Roteiro, produção e entrevista: Siliana Dalla Costa
Edição e foto: Dairan Paul

A quarta entrevista da série realizada pelo objETHOS durante o 41º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom), em Joinville, no mês de setembro, é com Rafael Bellan, professor adjunto do curso de Comunicação Social e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Territorialidades da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Autor de diversos artigos que discutem o mundo do trabalho jornalístico, Bellan também é organizador, junto de Yasmin Gatto, do livro “Jornalismo e crítica de mídia na Amazônia”, lançado em 2016. Recentemente, o pesquisador concluiu seu pós-doutorado na Universidade de São Paulo sobre o epifenômeno da crise do jornalismo.

No Intercom, Bellan apresentou um artigo que discute a trajetória jornalística do filósofo Karl Marx, 200 anos após seu nascimento. A partir de três fases que delimitam o trabalho do pensador alemão enquanto jornalista, debate quais característica da práxis noticiosa podem ser relevantes para uma teoria contemporânea do jornalismo.

A seguir, o pesquisador comenta algumas das contribuições que encontrou nas obras marxistas para uma prática jornalística crítica e emancipatória, onde a verdade política não pode ser colocada sobre a exatidão dos fatos. Durante a entrevista, Bellan também versa sobre temas como precarização do trabalho, a relação entre objetividade e subjetividade na apreensão dos fenômenos e uma crítica ao conceito de jornalismo pós-industrial.

 No seu artigo apresentado durante a Intercom, você discute a trajetória de Karl Marx como jornalista, recuperando sua atitude crítica e capacidade de análise frente aos fatos. Este perfil me parece mais raro no jornalismo contemporâneo, com profissionais menos questionadores e mais satisfeitos com os discursos que lhes são apresentados. Você considera que isto seria um problema de formação, de conduta ou ideológico? Quais reflexos essa postura representa para o jornalismo de qualidade?

O período do século 19 é marcado pela ascensão de movimentos críticos ao capitalismo. Marx está nessa frente de batalhas não só investigando as bases fundamentais da sociedade capitalista, mas também atuando como uma espécie de dirigente político, ao utilizar o jornalismo como esfera de denúncia e revelação das principais contradições daquele momento. No artigo, tento mostrar a contribuição do Marx jornalista 200 anos depois de seu nascimento. Ele apurava uma espécie de cartografia daquele momento histórico, e isso é fundamental na ideia de um jornalismo como forma de conhecimento.

Tentando buscar uma análise mais contemporânea do que foi essa atividade do Marx, me parece que, de fato, uma parte do mundo mudou. Estamos passando por um período histórico com a ascensão das novas tecnologias e com essa mudança do que alguns insistem em denominar de “jornalismo pós-industrial” – sou bastante resistente a este termo, pois não me parece que ele explica o tipo de jornalismo que temos hoje. A sociedade pós-industrial tem se mostrado cada vez mais como um conceito que não dá conta dos processos do mundo do trabalho, e me parece que não há esse “novo momento”. Temos autores internacionais e brasileiros capazes de desmontar esse tipo de articulação: Ricardo Antunes e Ruy Braga, no campo da sociologia do trabalho, e István Mészáros, importante para entender essas mudanças do sistema do capital em crise.

É evidente que no imaginário dos trabalhadores há, desde a queda do Muro de Berlim, uma ampliação cada vez mais forte da ideia de homem-empresa. Isso vai se instituindo na subjetividade dos profissionais e no mundo do trabalho do jornalista, onde há flexibilização de suas atividades, contratações feitas de forma bastante precária – como o uso das pessoas jurídica, ou seja, a pejotização – e também, por outro lado, na busca de um empreendedorismo, quase como um setor informal de produção jornalística.

Parece-me que o imaginário do neosujeito – seguindo aqui a articulação teórica de Pierre Dardot e Christian Laval, no livro A nova razão do mundo – é marcado por esses princípios neoliberais: o entendimento do mundo como mercadoria e a produção de si como gestor e locus empresarial, quase numa competição atlética onde o campeonato é a sua vida econômica e você investe em si próprio para disputar partidas. Há todo um movimento de governamentabilidade neoliberal como ideologia cada vez mais ampla, e que se refere justamente ao fim das próprias ideologias. Ou seja, a impossibilidades de mudança, do ponto de vista da contradição capital/trabalho, e o abandono de bandeiras socialistas, mesmo na esquerda.

Há, então, um conjunto de fatores e determinações que apontam uma tendência para o jornalista cada vez mais domesticado – fazendo um pouco de eco com aquilo que Ciro Marcondes Filho diz em A saga dos cães perdidos, sobre como os papeis dos jornalistas se modificaram e como eles estão pouco preparados para enfrentar questões da contemporaneidade. Nesse sentido, há uma junção de problemas na formação, conduta ética e entendimento do seu ethos não só profissional, mas também político, além de uma ausência de ideologia crítica.

