Juliana Rosas
Doutoranda pelo PPGJOR/UFSC e pesquisasdora do objETHOS

Mais de 400 anos depois de Shakespeare escrever a famosa frase, “ser ou não ser”, hoje, num mundo que gera entropia por palavras e sons, e quando se afirma que “falar é prata, calar é ouro”, diante da aberração verborrágica e política, nos perguntamos: calar ou falar? Antes mesmo de o candidato do Partido Social Liberal (PSL), Jair Bolsonaro, lançar oficialmente sua candidatura, provocou arrepios antidemocráticos. Desde então, suas declarações duvidosas – quando não racistas, misóginas, homofóbicas e não republicanas – ganham cobertura jornalística e espaço nas discussões de redes sociais. Nestas últimas, se via, por uma parcela considerável, a reação de desconforto diante da tomada de proporção que o descalabro ganhava. E víamos clamores de que não se deveria falar nele, o inominável, afinal, se estaria dando mais palanque para dizeres como “não existe propaganda ruim”, nem marketing negativo, publicidade negativa, ou ainda para o velho ditado, “falem mal, mas falem de mim”.

No jornalismo, a pergunta também surgia. E alguns veículos, como o Intercept Brasil, decidiram não fazer uma cobertura tradicional do candidato do PSL – claramente marcando uma posição de não entrevistar postulantes de direita e extrema direita. Glenn Greenwald, jornalista e um dos idealizadores do site, entrevistou apenas os candidatos Ciro Gomes, Guilherme Boulos e Marina Silva.

Com o clamor das redes sociais e de indivíduos com essa posição, surge a pergunta: diante da atrocidade antidemocrática que é a candidatura de Bolsonaro, é melhor calar ou falar? Discutir é dar palanque? Só para citar um exemplo político recente: o machismo diante da participação da então pré-candidata do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), hoje candidata a vice-presidente pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Manuela d’Ávila, no programa Roda Viva. Nas redes sociais, choveram reclamações e a pauta deu notícia. Por que devemos denunciar machismo, racismo, maus comportamentos em redes sociais, porém, fazer o mesmo com o candidato pselista é dar palanque?

E no jornalismo? Afinal, diante do valor notícia que é um presidenciável que está à frente nas pesquisas de intenção de votos, como lidar? Como cobrir? Devem-se dar o mesmo tempo e tom de cobertura? Por observação geral, foi o que fez a mídia mainstream.  Os jornais televisivos das principais emissoras e os principais jornais impressos e online assim se comportaram. Mesmo eles – embora em menor escala – foram criticados. Foram acusados de alimentar o “monstro” que virou Bolsonaro: um deputado pouco expressivo politicamente, sem projetos relevantes aprovados ou sequer propostos, que ganhou projeção por declarações ultrajantes, que lhe renderam inclusive processos. Uma das mais famosas foi ter dito à deputada Maria do Rosário que ela não merecia ser estuprada porque ele a considerava “muito feia”. Bolsonaro foi condenado pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJ-DF), em 2015, a pagar indenização de R$ 10 mil à petista por danos morais, mas recorreu. Pela mesma declaração, o deputado é réu no Supremo Tribunal Federal (STF).

Retomemos à ideia do marketing reverso, que é distinto do conceito de propaganda negativa em campanhas eleitorais. Há um entendimento jurídico sobre este último, que é lícito. Neste artigo, de site jurídico, o autor afirma:

“Em defesa da campanha eleitoral negativa, na modalidade crítica, como instrumento revelador da real identidade do candidato e de álamo a preservação da própria democracia, temos que a difusão do material de propaganda das realizações dos candidatos e de imprecações endereçadas à campanha eleitoral do adversário com modulação singular da retórica utilizada na campanha, não enseja distorção da realidade. Carece de lastro se ventilar a manifestação de propaganda antecipada (na modalidade negativa) ou a própria propaganda negativa, pela mera veiculação de fatos que realmente ocorreram, quando não lhe é dirigido ao candidato nenhuma referência direta.”

