Vanessa Pedro

Professora da Unisul e pesquisadora associada do Objethos

São seis meses de governo Bolsonaro e todos já viram que o jornalismo e os jornalistas não estão exatamente entre as principais relações do novo governo. Desde a posse, em 1º de janeiro, os jornalistas já entenderam o recado quando amargaram espera de horas sentados no chão e foram avisados para não realizar movimentos bruscos se não quisessem ser alvos de atiradores. Já na transição, quando Bolsonaro atendia jornalistas em casa, no Rio de Janeiro, selecionava os veículos que poderiam participar das entrevistas coletivas, deixava metade do lado de fora e improvisava declarações com microfones apoiados em pranchas de surfe.

De lá para cá, quando decide falar através dos meios tradicionais, o presidente preferiu programas de auditório como Silvio Santos e Ratinho. Mas a preferência é mesmo por transmissões ao vivo em vídeo pelas redes sociais, dirigidas aos seus seguidores. E aí são as declarações e opiniões que temos visto desfilar no Facebook e reverberar na imprensa. A questão agora não é mais apenas agendar os veículos de imprensa e falar à sociedade através deles, mas falar aos seus diretamente.

Sem entrar ainda no mérito e nos conteúdos que temos visto desfilar nas declarações de redes sociais de Bolsonaro, que vão desde piadas racistas contra membros do seu próprio governo até sinceridades sobre a nomeação do filho como embaixador nos Estados Unidos, a primeira mudança de cenário é não ver mais na imprensa uma forma de falar com a sociedade. Podemos listar uma série de questões em torno deste tema que vão do próprio fato do presidente não demonstrar, desde quando ganhou a eleição, assumiu a presidência e até hoje, que tem um mandato no qual representa a totalidade da população e não apenas quem o elegeu. Mesmo que não se sintam representados os que não votaram nele, o presidente, no cargo, deveria, e não demonstra no seu discurso, falar para uma sociedade mais ampla do que o seu eleitorado. Ou melhor mais ampla do que os seus seguidores na internet.

A situação em que se encontra a imprensa brasileira, após décadas de monopólio dos meios de comunicação, da liderança de poucas família a frente dos principais veículos de imprensa no país, da construção de um modo declaratório e pouco crítico de fazer jornalismo, é outra questão que pesa nessa balança de poder, para usar uma expressão que diz mais às relações internacionais. No jogo social, o jornalismo é seguido como modelo. Afinal, até as fake news simulam seu modelo de produção objetivo e coloquial. Elas sempre parecem que são notícia. Esquecendo, claro, a parte da apuração, da diversidade de fontes e caprichando na mentira deslavada mesmo. Então o jornalismo é seguido na forma e no desejo de viver a sensação de protagonismo que já teve o quarto poder, enquanto ignora seus princípios de questionamento dos poderes, das instituições, das figuras públicas e sua função de contar histórias que muitos querem esconder ou que a maioria despreza.

Os veículos tradicionais também viram os anunciantes minguarem, os políticos, empresários e outras fontes falarem diretamente com suas bolhas, o papel sumir aos poucos e as redes explodirem de produções individuais e diversas. De um lado democratizamos o ciberespaço, onde podemos encontrar iniciativas que antes não teriam nem lugar e de outro vemos a imprensa brasileira igual navio encalhado, corroída de ferrugem, fazendo o mesmo jornalismo que a levou a esse estado de corrosão. E uma sociedade que não parece se importar que um dos pilares da democracia esteja tão debilitado porque, afinal, democracia é um conceito que está em disputa da forma ao grau de importância hoje no Brasil. Defender a democracia e um jornalismo forte é saber que é fundamental o lugar da diversidade de informações, histórias e fontes. Não um jornalismo construído sobre a ideia dos “dois lados da notícia” que, colocadas em confronto, resultam numa notícia satisfatória, mesmo que esse confronto seja entre duas declarações oficiais. Entre alguém que disse que fez e um que diz que não fez. Entre um que diz que chove e outro que não chove, sem abrir a janela e checar se estava chovendo ou não.

