Juliana Rosas
Doutoranda no PPGJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

Ele foi responsável, direta e indiretamente, pela corroboração da tortura, por prisões ilegais na Baía de Guantánamo, pela vigilância sem prévia autorização de civis, por milhares de mortes e pelo fato possivelmente mais terrível – o surgimento do Estado Islâmico do Iraque e do Levante, também conhecido como ISIS. Ele é Richard Bruce Cheney, Dick Cheney, político e empresário americano, vice-presidente dos Estados Unidos de 2001 a 2009.

Cuidado com o homem calado. Pois enquanto os outros falam, ele observa. E enquanto os outros agem, ele planeja. E quando finalmente descansam… ele ataca.”, frase de autoria anônima que aparece no filme Vice (Vice, 2018, EUA), produção que retrata a vida de Dick Cheney, nascido em 1941. Cheney é frequentemente recordado como um dos vice-presidentes mais poderosos da história dos Estados Unidos, excedendo, em termos de influência, os poderes do seu cargo. Porém, sua percepção junto ao público era baixíssima, com seu índice de aprovação sendo de apenas 13%. Como aparece no filme, ele foi responsável por grandes mudanças políticas nos EUA e no mundo e por milhares de mortes. E fez tudo isso como um fantasma, como mesmo se afirma no filme, sem que [quase] ninguém notasse.

Este texto usa o filme para discutir questões já caras a este observatório: jornalismo, ética, política, democracia. Não é o foco discutir a produção enquanto obra artística (embora esta que vos escreve tenha gostado e recomende). O que trago aqui, bem como o que aparece no filme, são fatos históricos e documentados. Porém, se quem estiver lendo agora é sensível a spoilers (assim como eu), sugiro assistir à película antes.

Cheney assume a vice-presidência em 20 de janeiro de 2001, vindo de uma longa carreira empresarial e política. Teoricamente, ele estava em final de carreira e considerava o cargo de vice-presidente mera aparência. Mas o candidato a presidência e depois eleito era o inexperiente George W. Bush. Alguns meses depois, eis que acontece o 11 de setembro. E Cheney viu uma oportunidade de exercer seu poder. Não obstante, ao contrário de muitos que querem reluzir como o Rei Sol, ele preferiu executar questões de vida e morte nas sombras do poder.

“À medida que o mundo se torna cada vez mais confuso, tendemos a focar em coisas que estão bem diante de nós, enquanto ignoramos as poderosas forças que de fato mudam e dão forma às nossas vidas. Com pessoas trabalhando por mais e mais horas, por cada vez menos, quando temos folga, a última coisa que queremos são análises complexas do governo, lobbys, acordos de comércio internacional e notas fiscais. Então, não surpreende que, quando um vice-presidente monótono e burocrático chega ao poder, nós mal notamos quando ele obtém uma posição de autoridade que pouquíssimos líderes na história da América tiveram, mudando para sempre o curso da história para milhões e milhões de vidas. E ele fez isso como um fantasma, sem que a maioria das pessoas tivessem ideia de quem ele é, ou de onde veio.” (Trecho retirado do filme Vice, 2018)

E como um homem com um cargo que teoricamente era somente aparência torna-se o responsável por uma reviravolta no mundo? O conservador Cheney acreditava no real poder do executivo e queria restaurar a presidência, enfraquecida por Watergate. Ele se arma então com um time de juristas defensores da fraca, de pouca aderência e controversa “Teoria do Executivo Unitário”. Em poucas palavras, a teoria interpreta que o Artigo 2 da Constituição Americana investiria o presidente de autoridade executiva absoluta.

“Anos 1970. Ventos de mudança. Ambientalismo. Muita gente puta com isso. Parte da direita avança. Bilionários, cheios de pagar impostos, gastam fortunas para construir think tanks que mudariam o jeito de a América pensar e ver o mundo.” (Trecho retirado do filme Vice, 2018)

Sim, você leu certo. 1970. Parece uma descrição de hoje, não é mesmo? Mas o filme mostra que o slogan “Make America great again”, famoso bordão do atual presidente dos EUA, Donald Trump, foi resgatado do discurso de Ronald Reagan, presidente de 1981 a 1989. Isso nos faz lembrar sobre os ciclos – históricos, econômicos, da vida, da moda… A depender da área ou do ciclo, estamos condenados a repetir o passado, especialmente as últimas décadas. Na moda, diz-se o intervalo de três décadas. Em algumas teorias econômicas, como os ciclos de Kondratiev, o período seria 50 anos. Uma coisa é certa: após a fase progressista dos anos 1970, tivemos, pelo menos no mundo ocidental, uma onda conservadora nos anos 1980. Trinta anos depois, a onda reacionária está de volta.

