Isadora Vicente e Maria Teresa Mazetto
estudantes de jornalismo na UFSC, especial para o objETHOS

O portal do jornal Notícias do Dia (ND) publicou ao longo da terceira semana de outubro duas notícias e um editorial sobre a criação de um novo departamento na Universidade Federal de Santa Catarina. A primeira, intitulada Professores investigados pela PF querem criar novo departamento na UFSC, foi divulgada na terça (16). A segunda, veiculada no dia 17, destacava a cobrança feita pela Procuradoria Federal à Universidade e o editorial anunciava A UFSC precisa reagir.

As matérias tratavam do pedido de criação do Departamento de Gestão Aplicada, feito por professores do Centro Sócio Econômico (CSE) da UFSC. O pedido, assinado por 21 professores, foi apresentado ao diretor do Centro, o professor Irineu Manoel de Souza. As notícias de Fábio Bispo e Schirlei Alves destacavam o envolvimento de seis desses 21 professores nas investigações da Operação Ouvidos Moucos, deflagrada há mais de um ano pela Polícia Federal.

As reportagens têm dois grandes problemas: pecam em não trazer depoimentos de professores envolvidos nesse trâmite e falham na compreensão de algumas formalidades básicas da instituição de ensino. Por exemplo, não fica claro se o pedido é referente apenas à criação de um novo departamento ou se engloba também a abertura de um novo curso, nem há a explicação para os leitores de como funcionam esses processos.

Na primeira matéria, o segundo parágrafo cita os professores envolvidos na Ouvidos Moucos e os repórteres afirmam: “Os envolvidos no âmbito da operação da PF estão impedidos de receberem recursos desta modalidade de ensino (se referem ao Ensino a Distância, Ead) no departamento que estão atualmente. O projeto sugere que os 21 professores migrem para o novo departamento (….).” Do jeito que está colocada, a informação dá margem para a interpretação de que os professores poderiam estar criando a estrutura para receberem tais recursos (provenientes do ensino a distância) novamente.

Os repórteres detalham o projeto de criação do departamento, ao qual tiveram acesso, e fazem questionamentos ligados a questões orçamentária e de recursos para financiamento e de como as vagas deixadas em aberto pelos professores seriam repostas. Em seguida, cita os nomes dos 21 professores que assinaram o pedido de criação do DGA, especificando os que são investigados na Operação Ouvidos Moucos. Não há o ponto de vista de sequer um dos citados. Por quê? As fontes tiveram a oportunidade de falar? Preferiram não o fazer? É preciso ficar claro na matéria. De fato, na reportagem publicada não há nenhum registro de qualquer tentativa de contato ou entrevista, por parte dos jornalistas que assinam a reportagem.

Perguntas sem respostas

Outra fonte da notícia é um manifesto de professores contrários à criação do departamento, que apontam, segundo a matéria, “diversas fragilidades no processo”. Além de relatar “falta de transparência”, no documento o grupo questiona a necessidade de criação do novo departamento e o critério de seleção dos 21 professores para o projeto. Muitas perguntas ficam sem respostas. Novamente: Como funciona o processo de criação do departamento? E a de um curso? Que atributos poderiam caracterizar o processo como sendo transparente? Como os 21 professores foram selecionados? Se articularam sozinhos? Foram convidados a participar? Se sim, por quem? O manifesto ainda ressalta, segundo a notícia, o fato de docentes que assinam a criação do DGA possuírem assentos nos conselhos deliberativos e que “por isso poderiam estar tomando decisões em benefício próprio”. Não há o contraponto desses professores que são também conselheiros. Ao nosso ver, é uma acusação grave, que não dá chance para defesa dos acusados. Houve a tentativa de conversar, pelo menos, com esses professores? Outra vez, não há registro de tentativas de ouvir os acusados.

Em outro trecho do manifesto destacado na notícia os professores citam o coordenador do curso de Administração, questionando-o sobre a necessidade de atualização curricular e afirmando que “essas mesmas atualizações estão contempladas no curso que consta na proposta do novo departamento”. No último parágrafo da notícia, o coordenador é citado pelos repórteres dizendo que “não integra mais o grupo de professores que querem criar o departamento”. Como a informação foi obtida? Por que não perguntaram a fonte sobre a crítica feita pelos colegas professores em relação à atualização curricular? Desde quando essa questão é levantada por quem faz parte do curso? Finaliza com a resposta institucional da UFSC (“conforme o regimento interno da instituição a criação de departamentos é apreciada no conselho da unidade”) e do professor Irineu Manoel de Souza, diretor do CSE (“houve parecer da Procuradoria Federal junto à UFSC sobre processo interno envolvendo a criação do DGA, mas o documento voltou ao departamento”), e do coordenador do curso.

Na segunda reportagem sobre o assunto, os repórteres afirmam no lead que “o anúncio da nova estrutura dividiu opiniões no curso de Administração”, mas continua sem trazer essas opiniões diversas. No terceiro parágrafo, no entanto, ao citarem novamente que “entre os 21 professores que assinam o pedido há seis investigados na Operação Ouvidos Moucos, da Polícia Federal”, Bispo e Alves afirmam que “apenas um deles respondeu a reportagem”. Um entre os 21 ou um entre os seis investigados? Tentaram contato com todas as 21 fontes envolvidas? Não fica claro. As outras fontes são, novamente, oficiais: o diretor do CSE, a Capes, a UFSC e o chefe de gabinete da reitoria. Nada dos professores que assinaram a proposta de criação do novo departamento.

