Siliana Dalla Costa
Mestre em Jornalismo pelo PPGJor/UFSC e pesquisadora objETHOS

No último sábado, nós  mulheres nos colocamos oficialmente como uma força política importante, senão decisiva, nestas eleições. Considerando a adesão que o movimento #EleNão – Mulheres contra Bolsonaro teve em Santa Catarina, não é só no cenário nacional que o voto feminino pode fazer a diferença. A quatro dias do pleito, o eleitorado feminino (cerca de 51,5% dos 5 milhões de eleitores catarinenses aptos a votar nestas eleições são mulheres) representa a verdadeira possibilidade de mudança também aqui no Estado.

Criado no Facebook, o movimento #EleNão é mais do que um ato contra o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL). É um movimento antifascista que  tomou as ruas de mais de 150 cidades nos 26 estados da Federação e é considerado por muitos historiadores – como a professora do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e autora do livro Uma história do feminismo no Brasil, Céli Regina Jardim Pinto – como a maior manifestação de mulheres da história do Brasil.

Em Florianópolis, o engajamento das manifestantes fez jus ao título de “capital do feminismo”, carinhosamente nomeada pelo professor Jacques Mick, do Departamento de Sociologia Política e também de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em seu perfil no Facebook. O título foi atribuído pelo professor ao lembrar que “o movimento feminista na cidade abriga diversas organizações de base, realiza manifestações regulares (especialmente no 8M), conta com um portal de jornalismo feminista (o Catarinas), com algumas das intelectuais mais influentes do país nos estudos do tema, além de contar com núcleos de pesquisa avançada sobre gênero numa universidade que se orgulha de acolher e promover a diversidade. Também abriga o maior fórum de debates da área no Brasil (o Fazendo Gênero) e, não sem razão, recebeu há pouco tempo o Congresso Mundo das mulheres”.

No último sábado, o resultado das lutas dessas e de diversas outras frentes foi visto nas ruas. Só em Florianópolis cerca de 40 mil manifestantes se reuniram nas escadarias da Catedral Metropolitana, de onde partiram para uma marcha de 10 quilômetros. Manifestações também foram registradas nas principais cidades do Estado como Chapecó, Lages, Tubarão, Araranguá, Itajaí, Balneário Camboriú, Joinville, Blumenau e Rio do Sul.

A mídia catarinense na contramão

A cobertura jornalística oferecida pela mídia tradicional catarinense à maior manifestação de mulheres da história do Brasil seguiu na contramão do impulso social que o movimento representa. Lage (2014) coloca que “de maneira estrita, o jornalismo – enquanto prática social – tem como compromisso ético colocar-se como agente a serviço de causas consideradas nobres”. Entretanto, o que vemos por aqui destoa desse compromisso. Também não foi diferente a cobertura oferecida pela mídia nacional, conforme aponta o colega do objETHOS Dairan Paul, em texto publicado na segunda-feira.

A produção online do principal jornal do Estado, o Diário Catarinense, se resume em duas publicações: “Manifestantes reúnem-se no Centro de Florianópolis contra o candidato Bolsonaro” e “Como foram os atos anti e pró- Bolsonaro em Santa Catarina”. Nos dois casos, a falta de contexto e de compreensão da importância do movimento para o cenário político atual e para a democracia brasileira não permite outra leitura senão a de um registro. Outras quatro publicações, todas produzidas pelo Estadão Conteúdos, também foram reproduzidas pelo DC online, mas traziam uma leitura nacionalizada do movimento. Uma chamada secundária, no topo da capa da edição de segunda-feira, foi o espaço dedicado pelo Diário Catarinense impresso ao movimento #EleNão. Ainda assim, o jornal adota uma postura tradicionalmente conservadora ao trazer uma linha de apoio dizendo que “atos contrários e favoráveis ao presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) foram registrados no Estado”.

O ND online, por sua vez, resume sua cobertura a uma publicação de três parágrafos e duas fotos. Já para o Notícias do Dia impresso o movimento não mereceu capa na edição pós-evento. Na televisão, a chamada “nota coberta” virou manobra para não mostrar com relevância  temas como o #EleNão.

A cobertura com contexto ficou a cargo de alguns poucos colunistas, como Carlos Damião, do ND, que traz logo no título o que de fato o movimento representa. Ou, então, a cargo da mídia independente como o Portal Catarinas, por exemplo. Nestas eleições, aliás, também coube à mídia independente o papel de trazer reportagens mais completas, com contexto, e que defendam o interesse público. Um exemplo é a reportagem do The Intercept Brasil sobre a investigação de enriquecimento que o Ministério Público Federal apresentou contra o candidato ao governo do Estado, Gelson Merísio (PSD). A impressão que se tem é a de que a mídia tradicional apenas registra os fatos, como se tivesse “medo” de comprometer-se, quando deveria ser a defensora do interesse público.

De onde surgiram essas mulheres?

Para entendermos de onde surgiram essas mulheres e como chegamos às manifestações do último sábado, é preciso considerar que isto não é somente um grupo numa rede social usando a hashtag #EleNão como “adereço” textual. O movimento vem sendo gestado há algum tempo e revela contextos de exclusão onde as mulheres têm atuado na história recente da política brasileira, muitos deles incontornáveis para compreender os limites da nossa democracia. Entretanto, para a mídia tradicional catarinense nada disso parece ser o suficiente para receber a devida atenção.

Embora no Brasil as mulheres tenham direito a voto desde 1932 e o exerçam em condições iguais às dos homens desde 1946, sua presença em cargos políticos tem sido restrita. Basta olharmos rapidamente para as hierarquias dos partidos político, para o plenário dos legislativos nacionais, estaduais e municipais ou, ainda, para os gabinetes onde estão instalados os integrantes do primeiro escalão nos governos para que se entenda o que isso significa. A participação da mulher na  política de Santa Catarina revela: nunca uma mulher governou o Estado. A representação feminina na Assembleia Legislativa é muito baixa se considerado o número de cadeiras. Nesta legislatura são apenas quatro mulheres para um total de 40. Na Câmara Federal e no Senado dá para contar nos dedos o número de mulheres atuando nas últimas legislaturas.

O entendimento de que “havia algo de errado quando um processo regido por regras apresentadas como neutras em relação ao sexo resulta em assimetrias tão visíveis, eleição após eleição”, como afirma a professora Flávia Biroli, do Instituto de Ciência Política da UnB, começou a ser difundido a partir do século XX. Entretanto, a exclusão da mulher da política teve seu ponto de maior tensão com a derrubada da primeira mulher eleita para a Presidência da República, em 2016, em um processo marcado pela misoginia, onde o novo ocupante do posto, Michel Temer, nomearia, então, um ministério inteiramente formado por homens brancos. Erroneamente, talvez este tenha sido o momento em que, finalmente, o caráter masculino da política foi incorporado ao debate público. A partir daí inúmeros movimentos, lutas, mobilizações e vozes femininas que há tanto tempo buscavam espaço passaram a ser incorporadas à cena pública, tendo no movimento #EleNão o seu ápice.

Referência:

LAGE, Nilson. Conceitos de jornalismo e papéis sociais atribuídos aos jornalistas. Pauta Geral, Ponta Grossa, vol. 1, n.1, p. 20-25, jan-jul, 2014.

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