Roteiro, produção e entrevista: Juliana Freire
Edição: Dairan Paul

A terceira rodada de entrevistas realizadas pelo objETHOS no 41º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom), em Joinville, tem como protagonista a professora doutora sênior Alice Mitika Koshiyama, livre-docente da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e coordenadora do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Construção da Cidadania.

Koshiyama, que tem como uma de suas áreas centrais de interesse o estudo do jornalismo em sua relação com a história e a cidadania, trouxe para o Intercom deste ano o artigo “Jornalismo e direitos humanos: teoria e práticas possíveis”. Nele, constrói uma discussão sobre o compromisso da prática jornalística com a democracia, pontuando dois bons nomes da profissão – a espanhola Soledad Gallego-Díaz e o brasileiro Luiz Claudio Cunha – para pensar a importância do jornalismo de interesse público.

Nesta entrevista, Koshiyama explica o que a motivou a escrever sobre o assunto, bem como a relação entre a busca pela verdade e suas dimensões econômicas e históricas. Também versa sobre o modo de funcionamento do jornalismo independente e a quais condições ele está sujeito na busca por revelar segredos de poderosos. Finaliza com uma crítica à financeirização do capitalismo no que toca não somente ao jornalismo como profissão, mas também às escolas que formam estes profissionais.

Em relação ao artigo que a senhora apresentou no Intercom, por que podemos considerar que o jornalismo é fundamental para a democracia e os direitos humanos? O que lhe motivou a escrever sobre o assunto?

Eu acho que essa questão é muito falada e talvez pesquisada, mas as pessoas não fazem a prática. Se fizessem, estaríamos em outro contexto cultural, histórico e político.

A relação entre jornalismo e democracia é histórica. Nós temos uma tradição de trabalho no jornalismo, dentro dos marcos liberais, que é a proposição da defesa dos diretos do chamado interesse público – os direitos de cidadania, muito fácil de você assumir em tese, mas que na prática não ocorrem.

O trabalho que eu trouxe para o Intercom é bem simples. Usei como linha de explicação a Soledad Gallego-Díaz e o Luiz Cláudio Cunha, dois autores de textos que acho que todo mundo deveria ler. Há uma razão para escolhê-los. Acho que ambos são praticantes de um jornalismo em defesa de um projeto democrático liberal de Estado e sociedade.

Soledad é a atual diretora do El País, um dos jornais mais interessantes para a gente acompanhar a vida cotidiana do Brasil na visão de interesse público e direitos de cidadania, principalmente em questões que envolvem os direitos da mulher. Não qualquer mulher, mas aquela que sofre nas condições de desigualdade, racismo e questões voltadas para os direitos políticos das pessoas. Então, acho a visão de sociedade do El País muito interessante. Tanto ele como a BBC se configuram como dois jornais de internet, com acesso livre – ou seja, que você não precisa pagar para ter acesso à parte que é de interesse público. Penso que eles executam este projeto de imprensa voltado para uma visão de sociedade democrática.

O outro autor, Luiz Cláudio Cunha, também foi escolhido pelo seu trabalho. Ele é doutor honoris causa pela Universidade de Brasília (UnB). Quando recebeu o título, proferiu o discurso “Todos temos que lembrar”, obrigatório para estudantes e jornalistas, onde interpreta o Brasil no contexto da história da comunicação e da imprensa. Há uma cobrança sobre a ação dos jornalistas brasileiros na questão da anistia política, e eu concordo com ele: não se colocaram as condições para que a gente compreendesse a ditadura brasileira, sua repressão e a revelação ao público do que realmente aconteceu.

Nesse discurso, Cunha pontua sua visão sobre a história da humanidade. É a questão de você ter perguntas, buscar resposta e, a partir delas, elaborar novas perguntas. Ou seja, a dúvida, a leitura e a pesquisa são fundamentais para que exista um jornal. Sem perguntas pertinentes, não há jornalismo que se respeite.

Outro texto seu é um comentário sobre o relatório da Comissão da Verdade, no qual as autoridades das Forças Armadas negam que tivessem participado de qualquer ato irregular usando as dependências da instituição. E o Luiz Cláudio cobra, inclusive, da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2014, o fato de ela ter recebido o relatório e não questionar essa posição dos componentes das Forças Armadas.

Agora, temos que reconhecer que a posição do Luiz Cláudio foi solenemente ignorada pela grande imprensa e até mesmo pela alternativa. Ele também tem um trabalho sobre a Operação Condor, que foi o sistema de repressão política das ditaduras latino-americanas do qual o Brasil participou, redundando na perseguição, morte e desaparecimento de militantes brasileiros, uruguaios, argentinos, chilenos, dentre outros.

