Dairan Paul
Doutorando em Jornalismo pelo PPGJOR e pesquisador do objETHOS

A opinião de âncoras e do próprio público substituiu parcialmente o uso de fontes especializadas em programas de radiojornalismo. O perigo, alerta Luiz Artur Ferraretto, é confundir essas opiniões com uma informação factual. “Em algumas emissoras, temos um sujeito que abre o microfone, sai falando, lê as notícias da internet e dá as suas opiniões – corretas, incorretas, bem intencionadas, mal-intencionadas. E aí chegamos à pandemia. Estamos vendo uma situação em que há, sim, comunicadores negacionistas”, afirma o professor e pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Preocupado com as responsabilidades da comunicação na crise da Covid-19, Ferraretto escreveu um guia prático para profissionais junto de Fernando Morgado, professor da FACHA – Faculdades Integradas Hélio Alonso (Rio de Janeiro). O e-book está disponível em três línguas (português, espanhol e inglês) no site do Núcleo de Estudos de Rádio, grupo de pesquisa coordenado pelos autores e vinculado à UFRGS.

Na apresentação, Ferraretto e Morgado destacam: “nunca foi tão necessário ter tanta precisão na veiculação de informações”. Essa é apenas uma das recomendações da cartilha. Outras preocupações comuns aos comunicadores incluem combater fake news, cuidar de suas próprias condições de saúde, pensar na sustentação econômica dos veículos e ter conhecimento sobre o que se divulga em agências e assessorias. O guia destaca valores como flexibilidade, responsabilidade, parceria e coragem, baseando suas recomendações éticas em documentos de entidades e nos parâmetros do ensino universitário da área.

Ferraretto atua como professor do curso de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS. Referência nos estudos da área, é autor de livros como Rádio – teoria e prática (Summus, 2014) e Rádio – o veículo, a história e a técnica (Doravante, 2007), entre outros. Na entrevista a seguir, o pesquisador discute temas como a responsabilidade na seleção de fontes, presença de negacionistas da pandemia e a confusão entre opinião e informação.

Muita gente escutou como fonte o empresário que não tem representatividade no setor, mas que pode ser um grande investidor pro veículo de comunicação.

Jornalismo e ciência atuam em ritmos distintos de produção. Rádio, por exemplo, é marcado pela imediaticidade do seu trabalho, sendo um dos meios mais próximos da população brasileira. Como aliar esse ritmo veloz ao contínuo exercício da dúvida, considerando as especificidades da cobertura científica? 

São três visões de mundo que se cruzam nesse processo. A primeira delas é a do senso comum, aquela média de opiniões, intenções e necessidades que a sociedade expressa em determinado momento. O impacto com uma pandemia de futuro incerto, a necessidade de determinadas posturas, as influências… Mesmo que as pessoas não admirem ou acreditem em alguém que ocupa um cargo importante – como o Presidente da República, que aparece sem utilizar máscara e tem um discurso muitas vezes negacionista em relação à Organização Mundial da Saúde –, são tipos de impulso que elas recebem. Tudo isso se mistura no senso comum: a vontade das pessoas de saírem às ruas, de aproveitar o sol no final de semana no parque, na orla, na beira da praia.

Mais trabalhado, talvez, do que o senso comum é o senso jornalístico. O jornalista olha a realidade com base naquilo que ele vê, no que fontes representativas, responsáveis e importantes, escolhidas com ética e técnica, dizem. Ele constrói uma narrativa. E que fontes são essas? As autoridades, os representantes de determinados setores, os especialistas, os protagonistas, as testemunhas dos fatos.

Nesse processo específico da Covid-19, há problemas. Muita gente escutou como fonte o empresário que não tem representatividade no seu setor, mas que pode ser um eventual grande investidor em termos de publicidade pro veículo de comunicação. Ou um parlamentar que já passou, talvez, pela área de saúde, que tem seus próprios interesses no processo, e que fala do ponto de vista negacionista. Quando falo negacionismo, me refiro à negação da ciência e daquilo que ela recomenda numa situação de pandemia.