Esse conjunto de fatores tende a corroer a subjetividade dos trabalhadores em geral, mas de forma mais intensiva no jornalista. A teoria organizacional, de Warren Breed, pode ser revista nos dias de hoje. Há também uma espécie de opressão não só das empresas jornalísticas, mas também da ditadura do algoritmo e da busca por resultados imediatos na esfera digital das redes. Grandes conglomerados de circulação da informação, como Google e Facebook, acabam sendo uma espécie de novos gatekeepers, numa postura bastante irracionalista. Tenho entendido que até mesmo as fake news são, talvez, a carapaça contemporânea mais brutal do irracionalismo, um movimento que a burguesia tem, de forma apologética, encampado no mundo das ideias desde a sua virada na decadência ideológica, segundo György Lukács.

Sintetizando, parece-me que essa falta de atitude crítica e capacidade analítica dos jornalistas têm dois eixos fundamentais: a questão da própria formação e, por outro lado, uma rotina produtiva cada vez mais flexível, rápida e pautada no sucesso da economia da atenção, dos likes e das lacrações do ecossistema digital.

Você escreve no seu artigo que Marx ressalta a missão de “usar a imprensa como ferramenta que auxilie a classe operária a apreender criticamente a realidade e se motivar a agir para transformá-la”. Essa “pedagogia” que o filósofo delega ao jornalismo faz lembrar a obra de Paulo Freire e, em especial, o livro Pedagogia do Oprimido. Nesse sentido, quais são os saberes necessários para uma prática jornalística que seja, de fato, socialmente emancipadora?

A lição principal que podemos extrair de Marx é a atitude dele frente à realidade: a busca por uma objetividade analítica no sentido de que, para a classe trabalhadora, só a verdade importa. Para quem tem a ideia de modificar o status quo das coisas, a verdade é fundamental. Portanto, o ponto de vista de classe não pode ser excluído da noção de objetividade. Como saberes necessários para essa prática jornalística, creio que não podemos colocar a verdade ideológica sobre a exatidão dos aspectos singulares que a realidade nos dá.

Se a gente entende o jornalismo como uma forma social de conhecimento, no sentido extremamente atual do Adelmo Genro Filho, creio que precisamos estabelecer um comportamento, um saber de intervenção que nos permita reconhecer os aspectos mais contraditórios que essa realidade às vezes oculta. Dentro da dialética aparência/essência, precisamos ter, enquanto jornalistas, a capacidade de pensar o fato como parte de um complexo de complexos cujas contradições e mediações internas são o motor dos processos sociais. Ou seja, o conhecimento histórico, a contextualização, a capacidade crítica de “pensar contra os fatos”, um pouco no sentido do que fala a Sylvia Moretzsohn. Creio que irrigar os fatos sociais com múltiplas determinações é a lição da dialética materialista marxista para a conduta de um jornalista que possa caminhar para a emancipação.

Pensar um jornalismo emancipatório não significa mera agitação e propaganda política de bandeiras pontuais. Não que elas não sejam importantes, mas, mais do que isso, é fundamental o reconhecimento do território aonde as ações se passam e onde elas devem ocorrer. Portanto, um jornalismo emancipatório, a meu ver, é um jornalismo que coloque na ordem do dia a busca por um conhecimento singular, sempre conectado a uma objetividade possível – não no sentido de uma teoria do espelho, de uma cópia mental da realidade existente, mas do reconhecimento das contradições que eclodem dos fatos, do ponto de vista da produção noticiosa. E aí me parece que. sem postura de classe, fica difícil de pensarmos num jornalismo emancipatório. Quando falo em postura de classe, digo que a contradição fundamental da sociedade não é única, mas estruturante e ontológica. Na leitura lukacsiana do Marx, a sociedade se estrutura com base na contradição capital/trabalho.

Creio que devemos colocar essas questões como horizonte no mapeamento dos acontecimentos que cobrimos. Então, um dos saberes necessários é a crítica, a postura ideológica que não está separada da busca pela objetividade. Um jornalismo crítico e emancipatório, na esteira de Adelmo Genro Filho, esclarece e permite a um conjunto da população uma visão mais clara, um conhecimento sobre um aspecto fundamental da estruturação da realidade – o singular.

Se pensarmos na atuação jornalística desempenhada por Marx, quais fundamentos podemos atribuir à prática noticiosa atual? Como recuperar o impulso da busca pela verdade, questão central para o jornalismo? 

Na linha do que Mészáros aponta, estamos numa crise em que o sistema capitalista encontra, de forma bastante bárbara, seus limites estruturais. Não significa que ele vai se autodestruir, longe disso, mas que tem aguçado opressões dentro de qualquer possibilidade civilizatória que esse sistema poderia ter em algum momento da história. Neste contexto, há uma disputa pela verdade que, longe de ser atual, ganha uma nova expressão na hegemonia da comunicação digital. Acredito que tanto ela, como a objetividade e a revolução são palavras que precisamos colocar novamente no âmbito da pesquisa crítica do jornalismo.

