Manoela Bonaldo e Pedro Cruz
Estudantes de jornalismo da UFSC, especial para o objETHOS

Na semana de 5 a 9 de novembro de 2018, foram veiculadas nos telejornais da rede NSC-TV, quatro matérias relacionadas à comunidade LGBT, no programa Jornal do Almoço (três nas edições de Criciúma, e uma para todo o estado), com uma delas sendo reprisada na edição das 19h. Dessas, três tratavam do assassinato de Gabriel Batista de Souza, jovem negro e homossexual que foi esfaqueado no dia 1º de novembro, no município de Cascavel (PR). Gabriel, que tinha 21 anos, era estudante de Teatro na UNESC, em Criciúma, e visitava a família no feriado de finados, quando foi morto.

A mãe da vítima (que preferiu não se identificar), assim como seus colegas e professores, se manifestaram acerca da hipótese de se tratar de um crime de ódio, possibilidade rapidamente descartada pela polícia. Portanto, nas reportagens veiculadas, a negação das autoridades em relação ao crime ter sido motivado por homofobia ou racismo é destacada, sem que seja oferecido uma contextualização maior sobre o tema.

Em um país com alto índice de crimes motivados por ódio, seja este em relação à gênero, orientação sexual, raça, religião ou classe social, é natural que uma vítima que faça parte de qualquer minoria citada tenha sua morte relacionada com intolerância. Portanto, a partir do momento em que a possibilidade é levada ao público, deveria ser o papel da mídia justificar a importância dessa discussão com sensibilidade, levando o caso singular ao contexto universal maior. No caso da morte de Gabriel, as reportagens produzidas individualizam a sua morte, ao mesmo tempo que reproduzem afirmações de fontes oficiais sem discuti-las.

O vício da fonte única, oficial

A primeira matéria, intitulada “Polícia segue investigando morte de jovem que foi esfaqueado no Paraná”, que foi ao ar na segunda-feira, 05/11, é somente uma nota coberta que se limita a recapitular o caso e destacar o ato em homenagem à vítima. Nela, o apresentador Ricardo Dias, reitera o pedido da polícia de não tratar o assassinato como crime de ódio, mas também reproduz a informação da mesma fonte sobre não haver provas que confirmem a possibilidade de latrocínio (embora – e isto é mencionado na nota – o próprio Gabriel tenha afirmado para quem o socorreu ter sido assaltado antes de morrer). A informação dada pela delegacia, que vai contra o relato de testemunhas, não tem sua controvérsia destacada. Já a possibilidade de crime de ódio é jogada no texto sem nenhuma contextualização – mesmo que, no Brasil atual, um breve aprofundamento sobre a importância de se discutir crimes de ódio seja bem-vindo – e logo é tratada como especulação não oficial. Em nenhum momento são reproduzidas falas de fontes que não a polícia, sejam elas de amigos ou familiares da vítima.

A segunda matéria – também uma nota coberta – intitulada “Amigos prestam homenagem à estudante de Criciúma encontrado morto no PR”, veiculada na terça-feira, 06/11, também permanece rasa. Mesmo que o objetivo dela devesse ser o ato em homenagem ao estudante, em nenhum momento aparenta ter sido do interesse da equipe conversar com algum dos alunos organizadores. Pelo contrário, foi optado por reproduzir imagens do ato com a voz do apresentador, novamente Ricardo Dias, aparecendo por cima do áudio das imagens. Assim, não só deixou de ser oferecida a possibilidade de fala aos presentes, mas também aquelas que foram veiculadas se tornaram inaudíveis. O apresentador volta à reproduzir a declaração da polícia de que não há indicativos de um crime de ódio, agora afirmando se tratar de latrocínio (e tal afirmação é apresentada sem nem ao menos recapitular a negação da polícia sobre o mesmo fato no dia anterior). Para finalizar, o texto denuncia o pouco cuidado da equipe do jornal com o assunto, ao utilizar o termo “homossexualismo” para se referir à comunidade LGBT, termo esse que foi posto em desuso no ano de 1989, quando a homossexualidade deixou de ser considerada uma doença pela Organização Mundial de Saúde.

