Klay Silva
Estudante de Jornalismo na UFSC, especial para o objETHOS

A semana pós-eleitoral protagonizou as mais diversas manifestações sociais, fossem dos gritos de vitória semelhantes a final do campeonato brasileiro ou da perseverança dos que organizam estratégias de resistência e oposição. Nas emissoras de televisão, entrevistas com o novo governador catarinense eram veiculadas e com elas, interrogações sobre o futuro político do estado.

Independente de eleições, viver é um ato politico e sobreviver, para alguns, faz parte da resistência diária. E foi focando em questões do poder público municipal e nas pessoas em situação de rua, que por vezes sobrevivem, que o Jornal Balanço Geral SC, da RIC/Record de televisão, veiculou duas matérias nos dias 29 de outubro e 1º de novembro.

Sob o título “Trabalho de abordagem e recuperação de pessoas em situação de rua é intensificado em Florianópolis”, a matéria mostra que o Grupo de Defesa, Orientação e Apoio a Pessoas em Situação de Rua (DOA), transformou em diárias suas abordagens que até então eram semanais, com o objetivo de promover oportunidades de reinclusão social. Mesmo tendo 5 minutos e 12 segundos de duração e trazendo como fontes um promotor de justiça, a secretária de Assistência Social de Florianópolis, e o coordenador do Projeto Rede Ruas, a matéria inicia de forma preconceituosa e estigmatizante, dando nas primeiras imagens, destaque à Guarda Municipal e Polícias Cívil e Militar nas abordagens, deixando aberta uma lacuna: Quem faz parte do DOA?

Em uma rápida pesquisa, constatou-se que o grupo é uma parceria de 17 instituições públicas e privadas, entre elas MP (Ministério Público), CDL, Comcap (Autarquia Melhoramentos da Capital), IGP (Instituto Geral de Perícias), etc.

Quando relata abordagens às pessoas em situação de rua, a matéria se prende apenas às intervenções do DOA e não ilustra os atendimentos realizados pela equipe do Consultório na Rua, formada por equipe multiprofissional de Saúde da Família, que diariamente realiza busca ativa e presta atendimentos básicos de saúde e encaminhamentos para rede de apoio quando necessário, além dos acompanhamentos periódicos.

Pessoas sem rosto, sem voz

No decorrer da reportagem, o promotor Daniel Paladino saúda os resultados das ações, tendo em vista a ampliação geográfica das abordagens e a queda significativa no número de pessoas em situação de rua, que era de 800 e passou para 450 indivíduos, com a expectativa de mais redução nos próximos sessenta dias. Mas de fato, qual o destino dessas pessoas? A quais projetos e ações são encaminhadas? De que forma são acolhidas pelo poder público? E se parte delas decide voltar para sua cidade de origem, de que maneira são orientadas acerca desse retorno? Nesse processo, de que forma se dá a intervenção profissional de assistentes sociais e psicólogos?

Fica difícil não acreditar que o poder público municipal tende a agir sob a lógica higienista de ‘transferência do problema’, afinal, um forte discurso nativo da Ilha da Magia é o de: “a culpa é dessa gente que tá vindo de fora”. Difícil também não correlacionar os sessenta dias de intervenção intensificada ao período pré-temporada de verão, afinal, mais de um milhão de turistas vêm a Florianópolis em busca de seus encantos e problemas sociais estão longe de ser encantadores.

Inevitavelmente me pergunto: Onde está a voz das pessoas em situação de rua, relatando suas vivências e experiências referentes às abordagens e os atendimentos recebidos seja pelo DOA, Passarela da Cidadania ou o Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua (CENTROPOP)? Além de tudo, situação de rua é uma questão de gênero, então de que forma as abordagens e atendimentos são prestados às mulheres em situação de rua? Afinal, algumas de suas demandas, limites e possibilidades são bem específicos.

A secretária de Assistência Social, Claudia Goulart, elenca os serviços emergênciais prestados às pessoas em situação de rua na passarela Nego Quirido, a nova Passarela da Cidadania, e os atendimentos multiprofissionais do CENTROPOP, desde julho desse ano, transferido para a Rua General Bittencourt, também no centro da cidade, dando ênfase às 510 passagens de retorno às cidades de origem dos indivíduos e defendendo que tal medida “evita que outras pessoas entrem em situação de rua”. Novamente a ênfase na lógica de “transferência do problema”, deixando também de informar que atendimentos primários referentes a higiene e alimentação deixaram de ser responsabilidade da prefeitura e passaram a figurar as atribuições do âmbito privado e terceiro setor. Terceirização velada, pero no mucho.

Durante toda a reportagem são mencionados dados importantes de uma pesquisa sobre pessoas em situação de rua que foi realizada em Florianópolis e região em 2016, mas apenas nos seus 3 minutos e 56 segundos conseguimos “descobrir” que ela foi feita pelo Instituto Comunitário da Grande Florianópolis (Icom) em parceria com treze pesquisadores da área, que durante seis meses conversaram com mil pessoas e construíram o estudo com base no diálogo e escuta qualificada acerca de suas demandas.