Mídia, opinião pública e atualidade de Habermas

Aqui, apresentaremos um pouco de algo que nos interessa enquanto jornalistas, pesquisadores e cidadãos interessados no assunto: ações realizadas por Cheney que inclinaram a mídia americana muito mais à direita e as decisões que manipularam a opinião pública na época e, talvez, por décadas seguintes. Uma delas, ainda na presidência de George H. W. Bush (Bush sênior ou Bush pai): a revogação da Doutrina da Imparcialidade, lei dos anos 1940 que exigia que os noticiários de rádio e tevê apresentassem em igualdade os dois lados de uma questão. Sua revogação faria surgir os noticiários opinativos, como a Fox News (hoje, alinhada a Trump). Opiniões agora reverberadas abertamente, porém, quase sempre de cunho conservador. Cheney, enquanto congressista à época, votou a favor.

Com as maiores máquinas midiáticas e políticas já criadas por trás dele, Cheney conseguiu conter ações contra o aquecimento global, cortar taxas para os podres de ricos e impedir a imposição de normas para grandes corporações. (Trecho retirado do filme Vice, 2018)

Como se isso não bastasse, Cheney conseguiu o magistral golpe de produzir uma guerra “fake”. Bem, a guerra era tão real quanto possível. Falsos foram: o motivo, ideologia por trás e a justificativa. Você se lembra contra qual país os EUA foram à guerra em 2003 (porém, pensada por Cheney e seus aliados desde 2001)? Para quem não recorda: Iraque. No entanto, quem foi o responsável pelos atentados do 11/09? Al-Qaeda. Que, embora definida como uma organização fundamentalista islâmica internacional, era então liderada por Osama bin Laden e surgiu no Afeganistão. Como o governo americano, liderado por Dick Cheney, conseguiu que população, congressistas, aliados e não aliados embarcassem numa guerra em um país que não era responsável pelo ataque de 2001? Muitas dessas respostas estão aqui. Contudo, como o filme mostra: por mentira, coerção política e o que mais nos interessa nesta discussão: manipulação da opinião pública, fabricação de consentimento e desrespeito a jornalistas e qualquer um que investigasse seus desmandos.

“O Iraque não tem nada a ver com isto. O Afeganistão é QG da Al-Qaeda. É lá que devemos focalizar. Eu fui muito claro sobre minhas preocupações com o Iraque. Estamos falando em invadir uma nação soberana sem qualquer provocação”, palavras (retratadas no filme) de Colin Powel, Secretário de Estado do governo George W. Bush de 2001 a 2005. Pouco depois, ele foi voto vencido, obrigado a fazer um discurso (com informações sabidamente inverídicas) na Organização das Nações Unidas (ONU) em favor da guerra. Mais tarde, Powell diria que aquele discurso foi o momento mais doloroso de sua vida.

Na mesma reunião, foi mostrado um documento secreto com informações significativas. 

– Recebi um relatório confiável de um pequeno enclave terrorista no nordeste do Iraque. Se formos invadir, eu sugiro derrubá-lo antes.

– Esquece isso. Temos coisas mais importantes.

Aquele documento confidencial descrevia um terrorista chamado Abu Musab Al-Zarqawi, que começou como traficante de drogas e cafetão antes de se tornar totalmente radical. Guardem esta informação.

– O vice-presidente acredita que é dever do comandante e chefe proteger a nação. E que nenhuma outra obrigação, com o Congresso ou tratados existentes, prevalece sobre esse dever. Como se sente em relação a essa afirmação?

– Concordo plenamente.

A primeira opinião legal de John Yoo permitiu ao governo dos EUA monitorar chamadas telefônicas, mensagens e e-mails de todos os cidadãos sem um mandado. Foi um salto legal gigante baseado em uma lei questionável, na melhor das hipóteses. Mas a obra-prima de John Yoo, seu “Moby Dick”, se me permitem, foi o memorando sobre tortura. (Trecho retirado do filme Vice, 2018)

Neste pacote, entrou o uso de grupos focais, executivos de publicidade e relações públicas para vender a guerra ao terror. Em determinado momento, a porcentagem a favor de uma invasão ao Iraque estavam em 53%. Pesquisas mostram que as pessoas não têm certeza se há uma conexão entre Saddam e a Al-Qaeda. Após trabalhar com as informações obtidas junto aos grupos focais e pesquisas de opinião, e com a ajuda do “doloroso” discurso de Powell, quando os EUA invadiram o Iraque, 70% dos americanos achavam que Saddam Hussein estava envolvido com o 11 de setembro.