A sociedade líquida e do espetáculo não parece interessada nem alfabetizada na diversidade de fontes e no aprofundamento da investigação jornalística. Está treinada no confronto de declarações, não se interessa mais por ele e prefere a opinião que já traz de casa. E elege um político que dispensa esse mediador, que já estava enfraquecido no seu modo de produção industrial e na sua forma objetiva e declaratória, se recusa ao diálogo e não aguenta ser questionado. Prefere um discurso com monólogos audiovisuais informais, que simulam diálogo com convidados que jamais ousam questioná-lo. Um toque de preconceito travestido de humor e estão feitas as recorrentes aparições que geram declarações que são pautas dos meios de comunicação. Nas vezes em que é colocado diante de jornalistas, a conversa é encerrada na primeira pergunta, como foi o caso desta semana quando questionado sobre o uso de helicópteros da Força Aérea Brasileira (FAB) para transportar parentes para evento particular de um de seus filhos. São diversas entrevistas interrompidas e encerradas quando jornalistas perguntam. Em outras, as perguntas são permitidas, mas não podem ser gravadas nem podem ser feitas réplicas depois que o presidente responde. E é nesse questionamento que queria chegar no comentário de hoje.

Além da reportagem ter um lugar especial no jogo social brasileiro de hoje, prefiro pensar neste artigo a respeito da entrevista como instrumento, linguagem e estratégia para a atuação dos jornalistas no atual cenário do país e deste governo. Como linguagem e formato, a entrevista tem sido usada pelos mais diversos veículos, dos tradicionais aos nascidos digitais, como uma forma de chegar ao público e aumentar seu potencial de leitura. Claro que estamos falando de um formato que está na origem do próprio jornalismo, que tanto é nossa principal ferramenta para obter informação e histórias quanto é narrativa para chegar editada ao público. Mas, neste momento, de profusão de textos e formatos, onde o jornalismo tenta encontrar onde pode ser protagonista e de que forma atrair leitores, cada vez mais a entrevista como formato final tem sido usada pelos diversos veículos. Ela segue a tendência da coloquialidade, da busca por opiniões, oferece informações e histórias em mais profundidade porque pode investigar o que tem a dizer uma pessoa apenas e ainda ser produzidas em diferentes suportes para que o público tenha acesso a texto, fotos, vídeo, áudio.

No caso da era Bolsonaro tem sido uma estratégia usada para aprofundar, conhecer e mostrar quem são e como funcionam as diversas figuras que têm feito parte do governo. Figuras como os ministros Weintraub, da Educação e que corta verbas das universidades públicas; Damares, do Ministério da Família e dos Direitos Humanos e que declara que menino veste azul e menina veste rosa; o astronauta Marcos Pontes, de Ciência e Tecnologia e Comunicação, que não tem verba para propor medida alguma para a área, Ernesto Araújo, que ataca o globalismo e acredita que o presidente é escolhido por deus. Como compreender o aparecimento destas figuras e todos os temas e discussões que têm vindo com eles e por eles? Tudo que eles declaram têm virado pauta, mas as matérias são lidas e compartilhadas de acordo com a preferência e opiniões anteriores em relação a eles ou ao que eles falam, quando não reverberam mais uma vez o que eles declaram em aspas.

Mas a estratégia nova de alguns veículos, especialmente os com mais expressão, tem sido entrevistar essas pessoas, que já têm causado alvoroço em tão pouco tempo. A BBC Brasil talvez seja a que mais recorre à entrevista com mais espaço para chegar às opiniões, reflexões, personas, motivos e histórias desses que ocupam os espaços de poder no governo federal. E não são apenas garimpo de declarações como nos agendamentos tradicionais à imprensa ou monólogos como os vídeos de Bolsonaro às redes sociais. Nesse formato de entrevista, com o espaço sem limites do digital, a mediação fundamental do jornalista retorna, menos num lugar de confronto como das coletivas, mas ocupa um lugar de investigação de coisas específicas, declarações já ditas e, sobretudo, de revelação de quem são essas pessoas e como elas operam.