Eu trouxe, então, a Soledad Gallego-Díaz e o Luiz Cláudio Cunha como dois exemplos pontuais de um processo de atuação necessário no questionamento do trabalho do jornalismo, independente da ideia de crise que se coloca na profissão. Penso principalmente na diretriz da Soledad, de que o jornalismo é um processo de trabalho que incorpora todas as tecnologias contemporâneas partindo de um princípio – investigar e explicar o que acontece, e buscar a verdade possível. Ela diz claramente que um jornalismo que divulga versões não é jornalismo.

Outra questão é a defesa dos setores que são perseguidos, oprimidos, e estão em desvantagem perante as autoridades. Minha leitura é que propor isso torna a sociedade desigual um pouco mais equilibrada. Mas o que a Soledad fala é que essa é a razão para que a profissão também continue. Nos lugares que você tem situação de conflito extremo, a presença do jornalismo sinaliza para a população que tem alguém preocupado com ela.

Soledad Gallego-Díaz afirma que o jornalismo comete suicídio quando deixa de perguntar aos fatos sobre sua verdade e se limita a dar voz às diferentes versões.  Esta questão nos faz pensar na finalidade da profissão: se é a busca pela verdade ou a legitimação do que os outros dizem como verdadeiro, principalmente as fontes oficiais. Percebemos que, na prática, o segundo caso é frequente. A senhora atribui isso à qual motivo?

Olha, eu diria que esse procedimento não é de agora. Estudando a história do jornalismo, nós vemos que os deslizes na prática jornalística sempre aconteceram. Ao mesmo tempo, há pessoas que usaram a profissão para defender a pesquisa dos fatos que se comprovaram verdadeiros. Então você tem, numa ponta, o William Randolph Hearst [empresário norte-americano, dono de uma rede jornais], que inventou uma série de mentiras e convenceu a população dos Estados Unidos de que o país deveria entrar em guerra com a Espanha, em favor de Cuba. Na outra ponta, você tem, por exemplo, Émile Zola, que não era jornalista profissional, mas um escritor de romance talentoso e de grande sucesso. Ao saber da injustiça cometida contra o capitão Alfred Dreyfus, acusado de trair a pátria, Zóla assume a defesa e faz um jornalismo panfletário, mas verdadeiro. Então até hoje você tem jornalistas que conseguem trabalhar pelas causas verdadeiras, em vários lugares do mundo. São as possibilidades que o campo do jornalismo oferece.

Quando você fala do jornalismo declaratório, você está pensando nas estruturas de trabalho atuais, que levam o profissional, muitas vezes, a atuar de acordo com padrões que são outra coisa, e não a defesa do interesse público. É aquilo que cada empresa estabelece como suas práticas. Sobre a causa disso, você não vai encontrá-la no jornalismo. Temos hoje uma sociedade em que a comunicação se tornou algo presente em todas as instituições, que possuem interesses a serem encobertos, procurando atuar de forma que o grande público não fique sabendo o que realmente acontece. Paul Steiger, jornalista que fundou o ProPublica, diz que os poderosos tentam cada vez mais ocultar verdades que prejudicam as populações.

Essa possibilidade de ocultamento exige uma estrutura de comunicação que pega não só jornalistas, como também assessorias, consultores, conselheiros, sistemas educacionais, pregadores, enfim. O ProPublica surgiu justamente para atuar numa direção oposta e mostrar aquilo que os poderosos não querem que surja. Ou seja, o ideal de você buscar a verdade não morreu, só que aparecem diferentes estruturas, outras propostas.

A senhora também menciona que é preciso distinguir as diferenças entre jornalismo e comunicação, identificando os princípios norteadores da prática jornalística. Quais são eles e por que é necessário fazer essa distinção?

É uma definição de campo, porque você tem um setor de pesquisadores que falam que o jornalismo morreu, e o que você tem hoje é a comunicação.

Mas por que jornalismo não é comunicação? Porque na comunicação você tem empresas de assessoria, marketing e media training, cujos clientes podem ser objetos de matérias jornalísticas. Como cobrir uma reportagem sobre agrotóxicos e Monsanto? A quem prejudica o agrotóxico da forma como ele é aplicado agora? Isso tem interesse jornalístico, mas não é abordado na grande imprensa.

A comunicação é, hoje, um grande negócio. Se você pensar onde jornalistas recebem recompensas salariais maiores, não é trabalhando em jornal ou fazendo seu site, mas trabalhando em grandes assessorias, empresas de marketing, áreas de relações públicas. Tudo é serviço de interesses particulares, e o particular aí não precisa ser uma pessoa ou empresa privada – pode ser até o governo, que contrata esses setores para abafar aquilo que o Paul Steiger, a Soledad Gallego-Díaz e nós chamamos de jornalismo.