E existe o senso científico, mais refinado, que exige comprovação e confirmação daquilo que foi experimentado. Essas três velocidades são muito perigosas. Elas poderiam ser resolvidas se, lá no senso comum, imperasse o conhecimento. Conhecimento de onde? De um processo de ensino construído de forma efetiva e eficiente ao longo da história do país. Do ponto de vista do senso do jornalismo, com base na técnica e na ética, infelizmente também há um problema no ensino brasileiro. Nós temos jornalistas, por esse ou por aquele motivo, com problema de formação.

A ciência, por mais problemas que ela tenha no seu desenvolvimento no Brasil, ainda é ciência. E tanto o senso comum como o jornalístico sem formações adequadas – do ponto de vista do ensino, da técnica e da ética – contribuem para que a ciência seja desmerecida. Ao desmerecê-la, criam sua própria lógica, que é negacionista. Não estou dizendo com isso que todas as pessoas na nossa sociedade, todos os jornalistas ou mesmo a mídia é negacionista. Felizmente, não. Temos dezenas de exemplos de responsabilidade e solidariedade vindos da sociedade como um todo, dos veículos e profissionais de comunicação.

Essas velocidades são diferentes, mas o principal não é a diferença no ritmo do senso comum, jornalismo e ciência. É um problema anterior à pandemia, de construção da sociedade com base no conhecimento dado pelo ensino.

Um dos valores defendidos no guia é a responsabilidade social dos comunicadores. No caso dos jornalistas, isso inclui a escolha de fontes. Como o senhor avalia a presença de fontes negacionistas da pandemia como contraponto a cientistas, em debates de programas jornalísticos?

Nós estamos pecando e muito ao longo dessa cobertura. Primeiro, ao não escolher bem as fontes. Segundo, ao misturar opinião com informação e interpretação. É difícil definir se essa escolha equivocada parte de um erro com base no desconhecimento ético ou técnico.

Vejo já há bastante tempo confusões de jornalistas entre o que autores como José Marques de Melo chamam de gênero informativo, interpretativo, opinativo, diversional e utilitário. Existe também uma confusão em relação aos tipos de fontes – testemunha, protagonista, especialista e autoridade, para citar algumas. O que qualifica alguém como fonte? O sujeito que é um grande empresário? O sujeito que é deputado e um dia trabalhou na área de saúde? O sujeito que é médico?

Eu brinco com meus alunos na universidade para que eles procurem o boletim escolar das fontes. Qual é a média de nota do sujeito que se coloca como especialista tendo apenas um diploma universitário? O que fez com que essa pessoa se destacasse? Quantos jornalistas foram olhar o Currículo Lattes de alguns dos seus entrevistados tidos como especialistas? Especialistas por quê? Que pesquisas fizeram? Qual é o resultado desses estudos? Ou eles estão falando apenas como políticos? Aquele empresário com um número significativo de empreendimentos representa quem? O setor do comércio e da indústria? Ou apenas ele, seus interesses, suas relações políticas e econômicas? Isso precisa ser questionado pelo profissional.

Fontes que não são abordadas de forma adequadamente refletida são também negacionistas. Temos aí um problema muito sério de saúde pública. E piora, porque alguns profissionais – se é que podemos chamar assim –, algumas pessoas no uso do microfone em rádio e televisão utilizam espaços opinativos como se fossem informativos. Tratam a sua própria opinião, ou a opinião de alguém, como se fosse notícia, fato consumado.

Sobre esse tema, há um trecho no e-book alertando que o conteúdo repassado ao público em programas de rádio pode se assemelhar a um bate-papo. Nesses casos, é prudente demarcar para o ouvinte a diferença entre o que é notícia e opinião pessoal do comunicador/jornalista. Do que o senhor tem acompanhado em diferentes veículos, as coberturas sobre a pandemia têm sido responsáveis? 

A gente tem algumas situações do que eu chamo de negacionismo. O tempo vai dizer se essas outras são totalmente irresponsáveis, se tinham algum nível de dolo ou se, usando uma linguagem jurídica, passavam mais pelo culposo – o sujeito comete o erro sem ter muita noção de que é efetivamente um erro. Eu não entro nem na questão ética, embora a gente observe algumas manifestações que não estão previstas no Código de Ética do Jornalista Profissional. Não conseguimos falar o mesmo a respeito dos radialistas porque não há um código específico, e sim o Código de Ética da Radiodifusão Brasileira.