Enquanto a cobertura noticiosa é limitada, o editorial é quase dramático. Cobra transparência e reavaliação dos investimentos por parte da Universidade e avalia a população como “cansada das denúncias no meio político”. No editorial, é falado em curso, não em departamento – agravando a confusão gerada pelas notícias de Bispo e Alves. Também coloca que “com uma forte gestão dos recursos federais, haverá espaço para a busca de apoio em outras esferas”. Quais esferas? As privadas?

A poucos dias do segundo turno das eleições, dedicar espaço do editorial para cobrar uma reação da UFSC parece exagerado. Outros portais, como o Diário Catarinense, sequer noticiaram o pedido de criação do DGA.

Repercussão

A postagem no Facebook com o link para a notícia publicada no dia 16 teve 43 curtidas, cinco comentários e 10 compartilhamentos. Os cinco comentários feitos por leitores diziam “Departamento salve-se quem puder?”; “O departamento dos investigados.”; “Já pode gradear a sala.”; “Só falcatrua”; e, por fim, “E agora maconheiros… vai faltar erva kkkk vagabundos…”. Já a postagem da notícia publicada em 17 de outubro teve 17 curtidas, cinco compartilhamentos e um comentário: “Essa administração da UFSC precisa ser investigada. Onde há petismo as probabilidades de haver corrupção são enormes como já ficou demonstrado. Tudo muito suspeito”.

No texto “Caso Cancellier ensina, mas mídia não aprende”, Rogério Christofoletti, professor e pesquisador do Objethos/UFSC, analisa como tem sido feita a cobertura de ações da polícia e da justiça pelos meios de comunicação. O comentário publicado em 9 de outubro de 2017, uma semana após o suicídio do então reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier, afirma que o tema é, claro, justificável como pauta, e notícia. Mas pondera: “(…) a mídia tem noticiado com profusão esses acontecimentos, aparentemente, sem qualquer preocupação com os efeitos da explícita exposição das pessoas envolvidas.”. Diz ainda: “O resultado é a exposição massiva de investigados, que se convertem quase que imediatamente em culpados, graças aos contextos incompletos que são oferecidos ao público”. Os comentários que abrem essa retranca comprovam que esse tipo de reação pode, sim, acontecer e ajudar a “moldar uma sociedade punitiva” (um dos pontos do texto de Christofoletti). Já estão acontecendo.

O ponto de vista dos repórteres do ND

Conseguimos contato com os profissionais que assinam a reportagem. A jornalista Schirlei Alves relatou que eles tentaram entrar em contato com os 21 professores citados nas notícias, apenas através e-mail institucional, mas apenas Raphael Schlickmann respondeu. A mensagem continha uma série de questionamentos sobre o critério de seleção dos professores para o projeto, a necessidade de criação do departamento e de atualização curricular do curso de Administração, questões orçamentárias e de financiamento do projeto, entre outras. A resposta de Schlickmann foi reproduzida na matéria. O diretor do CSE estava ciente de que os repórteres tentaram contatar os professores. Os jornalistas não foram procurados ou obtiveram respostas dos professores mesmo após a publicação do material.

Schirlei explicou que não se tratava de uma pauta investigativa, mas factual e, como parte dos professores questionavam a criação do departamento, os repórteres entenderam que havia uma situação noticiosa relevante. Os jornalistas tiveram apenas três dias (de 13 a 15 de outubro) para produzir a matéria. “Se os professores quiserem falar com a gente é óbvio que vamos ouvi-los. O que a gente mais queria era ouvi-los e nós estamos abertos a ouvir. Se eles quiserem falar com a gente, a gente vai na universidade, senta com eles e conversa. Se mudarem de ideia a qualquer momento, podem nos procurar e nós vamos fazer uma nova matéria com a versão deles”, ressaltou a repórter do ND.

Fábio Bispo, co-autor da reportagem também confirmou a tentativa de contato com os professores que assinaram a carta, mas que nenhum além dos citados na matéria se dispuseram a conversar. Além disso, nenhum professor procurou a redação do ND após as matérias terem sido publicadas. O jornalista destacou “que a intenção da matéria era justamente mostrar as incongruências presentes no trâmite do DGA, numa reportagem exclusiva do Notícias do Dia”.

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Nota das estudantes Isadora Vicente e Maria Teresa Mazetto:

“Tentamos contato por telefone na semana de 11 de novembro com a redação do Notícias do Dia e depois por Facebook, com Fábio Bispo. O jornalista respondeu a mensagem e conversamos com ele por telefone na sexta-feira, 17 de novembro, e Bispo nos passou o telefone da jornalista Schirlei Alves. No sábado, enviamos uma mensagem para ela, que prontamente se dispôs a conversar conosco por telefone, na segunda-feira, 19 de novembro”.

Nota do Editor (professor Samuel Lima):

“Republicamos aqui o texto original, com a posição dos jornalistas Schirlei Alves e Fábio Bispo, a quem já pedi desculpas pessoalmente (e agora o faço publicamente) pelo meu equívoco de publicar a coluna das estudantes, sem que houvéssemos esgotado todos os esforços de contatar com ambos e abrir espaço para os respectivos pontos de vista sobre a reportagem aqui analisada, no âmbito desta experiência pedagógica.”.

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Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais. O texto foi elaborado por meio de análise de notícias veiculadas no jornal Notícias do Dia (ND), no período de 15 a 19 de outubro de 2018.

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