Siliana Dalla Costa
Mestre em jornalismo pelo PPGJor e pesquisadora do objETHOS

O alerta da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Ministério da Educação (MEC), em relação ao risco de cortes de recursos que poderá inviabilizar o pagamento de bolsas a docentes e alunos de pós-graduação a partir de agosto de 2019 – assunto abordado aqui no objETHOS na semana passada  – ainda preocupa. Nesta semana, mais de 30 instituições, entre entidades científicas e universidades, repudiaram o corte e alertaram para um possível apagão científico no país, ao contrário do que fazem países como a China, por exemplo, que investe pesado em atividades científicas. Estudantes de diversas regiões também foram às ruas protestar contra os cortes na Capes.

Na contramão de tais preocupações parece estar o Poder Judiciário. Na noite de quarta-feira (8), por sete votos a quatro,  os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiram incluir no orçamento de 2019 – o mesmo que prevê os cortes na educação – a previsão de reajuste salarial de 16,38% para seus próprios salários. Atualmente o salário dos ministros é de R$ 33.763 e, se aprovado, passará para R$ 39.293,32 a partir do ano que vem, o equivalente a mais de 39 vezes o salário mínimo (previsto para R$ 998 em 2019). Sem contar que o salário dos ministros é base para os salários de todos os magistrados e, se aprovado pelos Poderes Legislativo e Executivo, causaria um impacto de R$ 717,1 milhões no Poder Judiciário, já que serve de teto para o funcionalismo público.          

E o jornalismo com isso?

Se levarmos em conta o interesse público, um dos argumentos mais frequentemente usados por jornalistas e veículos de comunicação para explicar todo tipo de ação, então compreenderemos a responsabilidade do jornalismo diante das duas situações e de algumas questões que se apresentam. Ora, quantas bolsas de pesquisa poderiam ser pagas só com o reajuste sugerido pelos ministros aos próprios salários? Ou, quantas bolsas de pesquisa poderiam ser pagas só com os benefícios extras que os ministros já recebem, como auxílio moradia, por exemplo?

Aparentemente essas questões podem parecer distantes e não interessar para algumas pessoas. Entretanto, esse é o tipo de questionamento que os jornalistas precisam fazer, não só porque é de interesse público, porque interessa a Nação como um todo e deve ser foco principal daqueles que exercessem a profissão, mas porque é aquilo que o público precisa saber, porque reflete na vida de muitas pessoas. Só para se ter ideia, o impacto dos cortes na Capes pode afetar o pagamento de cerca de 200 mil bolsas. Serão 200 mil pesquisadores, professores ou alunos que não terão mais como subsidiar suas pesquisas.

A explicação para uma cobertura jornalística rápida e superficial dos veículos de comunicação quanto aos dois assuntos e o impacto que ambos podem gerar, entretanto, é fácil. O jornalismo atua, por via de regra, sob a visão de serviço público e o compromisso com a sociedade, porém, nem sempre aquilo que é de interesse público geral ganha a importância necessária por motivações de ordem político-econômicas. Um exemplo é o ataque que a mídia tradicional tem aplicado à comunidade científica brasileira nos últimos tempos.

Fazer “vistas grossas” para assuntos de interesse público como a disparidade entre o reajuste salarial do Poder Judiciário e a subsistência mínima da pesquisa científica é exercer o papel de proteção político-midiática e de defesa do interesse particular, quando deveria ser ao contrário.

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