Em entrevista, repórter do The Intercept Brasil disse ao objETHOS que bloquear jornalistas nas redes sociais é censura.

Denise Becker
Mestranda em Jornalismo (PPGJOR/UFSC) e pesquisadora do objETHOS

Eu acho que a transparência dos métodos do fazer jornalístico e do repórter em si nos tornam acessíveis.”
“Temos que ocupar estes espaços, sim, pois muitas vezes é o que chega a várias mulheres.”
“Eu denunciei a situação que nós, jornalistas, estávamos passando: sem água, com dificuldades de ir ao banheiro, sem cadeiras porque retiraram.”

“Eu fui bloqueada pelo presidente Jair Bolsonaro e pelos seus três filhos, o Flávio, o Eduardo e o Carlos”, afirma a repórter investigativa do The Intercept Brasil Amanda Ferné Audi. Jornalista com foco em política e direitos humanos, já colaborou para veículos como Folha de S. Paulo, O Globo, Gazeta do Povo, TV Globo, Poder 360 e Congresso em Foco. É vencedora do Prêmio Comunique-se 2019, na categoria “repórter mídia escrita”. Atualmente, escreve no The Intercept Brasil e participa da série de reportagens “As mensagens secretas da Lava Jato”. Em sua conta no Twitter, já sofreu ameaças, xingamentos de todo tipo e foi bloqueada pelo presidente, seus três filhos e outros políticos.

Em entrevista ao objETHOS, a repórter revela que já chegou a encerrar sua conta no Twitter devido aos ataques e ameaças na rede social, mas logo voltou atrás: “eu vi que é isso que eles querem, que a gente saia das redes, feche a página. Eles não vão ter isso, a democracia existe para que todo mundo tenha voz e a minha está aqui do mesmo jeito que a deles está também”, enfatiza.
Em todo o mundo, um levante agressivo tem como alvo jornalistas devido ao papel social fundamental que desempenham. Para impedir que repórteres exponham e responsabilizem os poderosos, governos abusam do poder, incitam à violência, buscam desacreditar o trabalho de jornalistas e intimidá-los ao medo.

Desde que assumiu o cargo, o presidente Jair Bolsonaro fez 501 declarações falsas ou distorcidas. Seus alvos frequentes são jornalistas e organizações de notícias, principalmente quando é exposto na televisão ou em algum jornal de grande circulação nacional. As mídias sociais do presidente brasileiro, principalmente o Twitter, virou o canal oficial do governo. Lá, faz pronunciamentos, publica a agenda e se comunica com os milhares de seguidores.
O Twitter é uma das redes preferidas dos jornalistas, muita usada como ferramenta de trabalho pela conexão direta com o público e oportunidade de cavar boas pautas. Dá para focar o trabalho, dar visibilidade a outras vozes e questões muitas vezes deixadas à margem da sociedade, observando o que outras comunidades e segmentos estão falando. Ao mesmo tempo, o Twitter pode ser perigoso, porque oferece munição aos inimigos e acesso facilitado aos jornalistas, especialmente às mulheres.
Os movimentos de ódio se intensificam às mulheres, que experimentam ataques pessoais e de gênero quando decidem ocupar os espaços online, principalmente se for uma jornalista investigativa denunciando os poderosos.

Na entrevista a seguir, Amanda Audi fala de sua atividade no Twitter, como lida com os frequentes ataques, da importância de ganharmos o espaço online e de como devemos explorar de maneira inteligente as redes.


Diante da perspectiva de ódio aos jornalistas nas redes sociais, deixar os espaços online já foi uma opção para você?

