Amanda Miranda
Jornalista na UFPR, doutora em Jornalismo pela UFSC e pós-doutoranda na Escola de Comunicações e Artes da USP

Pesquisadores estimam que coronavírus esteja circulando até setembro. Pesquisadores da UnB sequenciam genoma do coronavírus. Pesquisadores treinam algoritmos para calcular probabilidade de infecção por coronavírus a partir de exames de sangue. Pesquisa mapeia profissões com maior risco de contágio de coronavírus. Pesquisador baiano coordena equipe para desenvolver vacina contra o novo coronavírus.

Uma busca no Google Notícias [realizada na quinta-feira (9), 11h] indexa estes como alguns dos conteúdos mais relevantes com as palavras “pesquisa” e “coronavírus”. Hospedadas em portais e sites jornalísticos de referência, as notícias trazem, além de doses de esperança em meio a uma crise, a instituição científica para uma espécie de protagonismo no enfrentamento à pandemia.

O acesso às homes de dois dos principais portais do Brasil, UOL e G1, também indica que, na cobertura da pandemia de Coronavírus, editores estão procurando a ciência como forma de responder incertezas. Isso ocorre justamente em um contexto no qual as dúvidas despontam cotidianamente, tanto nos gestos mais simples de cada indivíduo, quanto nas decisões mais complexas do Estado.

No sábado (11/04), às 10h, um dos principais destaques do UOL trazia um estudo de Cambridge como chamada central e as apostas da ciência brasileira como título secundário. Quem acompanha a cobertura diária de ciência e tecnologia no Brasil sabe que, no geral, assuntos relacionados ao tema dificilmente figuram no topo das homes. O G1 também deu posição privilegiada ao estudo de Cambridge na sua página principal, indicando que o conteúdo, originalmente produzido pela BBC, tem valores notícias que interessam também ao Brasil.

Para o jornalismo, buscar a ciência e a tecnologia como fonte de respostas em momentos de incerteza não é novidade – foi assim em outros momentos críticos da história recente, como na pandemia da gripe A (H1N1), de 2009. Este é um movimento que confere aos veículos o valor de credibilidade e de objetividade, tão comuns à ciência, ainda que permanentemente em xeque e em tensão no jornalismo.

A busca da ciência como fonte segura de respostas na cobertura jornalística ocorre em um momento de radicalização e descrença nas instituições, de negacionismo, de ascensão discursiva das dicotomias ciência e religião e de deterioração do papel social das universidades públicas – principal reduto da produção científica nacional. Esses fatores dão um papel central aos organismos de comunicação dessas instituições, que têm, além da difícil missão de mediar o conhecimento e o saber produzido nas universidades junto à imprensa, o desafio de se apresentar como fonte direta de informação à comunidade.

A ciência e os experts

A valorização da racionalidade científica como fonte de produção de conhecimento foi fortalecida a partir do movimento positivista, corrente filosófica fundada por Augusto Comte, no século XIX, que, entre outras coisas, indicava a necessidade de se substituir os “agentes sobrenaturais” por “entidades ou abstrações personificadas”, com a preparação da imaginação para o “verdadeiro exercício científico”.

Embora este não seja um bom momento para trazer à tona debates relativistas – o que de certo modo foi e vem sendo feito por correntes pós-modernas – é importante destacar que existe uma série de críticas ao modo como o sistema de saber da ciência se tornou uma arma para o liberalismo e uma fonte de exclusão. Teóricos como Michel Foucault e Boaventura de Sousa Santos também trazem, ao seu modo, essa crítica em obras amplamente difundidas entre estudiosos das humanidades.

No jornalismo, as fontes da ciência e a valorização dos experts têm servido a fins variados. No jornalismo utilitário, elas embasam conselhos e dicas do cotidiano; no científico, são uma forma de legitimar a ciência em seus principais desafios; no generalista, reforçam discursos a partir da valorização do conhecimento. São, no geral, uma forma de garantir credibilidade e relevância às notícias e reportagens, reforçando aquilo que o sociólogo Anthony Giddens chama de “sistema perito” – “sistemas de excelência técnica ou competência profissional que organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que vivemos hoje” (GIDDENS, 1991, p. 35).

A universidade pública e sua relevância

No Brasil, as universidades públicas são a principal fonte de produção do conhecimento científico. De algum modo, isso garante a elas um lugar de destaque no noticiário em meio a uma pandemia: os cientistas são acionados dentro de suas áreas de especialidade para explicarem à população aquilo que se configura como incerteza, dúvida e risco.

