João F. de Almeida e Lucas Vinicio S. da Silva
Estudantes de jornalismo na UFSC, especial para o objETHOS

No dia 11 de outubro foi veiculada no telejornal Balanço Geral da RIC/Record, afiliada da Rede Record em Santa Catarina, uma matéria que abordava os casos de racismo no Instituto Estadual de Educação, a maior escola do estado, localizada no centro de Florianópolis. A matéria, de pouco mais de 4min, começa com o âncora Raphael Polito ressaltando a importância das manifestações dos alunos e alunas com relação ao racismo, classificando os atos como importantíssimos.

A reportagem mostrou a manifestação dos alunos, e deu voz aos alunos negros, entrevistou a menina, de 16 anos, vítima do crime no último dia 9 de outubro, respeitando o fato dela não querer aparecer. Entrevistou a direção da escola que afirmou não demorar para agir e transferir a aluna acusada para outra escola. Além de entrevistar uma psicóloga que ressaltou a importância de se abordar a questão do racismo, pois segundo ela “ninguém nasce racista, mas se torna racista”. Uma matéria que trata muito bem da questão do racismo, dando voz a quem deve realmente ter voz. Mas isso traz consigo uma contradição.

A Record declarou explicitamente seu apoio ao candidato à presidência Jair Bolsonaro. Seu fundador e lider da Igreja Universal do Reino de Deus, Bispo Edir Macedo declarou apoio e abençoou o candidato. A cobertura jornalística da emissora, nacionalmente, vem favorecendo Bolsonaro. Um exemplo disso aconteceu no dia 4 de outubro. Enquanto a Globo veiculava um debate de todos os candidatos à presidência, a Record veiculou uma entrevista exclusiva com o candidato do PSL, dando assim mais tempo para ele expor seus argumentos e defender sua candidatura, sem se expor ao contraditório, quando em comparação aos outros candidatos que debatiam no canal concorrente.

A contradição está no fato de que num passado não muito distante, Bolsonaro se expressou de forma racista e de maneiras que podem ofender a comunidade negra, como por exemplo, durante uma palestra na Hebraica em que ele diz que ao ir em um quilombo  constatou que o “afrodescendente mais leve lá pesava 7 arrobas”, numa clara comparação à animais. Ou quando deu uma entrevista ao finado programa CQC da Tv Bandeirantes onde falou que os seus filhos “nunca casariam com uma mulher negra porque foram bem educados e isso nunca aconteceria”.

Na sua obra “Os elementos do Jornalismo”, Bill Kovach e Tom Rosenstiel explicam que o principal compromisso do jornalista é dar informações para que o cidadão possa se autogovernar (KOVACH; ROSSENSTIEL, 2003, p.31). E foi exatamente isso que fez o Balanço Geral, mostrando um problema e dando a possibilidade para que o cidadão possa fiscalizar a sociedade e denunciar um crime sério e recorrente na sociedade, como é o caso do racismo. No momento atual da sociedade brasileira, onde, como diria Renato Russo, “a humanidade está tão desumana”, só teremos chances se os jornalistas seguirem mais os exemplos dos subordinados e menos os exemplos do chefe, que faz um cabresto adaptado à nova república e que assim se transforma num obstáculo  à democracia e ao livre pensamento.

Vivemos momentos turbulentos, sem dúvidas, mas o bom jornalismo é possível e necessário para o estado democrático de direito. A reportagem da RIC/Record sobre racismo é uma prova de que dá para fazer um jornalismo bom mesmo em ambientes aparentemente adversos. Esperamos que todos os jornalistas se lembrem todos os dias que o jornalismo é feito para o cidadão e não para candidatos, partidos ou doutrinas.

Referências:

KOVACH, B; ROSSENSTIEL, T. Os elementos do jornalismo. São Paulo: Geração Editorial, 2003.

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Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais. O texto foi elaborado por meio de análise de notícias veiculadas na emissora de TV RIC/Record, no período de 08 a 12 de outubro de 2018.

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