Muito “juridiquês”? Traduzindo: é permitido falar mal de candidato adversário em campanha. Empregamos o “falar mal” aqui coloquialmente. Injúrias e difamações são penalidades previstas em lei. Utilizar-se de outros artifícios ilegítimos igualmente acarretam punições. O próprio autor do artigo simplifica:

“Políticos com passados imaculados, impecáveis e infalíveis são raros, quase inexistentes, sendo que o restante é contaminado por fatos, que se fosse de conhecimento público, resultariam num resultado adverso nas urnas. Por isso as campanhas eleitorais negativas são largamente utilizadas durante as campanhas. As fraquezas e defeitos dos adversários, seus erros e falhas de caráter e desempenho ruins nas gestões podem ser divulgados como instrumento até mesmo de preservação da democracia em sua integralidade, mas é claro que não se trata de um absolutismo, deve-se zelar pela ponderação e objetivo claros.”

Um exemplo simples e recente: “Ataque a grupo de mulheres contra Bolsonaro pode indicar crime eleitoral”, deu a Carta Capital.  Denúncia foi feita à Procuradoria-Geral Eleitoral; argumento é de que fazer propaganda contra um candidato é permitido, mas tentar impedi-la não.

“A propaganda negativa é lícita, e só pode ser retirada se ultrapassar limites específicos (configurar ofensa à honra, ser caluniosa, difamatória, injuriosa ou divulgar fatos mentirosos). Mas o pedido para que não se vote, a oposição organizada, como o grupo, não desborda esses limites, sendo mera propaganda eleitoral negativa espontânea de eleitor. A advogada explica ainda que a Justiça e a lei eleitoral entendem que a manifestação de apoio do eleitor – ou de rejeição – também configuram propaganda eleitoral. Por exemplo, a legislação proíbe propaganda paga na internet, aceitando apenas impulsionamento de conteúdos por candidatos. Se um eleitor impulsionar um conteúdo dele de apoio a um candidato, isso é considerado propaganda irregular”.

 Aqui, este jornalista escreveu que precisamos parar de falar no dito “inominável” porque “não existe marketing negativo”.

“O rage marketing é usado propositalmente para alavancar o conhecimento de marcas novas. A empresa cria uma campanha politicamente incorreta, normalmente contra minorias, depois de publicado alguém faz um post indignado sobre aquilo em algum grupo ou página que defenda a minoria que foi ofendida e pronto. O resultado vocês já imaginam, a problematização se alastra, a loja ganha milhões em mídia gratuita, depois pede desculpa e ganha mais mídia gratuita e nos meses seguintes começam a lucrar muito mais. Foi assim que em 2016, um personagem até então completamente desconhecido no resto do mundo, e visto apenas como uma celebridade de segunda categoria nos EUA, se tornou conhecido em todo planeta em apenas alguns meses. O mais interessante é que parecia que ninguém gostava dele. A mídia só mostrava sua parte grotesca, dia após dia, e o próprio Trump não perdia a chance de cometer uma “gafe” ou disparar algum ataque a minorias ou falar algo tido como politicamente incorreto. Ele não se importava com a avalanche de críticas vindas de toda parte, o que ele queria ele estava conseguindo: alcance. E não se engane: é ingenuidade achar que os eleitores dos Bolsonaros mudariam de voto depois de ver as suas inúmeras gafes e os seus discursos de ódio — muito pelo contrário, para eles, quanto mais melhor.”

Em um post no Facebook ainda em 2016, Pablo Villaça, escritor e crítico de cinema, já alertava sobre o “monstro” sendo gerado pela mídia. Ele e outros estudiosos da área já advertiam sobre a normalização do discurso preconceituoso pelos veículos. E quando os meios midiáticos, que pelos menos teoricamente, se pautam pela defesa da democracia, começam a dar espaço a declarações antidemocráticas, é quando se cria a aberração da qual reclamará no futuro, porém, não admitirá participação no processo de concepção. Típico da mídia mainstream, se escondendo na desculpa “apenas reporto os fatos. Não distorço, não tomo partido”. Sei. Concepção é um termo que vem a calhar. O bebê-monstro foi concebido. Cresceu. Toma que o filho é teu, grande mídia. Olha o que aconteceu nos EUA. Olha o que aconteceu durante a história. Parece que não aprendemos ou não queremos aprender com o passado.

