Dairan Paul
Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (UFSC) e pesquisador do objETHOS

Resultados imediatos para questões complexas emergem ao gosto da própria rotina jornalística, veloz e dependente de respostas rápidas. A situação não melhora quando repórteres precisam cobrir uma pandemia global e atender a uma audiência sedenta por informações. Na falta delas, o vácuo pode ser preenchido por teorias conspiratórias que indicam soluções milagrosas fáceis de digerir. É o que a Organização Mundial da Saúde (OMS) caracterizou recentemente como infodemia.

Para combater esse quadro, cabe um alerta feito pelo pesquisador Wilson Bueno, em artigo publicado há quase vinte anos: o jornalismo científico deve “vestir o uniforme do ceticismo” e desconfiar de qualquer informação que recebe. Segundo defende o professor, seria preciso ultrapassar a instância técnica do jornalismo especializado em ciência, e investir no senso crítico. Assim, fontes interessadas – como lobbies, agências de propaganda e grupos religiosos – são mais facilmente identificáveis, em meio à disputa entre conhecimento científico e pseudocientífico.

Wilson da Costa Bueno é professor sênior da Universidade de São Paulo (USP), com mestrado e doutorado pela mesma instituição. Já publicou artigos e livros sobre comunicação organizacional e empresarial, jornalismo científico e especializado em saúde. É ex-presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) e diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa.

Na entrevista a seguir, Bueno discute as tensões entre os campos do jornalismo e da ciência, o surgimento de grupos negacionistas e a divulgação científica em tempos de infodemia:

O senhor defende que é preciso politizar o jornalismo científico, para além de uma leitura apenas técnica da ciência. De forma geral, como avalia a cobertura do coronavírus na imprensa brasileira até então?

Particularmente, sempre defendi a necessidade de contemplar a ciência, tecnologia e inovação como mercadorias associadas a interesses de toda ordem, inclusive políticos. O Jornalismo Científico, e a divulgação científica de maneira geral, estão, como outras modalidades do Jornalismo (em Saúde, Rural, Ambiental), submetidas a constrangimentos ou tensões, em virtude de lobbies agressivos e que não estão, muito pelo contrário, comprometidos com o interesse público.

A cobertura do coronavírus evidencia este cenário. É preciso identificar facilmente as tensões derivadas de pressões de natureza política e de ações identificadas com os interesses, por exemplo, da indústria da saúde.

Cobrir o COVID-19 parece representar um desafio inédito ao jornalismo, mesmo para profissionais especializados em saúde. Experiências anteriores, como o surto do zika vírus ou da febre amarela, podem ensinar algo aos repórteres, em termos de cuidados éticos na linguagem e apuração?

Deveríamos já ter aprendido que os lobbies atuam intensamente durante períodos de crise, notadamente porque grandes corporações e setores empresariais vislumbram oportunidades de garantir e ampliar os seus privilégios, como a indústria farmacêutica e o sistema financeiro, para só citar dois casos neste momento. Não é possível contemplar nem mesmo a Organização Mundial da Saúde como um organismo acima destes interesses, assim como não se pode ingenuamente acreditar que a atual direção da ANVISA esteja comprometida com o interesse público, tendo em vista, nestes dois casos, a influência decisiva de instâncias políticas e empresariais.

Movimentos negacionistas da ciência, como grupos antivacinas, ganharam força nos últimos anos. Visibilizá-los é importante? Quais recomendações o senhor daria a jornalistas que apuram pautas como essa?

Há relatos importantes sobre a ação destes movimentos negacionistas também na crise do coronavírus. Os jornalistas devem estar atentos, evitando cair em armadilhas colocadas por instituições (religiosas ou não) que pretendem, a todo momento, negar a ciência como protagonista, difundindo ideias e teorias absurdas, como o terraplanismo e o criacionismo, ou demonizando alternativas já consagradas, como as vacinas.

Cortes de verba e ataques à autonomia universitária são frequentes no atual governo, reacendendo uma discussão sobre a importância da ciência. O senhor considera que a divulgação científica é satisfatória no jornalismo brasileiro? Quais tensões existem na relação entre repórteres e cientistas que atuam na condição de fontes?

Há uma massa crítica importante no jornalismo científico brasileiro, seja pela capacitação gradativa de profissionais de imprensa (muitos deles com mestrado e/ou doutorado em determinadas áreas da ciência – meio ambiente, física, biologia, química, dentre outras) seja pela parceria estabelecida com universidades e institutos de pesquisa de inegável competência e credibilidade.

Boa parte das empresas ou instituições científicas e de pesquisa de ponta têm equipes de comunicação competentes (Embrapa, Fiocruz, as três universidades paulistas, universidades federais, Ipea, IPT e muitas outras).  Não podemos generalizar, no entanto, porque há várias imprensas brasileiras, com perfis e objetivos distintos, e porque, em boa parte dos casos, prevalece a ausência de espírito crítico e são privilegiados compromissos extra científicos que se sobrepõem à cobertura qualificada em ciência, tecnologia e inovação. Não se pode ignorar a ação nefasta das autoridades brasileiras, especialmente a nível federal, que negam o valor da ciência, tecnologia, inovação e da educação de maneira geral e reduzem drasticamente os investimentos.

Há tensões reais entre jornalistas e cientistas inclusive porque eles estão inseridos em sistemas de produção distintos, com metodologias de trabalho e objetivos distintos. Mas é preciso reconhecer que estas tensões têm se atenuado de maneira significativa nos últimos anos em virtude da experiência mais intensa de relacionamento e da capacitação de um conjunto amplo de divulgadores da ciência.

Quando jornalistas e cientistas assumem a importância da democratização do conhecimento científico e, para isso, estabelecem parcerias produtivas, o jornalismo científico alcança níveis de excelência. Essa aproximação pode ser percebida na cobertura da crise do covid-19 com uma relação estreita e cordial entre especialistas da área de Epidemiologia, Infectologia, Psicologia, Medicina etc, e os jornalistas. Posso citar, sobretudo, a experiência atual da Globonews [na cobertura do coronavírus].

Como dito pelo senhor, jornalismo e ciência atuam em tempos de produção distintos. Nesse sentido, quais saídas o senhor recomendaria aos jornalistas que lidam com audiências ansiosas por resposta imediatas?

Não há como negar a aceleração da informação e seu fluxo intenso nos dias de hoje, mas é necessário ter espírito crítico, não reproduzir, instantaneamente, informações ou teorias que não têm fundamento, ainda que, a priori, possam fazer sentido. Nem sempre aquilo que gostaríamos que fosse verdade se confirma na prática e, sobretudo, os jornalistas e comunicadores devem ter compromisso com a circulação de informações qualificadas. Notícias que propagam grandes descobertas e resultados de pesquisa que se mostram surpreendentes, contrariando teorias já estabelecidas, costumam ser inverídicos. Antes de aceitar qualquer informação, sobretudo propagada pelas mídias sociais, verifique as fontes que a veicularam, faça buscas no Google para checar o que e quem se refere também a estas informações. Se uma fonte informa que alguém descobriu a vacina para o Covid-19, os institutos de pesquisa, as universidades e mesmo os periódicos confiáveis, com certeza terão divulgado essa informação em primeira mão e é preciso acessá-los para a devida confirmação. Procuro me basear no seguinte pressuposto: tudo que parece novidade demais, “cientistas” que prometem curas milagrosas ou revolucionam, com suas pesquisas, o mundo da ciência, tecnologia e inovação merecem a nossa suspeição. Seja cético, até segunda ordem. Não acontecem coisas espetaculares todos os dias.