Klaymara Karen da Silva
Estudante de Jornalismo na UFSC, especial para o objETHOS

A conjuntura nacional me motiva ainda mais a transpor essa crítica de mídia à esquerda, já que os resultados das eleições do primeiro turno (07/10) mostraram que os manezinhos e migrantes esqueceram-se do aclamado jargão regional: “Siga toda vida reto”, o que podia facilmente ser o lema e voto no “centrão”, e ao virarem à direita optaram pelo conservadismo e antipetismo, que conquistou 65,8% do eleitorado da Capital. Florianópolis levou às urnas o apego a homenagem carregada em seu nome, afinal, Floriano Peixoto, segundo presidente da República e militar, foi protagonista de episódios polêmicos envolvendo golpes, instabilidades e violências civis. E para quem gosta de comandantes, Comandante Moisés (PSL) esta aí para reforçar que patentes militares valem mais que planos de governo sociais quando o assunto é chegar no segundo turno de uma eleição.

Jair Bolsonaro (PSL) com posicionamentos controversos, para dizer o mínimo, representa a esperança nacional em torno do antipetismo, sentimento esse tão forte, que desconsidera os reflexos negativos de suas colocações e a sua abstenção em cinco dos sete debates promovidos por sete redes de comunicação. Nesse contexto, tivemos na Rede Globo de Televisão, no dia 4 de outubro, o último debate dos candidatos a presidência, que Jair Bolsonaro também não compareceu. Em contrapartida, no mesmo dia e horário, a TV Record veiculou em sua programação entrevista exclusiva com o candidato.

Esse acontecimento foi amplamente divulgado em portais da internet. Porém, ao observar os portais NSC, Hora de Santa Catarina e Notícias do Dia (ND), pude perceber que dos três, apenas o Notícias do Dia (ND) dedicou espaço a essa notícia, sob a manchete: “Entrevista exclusiva de Bolsonaro: ‘Vamos recuperar o Brasil’ ”. Fato previsível se levarmos em consideração que o ND faz parte do grupo RIC, afiliado da rede Record em Santa Catarina, enquanto os outros dois, são vinculados à Rede Globo. E como a Rede Globo e seus adjacentes dariam destaque a este “furo de reportagem” da concorrência?

Com a manchete espetacularizada, e o destaque em falas estratégicas de Jair Bolsonaro, o portal conduziu as expectativas dos leitores para um contexto de salvação, em que um herói é capaz de vencer seus inimigos e algozes, usando a justiça da força. Esse espetáculo, somado ao caráter do “furo de reportagem” é por vezes colocado acima de preceitos éticos da profissão, pois esse feito interessa ao orgulho jornalístico, que ‘lança um tanto faz’ para a ética e qualidade da informação. Isso me lembra um texto do professor Francisco Karam (UFSC), quando ele escreve que “há casos em que o acontecimento vem num pacote de fatos ou declarações, a título de interesse público, embalado numa retórica eficaz e, do ponto de vista ética, subsumido em certo cinismo, que resulta em consequências bastante graves”.

“Queremos um Brasil que trabalhe em equipe.
Temos tudo para começar a fazer o Brasil andar para frente”

Ao citar as intenções do candidato em pregar a união do país, os leitores recebem a informação de forma pouco aprofundada, são as frases de senso comum que atualmente tem muitos fiéis. Sabemos que se vive um momento de extrema delicadeza no que tange o desenvolvimento econômico e social do país, mas de que forma concreta o político traça estratégias para os passos dessa caminhada? Nesse momento o portal Notícias do Dia perde a oportunidade de falar sobre seu plano de governo, que ao longo de suas 85 páginas não faz referência de maneira compreensível e direta às questões em torno de políticas públicas, direitos sociais e igualdade de gênero. Fica a pergunta: Enquando cidadã, como posso fazer o Brasil andar para frente se não sei se sou bem-vinda nessa equipe?

Resultado das eleições: “Vou respeitar”

Quando o assunto é a democracia, tão jovem e já sofrida, e dos princípios constitucionais que regem o processo eleitoral, Bolsonaro afirma que “vai respeitar” seus resultados, mas questiona a segurança e credibilidade do voto eletrônico. É nesse momento que o ND não contextualiza os leitores sobre como se dá as eleições, de que forma ela pode ser juridica e legalmente questionada em casos de irregularidades nesse processo.