Então a entrevista de Damares à BBC Brasil, por exemplo, traz todos os temas que já foram abordados e que viraram memes nesses primeiros seis meses. Mas em meio a uma conversa, mediada e provocada pelo repórter, a entrevista ajuda o leitor a acessar essa figura, compreender de uma forma mais profunda e detalhada o modo como ela construiu suas posições, defesas religiosas contra a legalização do aborto e os conceitos sobre relações de gênero. “Nós temos uma apresentadora de TV no Brasil, famosa, chamada Xuxa, que ela viu um duende e ela deu uma declaração de que ela viu um duende e ninguém riu dela. Tem crianças que veem fadas, crianças que têm amigos imaginários, e eu não posso? Meu amigo imaginário era Jesus”. Nessa entrevista ao mesmo tempo se consegue ver que a ministra sabe o que pensam dela, que a chamam de maluca, e ao mesmo tempo se consegue seguir toda a linha de pensamento que faz um trauma pessoal virar política pública com uma pitada de pensamento religioso. “O que vejo ali naquela situação: riram, riram, mas por que será que ela estava chorando no pé de goiaba? Por que eu estava chorando no pé de goiaba?”. O repórter pergunta diretamente: “Que é a questão do seu estupro, que a Sra. disse?”. Damares responde: “Sim, por que essa menina queria se matar com dez anos? Fui só eu? Não”.

Através da entrevista com Damares, que conta e pergunta muito mais coisas, investigando motivações para declarações e ações anteriores e novas opiniões à época da entrevista, em maio, sobre abstinência sexual e desenhos animados, temos novas possibilidades de falar sobre temas, de acessar fontes e de revelar um cenário que tem sido um desafio para os contadores de histórias da vida real como os jornalistas. Porque, no Brasil de hoje, a ficção tem perdido feio para a realidade. As entrevistas têm sido possibilidades de levar o debate para um outro lugar; retomar o protagonismo do jornalismo em compreender a realidade e oferecer caminhos ao leitor e à sociedade em geral; e oferecer diversidade de histórias e fontes. Além disso, suspendem de alguma maneira o véu do discurso sobre a coisa. Aquele construído pela opinião das pessoas nos seus facebooks e tweets. O presidente mito e seus ministros são um discurso a respeito deles. E as entrevistas, especialmente as produzidas nessa condição mais ampla, mediadas, questionadas e aprofundadas, garantem a exposição do raciocínio e das ideias, sejam elas quais forem, dessas pessoas que não figuravam no espectro da política federal de primeiro escalão.

Também é mais possível criticá-las quando se expõem e falam. Lembro da fala de um aluno meu de Jornalismo quando passei em sala e no telão uma entrevista de Michel Temer em vídeo, concedida à Folha de S. Paulo, quando estava ocupando a presidência. Eles viram a entrevista onde Temer se expunha e a edição ajudava a construir a narrativa da exposição e o aluno disse: “eu não lembrava da voz do Temer”. A entrevista é narrativa, é aquilo que se quer declarar, mas tem sido um caminho possível e mais denso de expor figuras públicas do Brasil atual. E são uma forma do jornalismo se fazer mais protagonista das narrativas sociais. Não é à toa que Bolsonaro foge delas como o diabo da cruz. E cada uma que ele concede, mesmo que encerre após a primeira pergunta, expõe a lógica atual e que está definindo os rumos brasileiros contemporâneos, ao menos na esfera de governo. O jornalismo também está em disputa e as formas narrativas fazem parte da investigação das possibilidades de narrar e de construir um debate com a sociedade.