Carlos Nascimento Marciano

Doutorando em Jornalismo no PPGJOR e pesquisador do objETHOS

Quantas pessoas unidas são necessárias para considerarmos digna uma manifestação? Bom, depende, e não só de quem conta. Parece apenas uma questão matemática, mas, na mensuração do que é benemérito na luta por direitos, faz-se necessário considerar nesse cálculo não apenas o número de participantes, e sim, principalmente, de que lado você está no tema que é defendido por quem vai às ruas.

Na última quarta-feira (15), em mais de 200 cidades houve manifestações contra o “contingenciamento” de recursos para a educação. Estudantes, militantes e simpatizantes à causa ocuparam as ruas em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal. Com faixas, cartazes e gritos de guerra as vozes ecoaram no horizonte democrático, cada vez mais frágil e hostil diante da divergência de pensamento.

Não há como negar que nos últimos anos as manifestações ganharam força como ferramentas para expor a indignação com o governo vigente, mas então por que destacar essa última se já houveram outras, talvez até com mais participantes? Ora, porque o jornalismo está aí para isso, para noticiar os fatos, acima de tudo para incomodar em prol da boa reflexão.

Ao contrário das manifestações de 2018, a do dia 15 não precede um processo eleitoral, seu foco não apoia um candidato ou outro, mas se insere em um contexto político cujas ações cada vez mais parecem desconexas ao bem da nação. Governantes e governados apoiadores parecem não olhar para frente. Insistem em ressaltar os erros do passado para legitimar suas futuras falhas, a destilar seu ódio político para deslegitimar qualquer opinião contrária.

Questionar o governo virou sinônimo de ser comunista, a imprensa que não é chapa branca está espalhando fake news, as universidades públicas que prezam pela liberdade de cátedra e não punem professores opositores merecem ter os recursos retidos.

Ao contrário do que muitos pensaram, os manifestantes do dia 15 não eram baderneiros massa de manobra, ou “idiotas úteis”, para usar as palavras do próprio presidente. Estavam na manifestação estudantes, simpatizantes e educadores que prezam pela saúde intelectual dos jovens; pelos laboratórios de referência que atraem intercambistas do mundo todo; pelo acesso democrático à educação sem distinção de raça, religião, orientação sexual ou renda familiar; pelas pesquisas reconhecidas internacionalmente como ao ser finalista em uma competição de Harward ou ganhar o prêmio máximo na maior feira de Ciências do mundo ou ainda sair na frente no tratamento contra microcefalia

É fato que nem toda universidade é um mar de rosas, que existem sim performances, pesquisas e descasos com o patrimônio público que deixam muito a desejar. Mas será que a solução está mesmo em apenas acusar os antigos governantes sem destacar alguma solução? Em “contingenciar” recursos sem ao menos deixar claros quais os critérios adotados? Em divulgar nas redes as pichações de foices e machados como símbolos da balbúrdia, mas ignorar os desenhos das suásticas, os dizeres de morte aos gays e os cartazes exaltando a KKK com sua supremacia branca?

Não foi só pelos recursos na educação pública que os manifestantes foram às ruas no dia 15, foi também para zelar pela integridade dos alunos e professores diante do discurso armamentista; pela preservação da liberdade em dialogar e estimular o pensamento crítico do aluno frente à Escola sem Partido; pela garantia de trabalhar destilando amor naquilo que faz e gozar de pelo menos 30 anos de aposentadoria sem se preocupar se terá ou não dinheiro para comprar remédios ou viajar com a família.

O governo eleito com a bandeira de ser a nova política, sem conchavos e amarras, está cada vez mais preso à velhas desculpas, ao conservadorismo, a discriminação de quem é ou pensa diferente. As universidades públicas têm sim problemas que devem ser enfrentados, mas também conquistas que merecem ser ressaltadas. Não se conserta uma parede apenas criticando o construtor anterior que fez o buraco, é preciso comprar os materiais adequados, realizar os ajustes e, no fim, com as benfeitorias de ambos os construtores, a casa estará sólida e digna de admiração.

Reconhecer as falhas anteriores para melhorá-las é válido; se ater nelas para justificar as escolhas não planejadas é descaso, é desprezível. Tudo indica que as políticas educacionais hoje não se tratam de planejamento, mas sim de uma rixa ideológica e partidária que não favorecerá lado nenhum. Foi isso que os manifestantes de instituições públicas e privadas quiseram mostrar no último dia 15; é isso que o governo precisa entender para além de seu egocentrismo.

Falta-lhe humildade, ou melhor dizendo, humanidade para reconhecer que “contingenciar” investimentos na educação de um país para reestruturá-lo é o mesmo que abrir espaço em um terreno ateando fogo na nossa própria casa, porém, sem sairmos com a família de dentro dela.

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