Isadora Vicente e Maria Teresa Mazetto
Estudantes de jornalismo na UFSC, especial para o objETHOS

Na semana que antecedeu as eleições e em que aproximadamente 30 mil pessoas saíram para protestar contra o candidato à presidência Jair Bolsonaro em Florianópolis, a Rádio CBN/Diário apostou que os comentários de Renato Igor e Moacir Pereira, combinados com uma série de boletins de cerca de dois minutos com informações burocráticas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), eram suficientes para informar o eleitor. No ar há 21 anos, a afiliada da rede CBN alcança 5,1 mil ouvintes por minuto. A grade da emissora mescla programas noticiosos com novidades sobre o futebol catarinense.

Ao longo da semana anterior à eleição, entre 1º e 5 de outubro, o conteúdo específico dedicado à corrida presidencial disponível na página da CBN foi limitado a 19 boletins com duração entre 30 segundos e um minuto. Os boletins tinham informações sobre temas como voto em trânsito, consulta ao local de votação, horário do transporte público no dia da votação, situação eleitoral, ordem do voto, biometria e aumento no número de brasileiros que votam no exterior. A cobertura segue o modelo de serviço do jornalismo, mas considerando a falta de outros materiais especificamente direcionados à cobertura das eleições, talvez o veículo devesse ter apostado em um enfoque que contextualizasse melhor as informações para o eleitor. A falta de tempo e o ritmo acelerado das redações poderiam justificar a escolha?

Não, segundo o exemplo da cobertura do Nexo Jornal. Lançado em novembro de 2015, o jornal digital tem como motivação “produzir um jornalismo que contribua para um debate público qualificado e plural, e que seja capaz de fortalecer a democracia brasileira”. Em setembro de 2018, o grupo lançou um podcast que vai ao ar de segunda a quinta para abordar o fato mais relevante do dia, no fim da tarde. O “Durma Com Essa” carrega no próprio nome a ideia de fazer o público pensar sobre os assuntos — a reflexão deve continuar mesmo após o podcast que dura, em média, de 5 a 10 minutos.

Foram quatro os podcasts produzidos durante o período da nossa análise. “A relativização do golpe militar por Dias Toffoli”, em primeiro de outubro (duração de 10min30), “As decisões judiciais que atendem ao ‘anseio da sociedade’” (8min55), no dia 2, “Tristeza, raiva e ruptura: o Brasil das eleições de 2018” (7min55), no dia 3, e “Sai TV, entra WhatsApp: as eleições têm uma nova ordem” (8min45), em 4 de outubro.

Disponível em plataformas online, o podcast é apresentado por editores do Nexo, que trazem um olhar original sobre o fato que consideram o mais importante do dia. Para exemplificar, no programa do terceiro dia de análise, em 7 minutos cabem comentários sobre o sentimento dos brasileiros em relação ao país, a crise política, econômica e eleitoral e a complexidade de se pensar a situação do Brasil no momento atual, e sobre como as eleições afetam as relações pessoais. O modelo consegue situar o público de maneira geral e leva a sério uma máxima, infelizmente, ignorada por muitos jornalistas: o leitor (nesse caso, ouvinte) não é obrigado a saber todas as nuances, origens, consequências e outros contextos que envolvem o fato jornalístico. E reconhece, ainda, que é preciso aprofundar a discussão: os programas quase sempre são acompanhados de indicação de outros conteúdos do Nexo que podem ajudar a entender melhor os temas.

Voltando à análise da cobertura da CBN e estendendo para o dia 8 de outubro, após o resultado das eleições, a emissora divulgou depoimentos dos senadores eleitos, Esperidião Amin (PP) e Jorginho Melo (PR), com duração de um minuto e 44 segundos e um minuto e 48, respectivamente, em que os políticos mencionam os temas que irão priorizar em seus mandatos. Nada de novo. É a cobertura mínima, de praxe, que se faz após a eleição. No mesmo dia, divulgaram entrevistas com os candidatos a governador no segundo turno de Santa Catarina, Gelson Merísio (PSD), que declarou apoio a Jair Bolsonaro ainda no primeiro turno, e Comandante Moisés (PSL), do partido do próprio Bolsonaro. Na entrevista de 5 minutos e 58 segundos, Merísio disse que não quer ser eleito “porque apoia o Bolsonaro”, mas sim por “seu preparo” e “suas convicções”. Quais seriam essas convicções e no que elas se diferenciam das do candidato à presidência pelo PSL? A pergunta é feita somente na entrevista com o candidato Comandante Moisés, que dura 5 minutos e 52 segundos. O candidato diz que seu jeito de se expressar é diferente do de Bolsonaro, mas que as propostas são as mesmas. A impressão que fica no ar é a de que ambos candidatos tentaram se desvincular de certos discursos de Bolsonaro considerados controversos. Por que não perguntaram a Merísio e Moisés sobre as manifestações contrárias ao presidenciável realizadas em Santa Catarina?

Enquanto veículos locais como a CBN não trouxeram nada de novo no ângulo de cobertura das eleições, apesar de também adicionar as primeiras falas dos candidatos Fernando Haddad (PT) e Bolsonaro (PSL) depois do resultado, o Nexo apostou no viés histórico: transportou o ouvinte para outras épocas e mostrou como foi acordar no dia seguinte à votação em eleições anteriores. Resgata este dia desde 1989, nas primeiras eleições após a ditadura militar, passando pelos governos petistas de Lula e Dilma, relatando a crise política de 2014, o governo Temer e a situação atual.

Quando explica a técnica da pirâmide invertida em “O Segredo da Pirâmide”, Adelmo Genro Filho faz uma crítica a esse modelo de apreensão da realidade, em que a parte mais importante do texto é apresentada no primeiro parágrafo. Genro Filho cita: “O leitor informa-se brevemente e não pergunta pela circunstância dos fatos. Essa nova estrutura da notícia não foi planejada para chamar o leitor à reflexão, mas apenas “para informá-lo superficialmente, para adormecê-lo, fazê-lo indiferente e evitar que pense”.

Compreendemos as diferenças óbvias existentes entre Nexo e CBN Diário. Enquanto um se propõe a analisar e contextualizar o cenário político e social, um pretende ser um jornalismo de serviço. Nossa comparação parte do princípio de que o curto período usado para fazer o jornalismo de serviço na rádio não justifica um trabalho descontextualizado. Perdem os ouvintes, que recebem apenas informações rasas acerca de um momento político tão importante, e a profissão do jornalista, que não sai do lugar comum.

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Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais. O texto foi elaborado por meio de análise de notícias veiculadas na rádio CBN/Diário, no período de 1º a 5 de outubro de 2018.

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