Emily Menezes Leão
Estudante de jornalismo na UFSC, especial para o objETHOS

Na tarde de segunda-feira, dia 1º de outubro, o país foi surpreendido pela ação do juiz Sérgio Moro em tornar pública a delação premiada de Antônio Palocci, ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil dos governos do PT. Nos depoimentos, o ex-ministro afirma que as campanhas de eleição em 2010 e da reeleição em 2014 de Dilma Rousseff custaram R$ 1,4 bilhão. O valor é muito superior ao que foi declarado à Justiça Eleitoral pelo Partido, os gastos declarados foram de 503 milhões de reais no total. O cenário em questão escolhido para a divulgação da delação chama a atenção. O documento de 12 páginas foi divulgado seis dias antes do primeiro turno da eleição presidencial e pode ter influenciado o resultado do primeiro turno. Diversos veículos publicaram a informação e no estado não foi diferente. Durante uma semana, entre os dias 1 a 5 de outubro, analisei o jornal de maior tiragem e circulação do estado, na cobertura do acontecimento e seus eventuais desdobramentos.

Na edição impressa de terça-feira (02/10), o Diário Catarinense, apresentou o fato na coluna do jornalista Moacir Pereira. No texto o colunista evidencia: “A delação premiada de Antônio Palocci caiu como uma bomba entre os petistas e seus aliados nesta reta final da campanha no Brasil e aqui em Santa Catarina”. E ainda complementou: “A delação é mais uma prova incontestável que o sistema político brasileiro está podre. PT, MDB, PSDB e PP e outros partidos se uniram para assaltar o erário e lesar o contribuinte”. E finalizou “E tem gente advogando a volta da Orcrim”. Nessa mesma edição, além da coluna, o DC trouxe um pequeno texto no qual apresenta a nota divulgada em defesa ao ex-presidente, Luiz Inácio Lula da Silva. Durante o restante da semana o jornal não apresentou nenhuma matéria contextualizando ou aprofundando as informações, e nem apresentando quais seriam as consequências para o PT e seu representante na disputa eleitoral à presidência da República.

Causa e efeito

Se cada ação possui uma reação, teria Sérgio Moro intenção de afetar diretamente o resultado das eleições ao retirar o sigilo da delação de Antônio Palocci? Ele nega. Entretanto, Moro já detinha o conteúdo dos depoimentos desde julho e, apesar disso, escolheu torná-lo público somente quatro meses depois. Estratégia ou não, o efeito foi rápido. Na edição de quarta-feira, foi a vez de Carolina Bahia expressar, na sua coluna intitulada de “Antipetismo ganha força”, que “A rejeição de Haddad passa de 32% para 41% resultado da maior exposição do candidato e também do chamado efeito Antônio Palocci”. Até aqui, a crítica não se refere somente a atitude do juiz, mas também, ao jornal que possuía em mãos uma boa pauta que praticamente não foi explorada. E por qual razão? Seria favorável para o DC cobrir o caso de outra maneira? O jornal conhece muito bem seu público e levando em consideração que Santa Catarina foi o estado em que Jair Bolsonaro recebeu o maior número de votos proporcional (65,82%), já sabemos a resposta.

Bolsonaro x Haddad

Sete dias depois da divulgação da delação, o destino do segundo turno da eleição foi selado. De um lado Jair Bolsonaro (PSL) e do outro Fernando Haddad (PT), disputam o cargo de presidência. O Brasil que se prepare, porque a última pesquisa do Datafolha divulgou que o concorrente do PSL está na frente, com 16 pontos de diferença. O jogo ainda está em aberto.

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Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais. O texto foi elaborado por meio de análise de notícias veiculadas no jornal Diário Catarinense, no período de 1º a 5 de outubro de 2018.

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