Klaymara Karen da Silva
Estudante de jornalismo da UFSC, especial para o objETHOS

Algumas cidades de Santa Catarina receberam entre os dias 15 e 19 de outubro a comitiva de segurança e administração penal do Haiti, que tinha como objetivo conhecer o sistema prisional do estado e sua política de referência em ressocialização por meio de educação e trabalho, levando para o país caribenho ideias e práticas desse modelo catarinense.

Durante esse mesmo período realizei a observação e análise dos três jornais impressos de maior circulação na Região Metropolitana e no estado: Diário Catarinense, Hora de Santa Catarina e Notícias do Dia. Foi entre desdobramentos do segundo turno eleitoral, agendas de entretenimento regional e cenários de rivalidade declarada fosse entre times de futebol ou figuras políticas, que a comitiva haitiana conquistou espaço em dois dos três jornais impressos acima citados.

O jornal Notícias do Dia, em sua edição de 16 de outubro, na sessão ‘Plantão ND’, abrigou na metade superior da página um repertório de assuntos criminais onde os movimentos de alguns bares se transformaram em baderna social monitorada pela polícia e os furtos a cemitérios comprometiam a integridade patrimonial daqueles que aqui não mais estão. O espaço privilegiado na página e a linguagem apelativa corrobora com a típica estratégia sensacionalista de comoção social.

Já na metade inferior da página, sob o título ‘Referência para o Haiti’, a notícia destaca o itinerário que a comitiva haitiana percorreria pelo estado: Chapecó, Florianópolis, Itajaí, São Cristóvão do Sul e São Pedro de Alcântara, onde localizam-se as ‘unidades prisionais que poderão servir de modelo para os haitianos’, referenciando ainda as cidades de Blumenau e Criciuma, que também teriam seus presídios visitados. As aspas do governador Eduardo Pinho Moreira enfatizam a importância da educação e trabalho enquanto oportunidade de reinserção social, já que 95% dos presídios catarinenses desenvolvem tais políticas.

Cadê a comitiva do Haiti?

Entretanto, o veículo perde a oportunidade de contextualizar essa notícia, pois não mostra quem são os membros de tal comitiva, tampouco faz um paralelo entre o sistema de ressocialização carcerária no Haiti e Santa Catarina, nem trás informações históricas de consolidação das medidas que também não sabemos se tem caráter emergencial de governo ou de políticas públicas, além de não mencionar nenhuma das ações, suas especificidades, resultados e diálogos com profissionais nelas envolvidos.

Vale lembrar que no mesmo dia, contou com um caderno especial referente ao dia dos professores, a menção honrosa recebida por alguns desses profissionais no 11ª Edição do Prêmio Professores do Brasil graças a projetos pedagógicos por eles criados na Rede Pública de Ensino Estadual e o anúncio oficial do governador do estado sobre o edital de chamada de mil professores no ano de 2019. Se estamos tratando de medidas que perpassam os caminhos da educação, e lembrarmos que professores da rede lecionam no Ensino para Jovens e Adultos (EJA) no contexto prisional, será que tal notícia não merecia destaque nas páginas especiais? Fica aqui o questionamento…

O jornal Hora de Santa Catarina noticia o fato em sua edição de 17 de outubro e  dedica a ele uma breve coluna com o título ‘Ressocialização’, na seção ‘Ronda Policial’, seguindo o modelo da concorrência, já que tal temática  não dividiu uma página com as notícias sobre o recadastramento das crianças nas creches de Palhoça, o edital para abertura de 1159 vagas para comércio ambulante na temporada, as inscrições para o vestibular da universidade UniSociesc em Florianópolis e as 1168 vagas de trabalho oferecidas pelo SINE no estado?

Vê-se também a banal descritiva sobre a passagem da comitiva pelas cidades anteriormente citadas e trata todas as unidades prisionais enquanto cadeias, quando uma rápida pesquisa no site do Departamento de Administração Prisional de Santa Catarina (DEAP) mostra, mesmo sem explicar, que existem tipificações diversas, cada uma com suas especificidades.  Ao se referir a socialização, cita apenas que dos 21 mil detentos, 6,6 mil trabalham nas unidades prisionais, sem oferecer dados sobre a inserção desses cidadãos nos projetos e as perspectivas de crescimento pessoal e profissional no contexto de liberdade. No final, a matéria dá ênfase à falta de vagas para novos detentos enquanto problema central do sistema carcerário de Santa Catarina, cobrando medidas do governo para contornar esse deficit com a construção de novas unidades de encarceramento.

E o jornal Diário Catarinense? Justamente por ser um jornal mais abrangente, com alcance estadual e com perfil de abordagem mais especializada frente a determinadas demandas, seria uma esperança para a divulgação dessa temática de forma estruturada e bem apurada, entretanto, manteve a atenção ao cenário político e ao colunismo substituindo o espaço nobre das notícias e da reportagem, que são a alma do jornalismo.

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