Andressa Kikuti Dancosky,
Doutoranda pelo PosJor/UFSC e pesquisadora do objETHOS

No último domingo (2), o Museu Nacional do Rio de Janeiro foi consumido por um incêndio que arruinou quase integralmente sua estrutura, equipamentos e seu valiosíssimo acervo de 20 milhões de peças. Entre os itens destruídos pelo fogo estavam o fóssil humano mais antigo encontrado no Brasil; uma das mais importantes coleções de paleontologia da América Latina; artefatos da cultura indígena brasileira e dos povos pré-colombianos; além de peças egípcias e de outras culturas. A jornalista Eliane Brum, em coluna no El País, ao relatar o drama envolvendo o episódio, questiona: “O que há mais para dizer agora que as palavras já não dizem e a realidade se colocou além da interpretação?”

A tragédia revela um óbvio descaso com o patrimônio cultural e com a pesquisa no Brasil. Já era anunciada, como revelaram os próprios funcionários, por conta da queda sistemática de recursos destinados à sua manutenção e investimentos – responsabilidade de governos anteriores, mas principalmente do atual ilegítimo, que limitou os investimentos no setor pelos próximos 20 anos, compondo ameaças constantes ao desmonte das universidades públicas [o Museu está ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro].

O tema chamou a atenção da comunidade, da mídia, e por consequência dos políticos brasileiros, especialmente aqueles que enfrentam a disputa eleitoral em 2018. No dia seguinte ao incêndio, os presidenciáveis não demoraram a se lamentar pelo ocorrido e se pronunciar sobre a importância dos patrimônios históricos para a cultura e a pesquisa no país. O Jornal Nacional, em sua cobertura diária das agendas de (somente) alguns candidatos à presidência, levou ao ar algumas das manifestações:  Ciro Gomes relacionou o ocorrido ao teto dos gastos públicos, e disse que irá investir em cultura, pois é “onde se consolidam hábitos de consumo”. Henrique Meirelles afirmou que, se eleito, sua prioridade será recuperar o Museu. Marina Silva destacou a recuperação de museus como uma das diretrizes de seu programa e declarou que  “um povo que não conhece sua história tem muita dificuldade de transformá-la”. Alckmin praticamente lavou as mãos ao apresentar a proposta de deixar a gestão de museus por conta de organizações sociais sem fins lucrativos. Já Bolsonaro disse que, se for eleito, irá transformar o Ministério da Cultura em uma secretaria do Ministério da Educação.

Tais declarações foram reproduzidas sem maiores tensionamentos. Sem uma verificação básica nos programas de governo de cada candidato para ver o que cada um propõe para a ciência, tecnologia e a cultura. E ao fazer esse exercício, constatamos que menos da metade dos candidatos à presidência tem propostas especificamente voltadas para o investimento em ciência e tecnologia. Destes, quem dispõe textualmente de diretrizes são cinco:  Lula/Haddad, Guilherme Boulos, Ciro Gomes, Marina Silva e João Goulart Filho. Com relação à preservação do patrimônio, coloca como prioridade apenas uma candidata, Marina Silva. Os candidatos José Maria Eymael, Geraldo Alckmin e João Amoêdo até citam a pesquisa das universidades e a cultura em seus planos, mas não chegam efetivamente a elaborar propostas. Alguns candidatos sequer demonstram preocupações neste sentido, como é o caso dos programas de Cabo Daciolo, Henrique Meirelles (aquele, que declarou que restaurar o Museu Nacional era prioridade), Jair Bolsonaro, Álvaro Dias e Vera Lúcia.

É provável que esse assunto continue a aparecer nos próximos dias, na mídia e nos debates à presidência. Nos resta ainda saber como. Será este episódio capaz de provocar um debate público sério sobre o desinvestimento na cultura e na pesquisa no Brasil? Provocado a responder esta questão, em entrevista ao site Público, o antropólogo e professor da UFRJ, Eduardo Viveiros de Castro, acredita que não. Ele relembra outros incêndios gravíssimos em museus ocorridos no país (como o de Arte Moderna e o Museu da Língua Portuguesa), e diz que a irreflexão se deve à crise política, moral, cultural e econômica na qual o país está mergulhado. Ele prevê: “Vai haver gritaria durante algum tempo, choro, ranger de dentes, e em seguida vai-se voltar ao que sempre foi, planos para o futuro que não se concretizam, verbas que se prometem e não se entregam. Tenho muito medo que se tente vender o canto de sereia da privatização dos museus, retirá-lo da universidade, transformá-lo numa fundação privada. Enfim, essa panaceia de estilo americano que nunca dá certo no Brasil.”

Parte da responsabilidade pela ausência de um debate público qualificado sobre o assunto é da mídia – peça fundamental nos regimes democráticos e que tem um potencial de enorme contribuição à democracia, desde que contextualize, aprofunde tais questões, e com isso ajude o eleitor ao escolher seu candidato. Infelizmente não foi o que se viu na cobertura do JN no dia seguinte ao incêndio do Museu Nacional, com relação às manifestações dos candidatos à presidência do Brasil. Como um dos mais importantes telejornais do país, ele sabe que sua cobertura pode ser decisiva na formação da opinião pública, e na escolha de vários eleitores indecisos. Em uma das eleições mais incertas dos últimos tempos no Brasil, ele poderia fazer diferença.

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