Dairan Paul
Doutorando em Jornalismo (PPGJOR/UFSC) e pesquisador do objETHOS

Causa espanto que na noite de domingo (9), fim de semana das 100 mil mortes por Covid-19 no país, Zero Hora lance uma série de tweets com roteiros de viagem para combater o tédio da quarentena. O argumento é simples: com máscara no rosto e pé na estrada, o andarilho estaria livre para visitar cidades “que se ajustaram às recomendações sanitárias no RS”. São opções para famílias e estudantes, esclarecem, incluindo roteiros “místicos”, “aventureiros”, como Caminho das Missões e Caminho das Cascatas.

Mas seria mais sensato nomeá-lo como um breve guia de irresponsabilidade jornalística. Porque ignora normas sanitárias – o viajante também é agente de contágio e pode “transportar” o vírus para o interior do estado, a exemplo de Passo Fundo ou Júlio de Castilhos, duas das cidades mencionadas. E porque desrespeita o leitor. A quem se dirige o roteiro, afinal? Aos quarentenados entediados? Aos enlutados que perderam familiares e entes queridos durante a pandemia? Aos trabalhadores que, impossibilitados de exercer o isolamento social, colocam sua vida em risco?

Como era de se esperar, a reação dos leitores não tardou. “O legal é que assim o vírus pode visitar lugares que ele nunca conheceria de outro jeito”, sintetizou um deles. Outros chamaram a atenção para a temporalidade dos tweets, justamente quando Rio Grande do Sul vive o pico da doença.

O timing, aliás, é o que mais chama a atenção. Como dito, se trata do mesmo fim de semana em que chegamos à triste marca dos 100 mil mortos pela pandemia. Teríamos motivos – ou interesses – para celebrar o turismo em plena pandemia? Ora, nesse sentido não deixa de ser elogiosa a coerência de Zero Hora entre os tweets e a capa do jornal na edição de sábado e domingo. O destaque: moradores de outros estados que se refugiaram na serra gaúcha. A situação fica mais feia ao compararmos com outros veículos, como Estado de Minas e Estadão, que deram amplo destaque para as mortes no mesmo final de semana.

No Facebook, o professor Luis Artur Ferraretto, da UFRGS (recentemente entrevistado pelo objETHOS), sinaliza para o que deveria ter sido a capa de Zero Hora: uma matéria sobre 100 mil mortos, com assinatura do repórter Marcel Hartmann, profunda e séria, publicada na madrugada de sábado. Ao invés disso, escreve o pesquisador, “o jornal preferiu dar destaque para a irrelevância tipo revista Caras dos que buscam a segurança da Serra gaúcha contra a covid-19”.

Pra não dizer que o caso é exclusivo da imprensa gaúcha, um breve exercício de análise no jornalismo televisivo, feito por Maurício Stycer, sugere mais interesses por trás da cobertura da pandemia. No mesmo fim de semana das 100 mil mortes, tivemos quem dedicou 38 minutos para noticiá-las (foi o caso de Jornal Nacional, no sábado). Mas também reportagens leves, quase bem-humoradas, com média de 10 minutos e buscando minimizar o impacto da tragédia, como em Jornal da Band, Jornal da Record e SBT Brasil. A matéria mais condensada veio da RedeTV! News, que tratou em um minuto as cem mil mortes brasileiras, mesmo tempo dado ao relato da pandemia nos Estados Unidos. Não são escolhas arbitrárias, reitera Stycer: “todas as emissoras de TV aberta tiveram tempo para planejar a cobertura deste fato, que tem forte apelo simbólico. As opções escolhidas refletem três visões muito diferentes da situação”.

Jornalismo é responsabilidade. E ser responsável é ter a coragem de assumir nossas agências, inclusive como profissionais. É preciso lembrar: o discurso jornalístico confere sentidos, é absorvido socialmente e pode, sim, moldar comportamentos. Não se trata de dizer que todo e qualquer leitor vai, de fato, peregrinar pelo interior do Rio Grande do Sul em busca de mirabolantes aventuras em plena pandemia. Mas tampouco é o caso de minimizar a situação e recorrer ao argumento cínico de que cabe ao leitor decidir o que fazer. Em tragédias, pandemias e caos social, não cabe – especialmente vindo daqueles que deveriam ao menos tentar organizar o mosaico de um quebra-cabeça tão complicado que vivemos. Para casos como esse, dos tweets de Zero Hora, podem ajudar as páginas 13 e 14 do Guia de Cobertura Ética da Covid-19, lançado recentemente pelo objETHOS. Copio aqui, para que possamos cobrar mais responsabilidade de quem foge dela:

Esteja consciente do seu papel

O jornalismo tem uma função em meio à pandemia: comunicar publicamente informações seguras. Isso requer apuração criteriosa, escuta atenta de especialistas e envolvidos, pesquisa constante e confirmação de dados. Jornalistas e meios devem estar conscientes de suas responsabilidades ao informar, tendo em conta que seu trabalho afeta psíquica e emocionalmente as pessoas, podendo causar e alimentar traumas. Matérias e reportagens podem também contribuir para que as pessoas adotem condutas mais preventivas, o que pode reduzir o contágio da doença. Esteja consciente de que cuidando bem da informação, você também estará ajudando a combater a Covid-19 no que compete aos jornalistas.