Juliana Freire Bezerra
Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (UFSC) e pesquisadora do objETHOS

A pandemia global da Covid-19 afeta a todos, mas não da mesma maneira. No Brasil, diversas iniciativas de jornalismo voltadas a cobrir as periferias têm evidenciado esta questão e procurado abastecer o seu público com informações de qualidade para enfrentar a crise atual.

A Agência Mural de Jornalismo das Periferias faz parte deste movimento. Sua história, originada há quase dez anos com a criação do blog Mural, hospedado na Folha de S. Paulo, não perdeu a identidade com a criação de site próprio em 2015. Neste canal é reforçada a missão jornalística de minimizar lacunas de informação e desconstruir estereótipos sobre os territórios periféricos paulistas, por meio de uma equipe de correspondentes locais que noticiam acontecimentos relacionados às realidades onde moram. Chamados também de muralistas, os jornalistas da Agência Mural refutam a utilização de adjetivos como comunitário, contra-hegemônico, cidadão, para definir a sua prática profissional.

Sobre o termo jornalismo popular, a cofundadora da Agência Mural e entrevistada de hoje no objETHOS, Cintia Gomes, esclarece: “Nós da Agência Mural fazemos jornalismo. Ou um jornalismo local e independente, e acredito ser melhor usar assim do que popular. Ao menos não nos classificamos como popular. Somos contra o uso deste termo que nos coloca em um lugar ‘diferente’ (para dizer o mínimo) do jornalismo que não precisa ser adjetivado. Somos jornalistas que têm uma região geográfica específica de cobertura, uma linha editorial sólida e um público-alvo como audiência”.

Atualmente os muralistas voltam-se a cobrir integralmente a crise do coronavírus e seu impacto nestes locais. Além disto, têm combatido a desinformação, com a adoção de novas estratégias de comunicabilidade, como o podcast diário Em Quarentena, disseminado principalmente via aplicativo de mensagens de celular. O eixo da entrevista a seguir é direcionado a entender como este trabalho vem sendo planejado e realizado no momento atual.

Cíntia Gomes é cofundadora, editora de comunicação institucional e correspondente do bairro Jardim Ângela da Agência Mural de Jornalismo das Periferias. É também uma das fundadoras do coletivo Nós, mulheres da periferia. Já trabalhou no setor de comunicação do Instituto Paulo Freire. Foi repórter da Revista Ocas, revisora e diagramadora do livro Um Batuque Memorável no Samba Paulistano e produziu o documentário Três Esquinas: A rua é um palco. Trabalhou também em assessoria de imprensa nas áreas de cultura, educação e terceiro setor. 

Nossa missão é contribuir para um jornalismo menos estereotipado, mais diverso e conectado com a realidade das periferias.

No contexto de pandemia do novo coronavírus, quais têm sido as lacunas de informação deixadas pelo jornalismo tradicional que o jornalismo independente voltado a cobrir as periferias tem preenchido?

As periferias têm sido destaque nos noticiários de uma forma nunca vista antes, inclusive em telejornais nacionais em que a pauta principal sempre é política. Tudo isso por diversas questões que já eram presentes na vida de quem mora nessas regiões, mas que com a pandemia se tornaram mais visíveis e urgentes, e agora surge como uma medida emergencial de anos de descaso. 

Da mesma forma que há desigualdade social, econômica e de direitos, há também de informação. É comum que as manchetes das periferias sejam de violência ou superação, e encontremos lacunas e estereótipos na cobertura sobre estes locais. Mas com a cobertura do coronavírus, além de trazer a tragédia e a gravidade da situação, também temos visto que há boas coberturas sendo realizadas por alguns veículos que mostram que as periferias são muito mais do que isso. Principalmente ao contar histórias de como as pessoas estão enfrentando a situação, ao levar informações úteis, serviços, ações, orientações do que fazer neste período, ampliando as fontes de informação e cobrando soluções para às desigualdades no acesso à infraestrutura e serviços públicos.

A maneira que está sendo feita a cobertura sobre as periferias pela imprensa, no geral, é um passo para que outros assuntos, que não apenas a violência, tenham destaque. Que seja um caminho para mudar a cobertura daqui em diante, que não voltemos atrás após pandemia e estas não sejam pautas apenas abordadas pelas mídias independentes como a Agência Mural, Alma Preta, Periferia em Movimento, Desenrola e não me Enrola, Nós, Mulheres da Periferia, entre outros. 

Como tem sido o planejamento e a realização da apuração jornalística sobre o coronavírus nas comunidades com as recomendações de isolamento social?

A Agência Mural surgiu em 2010 fazendo sua cobertura por meio de uma rede de correspondentes que nasceram e/ou residem nos bairros no qual escrevem. Nosso maior meio de comunicação e de troca sempre foi o online, a partir de conversas e reuniões diárias, por e-mail e redes sociais. Realizamos alguns encontros e reuniões presenciais, mas tudo agora se converteu totalmente para o virtual. 

Desde o início da quarentena em São Paulo, mudamos nosso planejamento editorial para cobrir em tempo integral a crise da Covid-19 e seu impacto no contexto das periferias da região metropolitana de São Paulo. Nós também temos produzido artes e infográficos sobre o coronavírus nas periferias para ilustrar as nossas reportagens e divulgá-las nas redes sociais.  Hoje não estamos nas ruas porque todos e todas estão seguindo as regras do isolamento social, mas cada correspondente sabe e mantém contato com outros moradores para seguir de perto como está a sua região.

