A quarta e última roda de conversa do projeto de extensão “Educação para a Crítica de Mídia nas Escolas Públicas” aconteceu no dia 5 de dezembro, no final da manhã, na Escola Nereu Ramos, em Santo Amaro da Imperatriz (SC). O tema foi “o impacto do erro de informação jornalística na vida das pessoas”. Cerca de 20 estudantes, do 2º Ano do Ensino Médio, participaram desta última atividade.

O jornalista e escritor Salvador Neto, autor do livro “Na teia da mídia” foi o convidado especial e relatou o caso da família Plocharski, vítima de um grotesco erro de informação para o qual contribuíram a desonestidade policial com a falta de apuração rigorosa e seriedade das empresas de jornalismo, em Joinville (SC), em 2000. Dezoito anos depois, o Tribunal de Justiça de SC inocentou as empresas de mídia e condenou o Estado a pagar uma indenização a perder de vista. Para o jovem trabalhador da indústria gráfica Aluísio Plocharski, acusado injusta e falsamente de ter estuprado 12 mulheres (caso conhecido como “Maníaco da bicicleta), a vida jamais seria a mesma. De origem humilde, a vida da família foi destruída: sua mãe faleceu alguns anos depois, de tristeza e depressão; o pai, em abril de 2018, por complicações causadas pelo alcoolismo decorrente da situação; pouco mais de um mês, Aluisio, com 48 anos, também morreria de parada cardíaca e doenças decorrentes do alcoolismo.

Os estudantes questionaram por que razões a polícia agiu daquela forma e os jornalistas igualmente acreditaram de “olhos fechados” na versão oficial. Para Neto, o jovem acusado se “encaixava no perfil” descrito pelas mulheres vítimas da violência, embora nenhuma delas o reconheceu como o criminoso. Outra explicação sobre a pressa e irresponsabilidade dos agentes da Polícia Civil envolvidos no caso, era a pressão política para se achar um culpado. Num domingo, com tudo preparado para ir ao ar no “Fantástico” (TV Globo), a casa da família Plocharski foi cercada por dezenas de policiais, fortemente armados, helicóptero e câmeras de televisão, mas o delegado que comandava o show recebeu uma ligação (provavelmente atestando a inocência de Aluisio) e a “operação” espetaculosa foi suspensa ali mesmo.

A vida dos Plocharski jamais seria a mesma depois desse episódio. Para o professor Samuel Lima, “a questão fundamental é que culpado ou inocente você tem que ter cuidado ao reportar os fatos, você tem que ter muita certeza (…) porque, se não for culpado, o desgaste da imagem é muito grande; pode ser devastador. Mesmo que se corrija o erro, fica o selo de culpado cravado, tatuado na pele e na alma da pessoa”. Ao que Neto complementa: “A vida vale mais do que qualquer curtida”, incentivando os estudantes a denunciarem fake news.

            Ao final da atividade, os/as estudantes avaliaram as quatro rodas de conversa e fizeram sugestões para a continuidade do projeto de extensão, no próximo semestre (2019/1) em outras escolas da região. O jornalista Salvador Neto ofereceu alguns exemplares de dois livros publicados (“Na teia da mídia” e “Gente nossa: histórias de quem fez e faz a cidade”) que foram sorteados entre os alunos e alunas.

O professor Samuel Lima (objETHOS/UFSC) coordenou esta última atividade do semestre, que teve também a participação de Ricardo Torres (doutorando do PPGJOR), Klay Karen (estudante de jornalismo) e das pesquisadoras Juliana Freire, Andressa Kikuti e Nayane Brito (doutorandas no PPGJOR/UFSC) e Cristine Marquetto (doutoranda da Unisinos, RS).