Nesse momento, o telejornal acerta errando. Acerta pois ao ouvir Gabriel Amado, um dos treze pesquisadores e coordenador do Projeto Rede Ruas, evidencia que o foco deve ser na ampliação de possibilidades de vida dos sujeitos para consequentemente desenvolverem autonomia. Gabriel enfatiza também a defesa das pesquisas e estudos enquanto base para a construção de políticas públicas, já que por conta disso foi possível conhecer uma realidade vivida por 77% das pessoas em situação de rua: possuem vínculo formal ou informal de emprego e renda, responsabilizando o setor público pela invisibilidade e desconsideração desse panorama. Mas erra por não explicar o que é o projeto Rede Ruas, nem mostrar se este possui vínculo com instituições públicas ou privadas, tampouco se tem relação com o Instituto Arco Íris, que realiza projetos culturais e atendimentos socioassintencias e psicológicos ás pessoas em situação de rua, onde Gabriel atua como psicólogo.

Olhos fechados, corações blindados

Por fim, mostra que a maior concentração de pessoas em situação de rua é no Centro da cidade e sobre a fala controversa de Daniel Paladino, as ações assistencialistas devem continuar, porém em local ‘aprópriado’ para tal, atribuindo a disponibilidade da Passarela Nego Quirido para centralização das ações.  Local apropriado para quem? Para as pessoas que por vezes encontram na refeição a força para voltarem a caminhar? Ou para quem quer manter os olhos fechados para a realidade e o coração blindado para as questões sociais?

Já a matéria veiculada pelo mesmo telejornal, no dia 1º de novembro, tem como título ‘Prefeitura de Florianópolis cria projeto que emprega moradores de rua”, e em seus 3 minutos e 57 segundos, destaca a oportunidade de trabalho promovida pela prefeitura em parceria com o Instituto de Geração de Oportunidades (IGEOF) e Companhia de Melhoramentos da Capital (COMCAP), que abriu edital de concurso público para 187 vagas temporárias de garis e auxiliares operacionais. As pessoas em situação de rua tem isenção da inscrição e podem participar de curso preparatório gratuito, com 50 vagas, que oferece aulas  de português, matemàtica, raciocínio lógico e conhecimentos específicos.

De fato, a iniciativa é positiva, afinal, tem como objetivo a perspectiva de trabalho e autonomia dessas pessoas, algo levantado por uma das fontes da matéria anterior como questão negligenciada pelo poder público, entretanto a matéria não informa que são vagas temporárias, com validade de 45 dias, prorrogáveis ou não por mais 44 dias. Como então, manter um morador de rua fazendo o trabalho de limpeza e embelezamento da cidade assim como apela o início da matéria? Estratégia de linguagem que fica ainda mais apelativa quando entendemos a conjuntura da situação: Vagas temporárias para o período de temporada, talvez ocupadas parcialmente por aqueles responsáveis pela ‘sujeira que o turista não quer ver’.  Quais encaminhamentos seriam dados ás pessoas em situação de rua, que se aprovadas em concurso veriam-se novamente desempregadas após esse período? Ainda conforme edital, a escolaridade exigida é o ensino fundamental completo. E aqueles indivíduos que nem esse ciclo educacional concluiram? De que forma gerar oportunidade, emprego e renda a eles? Levando em consideração que a matéria anterior mostrou ao telespectador um universo de 450 pessoas em situação de rua vivendo em Florianópolis, por que apenas 50 vagas são oferecidas nesse cursinho de preparação e motivação para a prova? São perguntas que quando não feitas reforçam o caráter de boa ação da iniciativa, sem evidenciar seus limites frente à múltiplas demandas referentes a essa expressão da questão social.

As entrevistas realizadas com duas pessoas em situação de rua, diferente da matéria anterior, mostrou a intenção de conhecer os reflexos da iniciativa na vida daqueles diretamente ligados a ela, todavia,  as pessoas (fontes) escolhidas são excessão dessa realidade, pois mesmo com um perfil heterogêneo, as pessoas em situação tem como características comuns a situação de extrema pobreza, ausência de moradia regular convencional, baixa escolaridade, ausência de documentos e rompimento ou fragilização com a rede de apoio familiar, fatores não contemplados pelos dois indivíduos, que ocupam vagas temporárias em albergue, possuem escolaridade elevada e os documentos necessários para a inscrição no concurso. E quem não tem documentos? Que caminhos burocráticos teria de seguir para obte-los?

O tal empoderamento, termo tão em alta no contexto contemporâneo e citado pelo superitendente do IGEOF, pelo visto ainda é encarado de maneira simplista pelo poder público, pois como a fonte acima citada diz “o emprego dado é uma forma de fazer as pessoas caminharem com as próprias pernas”. Mas será que a cadência e singularidade do ritmo de cada uma dessas pernas é respeitado e compreendido?

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Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais. O texto foi elaborado por meio de análise de notícias veiculadas no programa Balanço Geral (RIC/Record), no período de 29 de novembro a 2 de dezembro de 2018.

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