Além das explicações utilitárias, buscam-se também respostas que nos aproximem da cura: medicamentos, vacinas, novos protocolos de tratamento. Dentro dos laboratórios, cientistas nunca foram tão vigiados e acompanhados pela imprensa, que agora também se depara com a precariedade de investimentos e se dá conta, forçosamente, que ciência não opera com milagres.

Também é das universidades públicas que estão emergindo fontes que apresentam contrapontos amparados em evidências para se opor à radicalização do presidente Jair Bolsonaro. O uso de cloroquina, por exemplo, apresentado como milagroso pelo presidente, já foi criticado por uma das principais universidades do país, a Unicamp. Do mesmo modo, a Fundação Instituto Oswaldo Cruz, referência na pesquisa em saúde, vem usando referências sólidas para defender o isolamento, medida que é fortemente combatida pela chamada “ala ideológica” do governo federal.

Diante de tanta visibilidade, já se pode questionar se a percepção pública da ciência no Brasil está tendo algum impacto por conta de um aparente protagonismo na pandemia do coronavírus. É premente acompanhar se, finalmente, aos olhos da população, poderemos prever pressões sociais por mais apoio e investimento na produção de C&T, hoje tão precarizada.

A comunicação pública nas universidades e institutos de pesquisa pode ser uma aliada neste caminho – tanto fortalecendo os canais com a imprensa de referência para divulgar estudos e especialistas, como para criar seus próprios mecanismos de diálogo com a opinião pública.

Neste sentido, equipes multidisciplinares nas universidades e instituições de pesquisa são peças chave no planejamento estratégico de uma comunicação pública da ciência que possa servir a pelo menos três finalidades urgentes no Brasil, que de alguma forma se alinham entre si e interessam sobremaneira ao jornalismo e à cobertura da pandemia: 1 – combater discursos negacionistas; 2 – apresentar soluções a curto, médio e longo prazo vindas dos seus laboratórios e dos seus pesquisadores; 3 – recuperar sua credibilidade, posta em xeque por agentes políticos.

As universidades precisam ser uma linha de frente contra a covid-19, mesmo com a precarização. Fonte: Jornal da USP

Cinco desafios para as universidades

Não existe receituário para lidar com essas três finalidades urgentes, especialmente se levarmos em conta que as equipes de comunicação nas universidades são pequenas e também sofrem com a precarização no funcionalismo público. Mas há desafios imperativos que podem começar a ser encarados pela via da práxis. Abaixo, listamos cinco destes desafios, que não são novidade para estudiosos da divulgação científica, mas se mostram essenciais e dignos de esforços coletivos.

  1. Treinar portas vozes

Existe uma farta bibliografia que trata dos embates entre cientistas e jornalistas na comunicação da ciência. Na tese Narrativas híbridas do científico e do popular no jornalismo especializado em saúdeapresentamos alguns desses embates e apontamos para uma direção oposta (que chamamos de zona de hibridação), mais colaborativa, em que cientistas e jornalistas compartilham um lócus de interação. Este é o lugar que deve prevalecer em tempos de pandemia.

Os cientistas precisam aprender a se comunicar com o público, mas isso não irá ocorrer de forma espontânea – é preciso capacitá-los para atender a imprensa, considerando que, para muitos, microfones, câmeras e gravadores podem comprometer e causar danos às suas pesquisas.

Essa capacitação exige um planejamento a longo prazo e não deve se basear somente em cursos de media training – é preciso uma série de esforços para apresentar a comunicação como um setor indispensável à universidade e como um setor técnico, não um braço político-administrativo das gestões. É parte deste esforço sensibilizar a comunidade científica a se comunicar com jornalistas apresentando a divulgação científica como um norte institucional, necessário ao fortalecimento das universidades e do seu papel social.

  1. Explicar o tempo da ciência

A busca desenfreada por medicamentos e vacinas que sejam a tão esperada “cura” da doença faz com que as universidades devam estar atentas a um desafio crucial: explicitar que o tempo da ciência não é o tempo da urgência. A produção do conhecimento científico é, sempre, um processo baseado em tentativas, erros, avanços e recuos. Se considerarmos que nossos laboratórios estão com recursos escassos isso é ainda mais evidente.

As manchetes, muitas vezes, vendem soluções que ainda não são efetivas. Testes de medicamentos ou de vacinas costumam demorar anos para serem feitos – e essa é uma exigência natural quando se lida com a vida humana. As equipes de comunicação, especialmente os jornalistas, devem se atentar a isso e, sempre que possível, articular estratégias, no relacionamento com a imprensa, que desnaturalizem a ideia de que processos longos e gradativos são rápidos e efetivos.

Este também é um ponto sensível na pesquisa sobre o jornalismo científico e a divulgação da ciência – lembrar que a construção do conhecimento é lenta e que, eventualmente, manchetes que sinalizam para a cura de algo representam somente uma etapa de uma pesquisa realizada por um grupo de pesquisadores.

