Andressa Kikuti
Doutoranda em Jornalismo (PPGJOR/UFSC) e pesquisadora do objETHOS

Janara Nicoletti
Doutora em Jornalismo (PPGJOR/UFSC) e pesquisadora associada do objETHOS

Enquanto o mundo busca soluções para combater a pandemia do novo coronavírus e restabelecer a convivência social, jornalistas ampliam seus esforços para informar a população e, ao mesmo tempo, garantir sua própria segurança. No Brasil, esses profissionais têm em média 52% de risco de contrair o coronavírus, conforme o Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Este dado é evidenciado por nosso entrevistado desta terça-feira (21), Thales Vilela Lelo, doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com pesquisa focada nas reestruturações produtivas no mundo do trabalho dos jornalistas. Ele comenta os impactos da cobertura da Covid-19 sobre a saúde e a dinâmica de trabalho dos jornalistas brasileiros.

No dia 13 de abril, o editor de imagens do SBT do Rio de Janeiro, José Augusto Nascimento, de 57 anos, não resistiu à batalha contra a Covid-19. Antes de morrer, ele denunciou o ambiente insalubre que facilitou o contágio da doença entre os trabalhadores da empresa. Lelo salienta que “quase diariamente a imprensa brasileira noticia casos de jornalistas que contraíram a Covid-19. Só no último dia 7 de abril a Globo confirmou 13 casos, a maioria deles no Rio de Janeiro”, ressaltou.

Durante a pandemia, esses profissionais, que já tinham sua jornada de trabalho estendida para o seu tempo livre, passam a viver disponíveis 24 horas para a cobertura, que agora é feita por muitos de dentro de casa. A medida de distanciamento social, se por um lado ajuda a proteger a saúde de trabalhadores e trabalhadoras, pode ampliar a precariedade laboral. Lelo acredita que as novas rotinas adotadas neste momento podem repercutir na intensificação de tendências do trabalho digital, “com reflexos na flexibilização de contratos e no enxugamento de cargos e salários”.

Segundo o pesquisador, “os custos psicológicos deste período de quarenta serão muito maiores para as mulheres jornalistas”, uma vez que, em geral, são elas que assumem a sobrecarga da educação dos filhos e do serviço doméstico. Além disso, nesta entrevista para o objETHOS, ele reflete sobre o sofrimento ético do profissional da mídia frente aos desafios da cobertura da Covid-19.

“Acredito que a experiência de trabalho remoto pode ser interessante para empresas inclinadas a sobrecarregar ainda mais seus trabalhadores sob a justificativa de que a cobertura da pandemia é prioridade sobre qualquer outra esfera da vida.”

Quais os riscos que a convivência diária com tragédias, exposição a perigos físicos, sobrecarga de trabalho, violência e assédio relacionadas à cobertura da Covid-19 apresentam para a saúde dos jornalistas? Que cuidados precisam ser tomados por parte das organizações de mídia e pelos profissionais?

Considerado um dos setores essenciais neste período, o jornalismo tem desempenhado uma cobertura ativa da crise e diversos profissionais continuam se expondo a situações de risco para realizarem a apuração de pautas. Embora muitos veículos de imprensa tenham adotado políticas de isolamento, liberando funcionários dos grupos de risco e reduzindo o fluxo de trabalhadores nas redações, já surgiram denúncias de profissionais que tiveram contato com funcionários testados positivos para a Covid-19 e que não foram afastados de suas empresas.

É preciso levar em consideração que o histórico de descumprimento de leis trabalhistas e de degradação das condições laborais nas organizações jornalísticas cria, mesmo sem a pandemia, um ambiente insalubre para os comunicadores do ponto de vista físico e mental. A crise de saúde pública só agrava esse quadro. Mas, mesmo se pensarmos nos repórteres que foram autorizados a trabalharem de suas casas, a intensa demanda por notícias, especialmente em veículos que realizam cobertura factual, gera um excesso de trabalho aos profissionais em um contexto já delicado devido ao sofrimento causado pelo isolamento social.

