Mariane Nava
Doutoranda no PPGJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

Em uma análise publicada no jornal O Estado de S. Paulo, o professor Mário Scheffer aponta a possibilidade de a CPI da Covid se tornar um “tigre sem dentes”.  O argumento se embasa na adesão de parte dos brasileiros às manifestações pró-Bolsonaro no 7 de setembro, o que o faz questionar qual seria o ganho para a democracia com a descoberta da pilha de falcatruas do Governo Federal, que segue com apoio popular: “É desesperador continuar assistindo parlamentares a desenterrar novos fatos e a puxar comboio de depoentes periféricos, enquanto a democracia pede socorro. E sem democracia, sabemos, não há SUS que combata a pandemia, nem economia que distribua renda, nem prevenção de crise energética. A CPI tem a chance de honrar seu propósito ao contribuir, ainda que com limitações, para a remoção constitucional do presidente”, escreveu Scheffer.

O curioso é que um processo investigativo, como a CPI, está pautado pela racionalidade e comprovação, exatamente o oposto da atuação bolsonarista. O embate é similar ao combate das fake news por meio de textos que apontam suas inconsistências lógicas… O agir frente a tudo isso é bastante delicado: continuamos com o discurso argumentativo (e incompreensível àqueles que agem pela emoção) ou passamos a agir também dessa forma? Logicamente que a segunda opção é impraticável, afinal estaríamos apenas incitando discussões ainda mais acaloradas e ainda menos efetivas. Mas, o que fazer, então?

Um caminho possível é apontado por Lima e Moretzsohn (2019, pág. 181): “A saída seria atuar no campo das emoções para tentar furar essas bolhas refratárias a qualquer questionamento: investigar o tipo de sensibilidades que levam as pessoas a acreditar no que é falso e tentar desativar os afetos que sustentam esse comportamento”. Aqui é importante ressaltar a ligação que existe entre desinformação, Bolsonaro e a CPI da Covid. As fake news são um importante elemento da atuação bolsonarista, por meio delas, o Presidente elabora narrativas que contribuem para seus objetivos políticos, como foi o caso da cloroquina e a negação diante à eficácia da vacina. Paralelamente, houve superfaturamento das doses e uma série de outros esquemas de corrupção que vêm sendo investigados pela CPI.

A desinformação é uma manobra política, que age pela emoção das pessoas e as convence por esse meio; não há necessidade de evidências científicas, basta o “viés de confirmação” de cada cidadão ou cidadã, e pronto. A descoberta de uma série de atos de corrupção pouco efeito tem sobre essa parcela da população “fechada com Bolsonaro”, simplesmente porque argumentos racionais não são capazes, muitas vezes, de se sobrepor aos apelos emocionais.

E aqui desponta a preocupação da CPI se tornar um “tigre sem dentes”, justamente porque ela está comprovando condutas criminosas do Presidente, mas quais serão seus efeitos políticos? Em primeiro lugar, é preciso distinguir as consequências penais das consequências políticas, é claro: a partir das provas documentais, Bolsonaro pode responder a processos, que poderiam se arrastar por anos e impactar sua candidatura à reeleição, contribuindo até mesmo para o terceiro impeachment após a redemocratização brasileira.

Conforme Renan Calheiros, a CPI contribuiu em várias frentes, entre elas para a aceleração da vacinação no país e para derrubar narrativas anticientíficas, como da chamada imunidade de rebanho e do “tratamento precoce”. Entretanto, o uso de fake news e a terceirização da culpa – principalmente pelo uso de argumentos emocionais – pode sobrepor as comprovações da investigação no campo político, principalmente sob a parcela inclinada ao bolsonarismo. Por isso, as consequências da CPI dependerão, em primeira instância, da ação da Procuradoria-Geral da República (PGR) para autoridades com foro especial; do Ministério Público Federal – aos indiciados sem essa prerrogativa de foro; em última análise, depende do Poder Judiciário; subsidiariamente pode impactar o processo de impeachment (destravar, no caso), no Congresso Nacional.

Uma coisa é fato, Bolsonaro deu voz ao extremismo brasileiro e, contrário ao seu discurso de combate à corrupção, agiu da forma mais inescrupulosa para obter ganhos para si e para os seus familiares mais diretos (seus três filhos que são políticos). E é isso que a CPI vem comprovando dia após dia… Nós brasileiros estamos cansados dessa sensação de impotência, do sentimento de que estamos de mãos atadas e só nos resta pagar R$ 7 reais pelo litro da gasolina. E com toda certeza quem foi às ruas apoiar Bolsonaro também está cansado, mas atribuindo a culpa aos governadores, prefeitos ou à “ditadura” do STF (?!).

Por isso, é importante resgatar o olhar de Lima e Moretzsohn (2019) que apontam a necessidade de olhar com atenção para a motivação que leva as pessoas a depositar tamanha credibilidade em Bolsonaro. Entender a ação da desinformação e combatê-la de maneira eficiente, paralelamente à CPI. Isso porque as investigações vêm sendo conduzidas conforme os protocolos legais, cabendo aos meios de comunicação e a nós pesquisadores a tarefa de entender e combater a desinformação.

A CPI é apenas uma parte da movimentação (constitucional) de luta pela democracia, aliás, um mecanismo dela… e parece urgente que sua ação somada a outras da sociedade civil atuem em prol de evitar as elucubrações do “mito”, principalmente, a ameaça de “não aceitar” a decisão das urnas em 2022. E para isso é impreterível que não desconsideremos a parcela extremista brasileira, que parece disposta a ignorar o Relatório Final da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado.

Referências

LIMA, Samuel Pantoja; MORETZSOHN, Sylvia Debossan. Educação midiática e fake news: reflexões preliminares sobre um projeto do Observatório de Ética Jornalística (objETHOS). In: V Congresso Literacia, Media e Cidadania: Tecnologia, Desinformação e Ética, 2019, Aveiro, Portugal. V Congresso Literacia, Media e Cidadania: Tecnologia, Desinformação e Ética. Braga – Portugal: CECS – Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade Universidade do

Minho, 2019. SCHEFFER, Mário. Sete de Setembro pode ter transformado a CPI da Covid em um tigre sem dentes. O Estado de S. Paulo. Disponível em: https://politica.estadao.com.br/blogs/diario-da-cpi/sete-de-setembro-pode-ter-transformado-a-cpi-da-covid-em-um-tigre-sem-dentes/