Ricardo José Torres
Doutorando em Jornalismo no PPGJOR e pesquisador do objETHOS

Atualmente nada parece ser mais desafiador do que encontrar elementos de confiança informacional no ecossistema de desinformação estrutural e profunda que encontramos no ambiente comunicacional baseado em ferramentas digitais. Cotidianamente os jornalistas convivem com desafios impostos pelo uso e apropriação de tecnologias que estruturam um cenário caótico de hiperinformação. Esse contexto apresenta desafios éticos e de tratamento das informações jornalísticas atrelados a estruturação de elementos de confiança ancorados em fatos e em apuração.

O exemplo mais recente dos resultados devastadores do cenário de desinformação que enfrentamos é a busca pela aniquilação das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) brasileiras, especialmente as universidades públicas federais. No artigo “A universidade demonizada”, publicado na Folha de S.Paulo em 24 de agosto passado, o reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e presidente da Andifes, João Carlos Salles, destaca a sensação beligerante com que convivemos: “A universidade tem sido alvo de múltiplos ataques e incompreensões, como se não mais fosse um projeto da sociedade e tivesse se tornado um problema. De desejo cívico, passou a estorvo público”.

Formas de desestruturação e intervenção direta nas IFES estão sendo naturalizadas e ocorrendo de maneira contínua e progressiva (Processo eleitoral do Cefet sofre intervenção do Ministério da Educação; Alvo de protestos, reitor ainda não conseguiu despachar na UFC.) O controle sorrateiro desses espaços também ocorre pelo sufocamento financeiro e implementação de programas governamentais que ferem a autonomia universitária. A partir de concepções enviesadas e desconhecimento completo do que esses espaços de construção e desenvolvimento do conhecimento significam, os ataques são motivados pelo anti-intelectualismo e pelo anti-conhecimento.

Diante de estratégias comunicacionais arquitetadas pela manipulação racional da irracionalidade nos deparamos com uma tentativa de desmonte. Essa intenção ocorre em uma conjuntura adversa que apresenta disposição política de destruição do oposto. Nesse contexto, o pensamento divergente é entendido como uma forma de enfrentamento do inimigo que deve ser aniquilado.

Os jornalistas devem se preparar para atuar nessa realidade perversa transpassada pelo obscurantismo. Nela, as ferramentas digitais de comunicação estão sendo deliberadamente utilizadas para impedir que fatos se tornem conhecidos, sejam deturpados ou não passem de meras insanidades.

A naturalização do “discurso do absurdo”

Notadamente, a construção discursiva relacionada a universidades públicas federais adotada por algumas autoridades políticas e por correntes de ódio estruturadas no ambiente digital segue a lógica fomentada pelo caos e pelo “discurso do absurdo”. Essa lógica abdica de fatos e aposta nas crenças como verdades absolutas, por mais que nada faça sentido ou possa ser verificado percepções equivocadas são referendadas e reverberadas como verdades irrefutáveis. Esse discurso é intensificado pelo papel-chave que, de maneira geral, as universidade cumprem como elemento de desestruturação de práticas conservadoras.

Nesse cenário de guerra, em que o jornalismo desempenha um papel crítico, a ética jornalística pode ser um balizador no exercício cotidiano da cobertura dos fatos relacionados aos espaços públicos de educação superior evidenciando temáticas que realmente interessam à sociedade. Em meio à desestruturação da relação de confiabilidade possível dos referenciais jornalísticos com os seus públicos é fundamental e elementar tratar de interesses sociais coletivos que envolvem a oferta de educação e a possibilidade de dignidade a partir do acesso ao conhecimento.

A forma como os ataques e ingerências, prejuízos materiais e sociais relacionados às IFES são abordados e divulgados por jornalistas pode gerar diferentes repercussões amplificando ou mitigando o potencial de desinformação que habita o ecossistema digital e reflete na sociedade. Essa função, guiada pelo interesse público, pode contribuir para o combate às notícias falsas que não apresentam autores específicos ou comprovações mínimas e acabam sendo amplamente difundidas.

O império da mediocridade estruturado pela desconfiança

Recentemente, durante discussões sobre o fenômeno das fake news, o elemento “confiança” surgiu como algo determinante para o combate às ações de desinformação estratégicas com que convivemos regularmente. Durante o debate uma participante apontou três aspectos que demandam reflexão e detalhamento: informação precisa, informação objetiva e informação confiável.

Podemos partir do entendimento de que os elementos constituintes da informação precisam passam por técnicas e estratégias de apuração jornalística. Ao longo do tempo, o jornalismo legitimou as suas investigações por níveis significativos de depuração de dados e consulta de informações. A construção do relato jornalístico confiável é tangenciado por trocas que envolvem custos e benefícios. Em relação aos custos podemos destacar o tempo de apuração, que não está alinhado ao imediatismo, e exige dedicação e persistência por parte do jornalista.

A informação objetiva pode ser associada a elementos de clareza que têm como norte os fatos. Nesse caso, a objetividade é uma busca pelo esclarecimento a partir dos fatos. Em um universo de informações desencontradas e de artimanhas estratégicas de desinformação, esse é um fator crucial para estabelecer possibilidades de confiança. A perspectiva de possibilidade é o primeiro passo no processo contínuo de conquista e renovação da confiabilidade. Uma via de mão dupla que exige preparo de todos os envolvidos no processo comunicativo. O comprometimento na busca pela melhora do quadro degradante enfrentado atualmente depende da consolidação de capacidades informacionais que envolvem o consumo e os hábitos comunicacionais.

Referências e conceitos mínimos precisam ser convencionados, a consolidação de entendimentos e marcos mínimos para o processo de interlocução entre jornalistas e públicos depende de flexibilidade, transparência e fuga do viés de confirmação. A constituição de fatos deve ser afastada das opiniões em uma perspectiva comum que busque consolidar entendimentos legitimados por bases sólidas de informação. O fanatismo diante de situações e fatos difusos aprisiona o discernimento em uma redoma de certezas inúteis e obsoletas que arrastam as questões sociais e os fatos de interesse público para um lugar de retrocesso e mediocridade.

O primeiro traço aparente da informação confiável está estreitamente relacionado com a reflexão sobre a prática jornalística. O olhar crítico e autocrítico permite a verificação de como as abordagens estruturam os objetivos que orientam a ação de quem comunica. As informações jornalísticas constituídas em bases sólidas, não serão destituídas de sua essência, assim como as virtudes de confiabilidade não irão prescindir de estímulos regulares e de longo prazo dos profissionais e suas posturas diante dos fatos transformados em informação.

Referências

Artigo publicado na Folha de S. Paulo, no dia 25 de agosto de 2019, “Universidade demonizada”, caderno Ilustríssima.