Uma série de levantamentos recentes vêm apontando como a quarentena tem alterado os hábitos de consumo de mídia dos brasileiros, com um aumento expressivo na busca por informações jornalísticas. O problema é que as empresas podem aproveitar este contexto de alta demanda para sobrecarregarem suas equipes com a justificativa de que o período exige uma entrega total ao jornalismo. A crise oferece uma oportunidade de a imprensa reconquistar, além de sua credibilidade, alguns anunciantes que decidiram nos últimos anos investir exclusivamente em plataformas digitais. Se o efeito dela for uma aceleração ainda maior nos ritmos de produção da notícia, os efeitos para a saúde dos jornalistas serão catastróficos, com aumento nos casos de transtornos psicossomáticos, lesões por esforço repetitivo, entre outras doenças decorrentes do excesso de trabalho.

Idealmente, as organizações deveriam, além de atender às recomendações das autoridades sanitárias, oferecer o devido suporte aos seus funcionários neste período, mantendo seus cargos e salários, promovendo jornadas e escalas de plantão adequadas aos acordos coletivos da categoria e oferecendo assistência médica, jurídica e psicológica. Contudo, este tipo de política de proteção ao trabalhador é praticamente inexistente nas empresas de mídia do mundo todo, como frequentemente atestam os relatórios internacionais sobre o assunto. Reflexo dessa cultura de descaso ao comunicador é que muitos veículos de imprensa continuam promovendo demissões coletivas em meio à pandemia. Ou seja, além de não receberem amparo, muitos profissionais irão adoecer em meio a esta crise e serão abandonados à própria sorte, isto se não forem demitidos.

Você acredita que a polarização ideológica em torno das formas de lidar com a Covid-19 pode gerar sofrimento ético para os jornalistas que cobrem o tema? E de que forma isso afetaria o trabalho realizado pelos profissionais?

Como é típico de governos autoritários e antidemocráticos, o Poder Executivo Federal no Brasil é hoje uma fonte de constante ameaça à liberdade de imprensa, contido somente pelo sistema de freios e contrapesos garantido pela separação entre os poderes. E este desrespeito à imprensa se manifesta, recorrentemente, como um desrespeito aos próprios jornalistas, como as perseguições recentes a Patrícia Campos Mello e Vera Magalhães bem ilustram.

A questão é que o governo não persegue somente comunicadores que investigam as violações explícitas do presidente às regras do estado democrático de direito. Se a polarização ideológica que o governo representa se encerrasse aí, somente os jornalistas especializados em coberturas investigativas estariam atemorizados pela possibilidade de serem publicamente alvejados por membros do governo, pelo próprio presidente ou por suas matilhas digitais. O problema é que o governo Bolsonaro não só rivaliza ideologicamente com a esquerda, mas sim com um pressuposto caro à democracia liberal de que as decisões de interesse público devam ser tomadas por meio de discussões amplas e bem informadas. Como entusiasta da ditadura, o presidente polariza em quaisquer situações nas quais o seu argumento não seja considerado a verdade, pois para o seu governo, impor um argumento é uma forma de demonstrar poder.

Esta polarização avança até mesmo sobre discussões mais técnicas, como é o caso da definição sobre a melhor política de saúde pública a ser adotada para enfrentar o espalhamento da Covid-19. Para o presidente, é uma questão de poder impor políticas de combate à pandemia absolutamente esdrúxulas para organismos multilaterais e autoridades sanitárias, incluindo até seu próprio ministro da Saúde. Então quando os jornalistas são pautados pelas campanhas de desinformação do governo federal sobre o tema e têm que responder com matérias que esclareçam, por exemplo, como o “isolamento vertical” não tem nenhum respaldo científico, há sempre o risco de se tornarem os novos alvos da perseguição bolsonarista. E esse temor é uma fonte de sofrimento constante para os comunicadores que estão realizando a cobertura da pandemia.

