João F. de Almeida e Lucas Stark
Estudantes de jornalismo na UFSC, especial para o objETHOS

Na segunda-feira (5), o colunista do site NSC Total Ânderson Silva publicou um texto intitulado “Haddad teve 83,91% dos votos nos presídios de Santa Catarina”. A coluna deseja mostrar como, diferentemente do resto do estado, onde Jair Bolsonaro venceu tendo a segunda maior votação proporcional no país, nos presídios de SC o petista venceu por ampla margem.

Essa coluna traz um fato absolutamente irrelevante para o momento, uma semana depois do 2º turno da eleição, o país já tem um presidente eleito e os ânimos das disputas eleitorais estão aos poucos se acalmando. Um conteúdo como esse só serve para confirmar o viés e dar argumentos e “munição” para um certo setor da sociedade, hoje eleitoralmente vitorioso, que não aceita quem pensa diferente.

O jornalismo tem o poder de influenciar a opinião pública e isso traz uma responsabilidade notável ao trabalho desses profissionais. Essa tese foi defendida pela primeira vez na década de 1970 pelos pesquisadores americanos Maxwell McCombs e Donald Shaw e foi chamada de Teoria do Agendamento. Basicamente a teoria diz que a mídia determina o que fará parte das conversas dos consumidores de notícias, indo até o limite de como pensar sobre esses conteúdos. Há controvérsias, claro.

No Brasil, já tivemos alguns casos de manipulação da opinião pública por parte do jornalismo, como o caso “Escola Base”, no ano de 1994, em São Paulo (SP), um grupo de professores e funcionários foram acusados de abusar sexualmente das crianças da escola. A acusação foi parar nos grandes jornais e redes nacionais de televisão e acabou destruindo a vida de cada uma dessas pessoas, que, mesmo depois de terem sido absolvidos pela justiça nunca mais conseguiram retomar suas vidas normalmente.

Essa coluna é extremamente perigosa no momento de acirramento que vivemos. Dá argumentos para discursos como “quem vota no PT é bandido”, “bandido vota em bandido” etc. (discursos já presentes na caixa de comentários da própria postagem) e dependendo de quem for falar isso, ser chamado de bandido é quase uma ameaça de morte.

Outro fato curioso nisso tudo é o de que nunca antes, em nenhuma outra eleição pós-redemocratização, houve esse tipo de levantamento. Em uma breve pesquisa no Google, não localizamos nenhuma pesquisa sobre a votação entre médicos, professores, advogados, engenheiros. Só de presidiários, justamente na eleição mais polarizada dos últimos tempos, esse tipo de sondagem é feita. Isso nos parece muito ser o chamado “jogar pra torcida”, neste caso, de Bolsonaro.

Esse texto tem um potencial claro de cliques e engajamento, no estado onde o presidente eleito teve sua segunda maior votação percentual (75,92%), contudo os jornalistas devem sempre se lembrar que a função do jornalismo não é só “caçar cliques”, mas sim ser um agente social que percebe e denuncia as injustiças e crimes do ambiente em que ele vive. Porém aparentemente o jornalismo hegemônico atual perpetua e até incentiva o que deveria combater.

Em Portugal, como aqui…

Mas não é só no Brasil que o jornalismo não cumpre a sua devida função: manter-se fiel à verdade. Em Portugal, país mais pequeno que o Estado de Santa Catarina, existem inúmeros casos por dia, em que o jornalismo mete em causa a sua credibilidade total, perdendo-se em teias de fake news, sensacionalismo e uma filiação encoberta a certos partidos políticos. O Jornal Público, foi criado em 1990, cujo slogan é “ A verdade é um bem público” é um dos jornais mais lidos em Portugal.

O título da notícia em causa é << Paulo Portas não vê nada “ eticamente reprovável” em Bolsonaro>>. Explicite-se, desde já, que Paulo Portas é jurista e jornalista e atual Presidente do Centro Democrático Social e a notícia foi escrita baseada num debate no canal televisivo TVI24, no qual participava Paulo Portas e Miguel Sousa Tavares, jornalista e escritor. Os quase 12 mil compartilhamentos que esta notícia alcançou no Facebook e os posteriores comentários refletem o que a maioria dos leitores do jornal impresso e por via digital terá pensado tendo em conta a onda de indignação e controvérsia levantada visto que, supostamente, revelou uma aceitação dos ideais do futuro presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

Porém, tanto o título da notícia e o texto fizeram uma errada leitura e explicação do que Paulo Portas realmente disse: “Eu não encontrei nos 27 anos de vida pública do capitão Bolsonaro nenhum indicador eticamente reprovável em termos pessoais – porque da família já não direi o mesmo -, mas há uma coisa que me preocupa bastante: ele fez uma aliança com igrejas e seitas evangélicas, e algumas das pessoas eu acho que não são pessoas decentes”. Esta afirmação remete para o fato de não encontrado indícios de corrupção parlamentar, alguma vez protagonizada por Jair Bolsonaro. Portas escreveu uma carta ao Jornal onde clarificava a polêmica e deixou em cima da mesa o seu desacordo relativamente à política de Bolsonaro: “nomeadamente em matérias de gênero, orientação sexual, grupos étnicos, nostalgia do crime militar ou legitimação da tortura”.

Críticas  foram escritas e colunas assinadas que se debruçaram em comentar a atitude do Presidente do CDS-PP perante toda a audiência televisiva e consequentemente denegrir a sua imagem. No entanto, não existe uma a comentar a má interpretação e o sensacionalismo visível em todo o texto produzido por uma jornalista do Público.

Casos como estes são comuns em Portugal e a Entidade Reguladora de Comunicação Social, não consegue controlar todos os veículos comunicacionais, por muito que as denúncias sejam feitas.

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Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais. O texto foi elaborado por meio de análise de notícias veiculadas no portal noticioso NSC Total e no jornal Público (de Lisboa, Portugal), no período de 5 a 9 de novembro de 2018.

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