A terceira matéria – agora uma reportagem – intitulada “Polícia descarta crime sexual e latrocínio em caso de morte de estudante em Cascavel”, veiculada na quarta-feira, 07/11, novamente recapitula o crime e reitera a declaração da polícia que descarta motivação de ódio ou de assalto. Desta vez, foi realizada uma entrevista com a delegada Mariana Vieira, da delegacia de Cascavel (PR). Nela, a delegada repete tudo que já foi dito em matérias anteriores, e a entrevistada parece mais preocupada em silenciar a discussão sobre a intolerância do que em fornecer informações do caso, chegando inclusive a chamar as manifestações de familiares e amigos da vítima de “alarde”, quase como se a preocupação de pessoas próximas à Gabriel fosse um inconveniente. Novamente, ela é a única fonte que recebe espaço. A mãe de Gabriel, que foi entrevistada pela equipe, tem sua participação reduzida à cinco segundos de tela, onde não é possível escutar o que ela diz (a sonora da repórter surge por cima). Pela terceira vez seguida, parece de mais interesse do jornal reproduzir as declarações da polícia do que escutar a versão de testemunhas e familiares.

Naturalização do crime de ódio

Mesmo as declarações da polícia não têm suas controvérsias destacadas (como por exemplo, a negação e depois afirmação sobre a possibilidade de latrocínio). Na terceira – e última – notícia sobre o caso, a delegada afirma que o crime é tratado como homicídio, e é explícito em sua fala (e na falta de pluralidade do jornal) a tentativa de silenciar uma discussão sobre motivação por ódio. O termo nem sequer surge na reportagem, tampouco qualquer um relacionado à LGBTfobia. A edição também é problemática, uma vez que repete as mesmas imagens exibidas anteriormente, e inclui somente a entrevista da delegada de material novo. Entrevista onde ela surge em um momento abrindo um grande sorriso para os repórteres, sem que esteja dizendo nada que acrescente à matéria, algo que não corresponde à gravidade com a qual a situação deveria estar sendo tratada.

Nas três matérias veiculadas sobre o assassinato de Gabriel, o que mais surgem são repetições rasas sobre o que já se sabe do caso, e em nenhum momento é aprofundado ou garantido espaço para outras fontes. Não somente isso, a angulação das pautas surge muito explicitamente querendo silenciar quaisquer discussões sobre intolerância e crimes de ódio, já que toda vez que tal discussão é mencionada, ela é tratada como um inconveniente, e, nas palavras da única fonte entrevistada, um “alarde”. É possível levantar o questionamento sobre como seria a cobertura caso o corpo encontrado tivesse sido de um homem branco e heterossexual. Será que nesse caso seriam escutadas as pessoas próximas à vítima? Será que o caso seria tratado com a gravidade que merece? Seria o aparente descaso e confusão da polícia para com o crime debatido? Para piorar, tais matérias foram somente veiculadas na edição de Criciúma do telejornal, e somente a última foi reproduzida para todo o estado.

Já a quarta matéria, veiculada na sexta-feira, 09/11, intitulada “Proibição da Parada da Diversidade de Balneário Camboriú deve ser investigada pelo MP”, novamente tem relação com uma possível intolerância contra a comunidade LGBT. Mas, mesmo que a chamada da notícia sugira um destaque a investigação aberta pelo Ministério Público, a reportagem silencia quaisquer fontes que não o secretário de turismo, Miro Teixeira, que é contra o evento. Ninguém da organização do evento parece ter sido procurado para uma entrevista, e a matéria, portanto, parece concordar com a proibição. Mesmo que a nota reproduza uma entrevista onde o secretário descreve a Parada como um evento relacionado à obscenidade (utilizando inclusive a afirmação de que “não proíbe, mas acha que esse tipo de manifestação não deve ocorrer em área pública”), os apresentadores, Laine Valgas e Mario Motta, somente reiteram a “possibilidade” de ter havido intolerância (logo antes de dar espaço à uma fala que confirma justamente isso), sem discutir o assunto. Ao fim da matéria, é dito que o evento existe para lutar contra a homofobia, sem dar espaço para que ninguém de sua organização fale sobre isso, e sem nenhum aprofundamento no assunto.

As matérias veiculadas durante a semana, sejam elas sobre o assassinato de Gabriel ou sobre a Parada da Diversidade, se mantém rasas e não parecem interessadas em garantir visibilidade para qualquer membro da comunidade LGBT. Nas quatro matérias, todas com mais de um minuto e meio de duração, nenhuma fonte escutada é LGBT, mesmo que a comunidade seja mencionada em todas. Além disso, o descaso do texto, ao se utilizar de termos pejorativos e antiquados, e ao reproduzir falas preconceituosas sem contestá-las, reitera a falha da equipe do jornal em servir qualquer público que não o público conservador do estado de Santa Catarina.

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Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais. O texto foi elaborado por meio de análise de notícias veiculadas em veículos de TV catarinense durante a semana de 5 a 9/11/2018.

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