Por Juliana Rosas
Doutoranda pelo PPGJOR/UFSC e pesquisasdora do objETHOS

Assistir ao filme “Leões e Cordeiros” (Lions for Lambs, 2007), dirigido pelo diretor e ator Robert Redford inspira reflexões weberianas, éticas, políticas e jornalísticas. Neste ano eleitoral e quando o Objethos já começou a refletir sobre os desenlaces deste evento no campo ético e jornalístico, nada mais apropriado.

No filme, o personagem de Redford é um professor universitário de Ciências Políticas, exigente para com os alunos e com um olhar clínico para identificar alguns tesouros brutos. Estudantes que lhe dão esperança. Esperança em que? Em alguém que fuja do mainstream, do status quo, do establishment, de alguém que só queira passivamente usufruir do “american way of life”.

“Leões e Cordeiros” se desenrola no entremeado entre as histórias dos últimos alunos a alimentar a esperança do professor Stephen Malley, sua atual esperança (outro estudante) e a entrevista da jornalista interpretada pela sempre competente Meryl Streep com o senador conservador republicano interpretado pelo igualmente conservador ator Tom Cruise. Este, apesar de aparentemente o papel lhe servir como uma luva, é o pior do filme. Diegética e extra-diegeticamente.

No livro “Ciência e política – duas vocações”, de Max Weber, o autor alemão trata de ciência, pesquisa, professores e tudo que rodeia esse mundo. E política, políticos e vários aspectos desse campo. Ambos também representados em “Leões e Cordeiros”. Na obra, Weber mostra pontos de encontro e divergência entre o cientista e o político. Ainda premente, as considerações de Weber nos ajudam a entender os dias atuais, quando a ciência brasileira enfrenta uma crise. Crise financeira – por correr o risco de ter verbas severamente cortadas. E de credibilidade – quando não consegue convencer nem os políticos nem a opinião pública de sua importância, econômica e social, diga-se de passagem.

No campo ficcional, esquentando esse embate, entra Todd Hayes (Andrew Garfield), último aluno que o professor Malley decide apostar suas fichas de esperança. Uma hora, o estudante pergunta: “E quanto ao senhor? É aquela história, those who can’t do teach. Ser professor é o máximo que pode fazer?” No Brasil, há um ditado (piada?) semelhante: “quem sabe faz, quem não sabe ensina”. Para que serviria a ciência, então? Para que estudos? Para que questionar? Para que querer entender a fundo a realidade?

E na outra ponta, quem temos? O político de carteirinha, o Sr. Tom Cruise, senador Jasper Irving. Weber afirma que há dois modos pelos quais alguém pode fazer da política a sua vocação: viver para a política – faz dela a sua vida, num sentido interior, desfruta a posse do poder que exerce pela consciência de que sua vida tem sentido a serviço de uma causa; ou viver da política: quem luta para fazer dela uma fonte de renda permanente. Tomar uma posição, ser apaixonado, é o elemento do líder político, aqui, claro, ficcionalmente representado pelo republicano almofadinha, melhor da classe, que sempre trabalhou no setor da inteligência e nunca precisou se ferir no campo de batalha.

Ainda segundo Max Weber, desde a época do Estado constitucional, desde que a democracia se estabeleceu, o demagogo tem sido o líder político típico do Ocidente. O publicista político (e acima de tudo, o jornalista) é hoje o representante mais importante da espécie demagógica. Esclarecendo: demagogia – conjunto de processos políticos hábeis tendentes a captar e utilizar, com objetivos menos lícitos, a excitação e as paixões populares.

Quem o senador (Tom Cruise/Jasper Irving) procura para “vender” a guerra como lícita à população? A jornalista, claro. Porém, essa jornalista não é uma mocinha inexperiente. Ela pressente a demagogia inflamada e não quer fazer parte do processo sujo. Algo que presenciamos diariamente: o campo jornalístico entrando em cena no embate político e científico. Weber considera comovente quando uma pessoa tem consciência da responsabilidade pelas consequências de sua conduta. Esse apontamento cai como uma luva para a inquietação da jornalista Janine Roth (Meryl Streep).

No fim da batalha, que campo ganha? Científico, político, jornalístico? Quem é o lobo mau e quem são os pobres cordeirinhos? Eles existem? Um filme curto, simples, direto, com mais perguntas que respostas. E que meteu o dedo na ferida americana, fazendo com que esta obra cinematográfica à época do lançamento fosse razoavelmente ignorada.

Aqui, do lado brasileiro, temos leões e cordeiros nessas eleições que estão por vir? Quem dos candidatos vive da política? Alguns fazem parte de gerações de uma mesma família de políticos espalhados por diversas funções dos executivo e legislativo. Quem vive para a política? Ainda nos resta algum candidato assim? Por hora, vos deixo como nossos professores nos deixam em sala: com mais perguntas que respostas. Acompanhemos o desenrolar das eleições nos campos político, científico, jornalístico e midiático.

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