“Tecnologia, desinformação e ética” foi o tema geral do V Congresso Literacia, Media e Cidadania, que se realizou na Universidade de Aveiro, nos dias 3 e 4 de maio e marcou os 10 anos de atividade do Grupo Informal sobre Literacia Mediática (GILM). Uma das questões que mais chamaram a atenção nos debates foi o desenvolvimento da inteligência artificial – que, como já argumentou a pesquisadora Kate Crawford, seria mais bem chamada de “automatização artificial”, para evitar interpretações equivocadas sobre a relação entre humanos e máquinas – na manipulação de imagens, de modo que se tornaria ainda mais difícil distinguir o verdadeiro do falso em meio à avalanche de informações que circula pelo mundo.

Em nome do objETHOS, a professora Sylvia Moretzsohn, que desenvolve pesquisa de pós-doutorado na Universidade do Minho, apresentou a comunicação “Educação midiática e fake news”, no painel sobre “Serviço Público, Observatórios e Jornalismo”. Elaborada em parceria com o professor Samuel Lima, a comunicação traz reflexões preliminares sobre o projeto coordenado por Lima e iniciado em 2017 junto a escolas públicas de ensino médio, em Florianópolis/SC. A partir da eleição de um tema geral – por exemplo, o racismo, abordado numa das mais recentes rodas de conversa com os estudantes –, exibem-se exemplos de notícias que ganharam repercussão local e nacional, para discutir a produção do discurso jornalístico e aferir a percepção dos alunos sobre o que é o jornalismo. Em dois anos, 330 estudantes participaram do projeto.

A comunicação se baseou principalmente no estudo Information Disorder: Toward an interdisciplinary framework for research and policy making, no qual Claire Wardle e Hossein Derahkshan propõem a adoção de um quadro interdisciplinar para a formulação de políticas públicas no combate ao que chamam de desordem da informação. Outra fonte importante foi o trabalho de Jacques Mick e Luísa Meurer Tavares, “Governança jornalística e alternativas para a crise”, que vê a chamada crise no “modelo de negócios” do jornalismo como reflexo de uma crise mais profunda, localizada na relação entre jornalismo, jornalistas e seus públicos.

Com significativa presença de pesquisadores brasileiros, o Congresso também foi um momento de denúncia dos ataques que o governo Bolsonaro vem fazendo à educação pública no país, com a desqualificação das ciências humanas e o corte generalizado da verba destinada às universidades e institutos federais, educação básica e fundamental, e ao Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. O clima de insegurança vivido pelos professores, diante do estímulo a que estudantes filmem suas aulas e os delatem como doutrinadores, foi também referido reiteradamente como uma das grandes dificuldades para a continuidade dos projetos de educação midiática no Brasil de hoje.

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