Manuela D’Ávila, sua cobertura obteve menos destaque do que a da jornalista que já trabalhou no Grupo RBS. À militante comunista, coube o papel de poste do Lula, como atesta Carolina Bahia. Na edição de sete de agosto, tanto a reportagem “Manuela, de presidenciável a ‘suplente’ de vice do PT”, como a coluna de Rosane de Oliveira dão mais destaque às articulações que levaram D’Ávila ao lugar onde se encontra agora. É provável que nenhuma outra candidatura seja permeada de mais reviravoltas e negociações internas como a de Lula, e o jogo político por trás das estratégias merece destaque. Contudo, chama a atenção que não cabem adjetivações à Manuela, bem diferente da trajetória constantemente ressaltada da senadora gaúcha imune ao Ficha Limpa.

Apenas na edição de hoje, quarta-feira, oito de agosto, uma tímida menção à trajetória da política aparece na coluna de Rosane. É dito que ela e Haddad têm perfis semelhantes, “nascidos de classe média” e “representantes de uma nova geração de esquerda que, pela idade, fez carreira política já no ambiente democrático”. O texto ressalta que Manuela “não tem experiência administrativa, mas já disputou seis eleições desde 2004 e venceu quatro. Começou como vereadora, foi duas vezes deputada federal e hoje é deputada estadual. Perdeu duas eleições para a prefeitura da Capital”.

Respeita-se, assim, a carreira política da candidata – um ponto factual impossível de escapar. É dispensado, contudo, qualquer julgamento moral, relegado aos gaúchos mais honestos, merecedores do bairrismo às avessas de Zero Hora.

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