Manoela Bonaldo e Pedro Cruz
Estudantes de jornalismo da UFSC, especial para o objETHOS

Na terça feira (9), dois dias após o primeiro turno das eleições, o jornal Notícias do Dia (ND) publica a reportagem intitulada “Renovação histórica no país”, contando a novidade: haverá uma grande mudança nos espaços representativos do Brasil. A partir do ano que vem, as cadeiras da Câmara e do Senado Federal serão ocupadas por nomes até então desconhecidos na política.

Os números apresentados na matéria são muitos. Uma alternativa seria colocá-los apenas no infográfico, mostrando-os de maneira mais direta, sem haver a repetição descritiva com palavras. No texto, o leitor perde-se numa sequência de dados cansativa, sendo que poderia ser explorada uma conclusão mais concreta sobre os significados de todos essas informações.

De todo modo, se fosse preciso explicar a renovação de maneira argumentativa, sem se valer tanto de números diversos – os quais encorpam o texto executando seu papel de encher a página -, a reportagem muito provável não cumpriria com a ideia inicial.  Há uma mudança aparente na “dança das cadeiras”, só que a lógica da política não foi afetada. E o jornalismo comprometido em explicar o que acontece na política precisa fazer esse alerta. De fato, há novos nomes na participação da decisões sociais, porém nada garante que isso consista numa nova política, afinal não são partidos que demonstram historicamente uma mudança pois estão ligados ao establishment. A maioria dos que ganharam espaço não é nova; está presente no cenário político desde o início dos anos 1990. Tal ideia de renovação é recorrente nas eleições de 2018, como se fosse possível destruir velhas estruturas apenas através do discurso da novidade.

A ascendência do PSL, tratada como fenômeno quase fantástico, também é contraditória nos termos da mudança em si. A sigla defende agendas bastante conhecidas e presentes no cotidiano, as quais namoram com todo o esquema da velha política, mas isso sequer é mencionado durante a reportagem. Além do partido ser apresentado como uma candidatura equivalente aos demais, sem problematizar as inúmeras declarações anti-democráticas que vêm sendo ditas pelo PSL. Não fazer essa crítica é dar a falsa impressão de as atitudes do partido são aceitáveis e que respeitam as bases do sistema representativo que visa ser cada vez mais democrático, o que ficou comprovado não estar acontecendo.

O texto não oferece uma reflexão aprofundada acerca do crescimento político do PSL, e de como este pode ser explicado somente pela influência do presidenciável Jair Bolsonaro. Em uma eleição onde a credibilidade do jornalismo foi muito atacada pela disseminação de notícias falsas, partindo especialmente de membros de tal partido, não oferecer a quem lê uma discussão sobre a manipulação de informações que permitiu a ascensão do mesmo demonstra a fraqueza do material produzido. Se o candidato Jair Bolsonaro foge do debate e aposta em monólogos que se blindam do contraditório, o jornal não pode tomar a mesma iniciativa, afinal seu papel primordial é justamente identificar as incoerências em um discurso. É um tiro no pé do jornalismo que o Notícias do Dia dá para continuar a sobrevida de seu modelo de negócio.

Num contexto político instável como o atual, permeado de notícias falsas e de contrassensos, precisamos de uma contextualização mais assertiva para quem lê, ao invés de um material que mostra uma sequência de dados que perdem o significado no decorrer das frases, provoca confusão. A matéria do jornal Notícias do Dia também se limita a listar os partidos sem apresentar ideias, mesmo que breves, de suas atuações políticas e propostas. Se a tese era renovação, faltou traduzir isso para a leitora/leitor, que finaliza um texto de muitos números sem receber informações sobre a decorrência das eleições na realidade do país.

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Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais. O texto foi elaborado por meio de análise de notícias veiculadas no jornal impresso Notícias do Dia (RIC/Record), no período de 8 a 12 de outubro de 2018.

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