As public relations acabam se fundindo: a propaganda já não deve mais ser reconhecida como autorrepresentação de um interesse privado. (…) A tarefa principal é engineering of consent [construir o consentimento], pois somente no clima de tal consenso tem sucesso “promover junto ao público, sugerir ou exigir a aceitação de uma pessoa, produto, organização ou ideia”. A disposição despertada nos consumidores é mediada pela falsa consciência com a qual, como pessoas privadas que discutem mediante razões, eles colaboram responsavelmente na produção da opinião pública. No entanto, o consenso sobre um comportamento, ao que parece, necessário no interesse público tem efetivamente algo de uma “opinião pública” encenada. (Trecho retirado do livro Mudança estrutural da esfera pública, p. 417, de Jürgen Habermas)

Pensava cá com meus botões de por que se dar todo esse trabalho de manipulação e fabricação. Mas, profissionais não dão ponto sem nó. Ou veem a si mesmos como guardiões da moral. Daí a necessidade do respaldo. E eis que a filosofia e o direito têm explicações bem mais antigas para tais questões. A opinião pública também aparece na história como origem da autoridade e necessária à democracia. Bem como é preciso se amarrar de meandros jurídicos, ainda que questionáveis e imorais, para justificar ações igualmente imorais. Pois, como diz a frase originalmente atribuída a John Locke, “onde a lei termina, a tirania começa”. No caso de Cheney, a tirania contra civis inocentes começou com a lei mesmo.

O estado moderno pressupõe a sabedoria popular como o princípio de sua própria verdade, e essa, por sua vez, deve ser a opinião pública. Sem essa atribuição, sem o elemento da opinião pública como origem de toda a autoridade para as decisões obrigatórias voltadas para a totalidade, falta à democracia moderna a substância de sua própria verdade. (Trecho retirado do livro Mudança estrutural da esfera pública, p. 489. Habermas, por sua vez, retirou a frase do livro Volkssouveränität und öffentliche Meinung, de Landshut)

Como também afirma o autor alemão, “a opinião pública domina, mas não governa” (!!) (p. 492). “A opinião pública continua a ser um objeto da dominação, mesmo onde a dominação política se vê forçada a reorientar-se ou a fazer concessões à opinião pública” (p. 500). Ainda segundo Habermas, “o material da pesquisa de opinião não pode ser caracterizado imediatamente como opinião pública pelo simples fato de ter se convertido em matéria de ponderações, decisões e medidas politicamente relevantes” (p. 500-501). Não existe opinião pública sem esfera pública. Ou seja, sem debate público. Opinião pública é resultado de debate público. Sem isto, opiniões individualizadas e tomadas como coletivo para justificar decisões políticas são consenso fabricado.

“As opiniões não públicas atuam em grande número e “a” opinião pública é, de fato, uma ficção” (p. 501). “O contexto de comunicação de um público de pessoas privadas que discute mediante razões está rompido; a opinião que provinha desse público encontra-se decomposta” (p. 506). Trechos de escritos habermasianos completamente atuais. Mesmo após a revisão do próprio autor, mesmo sua revelação de um pessimismo com os meios de comunicação de 40 anos atrás não ser o mesmo; mesmo com as críticas, impressiona a atualidade da discussão. Habermas recebeu e ainda recebe diversas críticas ao longo de suas mais de seis décadas de profícua produção intelectual. Porém, o fato de que uma das maiores democracias mundiais utilizar, no século XXI, recursos de propaganda de décadas atrás e fórmulas retóricas de séculos passados é algo que surpreende e justifica a importância dos clássicos da filosofia e ciências sociais.

Sobre o assédio a repórteres, este não começou com Trump. A era Bush também foi marcada pela perseguição a jornalistas. Talvez uma consequência do cerceamento e vigilância. O fato mais famoso porventura tenha sido o que ficou conhecido como caso Plame-Wilson ou affair Plame, que aparece brevemente no filme. Aparentemente, Cheney perseguia qualquer jornalista que “ousasse” questionar suas ações e o serviço de inteligência. Ao fim, se provou que não havia armas de destruição em massa no Iraque.

Voltando à informação referida anteriormente. “Aquele relatório diz que Zarqawi, a mesma p. de Zarqawi de que falamos por meses, agora está liderando uma grande rebelião no Iraque. E estão sugerindo que é porque falamos muito dele!” (Trecho retirado do filme Vice, 2018). Pela decisão de Cheney e aliados de ignorar Zarqawi e investir na falsa guerra iraquiana, este teve um ano para fazer o que quiser. E o que ele queria era carnificina. As ações do ISIS, que vão de decapitações a mutilações, são o verdadeiro horror terrorista.

Início do filme, 11/09, queda das Torres Gêmeas, ordem de Cheney de abater qualquer aeronave que se apresente como ameaça. “All orders are UNODIR. Unless otherwise directed”. Em português, tradução e abreviação tornaram-se “Todas as ordens são SÁDICO. Salvo disposição em contrário”. Quem diria que a lembrança da palavra sádico seria tão apropriada.

Referência:

HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública. São Paulo: UNESP, 2014.