Portal Catarinas
Especial para o objETHOS

Durante dois meses, abril e maio de 2020, cinco mídias independentes (Amazônia Real, Agência Eco Nordeste, #Colabora, Ponte Jornalismo e Portal Catarinas) assumiram o compromisso de investigar a situação da violência doméstica no Brasil, durante o isolamento implementado para o enfrentamento da pandemia de Covid-19. O projeto colaborativo “Monitoramento da Violência contra a mulher na pandemia do coronavírus” contou com a participação de 30 profissionais da área da Comunicação, sendo destes 25 mulheres. A ideia surgiu de uma conversa entre as jornalistas Paula Guimarães (Portal Catarinas) e Kátia Brasil (Amazônia Real) após o pronunciamento da ONU Mulheres sobre o aumento global da violência contra as mulheres. 

“O grande objetivo da série é mostrar a realidade do que está acontecendo dentro de casa com as mulheres nessa situação da pandemia. Já havia a divulgação dos dados do 180 apontando um aumento grande dos casos de violência doméstica na pandemia e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública também já tinha lançado, mas não tinha o relato da situação. De fato, como que essas mulheres estão sobrevivendo a tal violência dentro de casa com seu próprio agressor? Isso que queríamos mostrar”, disse a editora-executiva da agência Amazônia Real, Kátia Brasil.

O processo colaborativo também é um dos destaques da série. Na contramão da informação de baixa qualidade e da desinformação crescente em decorrência das fake news, o jornalismo colaborativo permitiu uma apuração mais diversificada e profunda que alcançasse todas as regiões do Brasil. Oferecendo aos leitores um cenário mais amplo sobre o problema da violência doméstica. 

“Um mapeamento nacional, como este que fizemos, só seria possível com a colaboração de diversos parceiros no nosso contexto de mídia independente. Até mesmo para um grande jornal ou veículo de TV fazer algo do tipo precisa de uma rede de colaboradores, que podem ser suas afiliadas ou freelas nas diferentes regiões do país. Para além dos números, foi muito importante esta pluralidade de visões para mostrarmos que seja no Acre ou no Paraná, as mulheres estão tendo mais dificuldades de denunciar as agressões, que cresceram no isolamento social”, explicou a editora do #Colabora, Fernanda Baldioti.

A colaboração resultou na produção da série “Um Vírus e duas guerras”, que mostra o quadro dos crimes de violência doméstica e feminicídio em 20 dos 26 Estados brasileiros. Ao todo, são 14 reportagens que apresentam e interpretam os dados de feminicídios e violência doméstica fornecidos pelas Secretarias Estaduais de Segurança Pública, além de contarem histórias de mulheres em situação de violência doméstica durante a pandemia. 

“Os dados sem história são frios, então, nós damos mais que os números, nós damos as histórias que trazem sentimentos de todas as mulheres e as particularidades de cada uma. Portanto, acredito que o monitoramento traz todos esses elementos e une o número, a história e a análise – isso é fundamental para aprofundar o debate”, relatou a editora da Ponte Jornalismo, Maria Teresa Cruz.

O monitoramento foi também importante instrumento de denúncia para o cenário de desmonte geral das políticas públicas de enfrentamento à violência doméstica contra as mulheres – que vem ocorrendo desde o golpe da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) e que piora no governo do atual presidente Bolsonaro (sem partido). Dessa forma, as reportagens chamaram atenção para uma questão social endêmica no Brasil, que se agravou em um momento em que as mulheres ficaram mais vulneráveis. A pandemia não apenas as colocou “presas” com seus agressores, como também dificultou o acesso aos serviços de denúncia e proteção. Nas reportagens, ficou claro que a Rede de Enfrentamento à Violência Doméstica da maioria dos Estados não está funcionando de forma adequada. 

Mapa mostra variação nos números de feminicídio entre 2019 e 2020. Crédito: Fernando Alvarus

Metodologia de monitoramento da série

O monitoramento da série “Um vírus e duas guerras” foi realizado a partir de dados de feminicídios e violência doméstica solicitados às secretarias de segurança pública dos 26 Estados brasileiros e do Distrito Federal. Cada iniciativa de mídia independente ficou responsável por uma região do país. Amazônia Real pelas regiões Norte e Centro-Oeste, Agência Eco Nordeste pela região homônima ao nome da mídia, Portal Catarinas pelo Sul, e #Colabora e Ponte Jornalismo pela região Sudeste.

A equipe de jornalistas levantou os dados parciais sobre violência doméstica nos Estados e foram realizadas duas análises: uma do primeiro quadrimestre de 2020 comparada ao mesmo período de 2019, e outra focada nos primeiros dois meses da pandemia. Em algumas regiões os números fornecidos foram incompletos, inviabilizando o cruzamento no quadrimestre 2019/2020. Entre os que não enviaram informações precisas sobre feminicídio nos períodos de janeiro a abril de 2020 estão Amapá, Goiânia, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Paraná, Rondônia e o Distrito Federal.

Fernanda Baldioti, editora do #Colabora, contou que o levantamento dos dados foi o maior desafio da investigação. “Terminamos o levantamento sem os números de 6 Estados, que não responderam às nossas solicitações, mesmo após inúmeras tentativas. Foi um trabalho de formiguinha mesmo, e depois precisamos montar uma metodologia que reunisse números vindos de diferentes fontes. Chegamos ao total de 195 mulheres que foram mortas durante os dois primeiros meses da pandemia, um aumento de 5% sobre o ano anterior. Mas sabemos que a realidade é muito mais cruel. Ficou evidente para nós que nos casos das agressões, houve muita subnotificação, já que, como estão confinadas com seus companheiros, as mulheres têm muito mais dificuldade de acessar suas redes de apoio e órgãos públicos para pedir ajuda. Romper o ciclo da violência fica muito mais difícil no contexto da pandemia”, explicou.

Outra dificuldade foi o cruzamento dos dados obtidos, já que cada Estado tem uma forma diferente de classificar os crimes compreendidos como violência doméstica, tipificados pela Lei Maria da Penha. Em alguns deles, nem mesmo há separação entre violência doméstica geral e violência doméstica contra as mulheres, como é o caso do Paraná – que também não entrou no mapa do monitoramento por não ter disponibilizado os números de feminicídio do mês de abril, demonstrando falta de transparência e até mesmo sonegação dos dados.

Maria Teresa Cruz, editora da Ponte Jornalismo, destacou a importância do jornalismo de dados para uma melhor interpretação da situação das mulheres nas regiões brasileiras. “Cada Estado trabalha os dados da violência contra a mulher de forma diferente, dificultando uma uniformização, padronização desses números. O jornalismo de antigamente não exigia o conhecimento técnico de estatística por parte do jornalista, e hoje vemos a importância de o repórter saber ler dados”, explicitou.  

O projeto colaborativo “Monitoramento da Violência contra a mulher na pandemia do coronavírus” seguirá até o final de 2020. Para o próximo quadrimestre, uma das mudanças pensadas é visibilizar as diferenças étnico-raciais e de sexualidade que atravessam os crimes de violência doméstica e feminicídio. 

“Percebemos algumas lacunas que gostaríamos de preencher nos próximos monitoramentos, como avançar na tipificação dos crimes, fazer o recorte racial. Também estamos convidando outros parceiros para se juntar a nós e nos ajudar a contar essas histórias porque, para além dos números, a gente acredita na importância da escuta, de dar voz a essas mulheres que estão por trás das estatísticas”, disse Fernanda Baldioti.