Com toda a sua militância e capacidade de reconhecimento dos processos sociais, Marx foi alguém que atuou de forma bastante honesta com a prática jornalística. Um jornalismo evidentemente diferente do que temos hoje, mas que teve como um dos seus principais eixos a busca pela objetividade como algo indispensável para a práxis social. E não podemos cair num discurso de aproximá-la da neutralidade. Os valores-notícia que identificamos e buscamos nos fatos têm mãos humanas em suas bases. São produtos históricos, cuja subjetividade se relaciona com a objetividade no movimento processual de constituição da própria vida. Portanto, embora isoladas do ponto de vista categorial, subjetividade e objetividade se relacionam dialeticamente.

O que podemos apontar, para além de uma objetividade neutra, é que a perspectiva ontológica nos dá bases para um conhecimento, ao juntar o contato com a realidade e a postura junto às classes subalternas. O impulso de busca pela verdade deve ser o horizonte de uma prática jornalística crítica, fundamental para se conhecer o mundo que vivemos.

Sabe-se que a crise é uma oportunidade para mudanças. O jornalismo e a imprensa, contudo, parecem vivenciar essas intempéries constantemente. Repetir Marx pode ser uma saída?

De fato, o jornalismo e as crises cíclicas são parte um do outro na jornada histórica de consolidação desse campo, não tenho dúvida. Contudo, concordo com a compreensão que coloca o jornalismo como uma particularidade, ou seja, a sua crise como parte de algo mais amplo que chamamos de crise estrutural do capital, segundo Mészáros.

Esse processo de crise é amplo porque envolve as determinações do próprio jornalismo. Pensemos: do ponto de vista do que a gente tem vivenciado no mundo do trabalho, no chão de fábrica do jornalista, a reestruturação produtiva, que se dá desde a década de 70, tem reconfigurado praticamente todas as profissões, em diversas áreas. E também invade, sim, o campo do jornalismo, de forma mais recente. Tem aí a insegurança do trabalho, a precarização, a flexibilização, um uso das tecnologias no sentido de penalizar ainda mais a servidão dos jornalistas aos patrões. Está muito claro para mim que esse processo de reestruturação é parte de uma crise mais ampla.

Podemos colocar também a ascensão da ideologia pós-moderna e de certa governamentalidade neoliberal como um processo que tem corroído duas coisas: o imaginário dos próprios jornalistas e do público. Vamos pensar no receptor que, embora ativo, não é emancipado. Por conta da dimensão das bolhas, nessa nova configuração da ação midiática dada pelo mundo digital, ele tende a se reduzir às suas esferas, numa grande gincana de busca, de correspondências com aquilo que acredita. Ou seja, a disputa, me parece ser em torno de como o jornalismo pode se aproximar [do público] a partir do racionalismo crítico, e não pela perspectiva irracionalista que coloca a inverdade e a desinformação como condução dos seus processos de conhecimento da realidade. Chamo de racionalismo crítico uma vertente dialética de esclarecimento, embate racional, e, mais do que isso, elevação do potencial do jornalismo como reconhecimento vital dos aspectos singulares da realidade, que podem determinar e delimitar o horizonte e a conscientização de grandes contingentes populacionais em torno de um projeto de luta.

Não significa realizar um jornalismo militante, mas recuperar aquilo que ele traz para além de seus usos. Ter um posicionamento de classe no jornalismo não quer dizer que ele vai inventar as suas próprias verdades para convencer o outro de seus programas. É mais do que isso. Um jornalismo crítico e emancipatório está comprometido com uma ideia que perdemos, por conta da crítica pós-moderna – a verdade e a objetividade, que não é neutra. Repetir Marx pode ser uma saída, porque o tipo de jornalismo feito por este autor não era simplesmente a defesa política de uma causa da classe subalterna. Era a perspectiva contra-hegemônica de luta revolucionária, mas que necessita, sim, de verdade e objetividade.

O jornalismo não pode ser descartado simplesmente pelo uso que tem sido dado a ele nos últimos tempos, colocando a postura viciosa e antiética das boatarias como seu horizonte. Penso que precisamos recuperar a ideia de um jornalismo crítico emancipatório, no sentido que Marx apontava, de não colocar a verdade política sobre a exatidão dos fatos, mas enxergando-os a partir de um lugar na luta de classes – porque é impossível conhecer sem se posicionar. É um outro entendimento sobre a objetividade e o papel do jornalista. É uma defesa de um jornalismo que consiga recuperar o papel da razão crítica na constituição histórica e “pensar contra os fatos”, citando a Sylvia Moretzsohn. Precisamos levantar a bandeira de uma prática jornalística crítica e emancipatória que seja jornalismo, e não manifesto político. Nos dias de hoje, essa deve ser a ação principal dos teóricos do jornalismo e daqueles que empreendem em diversos arranjos diferenciados, seja em coletivos, cooperativas, movimentos sociais ou dos virtuosos jornalistas críticos que ainda permanecem nas cadeiras da imprensa convencional.

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