Mas não quero abordar o assunto usando as expressões “ética” ou “irresponsabilidade”. O que noto é a presença de elementos negacionistas, com certeza, no discurso jornalístico. É um problema que já vem de mais tempo no rádio, principalmente a mistura entre opinião e notícia.

Nos anos 1990, ainda com o país se redemocratizando com uma Constituição recente, nós começamos a criar uma idéia de cidadania. O que acontece nas emissoras de rádio é que a figura do âncora começa a ter mais destaque. É aquele sujeito que controla o processo numa rádio de jornalismo, tem uma interferência na produção, faz entrevistas, opina sobre o que está sendo noticiado pelo repórter, conversa com os comentaristas. Isso é interessante no sentido da coloquialidade. Não é quando se deixa de reconhecer os limites da especialidade e conhecimento de cada âncora, que começam a tomar o lugar dos especialistas.

Temos aí uma questão econômica que corre em paralelo. Nesse século, com a consolidação da internet e o surgimento das redes sociais, começamos a falar em comunicadores com múltiplas funções. Emissoras passam a diminuir muito a quantidade de produtores – ou seja, aquele sujeito que marca a entrevista – e aumentam a participação do ouvinte, o que parece ser muito democrático em um primeiro momento.

Com menos produtores, temos menos entrevistas e fontes do tipo especialista. Por quem eles são substituídos? Pelos próprios jornalistas e pelas opiniões do público. Hoje, em algumas emissoras, não temos especialistas, comentaristas ou produtores. Temos um sujeito que abre o microfone, sai falando, lê as notícias da internet e dá as suas opiniões – corretas, incorretas, bem intencionadas, mal-intencionadas.

E aí chegamos à pandemia. Estamos vendo uma situação em que há, sim, comunicadores negacionistas. Eles têm influência porque criaram suas próprias bolhas. Pode ser que o sujeito – a maioria deles em mercados mais específicos, com algumas exceções – atue em emissoras de menor impacto. Mas são rádios que às vezes têm até dez mil ouvintes naquele horário, por exemplo.

Por fim, o guia ainda toca na multiplicidade de temas a ser ofertada por jornais para além da Covid-19. O senhor já criticou o tempo gasto por alguns jornalistas com discussões sobre a retomada de campeonatos de futebol no país. Quais recomendações poderiam ser feitas para uma cobertura responsável em editorias como esportes, por exemplo? 

Não sou um estudioso da cobertura esportiva, mas essa questão do futebol é muito curiosa e mereceria uma pesquisa mais detalhada. No seguinte sentido: quais são os profissionais e emissoras que estão mais preocupadas com o retorno do futebol? São as que têm maior investimento publicitário? São aquelas que têm tido condições de sobreviver e de fazer grandes coberturas do tipo “Copa do Mundo”, extremamente caras e que dependem do pagamento de direitos sobre a sua veiculação? Por que a preocupação com a retomada do futebol se concentra na sobrevivência dos grandes clubes, e não nos pequenos?

Teria que se ver pelo ponto de vista econômico, mas também pelo cultural. Futebol é um negócio para grandes emissoras e clubes. De resto, é quase um trabalho social. Clubes pequenos reúnem em torno de si as comunidades, pequenas emissoras dão conta das notícias deles e fazem parcerias com o comércio local para viabilizar essas transmissões.

A recomendação que eu daria – e tenho visto muita gente responsável na abordagem do futebol – é de refletir sobre o impacto em termos comunicacionais na liberação dos jogos. Porque por mais que se diga o contrário, passa a idéia para a população de que existe um “novo normal”. Se flexibiliza o futebol, pensa o leigo, por que eu preciso usar máscara? Por que não posso fazer um churrasquinho enquanto assisto ao jogo?

Temos que considerar que não existe uma unicidade em torno da comunicação a respeito da pandemia. Isso deveria emanar da autoridade maior, o governo federal, mas o Presidente da República convive bem com a idéia de que não existe um Ministro da Saúde há tempos, e de andar sem máscara mesmo que haja recomendação da ciência. Tudo isso, na cabeça das pessoas, pode fazer um enorme estrago. Essa reflexão tem que ser feita por quem faz comunicação.