Muito se lê sobre comparações entre o candidato pselista e o presidente americano Donald Trump. Há sérias diferenças, mas se há uma semelhança no que tange à cobertura jornalística, podemos conferir na análise que o americano e professor de jornalismo, Jay Rosen, faz nesta entrevista ao jornal alemão Die Zeit. Ele afirma que embora os jornalistas americanos estejam lidando com Trump como presidente há mais tempo, ainda caminham a passos trôpegos.

“Não creio que os jornalistas americanos tenham desenvolvido soluções que se possa usar. Eu acho que há avisos vindo da América. Um deles é que, se você simplesmente informar sobre o populismo de direita, você se tornará parte dele. [grifo meu] Não é bom o suficiente dizer: “Bem, é notícia, então nós reportamos”. Outro seria: já que Trump não tem vergonha, é impossível constrangê-lo. Não é possível mostrar que ele vai receber tanto feedback negativo, que ele não deveria fazer isso ou aquilo, porque ele vive de controvérsia. Até mesmo o ódio ajuda a sua causa de polarizar o país. Para evitar o alistamento na agenda populista de direita, é preciso ter sua própria pauta do que irá reportar e torná-la pública.

Donald Trump está fazendo algo muito incomum para os presidentes americanos. Ele está tentando operar e construir apoio atacando as instituições da democracia. [grifo meu] Ele fez isso mesmo antes de se tornar um candidato anunciado, na tentativa de minar a confiança sobre o local de nascimento de Barack Obama, alegando que Obama não era realmente um americano, o que significaria que uma espécie de governo ilegal havia tomado os Estados Unidos. Hoje, ele está governando tentando erodir as instituições da democracia. No coração da estratégia de Trump está minar a crença em uma base de fatos universalmente aceita. Este é o seu projeto principal, na verdade. Minha opinião é que a imprensa tem que resistir a isso. Não resistir ao sucesso político de Donald Trump, mas resistir à erosão das instituições democráticas e a um mundo dos fatos. [grifo meu] Eu não acho que os jornalistas possam ser neutros e apenas escrever notícias sobre isso. Eles têm que encontrar uma maneira de revidar. É verdade que a imprensa não pode se tornar a oposição política. Mas tem que se opor a esse estilo político.

Eu tenho escrito sobre a imprensa e Trump há três anos. Minha conclusão é que muitas das convenções de reportagem política dependem de certas suposições sobre como os presidentes e os atores políticos se comportarão. Eles são baseados em uma estimativa de como a classe política cooperaria. Trump viola todas as suposições nas quais as práticas do jornalismo são construídas. [grifo meu] Desse modo, essas práticas estão desmoronando em certas maneiras. Jornalistas precisam reconhecer isso. Muito do que eles normalmente fazem não faz sentido para um presidente como Trump. Eles precisam se ajustar. O slogan “Democracy Dies in Darkness” (a democracia morre na escuridão – novo slogan do The Washington Post) é um exemplo de como a imprensa reagiu a Trump.

Não estou dizendo que os jornalistas devam ser defensores ou ativistas, essa não é minha visão. Minha posição é: não seria inteligente se tornar o adversário do presidente Trump. Mas a imprensa tem que encontrar uma maneira de se opor ao seu estilo político.”

Eliane Brum publicou algo com lógica semelhante:

“A lógica em que a imprensa opera, quando faz jornalismo sério, que é a do conteúdo, não atinge Bolsonaro porque seu eleitorado opera em lógica diversa. Esse é um dado bastante trágico, na medida em que os instrumentos disponíveis para expor verdades que mereçam esse nome, para iluminar fatos que de fato existem, passam a girar em falso.”

O El País, há sete meses, já advertia: Você vai acabar elegendo Bolsonaro à presidência.