Eu não costumava usar as redes sociais de um jeito profissional, comecei no ano passado [2018]. Eu tinha uma conta de Twitter pessoal e criei outra para postar minhas matérias. Até então, eu não tinha muito a dimensão de como era a repercussão lá dentro. Foi uma surpresa o tipo de resposta que eu tive, tanto das pessoas que gostavam quanto das que vinham criticar, o que acho positivo, porque é bom todo tipo de resposta possível. Nos momentos mais críticos eu fiquei sim, cansada, desanimada com algumas coisas que apareceram por lá. Cheguei a fechar a minha conta, bloquear para o modo privado por algumas horas, no dia em que o perfil Isentões publicou um tuite meu e veio muita gente enchendo o saco, mas depois eu vi que é isso que eles querem, que a gente saia das redes, feche a página. Eles não vão ter isso, a democracia existe para que todo mundo tenha voz e a minha está aqui do mesmo jeito que a deles está também. Todo mundo tem legitimidade. Talvez eu tenha um pouco mais do que algumas pessoas que estão ali escondendo o rosto, que são robôs, fakes. Então eu não penso em sair, não.


Quais redes sociais você considera imprescindíveis aos jornalistas?

Eu acho que todas as redes são importantes e o Twitter obviamente é a mais usada, mais relevante, porque é usada pelo governo e autoridades para divulgar informações. Tem muita coisa rolando ali, assim como outras matérias de jornalistas, opiniões. É a rede mais importante. Acho que o futuro será explorar as possibilidades de informação em outros locais, como Instagram. Vejo que tem várias pesquisas sobre como usar o Instagram de maneira informativa, stories, por exemplo. A gente tem de estar ligada em todas elas, porque isso é o futuro e temos que ir entendendo como entrar em cada uma.


O olhar e as contribuições das mulheres nas conversas online trouxeram ganhos e mudanças significativas na cultura e na política. Movimentos como #BlackLivesMatter e #MeToo são apenas dois dos exemplos mais famosos no mundo. E no Brasil, quais movimentos te chamaram a atenção?

Aqui a gente tem muitos movimentos assim, que começam nas redes sociais e depois se ampliam. Eu lembro daquele #eunãomereçoserestrupada, que já faz alguns anos, acho que foi um dos primeiros e foi bem impactante. Depois vários outros, como #meuamigosecreto. Tem coisas que começam como brincadeiras e vão crescendo e trazendo visões importantes para pessoas que não tinham contato com aquilo. E chamam a atenção da mídia tradicional, de outras formas de veiculação, então é uma ferramenta muito poderosa para essas discussões que são tão relevantes hoje, contra o machismo, racismo, de empoderamento das mulheres, dos negros, de minorias, em geral.


Você considera que não ocupar estes espaços online representaria a perda de vozes e força, principalmente de jornalistas mulheres?
Eu acho que sim, a gente tem que ocupar estes espaços. Não só na internet, temos de ocupar espaços físicos também. Mas hoje a internet é um meio de debates muito importante na sociedade, temos que estar ali, colocar nossa voz, se fazer ser ouvida, representada. E muitas vezes é um local importante para você multiplicar a sua voz, para que mais pessoas possam ter acesso a alguns tipos de informação e debate e a internet, ainda bem, possibilita isso, amplia várias discussões e faz com que mulheres, às vezes, em cidades lá do interior ou sem muito acesso a movimentos, discussões e acesso à educação, possam ter contato com isso via redes sociais, ou grupos.


Das reportagens publicadas pela Vaza Jato que mais repercutiram de comentários no teu feed do Twitter, em algum momento fizeram você ter medo ou pensar em excluir suas contas em redes sociais?