Mas quando penso em sofrimento ético, penso em situações nas quais o jornalista está ciente de que comete uma infração à sua ética profissional de, por exemplo, retratar com fidelidade os fatos narrados. O sofrimento de trair a sua própria dignidade é angustiante. À época em que Jair Bolsonaro ainda era candidato à presidência, a ex-chefe de redação da Rede Record, veículo ideologicamente alinhado ao ex-deputado, pediu demissão em resposta ao excesso de partidarismo da empresa. O gesto de pedir demissão do trabalho, nestas circunstâncias, é sintoma de um sofrimento ético que se tornou insuportável de conviver. E este sofrimento surge da consciência de que a empresa abrandou a cobertura jornalística em prol da propaganda política. Acredito que a saúde mental de jornalistas sérios, que permaneceram em veículos partidários do presidente por não poderem se dar ao luxo de pedir demissão, esteja hoje profundamente debilitada, porque é torturante fazer uma cobertura que suavize suas declarações estapafúrdias sabendo que isto pode custar vidas, além de desinformar a população.

Você acredita que há diferenças de gênero com relação aos desafios impostos pelo isolamento social durante a cobertura da Covid-19 para jornalistas homens e mulheres? Como isso pode ser observado?

No Brasil, as mulheres dedicam, por semana, quase o dobro do tempo que os homens em tarefas domésticas e atividades de cuidado, segundo a última pesquisa do IBGE sobre o tema, publicada ano passado. Para mulheres inseridas no mercado de trabalho formal, como é o caso de muitas jornalistas, a diferença para homens ainda continua sendo de pelo menos oito horas. Portanto, em qualquer setor ocupacional, as desigualdades decorrentes da divisão sexual do trabalho exercerão um efeito prejudicial à vida das mulheres. É fato que neste contexto de isolamento social esses efeitos se agravarão, uma vez que muitos serviços que suavizam a sobrecarga de tarefas foram restringidos, a exemplo do trabalho doméstico. É importante lembrar que o Brasil possui a maior população de trabalhadoras domésticas do mundo. Quando há uma redução na oferta deste serviço, ele irá ser executado mais frequentemente pelas mulheres que o contratam. A situação se agrava para jornalistas que têm filhos. Com as creches e escolas fechadas, os cuidados com as crianças serão outra tarefa que as mulheres irão desempenhar por muito mais tempo que os homens que também têm dependentes. Sendo o jornalismo um setor que exige dedicação quase que exclusiva ao trabalho, a situação para quem precisa dividir seu tempo com afazeres domésticos e atividades de cuidado beira o inviável. Por isto, os custos psicológicos deste período de quarenta serão muito maiores para as mulheres jornalistas.

É interessante notar que esta tendência não é exclusiva do Brasil, apesar de se agravar em países com desigualdades de gênero tão profundas quanto aqui. Há estudos sobre o trabalho das jornalistas em locais menos desiguais neste quesito, como nos países escandinavos, e os resultados frequentemente destacam como as comunicadoras estão mais sujeitas a abandonarem precocemente suas carreiras e a serem discriminadas nas redações quando o peso do trabalho doméstico lhes impede de se entregarem de “corpo e alma” às organizações que as contrataram. Estou certo de que no mundo todo hoje as jornalistas estão carregando um fardo muito maior que os seus colegas homens, com consequências relevantes para sua saúde mental e física.

“O problema é que as empresas podem aproveitar este contexto de alta demanda para sobrecarregarem suas equipes com a justificativa de que o período exige uma entrega total ao jornalismo.”

Uma das transformações mais evidentes na sociedade devido à pandemia são as mudanças no mundo do trabalho. Elas afetam inúmeras profissões – inclusive os próprios jornalistas. Quais os impactos mais relevantes desse deslocamento para a prática jornalística?

Nos últimos anos, diversas pesquisas sobre o mundo do trabalho dos jornalistas vêm destacando os efeitos da convergência digital nas rotinas de produção da notícia. Em um ecossistema controlado por plataformas como a Google e o Facebook (que concentram a maior fatia das receitas em publicidade online), uma das saídas encontradas por empresas jornalísticas foi adequar seu produto às lógicas do mercado digital. Os resultados mais visíveis deste processo são a “otimização” dos títulos das notícias aos serviços de busca, a aceleração dos regimes de publicação e a produção de matérias capazes de “viralizar”, seja inflando as métricas de acesso aos portais, seja gerando engajamento nas mídias sociais. Por isso, acredito que o efeito mais visível da pandemia na prática jornalística é o de intensificar tendências que já estavam no horizonte como consequência da própria convergência digital, com reflexos na flexibilização de contratos de trabalho e no enxugamento de cargos e salários.