Agora, é lógico que o jornalismo sempre foi uma área de tensões; você nunca esteve inteiramente voltado para uma boa causa sem pressioná-las. Minha intenção, ao propor este artigo no Intercom, é justamente sensibilizar as pessoas que pesquisam e ensinam nessas áreas, porque todo mundo vem com aquela conversa de novas tecnologias, crise do jornalismo, crise da comunicação. Na verdade, quem está em crise somos nós, a humanidade. Você tem uma proposição mundial, que é a do capitalismo financeiro com o neoliberalismo, e as mudanças ao longo do tempo. Você teve primeiro a crise nos grandes países e agora no Brasil, no plano econômico e financeiro. E aí, quando você diz para as pessoas que “morreu o jornalismo”, é um pouco isso, de contar o que não funciona, sabe? As pessoas engolem isso como fruto de uma crise.

Fiz esse artigo porque tinha muito texto falando que entramos na “era da comunicação maravilhosa”. Ressalvo o seguinte: mesmo que vão trabalhar nos grandes negócios de comunicação, essas pessoas sabem o que seria um jornalismo de interesse público. É que elas não praticam. Elas trabalham para atrapalhar esse jornalismo.

Você vê o caso do Leonardo Sakamato e as pressões que o cara sofre. Ele montou a ONG Repórter Brasil e trabalha em parcerias. O Ministério do Trabalho vai fazer uma operação contra o trabalho escravo; Leonardo e a equipe vão juntos, fazem a reportagem, colocam no site. Todos ficam sabendo, inclusive os jornalistas locais que estão impedidos de noticiar. Porque como se combate o jornalismo de interesse público? Matando, como é até hoje. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) denunciou vários casos de jornalistas que foram assassinados. Em geral, são pessoas que cobriam coisas que atrapalhavam os interesses de algum poderoso da área. É a ideia de que Paul Steiger fala: você tem cada vez mais instituições organizadas para impedir que as coisas de interesse público sejam objetos do jornalismo.

Então, o jornalismo continua tendo lugar e espaço. Quanto mais desigual a sociedade e quanto mais grupos de interesse tiver nela, mais importante se torna o incentivo à prática jornalística propriamente dita. Quem diz que tudo virou comunicação tem justamente essa proposta, porque se você não tiver jornalismo nessas condições, você vai ter o quê? Terra arrasada. Você só tem a voz daqueles que detêm poder, dinheiro e que querem que a população como um todo se curve aos seus interesses.

A senhora considera que o jornalismo independente tem mais potencialidade de estar ancorado no interesse público do que aquele praticado nas grandes empresas de comunicação?

 A questão passa pelo seguinte: o que é o jornalismo independente? O jornalismo precisa ter financiamento, tanto que o ProPublica só pôde ser montado porque o Steiger recebeu uma doação de um casal amigo que concordava com os princípios que ele defendia. Steigner tem uma verba reservada para atender processos, porque quando você publica alguma coisa que atinge um poderoso você corre um risco muito maior do que quando publica uma matéria para endeusá-lo. E você precisa ter dinheiro para pagar advogados, o que é muito complicado num caso desses.

Então, evidentemente, um respaldo financeiro é necessário. Ou você pode se sustentar de outra forma – às vezes, agências internacionais financiam projetos. A Repórter Brasil entra em ofertas de financiamento. O pessoal da Agência Pública realiza periodicamente projetos pequenos, com temas definidos, e a gente contribui com algum dinheiro para sustentar a cobertura, a viagem do repórter a determinados lugares. El País costuma fazer parcerias ou comprar matérias.

Ou seja, você usa os recursos do sistema, o que não é negócio fácil. Também não é um emprego estável, que você possa fazer um plano de carreira. Você joga com as conjunturas e as possibilidades. Às vezes, você vê um anúncio de uma grande organização internacional que quer desvendar determinada questão e abre concorrência para um projeto. As pessoas se inscrevem e conseguem o financiamento para atuar naquela cobertura, que é normalmente referente a um campo que elas acreditam que mereça ser pesquisado. Eu diria que esse é um desafio para nós, que ainda estamos na área. Acho que não é uma solução e não vale para todo mundo. Tem gente que não se adapta e não quer isso, quer conforto.

Também acho que, independente desse contexto atual, nunca foi fácil fazer jornalismo de interesse público, na medida em que você tinha menos pessoas interessadas em jornalismo. Isso não era visto com uma carreira. Alguns enxergavam como uma loucura, e atualmente virou negócio também. As próprias escolas que formam jornalistas entraram nisso. Você vê um negócio meio paradoxal: um lugar, uma cidade que não tem nenhum órgão de imprensa, mas tem uma escola de jornalismo. Elas são montadas sem a menor infraestrutura, apenas como caça-níquel, porque se tornaram um grande negócio neoliberal. Você vê empresas como a Kroton, que estabelece novos padrões, abaixa os salários dos professores, cobra uma mensalidade ridícula. Eu acho que é esse o cenário.

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