Na Vaza Jato eu já estava “escolada” aos comentários indelicados e ameaças. Nenhum deles me causou nenhum medo tão grande a ponto de querer fechar a rede social ou tomar outra medida. Eu já tive outras situações impactantes em que as pessoas foram mais raivosas. Teve um episódio com a Joice Hasselmann ano passado, quando eu falei dos plágios dela, porque eu fui uma das pessoas que denunciou isso ao sindicato, em 2014 ou 2013. No momento, quando eu fiz isso, ela compartilhou me xingando e os seguidores dela vieram ameaçando. Foi a primeira vez que eu passei por uma situação dessas, quando eu fiquei mais assustada. Depois aconteceram outras vezes: quando o Bolsonaro me bloqueou; quando eu fui para a posse [do presidente eleito Jair Bolsonaro], eu denunciei a situação que nós jornalistas estávamos passando, sem água, com dificuldades de ir ao banheiro, sem cadeiras, porque retiraram, a gente não podia circular e um pessoal, os blogueiros do Bolsonaro, replicaram dizendo que eu estava mentindo, só que eles estavam mentindo, estavam em outro prédio, em outra situação, nem estavam no mesmo lugar que eu. Então quando começou a Vaza Jato eu já sabia como são esses ataques, como me preparar e como reagir. Foi tranquilo, muitas coisas eu relevo, no máximo bloqueio a pessoa que falou aquilo, se é alguma coisa muito, muito forte eu tiro um print e mando para os advogados. Mas, sinceramente, não acho que vale a pena gastar muito tempo com isso, porque essas ameaças são muito vazias. Em nenhuma delas eu senti realmente que, de fato, a pessoa iria até a minha casa fazer uma loucura. Claro, isso pode acontecer, só que o motivo desses tuítes indelicados, destas respostas ruins, são mais para me deixar com medo do que para fazer algo de fato concreto. Por exemplo, quando teve aquela história do pavão misterioso, inventaram umas conversas e tinha uma personagem nessa ficção deles que era a ‘mainha’. Supostamente, era eu, e isso gerou muitos comentários de pessoas falando que eu seria presa, que veria o sol nascer quadrado. Foi algo absolutamente mentiroso criado por sei lá quem, justamente para fragilizar a gente e deixar mal. Mas a gente respira fundo e supera.


Como lidar com os comentários dos seguidores? Você separa alguns momentos do dia para ler e responder?

Sobre os comentários, eu confesso que eu não faço muito isso. Desliguei as notificações no meu Twitter, então só vejo de pessoas que eu sigo. Isso já elimina muito o desgaste de toda hora ter notificação pulando, porque muitas vezes tem tuítes com muita resposta e eu não consigo dar conta de acompanhar todo mundo que está curtindo e comentando. Passo o olho no que de importante estão falando, mas não costumo responder. No começo respondia os mais ofensivos, mas agora acho que não vale a pena. Sei que perco muita coisa boa, mas eu também me poupo do desgaste mental de ver a galera me xingando, criando histórias, ameaçando etc. Eu tento não deixar de passar o olho por tudo, porque às vezes tem comentários que são bons, sugestões de pauta, enfim, é o ônus e o bônus da vida na internet.


A cada tuíte há uma reação diferente no seu feed, muitas vezes agressiva. É assim que observei algumas de suas interações, principalmente quando tem novas denúncias da Vaza Jato. Quais são as melhores práticas para lidar com usuários raivosos do Twitter e que reagem às suas publicações?

A resposta é, principalmente, ignorar. Claro que cada um vai gerar uma reação diferente, somos humanos e muitas vezes queremos responder ou ter algum tipo de resposta mais incisiva. Mas o que tomei por regra é não bater boca com bot, fake e pessoa que está ali só para te fragilizar. Eles não querem discutir, não querem debater. Quando vejo alguém com uma dúvida sincera, uma crítica boa, positiva, construtiva, eu respondo, avalio, levo em consideração. Mas quando é algo raivoso, vazio, só pelo ódio de me atacar, eu deixo quieto, é a melhor coisa que se faz. Ignorar pode ser a melhor saída e a mais elegante também.


Quando governantes e autoridades políticas fazem das redes sociais o principal canal de comunicação com o público, mas bloqueiam jornalistas toda vez que se sentem contrariados, seria uma censura, na sua opinião? O que fazer nestes casos?

Eu acho que é censura, sim. Como a gente estava falando antes, neste governo muitas informações e anúncios são dados pelas redes sociais, principalmente pelo Twitter. É muito complicado quando você bloqueia jornalistas, porque você está privando os profissionais que dependem daquela informação para fazer o seu trabalho, de acessar, justamente, o que deveria ser público. Claro que a gente pode fazer outros perfis fakes para acessar, então é uma censura mais simbólica. Eu, com a minha conta, não consigo ver as informações nem comentar em nada com meu nome. Tenho que entrar com outro perfil para dar uma olhada lá. Claramente, ele não me quer por ali. Fui bloqueada pelo presidente Jair Bolsonaro e pelos seus três filhos, o Flávio, o Eduardo e o Carlos. E dos ministros foram Abraham Weintraub e o Ricardo Salles. Não lembro se teve mais algum.