Mas creio que a crise causada pela pandemia pode ter dois outros impactos negativos para os comunicadores: a diluição definitiva do tempo de descanso e o enfraquecimento da identidade profissional. Explico-me: sabemos que os jornalistas vêm trabalhando, cada vez mais, em jornadas que tipicamente ultrapassam os acordos coletivos da categoria. Em minha pesquisa sobre o tema, identifiquei que mais de um terço dos jornalistas do estado de São Paulo que entrevistei trabalhava em regimes superiores a dez horas diárias. Muito embora os trabalhadores possam ser contatados fora da redação por aplicativos de mensagem ou ligações telefônicas, a saída do local de trabalho representa, ainda que tenuamente, uma separação entre o tempo de trabalho e o tempo livre. A pandemia muda essa lógica, até pela própria urgência da cobertura.

O problema é que este acontecimento não deixará de ser urgente amanhã ou daqui a duas semanas. Também não há mais separação física a delimitar o tempo dedicado prioritariamente ao trabalho e o tempo de descanso, sobretudo para aqueles que estão realizando a cobertura de suas casas, alimentando simultaneamente os portais e todas as outras plataformas em que o veículo está hospedado. Em uma situação já profundamente traumática de calamidade sanitária, a extensão das jornadas, inicialmente justificada pelo imediatismo da pauta, pode se tornar um novo “normal” para os jornalistas.

O segundo ponto que gostaria de destacar é que o trabalho exercido de casa é um trabalho muito mais individualizado. Com isto não quero dizer que nas redações os jornalistas se sentem parte de uma grande comunidade. Mas as redações historicamente funcionam como espaço de socialização da identidade profissional e de partilha de sofrimentos, frustrações e conquistas. Em casa, é possível manter contato com os colegas via aplicativos de mensagem e videoconferências, mas estas são formas de interação muito mais formais que a relação face-a-face. Por isso, acredito que a experiência de trabalho remoto pode ser interessante para empresas inclinadas a sobrecarregar ainda mais seus trabalhadores sob a justificativa de que a cobertura da pandemia é prioridade sobre qualquer outra esfera da vida. Somado a isto, a falta de momentos para compartilhar experiências com os colegas pode tornar a situação ainda mais desgastante.

Mas há outras dimensões da prática jornalística que serão provavelmente afetadas neste contexto. Atualmente, o Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT) da Universidade de São Paulo, grupo do qual faço parte, está realizando um surveyvisando mapear os impactos da pandemia para o trabalho não só de jornalistas, mas também de outros profissionais da comunicação. Por certo os resultados irão indicar outras dimensões da prática jornalística afetadas como consequência da pandemia.

Como você avalia a cobertura jornalística sobre a pandemia em se tratando especificamente das condições de trabalho dos profissionais jornalistas?

Não é frequente que a grande imprensa relate, de modo realista, as condições de trabalho as quais os seus profissionais estão expostos, em especial em meio a uma crise sanitária. Notícias sobre os reflexos da pandemia no setor, quando muito, são divulgadas pelos sindicatos de jornalistas de cada estado, por veículos especializados (como os portais Imprensa e Comunique-se) e por um ou outro site alternativo ou independente.

Para a grande imprensa, o retrato do momento será, via de regra, um retrato panfletário, conveniente para promover sua própria cobertura do tema. Não à toa, muitos desses grupos que controlam a mídia no Brasil já correram para publicar editoriais exaltando seu zelo editorial neste período e enfatizando como adotaram prontamente as recomendações das autoridades sanitárias nas redações. Percebe-se nesses editoriais também um esforço de idealização do jornalismo praticado pelos grandes conglomerados como única via de combate às campanhas de desinformação sobre a pandemia, promovidas, principalmente, pelo presidente da República. Com isto não quero dizer que a grande imprensa não tem, em linhas gerais, feito uma cobertura atenta e informativa da crise sanitária desencadeada pelo espalhamento do Covid-19, mas sim que a realidade das condições de trabalho no setor é ofuscada pelo enaltecimento da cobertura que ela está realizando no momento.