Ricardo José Torres
Doutorando em Jornalismo no POSJOR e pesquisador do objETHOS

Quando o imponderável torna-se realidade e a cólera se manifesta concretamente nos colocamos diante de resultados chocantes e inacreditáveis. O ataque ao candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL) é a consequência mais visível da propagação do ódio e da intolerância que predomina na maioria dos meios jornalísticos atualmente. Há tempos convivemos com métodos e práticas que corroboram para um clima político odioso e polarizador. Formas de perseguição e apologia à criminalização da política transformam a arena democrática em um campo de batalha perverso que favorece uma sensação antidemocrática.

Tempos de beligerância não abrem espaço para a argumentação e favorecem a ignorância. Alimentadas por crenças, as discussões políticas carecem de aspectos elementares para o debate e para a exposição de ideias contraditórias. A inexistência da contradição alimenta vieses únicos e conformadores que apontam caminhos únicos e condicionantes. Eleitores obcecados pela expectativa de mudança e “limpeza” não conseguem discernir minimamente sobre o que querem mudar e, consequentemente, não refletem em como essa possibilidade de mudança irá se dar.

No cabo de guerra que coloca em cena inimigos “políticos” vorazes vivenciamos desejos extremos que desafiam a convivência e o equilíbrio de um contexto social democrático. A exposição de ideias extremas que não respeitam os direitos que estão na base da convivência de uma sociedade civilizada abre os flancos para atos violentos injustificáveis. De maneira geral, os jornalistas menosprezaram o festival de absurdos e incoerências que a política palaciana está proporcionando nos últimos tempos. O limiar entre a liberdade de expressão e a propagação do ódio alimenta a consolidação de ações extremadas.

As informações políticas reproduzidas nas páginas dos jornais, sites e mídias sociais favorecem mesquinharias, acusações e a ideia de eliminação dos “adversários”. A abordagem enviesada dos temas políticos não é novidade, no entanto, atualmente, o jornalismo convive de forma pacífica e normalizadora com noções antidemocráticas extremas e autoritárias. Em um ecossistema de desinformação, o discurso fácil e débil prevalece em relação a qualquer tentativa de complexificação das problemáticas dinâmicas que envolvem a sociedade.

O jornalismo que influencia e é influenciado pelo ódio

A falta de clareza e contextualização em relação aos posicionamentos políticos de meios jornalísticos e dos próprios jornalistas obscurece intencionalidades e suas consequências. A aversão extrema e ilimitada entre posicionamentos e ideias ocasiona uma ultrapolarização na qual os indivíduos se blindam e atacam de maneira irracional os seus “adversários ideológicos”. Esse cenário expõe aspectos que atravessam a produção jornalística e as maneiras como essas informações são disseminadas. O ódio replicado e amplificado por crenças em detrimento de fatos alimenta noções equivocadas de elementos políticos essenciais e apresenta soluções imediatistas e radicais que na maioria dos casos corroboram com o caos político que favorece a adoção de saídas autoritárias.

A visão apressada que limita entendimentos a uma equação simplificadora de “bons” e “maus”, “certos” e “errados” obscurece um conjunto de maneiras pelas quais o processo democrático poderia ser abordado. A partir desses entendimentos, as crenças superam as formas de racionalidade e o sentimento prevalece em relação aos fatos. Em linha com esse conjunto de sentidos, o sentimento de ódio prevalece e a política acaba sendo entendida como algo que causa danos à sociedade. A suspensão da política ocasiona a instauração de formas de aniquilação da civilidade e paradoxalmente as eleições contribuem para o processo de degradação da democracia.

A percepção odiosa que permeia o processo eleitoral está relacionada à omissão jornalística que solapa informações políticas e centraliza a atenção e notoriedade sobre declarações e posturas antidemocráticas. O apagamento da responsabilidade jornalística causa a deturpação entre o que é democrático e o que é criminoso. Um cidadão confuso pode colocar em risco a sua própria cidadania. De forma predominante, as abordagens jornalísticas que estão sendo empregadas sobre o contexto político nos últimos anos fomentam a aversão à política e aos políticos. Os reflexos dessa situação influenciam e estão sendo influenciados pelo ódio eleitoral.

É essencial que o jornalismo apresente fontes de informação política que auxiliem na compreensão do panorama político para além das estratégias de marketing e dos objetivos pessoais dos candidatos. Essa possibilidade está relacionada ao aperfeiçoamento do entendimento e da transparência dos jornalistas que estão imersos em uma cena que favorece à disseminação de fofocas e mesquinharias e deixa os temas verdadeiramente políticos em segundo plano. O debate político baseado em ideias, argumentos e informações é o que potencialmente pode proporcionar a diminuição do ódio eleitoral.

Afirmações superficiais, assertivas categóricas e uma visão estritamente polarizada de política estão alinhadas ao cenário ideal para o fortalecimento e consolidação de oportunistas que são alimentados pelo ódio e pela desinformação. As suas ideias escalam a perspectiva degradante da política. O desserviço produz interpretações equivocadas e elenca os inimigos que devem ser destruídos. É difícil apontar culpados para o limbo político em que nos encontramos e para o debate vazio a que estamos expostos. O que pode ser indicado é que esses fatores são constituídos por estratégias que são obscurecidas por emoções e sentimentos esvaziados de maturidade e discernimento.

A maior vítima desse clima de beligerância norteado pelo ódio é a democracia e seus preceitos. Em última instância todos nós estamos sendo afetados pela desinformação jornalística, um dos indutores da intolerância e uma forma de resistência à conscientização política.

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