A repercussão de uma publicação sobre reportagens e até opiniões são comuns no perfil de jornalistas no Twitter. De alguma maneira, as reações do público nos comentários são positivos e merecem respostas?

Os comentários são sempre importantes. Não acho que comentários raivosos devam ser levados em consideração, mas críticas construtivas, sim, e eu levo muito em consideração, muitas vezes respondo as dúvidas [das pessoas] de como foi a operação ou alguma coisa que não ficou clara do texto. Se for uma avaliação justa e sincera, isso é demais. É muito bom que as redes sociais permitem esse tipo de interação com os leitores, fica uma relação mais próxima e mais transparente e isso sempre é positivo. Inclusive, eu acho que a transparência dos métodos do fazer jornalístico e do repórter em si nos tornam acessíveis. É um grande passo para aumentar a relevância jornalística nos próximos anos, já que, no mundo todo, ultimamente, as pessoas tentam colocar em descrédito.


Você já se viu em uma tempestade de tuítes que atingiu um volume grande de pessoas e que precisou ser resolvido? Como foi o resultado?

Teve essa vez da Joice, e foi a primeira que aconteceu comigo de ter uma avalanche de tuites e eu não saber como lidar. O que eu fiz foi tentar deixar para lá algumas coisas e as mais complicadas eu dei print, mas não cheguei a fazer um BO [boletim de ocorrência]. Eram muitas pessoas sem identidade e para o Twitter revelá-las teria que entrar com ação judicial. Como era muito trabalho, resolvi não ter esse desgaste. De qualquer maneira, essa foi a primeira vez, e fiquei muito impressionada, não imaginava que poderia ser uma coisa tão grande e que me causasse tanto desgaste em tão pouco tempo. Isso me deu certa projeção, porque algumas pessoas ficaram do meu lado e outras me odiaram. Isso é natural, as pessoas escolhem um lado mesmo quando não necessariamente tenha que ter um lado. Eu trouxe um fato e a política [Joice Hasselmann] se aproveitou tentando me atacar e crescer em cima disso. Enfim, a gente sabe que se expõe em algumas coisas e que outras pessoas vão surfar na onda.


O Brasil é um dos países com maior número de pessoas conectadas no mundo, o que representa 70% da população. Você considera as redes sociais uma ferramenta importante para o jornalismo?

Considero muito importante as redes sociais para o jornalismo. A gente tem de lembrar que apesar de ter muita gente nelas, não é a população inteira que está lá. Muitas vezes a gente vê nossos governantes agindo como se fosse assim. Por exemplo, algumas vezes observamos os governantes propondo enquetes sobre políticas públicas no Facebook, o que é uma coisa absurda. Minha avó não usa Facebook e não poderá votar. Isso não é democracia. De modo geral, a gente tem que usar as redes sociais no jornalismo, porque alguma pessoa não tem mais TV em casa. Na internet, não chegam a acessar site de notícia, então a gente tem de estar ali no Facebook, no Twitter, no Instagram, nos lugares onde as pessoas estão, porque a informação nunca acaba e [jornalistas] precisam buscar onde ela pode ser acessada. Cada local, cada uma dessas ferramentas tem a sua própria linguagem que nos permite ir brincando com formas de contar cada história. Às vezes podemos contar melhor uma história numa série de stories do que necessariamente em um textão, isso pode ser mais positivo na transmissão da informação.


Como os jornalistas podem tirar melhor proveito das redes sociais?

Principalmente, se familiarizar com elas, usar e abusar no uso bem consciente para entender a linguagem e os meios, como cada rede e usuários se comportam, que tipo de notícia vai melhor em cada um dos formatos. Acompanhar o que outros jornais estão fazendo, como Folha, Estadão, The Guardian, New York Times estão usando estas redes e buscar ideias novas. É um campo ainda muito inexplorado, temos que ir encontrando meios de transitar em outros formatos. Não tem regras, podemos criar muita coisa e isso é muito positivo.