Os muralistas, como assim nos chamamos, conversam com seus vizinhos e conhecidos do bairro por mensagens, telefone e redes sociais. Quando vão ao mercado ou à farmácia para algo necessário, aproveitam para procurar mais informações sobre o impacto da crise no dia a dia dos moradores e das moradoras. As entrevistas estão sendo feitas por telefone, em sua maioria. Quando há necessidade de sair e fazer algo externamente importante, seguimos as recomendações de prevenção como uso de máscara, álcool gel e distanciamento.

Dentro do nosso planejamento, passamos a divulgar mais nas redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter e Linkedin), e ainda no WhatsApp também para quem tem interesse em receber o conteúdo da Agência em primeira mão. É só mandar um “oi“ para (11) 9 7591 5260.

Recentemente a Agência Mural lançou o Em Quarentena, podcast diário destinado a cobrir a pandemia nas periferias de São Paulo. Por que esta estratégia de comunicação foi adotada, como ela funciona e quais outras vocês têm implementado para a cobertura da pandemia?

Desde a instalação da crise do coronavírus no Brasil, as periferias de São Paulo estão sendo bombardeadas com fake news sobre a situação real e a gravidade da Covid-19. Mensagens que minimizam a necessidade de ficar em casa, sobre a situação real dos serviços públicos de saúde e a confusão de orientação provocada pelos governos estão desorientando as pessoas sobre como melhor agir. E sabemos que os principais canais por onde circula este imenso volume de desinformação são as redes sociais e telefones (WhatsApp) desses moradores. 

Criamos neste período de cobertura sobre a Covid-19 nas periferias o podcast Em Quarentena pensando em sua divulgação principalmente pelo alcance desse canal (WhatsApp), mas também porque sabemos que é por ali que a maioria da circulação de notícias falsas acontece. 

O podcast é diário (segunda a sexta-feira), com duração de 5 a 10 minutos. Ele traz e não só mostra a cobertura do ponto de vista das nossas comunidades, combatendo toda a desinformação, mas também surge para divulgar soluções e/ou informação de serviço para que as populações das periferias possam se proteger melhor e para melhor lidarem com o impacto da crise socioeconômica e de saúde. Os episódios são distribuídos gratuitamente por meio de uma lista de transmissão via WhatsApp (o principal canal utilizado no Brasil para a distribuição de notícias/propaganda falsas), no nosso site e no Spotify.  Esperamos combater a desinformação, reduzindo simultaneamente o impacto trágico da Covid-19 nas zonas mais desfavorecidas da metrópole paulista (as “periferias”).

Os/As Muralistas. Créditos: Arquivo pessoal

De que forma a Agência Mural tem se posicionado em relação à disputa de narrativas entre a necessidade de isolamento social, para a proteção da vida humana, e a volta à normalidade, para preservação da renda familiar? Há cuidados sendo tomados para cobrir esses assuntos nos contextos sociais mais vulneráveis?

A nossa linha editorial não mudou, apenas a nossa prioridade em termos de pauta. Além de falar das necessidades, questões que envolvem infraestrutura e melhorias nas periferias, nós também contamos histórias que ninguém mais conta, faz a diferença e são iniciativas de moradores. 

Nossa missão é contribuir para um jornalismo menos estereotipado, mais diverso e conectado com a realidade das periferias. Deixando de lado discursos engessados que reforçam que é um lugar só de notícia ruim e escassez de infraestrutura. E com a pandemia nada disso mudou, apenas não estamos falando de outros assuntos, pois o período exige, mas continuamos seguindo na produção de um jornalismo que informa e conta histórias em que os moradores das periferias possam sentir-se representados e reconhecer seus direitos. Algo que tem sido ainda mais urgente em tempos de crise como essa. 

Na Agência Mural temos os 10 Princípios da Cobertura Jornalística das Periferias, elaborados para orientar profissionais de comunicação que produzem conteúdos relacionados às periferias. Em um texto que escrevi no Blog Mural sobre a experiência de ser um jornalista e correspondente que cobre as periferias também trato um pouco disso.

Os movimentos populares têm se articulado para orientar e ajudar os moradores das comunidades a enfrentarem a pandemia e seus efeitos. Em relação a isso, como a Agência Mural tem contribuído?

Fazemos parte da construção da rede de colaboração jornalística #CoronaNasPeriferias, que reúne quase 100 jornalistas e comunicadores das periferias de pelo menos 15 estados brasileiros. O objetivo da rede é trocar informação e conteúdo, tentando contribuir para uma cobertura dessas áreas que reduza o impacto da crise sanitária e econômica. 

Em nosso site conseguimos contribuir divulgando alternativas e iniciativas que buscam minimizar esses impactos. Seguem exemplos: produzimos algumas reportagens como a “A boa do delivery nas periferias”, com uma seleção de restaurantes e lanchonetes com opções de entrega sem sair de casa nessa pandemia. Na área cultural Jovens de Paraisópolis fazem ações voluntárias e usam a internet para passar pela quarentena. Outras com iniciativas como Contra o coronavírus, veja 7 iniciativas para doações nas periferias de SP. E na Grande São Paulo como ações: Em Santo André, moradores usam WhatsApp e vídeos para informar sobre a Covid-19 nas favelas e Em Guarulhos, ação apoia moradores de rua com informações e produtos de higiene. E para incentivar o isolamento social, todas as sextas-feiras nós enviamos à lista de transmissão indicações de lives e dicas culturais para aproveitar em casa. A prioridade são os artistas das periferias que neste momento organizam atividades ao público, como peças de teatro, cinema e saraus.