Clarissa Peixoto
Mestra em Jornalismo pelo PPGJOR e pesquisadora do objETHOS

Em todas as situações da vida humana, individuais ou coletivas, é preciso tomar decisões que precedem algum grau de conhecimento. Na necessidade de experiência adquirida e racionalizada, o jornalismo encontra uma de suas funções sociais. É fruto de uma emergência histórica pelo conhecimento, se desdobrando em uma ferramenta de produção e reprodução simbólica, constituída na ideologia.

Embora o nosso cotidiano tenha sido invadido pelas notícias falsas e análises sem fundamento crítico, o jornalismo ainda é capaz de fornecer ferramentas para a compreensão dos fatos e para a análise coerente da realidade. De certo modo, essa capacidade intrínseca é utilizada pelos veículos jornalísticos hegemônicos como um pilar estratégico que contribui na rearticulação de novos consensos e na reorganização da própria hegemonia.

No sentido gramsciano*, a capacidade das forças hegemônicas de forjar um consenso não se consolida apenas na estrutura econômica e na organização política. Ela ganha estabilidade no contexto intelectual, moral e cultural, cuja consequência consiste em um processo ativo de significação (MORAES, 2019). A imprensa cumpre, então, papel de construir consensos simbólicos para a manutenção (ou rearticulação) das relações de poder.

A despeito do momento, com o Brasil na rota da pandemia de Covid-19 e com as instituições mergulhadas no colapso, seja do ponto de vista estrutural ou político, os veículos de jornalismo tradicionais atualizam seus discursos, mantendo-os em consonância com a raiz ideológica de suas linhas editoriais. Uma leitura dinâmica sobre os editoriais do Estadão, O Globo e da Folha de S. Paulo do domingo (26) é o suficiente para perceber que os “grandes jornais brasileiros” buscam parecer uma força “contra-hegemônica” ao Governo Federal. Mas, há mais possibilidades entre a aparência e a essência desses discursos.

Em que pese as diferenças ideológicas que variam entre “demagógica-quatrocentona”, “Wall Street way of life” e “liberalismo limpinho”, os três jornais se esforçam para empurrar Bolsonaro do palanque sem prever o futuro. A receita é a pressão sobre o gasto público, o que significa menos investimentos em áreas como a saúde, já incinerados pela emenda 95, e a reforma administrativa que deve diminuir ainda mais a capacidade do serviço público. Contraditoriamente, esperam uma resposta do poder público ao colapso, que não será respondida sem recursos públicos aplicados nas áreas mais prementes como saúde e assistência social.

Jessé de Souza (2017) lembra que a formação social brasileira, com raízes na escravidão, concebeu uma classe dominante patrimonialista que concentrou os meios de difusão do conhecimento. Com o fim da República Velha, a elite percebeu que as rupturas sociais obrigavam-na a reconfigurar suas ações para manter a hegemonia. A repressão, para além de uma ação coercitiva direta, deveria ser também simbólica. A esfera pública passa a servir como arma dessa elite, agora fora do poder do Estado, assumindo uma nova forma de controle. 

A receita continua em uso com as adaptações tecnológicas necessárias. Os discursos anti-Bolsonaro dos jornais, embora críticos à postura hedionda do atual presidente sobre qualquer assunto, buscam empurrar a agenda de desmonte do Estado brasileiro. Talvez por esse motivo, Bolsonaro balança, mas não cai. É possível que haja ainda alguma expectativa de apressar as reformas antes de um processo tumultuado de impeachment que dependerá do Congresso.

Cabe lembrar Nilson Lage (2001), quando afirma que a ideia de que o jornalismo está acima de grupos e interesses em jogo na sociedade é uma forma de tentar dissimular a ideologia (dominante) presente no enunciado jornalístico (LAGE, 2001). Considerar o jornalismo como arbítrio da realidade é não reconhecer as possíveis intencionalidades de seus discursos. As ações discursivas desses veículos visam à transformação da notícia em mercadoria por meio da sua espetacularização ou para promover objetivos políticos (MORAES, 2019).

Entre o ideal e o real, como mensurar o peso do jornalismo? Se por um lado pode ser um antídoto para a divulgação de informações falsas, por outro, corrobora com um leque de interesses que não necessariamente beneficia a maioria da população. Os argumentos se misturam porque o jornalismo é essa arena da disputa de ideias, com capacidade de influenciar a sociedade. Por isso, é importante uma leitura crítica sobre suas práticas e intenções, porque não há uma visão de mundo única ou mesmo uma supremacia do jornalismo sobre os imaginários, mesmo que o jornalismo hegemônico estimule massivamente uma certa lógica de pensar e de agir.

*A referência à obra de Antonio Gramsci foi extraída dos Cadernos do Cárcere, volumes 1, 2 e 3, editados pela Civilização Brasileira.

Referências

LAGE, Nilson. Ideologia e técnica da notícia. 3. ed. Florianópolis: Insular, 2001.

MORAES, Dênis de. Poder midiático e disputas ideológicas. Rio de Janeiro: Consequência, 2019.

SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.