Andressa Kikuti
Doutoranda em Jornalismo pela UFSC e pesquisadora do objETHOS

Na última semana, em meio ao turbulento período que antecede o segundo turno das eleições no Brasil, um dos candidatos à Presidência da República afirmou que não participaria dos debates organizados pela mídia com seu oponente. Simplesmente não irá, ou irá apenas “se achar que deve”, como declarou em entrevista ao UOL. A razão da negativa não foi a facada que recebera há 39 dias, admitiu, mas uma “questão estratégica”. Uma estratégia obviamente autoritária, diga-se de passagem, e no mínimo arrogante para um presidenciável. Ele pretende ganhar uma eleição sem se colocar à prova, sem discutir suas ideias e projetos com a população. Soa absurdo que este candidato tenha 49% das intenções de voto no país, segundo a última pesquisa Datafolha.

O fato de Bolsonaro se negar a participar dos debates interfere na produção das notícias. Sem ter o elemento do confronto direto entre os dois candidatos, fica muito mais difícil para o jornalismo exercer um papel de mediador, e de evidenciar as diferenças entre eles (apesar de serem óbvias). Mas, se tal fato chegou a incomodar editores e redações, isso não transpareceu ao público. Aliás, parte da grande mídia fez pouco ou quase nada para alertar a população sobre o risco de eleger um sujeito que flerta com o fascismo, incita o ódio e violência contra as minorias, questiona a legitimidade do processo democrático e de seu oponente. Traveste-se de uma postura “neutra”, como fez, por exemplo, a Folha de S. Paulo – bastante criticada em texto de João Filho para o The Intercept Brasil, no qual ele defende que a neutralidade no segundo turno é “refúgio dos covardes”. O trecho abaixo explica o argumento:

Enquanto a imprensa do mundo inteiro trata Bolsonaro como um candidato da extrema-direita, a Folha de São Paulo recomenda aos seus jornalistas que não classifiquem Jair Bolsonaro assim. A revista Fórum teve acesso a um comunicado interno, enviado pelo secretário de redação aos repórteres do jornal, determinando que só podem ser chamados de extrema-direita ou extrema-esquerda “facções que praticam ou pregam a violência como método político”. Bolsonaro insufla o povo a “metralhar a petralhada”, defende a tortura como prática de Estado e acredita que os responsáveis da exposição Queermuseu deveriam ser fuzilados, mas, não, a Folha não acredita que Bolsonaro prega a violência como método político. Talvez a Folha acredite, como o próprio candidato diz, que os discursos carregados de violência sejam apenas “força de expressão”. É evidente que estamos diante de um extremista que apresenta soluções simplórias e autoritárias para quase todos os assuntos. Estamos na beira do abismo, e a Folha está achando que ele nem é tão alto assim.

Informações de bastidor reveladas por um funcionário do portal R7 ao The Intercept Brasil expõem mais diretamente a parcialidade travestida de neutralidade imposta por ordens vindas “de cima”. Segundo o depoimento,

Após o Edir Macedo ver que o Alckmin não decolaria e declarar via Facebook que apoiaria Bolsonaro, a redação deu uma guinada. Passamos a publicar exclusivamente coisas positivas sobre o candidato do PSL e coisas mornas sobre Haddad, Ciro e Alckmin.

Passado o primeiro turno, começou o jogo sujo. Nada de pauta negativa ao Bolsonaro, a não ser que seja um assunto de grande visibilidade. A gente pode subir pautas positivas do Haddad, mas geralmente elas não são chamadas na capa nem nas redes sociais. Ou seja: ninguém vê.

Ao velar ou abrandar o perigo e adotar uma postura chapa branca e acrítica, deixando de lado a interpretação sobre os fatos, a mídia desinforma. Aliena. Presta um desserviço, pois corrompe a opinião pública (como abordou o texto de Samuel Lima no site do objETHOS), e acaba gerando desconfiança do público mais atento com relação ao jornalismo. Se as pessoas desconfiam da mídia (dependendo do caso, com certa razão), acaba ficando difícil diferenciar informações jornalísticas de informações vindas de outras fontes – como aquelas transmitidas via redes sociais e WhatsApp, por exemplo, cujo modo de produção é completamente diferente do modo de produção da notícia (essas não tem comprometimento algum com ética profissional ou verificação dos fatos). Junte essas duas coisas com a revolta, o medo e a desesperança da população gerados pela crise política, e tem-se aí receita da pólvora que pode explodir a democracia no país. A crise de confiança no jornalismo e a crise política estão entrelaçadas, e se retroalimentam.

A campanha do candidato do PSL nada de braçada nesse cenário, pois sua estratégia de comunicação com o eleitorado é principalmente focada na disseminação de informações via redes sociais, grande parte delas falsas. Uma reportagem da jornalista Juliana Gragnani para a BCC Brasil, que passou sete dias em 272 grupos pró-Bolsonaro no WhatsApp, relata que viu muita desinformação, como imagens no contexto errado, áudios com teorias conspiratórias, fotos manipuladas, pesquisas falsas, ataques à imprensa tradicional, como capas falsas de revistas e falsa “checagem” de notícias que, de fato, eram verdadeiras; imagens que fomentam o ódio a LGBTs e ao feminismo; uma “guerra cultural” organizada, com ataques sistematizados a artistas em redes sociais; e áudios e vídeos de gente comum ou de gente que se passa por gente comum, mas com identidade desconhecida, dando motivos para votar no candidato. Uma reportagem publicada Columbia Journalism Review sobre a desinformação nas eleições brasileiras, inclusive citada pela newsletter #205 do Farol Jornalismo, sentencia que “estamos lutando contra um monstro sem ter as armas necessárias para matá-lo”.

Ainda que a luta contra o monstro esteja longe de acabar, e que ainda não tenhamos as armas necessárias para liquidá-lo de vez, sabe-se que caminho contra a desinformação passa pela reconquista da credibilidade do jornalismo enquanto instituição capaz de trazer informações verdadeiras, contextualizadas, plurais e úteis para a população. E quanto mais longe das oligarquias econômicas e políticas, maior é a chance disso acontecer, como é o caso das coberturas especiais do Nexo, da Agência Pública e do The Intercept Brasil durante estas eleições, só para mencionar alguns bons exemplos. Em tempos incertos e quase às vésperas do segundo turno, ressaltar iniciativas que nos devolvem a esperança é fundamental.

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