O que fortalece e corrobora com a difusão de notícias falsas relacionadas às possibilidades de violação de urnas eletrônicas, como foi o caso do vídeo divulgado por Flávio Bolsonaro, em seu twitter no domingo de eleições: Nele, um eleitor filmava uma urna supostamente com problemas de digitação que remetiam automaticamente à imagem do candidato Fernando Haddad, PT, quando o número 1 era digitado. Provou-se que o vídeo era falso (fake news), além de ser crime eleitoral o ato de filmar ou fotografar o ato de votar.

“A corrupção está colada no PT. O PT não deu certo, traiu os trabalhadores. É um partido que teve um projeto de poder. Nós pensamos e agimos diferentemente do PT. Mais grave que a corrupção é a questão ideológica. Até hoje o PT defende o regime de Maduro. Nós devemos nos afastar da Venezuela, temos que dar um pé no comunismo, no socialismo. Será o fim da nossa pátria se o PT chegar ao poder”

Na produção de uma notícia é imprescindível que se leve em consideração não apenas seu caráter pontual, mas da conjuntura sobre realidades e desdobramentos aos quais ela se insere. A escolha de falas estratégicas do candidato dá destaque para a notícia, nesse contexto também estimula e fortalece a polarização política e ideológica. Ideologias e políticas de governo são fundidas e transformadas em “inimigos da nação”, e o papel do jornalismo, seria o de desvendar as nuances e especificidades das ideologias, desconstruir as interpretações de senso comum e combater o reducionismo propagado pelo candidato a essas linhas de pensamento.

Se o grande problema da Nação (que Nação é esta?) é a aproximação com políticas de governo como o da Venezuela, quais são essas políticas então? Quais as vantagens e desvantagens econômicas em trono de uma ruptura de parceria com a Venezuela? Se o que decreta o fracasso do país é seu viés Marxista, Comunista e Socialista, quais são as reais proximidades que o país estabelece com essas correntes teóricas? Mas o principal: Quais as diferenças e semelhanças entre essas correntes e por que se criou a cultura de colocá-las na mesma caixinha? Essas perguntas seriam facilmente respondidas pelo Jornalismo comprometido com apuração, difusão de conhecimento e interesse público. Mas parece que o investimento desse Jornalismo gira em torno do caos, terror e pânico e dos baldes de pipocas enquanto o circo pega fogo. Novamente o portal Notícias do Dia deixa passar a chance de despertar um debate comprometido com as questões democráticas que estão em jogo.

“Sou um candidato conservador, que respeita a família e que quer jogar pesado na questão da violência. A esquerda sempre tentou nos desunir. Nós vamos unir o povo”. / “Como pode alguém que integrou o Exército por 17 nos ser racista? Assim como dizem que eu ataco mulheres. Onde existe isso? Jamais ofendi ou agredi um homossexual. Não sou homofóbico. Por que fazem isso? Porque não podem me chamar de corrupto”

As duas falas de Bolsonaro destacadas nessa notícia entregam ao ND, a chance de trazer alguns dados sobre o plano de governo do candidato: O combate a violência com a revisão do estatuto do desarmamento, o objetivo de prender e deixar preso, trazendo dados sobre a superlotação carcerária e o perfil de quem é preso (jovem negro), o fato de em todo o plano de governo não aparecer nenhuma vez menção a políticas públicas, LGBTI, mulheres, negros, indígenas, preconceito, Estado Laico. De que forma então, unir um povo e respeitar famílias que não sabem se terão espaço de representatividade?

Todos os apontamentos aqui feitos, pretendem despertar uma crítica na mesma direção tanto para o portal que anunciou a notícia quanto para aqueles que se eximiram: uma postura de quem estimula os leitores a perpetuarem o consumo acrítico das informações, onde o acontecimento pontual e singular não dialoga com o contexto e especificidades ao qual se insere. A crítica aqui não é direcionada ao profissional por trás da tela dos computadores e ao comando de um teclado frenético, que sente a pressão do deadline a cada palavra que lhe foge dos dedos, ela visa cutucar as empresas, que tem todo direito de valorizar o urgente e pontual, mas que igualmente tem o dever ético de promover o debate e reflexão

Seria inocência acreditar que todas as notícias podem contrariar a lógica de mercado e ser produzidas com base em apuração qualificada, contudo o problema é que os espaços para produções mais plurais, pautadas em valores democráticos e que incentivem o dialogo e conscientização social, estão cada vez mais escassos. Fica a aí a inquietude pessoal, ainda mais nesses tempos que vivemos, onde é explicito de que lado a mídia hegemônica está, seja através de seu posicionamento ou de seu silêncio.

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Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais. O texto foi elaborado por meio de análise dos portais de notícias da mídia catarinense no período de 1º a 5 de outubro de 2018.

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