“Quanto mais o deputado for tratado como pária, homofóbico, xenófobo, fascista, machista e misógino, mais prestígio ele ganhará entre aqueles que não enxergam nessas desqualificações mais do que armas da batalha político-cultural. Por enquanto, esses estigmas continuam funcionando para a parte mais proeminente da população, os intelectuais que definem agendas políticas e fazem a cabeça da elite universitária, mas esses termos vão se desgastando pelo uso. Não serviram para impedir a ascensão de Trump ou a saída do Reino Unido da União Europeia.”

O que fazer, então, para impedir a eleição de Bolsonaro? Seguindo o raciocínio, a melhor alternativa seria tratá-lo como mais um — ou simplesmente ignorá-lo. Mas isso parece ter se tornado impossível. A armadilha está montada. A política identitária precisa ser alimentada periodicamente, e Bolsonaro é um dos melhores espantalhos de tudo aquilo que os adeptos dessa perspectiva de mundo dizem combater. Para impedir a derrota na batalha cultural, a esquerda nacional pode acabar entregando uma vitória política nas mãos do seu maior inimigo declarado.”

E então, o que fazer? Falar ou não falar? Talvez a pergunta que não queira calar é “como”. Como enfrentar Bolsonaro? Como lidar com seus eleitores? Individualmente e socialmente, talvez ignorá-lo seja bom. Porém, diante do que ele se tornou, para o jornalismo, menosprezar tal fenômeno talvez não seja a melhor opção. Quem sabe a estratégia funcionasse há algum tempo. Em época em que seus correligionários crescem em grupos de Whatsapp e sua dimensão em mídias sociais se alarga, apesar de seus pífios poucos segundos televisivos de propaganda eleitoral, calar não funciona. Porém, tratar seus eleitores como parvos – o que talvez até os sejam, e ignorar as questões por trás deste crescimento tampouco convêm.

Parece não haver saída. O jornalismo sério não consegue constranger Trump de seu comportamento vergonhoso. Mostrar as mazelas de Bolsonaro não fará acordar seus seguidores. Apesar da mudança de alguns paradigmas do jornalismo contemporâneo, um parece não mudar: a arrogância de quem o faz e sua incapacidade de admitir críticas e erros. A arrogância de não conseguir ver que vivemos em um país que, sim, produz pessoas com este tipo de pensamento. O erro de não admitir que, assim como alimentou o golpe, alimenta esta nova serpente.

Tem muita gente surpresa com o despreparo do mencionado presidenciável. Pasmo com seus preconceitos e ideias. Indignados como alguém pode votar neste indivíduo. O fenômeno não deveria causar surpresa nenhuma. É sintomático da situação do país. Quem nele vota não está interessado em seus projetos econômicos, suas ideias para a saúde ou educação do país. Estes concordam, se não em tudo, então em boa parte com seus ideais destrutivos e preconceituosos. A surpresa paralisa. Não nos espantemos com condutas assim. Elas são tão velhas quanto o mundo.

Marcelo Leite, jornalista e ex-ombudsman da Folha, nos lembra, com essas sábias palavras: “Informar é anunciar o novo, publicar o inédito, revelar o que se desconhece. Quando tudo se resume a confirmar um preconceito, por justificado que seja, o jornal se afasta de sua função, perde-se no pântano da imprecisão. Acredita estar formando o público, quando só faz desinformá-lo.”

Não devemos falar sobre as besteiras do inominável porque é marketing reverso? O candidato, queiramos ou não, é um fenômeno – seja popular, midiático ou mesmo político. É tentando entender como ele e seus eleitores pensam e como chegamos aqui é que podemos lutar contra. Se a democracia morre na escuridão, também morre na verborragia estéril, em debates inúteis, em crises cognitivas, em “textão” hermético, em arrogância intelectual. A razão escurece nas entranhas e ódios de grupos de Whatsapp. Adormece no preconceito, na brutalidade, na violência. O segundo turno está aí. O pselista, desgraçadamente, também. Que estratégia adotará o jornalismo?

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