  1. Desconstruir mitos

Em tempos de fake news, a comunicação da universidade também pode se apresentar como um contraponto aos mitos e polêmicas que emergem junto à pandemia. Uma das polêmicas mais evidentes, neste momento, é o do uso da cloroquina – solução apresentada em pronunciamento oficial do presidente Jair Bolsonaro. Os veículos de comunicação, nos últimos dias, têm recorrido aos cientistas para explicarem as possibilidades de eficácia do medicamento – todas incertas, cobertas de dúvidas e envolvendo riscos.

A comunicação pública tem como um de seus objetivos básicos fomentar a cidadania. Há muitas formas de as instituições públicas resgatarem esse papel pensando em responder ao interesse público. No campo da ciência, combater os mitos que popularizaram movimentos negacionistas talvez seja um dos papéis centrais. Quando a sociedade souber o papel da ciência e sua importância para o desenvolvimento do país, dificilmente irá negá-la ou aderir facilmente a respostas fáceis para questões complexas.

Nesse sentido, a comunicação das universidades pode lançar mão das táticas já difundidas por agências de fact checking, que buscam combater as fake news. Levar pesquisadores ao debate público para desconstruir mitos é uma forma de contribuir com o papel de fomentar a cidadania por meio da informação.

  1. Ser mais popular

A ciência também tem um viés prático que pode e deve ser explorado para fortalecer o papel das universidades como agente protagonista de combate à pandemia. Uma prova disso é a forma como laboratórios de diferentes instituições têm servido para a produção de álcool em gel e de máscaras de proteção para profissionais da saúde.

O conhecimento utilitário proveniente da ciência pode servir para balizar dicas práticas que são organizadoras do cotidiano de quem consome informação em meio à pandemia: por que usar máscaras de tecido é importante? Por que o isolamento e o distanciamento social são medidas urgentes? Há, no jornalismo, espaço para explorar grandes questões e debates da ciência, mas também seu conteúdo mais popular, relacionado à vida prática. E não é demérito para os cientistas ocuparem esse papel pedagógico, mostrando como a ciência faz parte da nossa vida o tempo todo.

Neste aspecto, é importante verificar também como os órgãos públicos, como prefeituras e governos dos estados, têm aderido à ciência como método racional de tomada de decisões, aproveitando essa espécie de aconselhamento que a comunidade científica tem oferecido. Na última sexta-feira, a UFSC deu um bom exemplo de como essa perspectiva pode e deve ser explorada com mais ênfase: divulgou um estudo que engenheiros e matemáticos encaminharam ao gabinete do reitor, apontando a expansão da Covid-19 em Santa Catarina. A pesquisa serviu para a universidade se posicionar diante da opinião pública orientando o “fique em casa” como medida a ser adotada.

  1. Ser interdisciplinar

Neste primeiro momento, parece natural que a medicina e a biologia sejam as principais áreas do conhecimento acionadas para tentar explicar a pandemia de Coronavírus e apontar saídas para o problema. Se segmentarmos estes dois campos, veremos espaços privilegiados para a infectologia, a microbiologia e a epidemiologia, entre outros da área médico-hospitalar.

Para as equipes de comunicação, contudo, um novo desafio se configura desde já: fornecer caminhos para se observar e interpretar a pandemia como um fenômeno social. As ciências sociais e humanas são basilares nesta tarefa e ajudam a dimensionar o acontecimento a partir de um outro ângulo. Também neste momento, as ciências econômicas vêm sendo acionadas como fontes de respostas sobre a crise que deve assolar o mundo, gerando desempregos e caos social – mas não é só ela que deve se sobressair.

É preciso, e talvez seja cada vez mais necessário, reforçar o lugar que as sociais aplicadas (psicologia e educação, por exemplo) e as humanidades ocupam em contextos de crises. Se os veículos de comunicação tradicionais dificilmente irão recorrer a esse enfoque, por conta das pautas factuais que o momento exige, a comunicação pública pode e deve abordar esse enquadramento.

Os desafios, que são permanentes para quem atua na comunicação pública de instituições produtoras de conhecimento científico, podem ser facilmente adaptados ao jornalismo, que deve continuar vendo a ciência como uma aliada nas informações e no combate à pandemia. O cenário e o momento nos dirigem para uma constatação: é primordial que os canais de informação sejam reforçados em direção à racionalidade e à valorização de um saber que analisa, interpreta e reflete sobre a realidade e seus entornos.

Referência:
GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. Tradução de Raul Fiker. São. Paulo: Editora UNESP, 1991.