Cesar Valente
Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (PPGJOR/UFSC) e pesquisador do objETHOS

De 25 de março de 2017 a novembro de 2019 Nilson Lage[1] publicou na edição de final de semana do jornal Diarinho a coluna “Em Geral”, 130 artigos e crônicas. Trata-se de um material precioso, onde expunha generosamente sua erudição em textos claros e atraentes, sempre aos sábados, aos leitores e leitoras do jornal. “Diarinho? Como assim? Que jornal é esse?” dirá a maioria dos leitores, acostumados a encontrar Nilson Lage em livros e periódicos que dispensam apresentações.

Vamos examinar essa aparentemente estranha associação. O Diarinho (outrora conhecido como Diário do Litoral) é um jornal que existe há 42 anos e tem sede em Itajaí, SC. As pesquisas mostram que é o jornal diário mais lido da região densamente populosa que compreende Itapema, Balneário Camboriú, Camboriú, Itajaí e Navegantes. Desde a sua criação nunca foi um jornal “normal”. Seu criador e proprietário, o advogado Dalmo Vieira, a certa altura da vida, inconformado com o fato de Itajaí não ter um jornal local, decidiu preencher essa lacuna. E com o propósito de dar-lhe a “linguagem das ruas” usou e abusou do jargão e do artifício de “esquentar” as manchetes. Isso fez com que o número de leitores aumentasse. E, naturalmente, o sensacionalismo do seu estilo ganhou fama.

Enquanto ousava, na linguagem e na forma de tratar o noticiário, o jornal criou e foi aperfeiçoando uma ligação muito próxima com a comunidade, ao receber e dar encaminhamento (e publicidade) a denúncias e reclamações. O jornal se consolidou como realmente popular.

Esse apreço pelo jornalismo de escândalos rendeu, ao proprietário, vários problemas e processos. Dalmo, a certa altura, resolveu passar algumas das responsabilidades da edição para sua neta, Samara Toth Vieira, então recém formada em jornalismo. E o jornal começou a mudar. Sem se desfazer da linguagem informal, do humor, foi abrandando o jargão e, principalmente, reduzindo a prática de “esquentar” manchetes. E a exposição de presos e cadáveres perdeu destaque até desaparecer[2].

Mas, compreensivelmente, depois de tanto tempo sendo um jornal de manchetes fortes (nem sempre integralmente fiéis à notícia) e de noticiário policial que não se furtava a mostrar “presuntos”, criou uma reputação que o marcou quase indelevelmente. E quem conhecia a fama, mas não tinha tido oportunidade, tempo ou interesse de ler o jornal do dia, abraçava o preconceito e o criticava por práticas que não eram exercidas há vários anos.

Pois foi o convite desse jornal “sensacionalista” e popular que Nilson Lage aceitou. E cumpriu rigorosamente o compromisso de entregar um artigo por semana, durante quase três anos.

A diretora do jornal, Samara Toth Vieira, que fez o convite, tinha sido aluna de Lage numa especialização, no Curso de Jornalismo da UFSC. E era, como tantos de nós, sua fã. A ideia surgiu quando Nilson começou a publicar alguns posts nas redes sociais, sobre diversos assuntos: “por que não no Diarinho?”

O professor concordou logo na primeira conversa e o que os assinantes do Diarinho puderam ler, toda semana, é de tirar o fôlego.

Praticamente todos os temas da atualidade foram abordados na coluna “Em Geral”. Muita política, muita economia, muita história, cada artigo é uma aula, recheada de referências originais, de lembranças pessoais, uma conversa envolvente com alguém de memória prodigiosa e cultura ampla, que resolveu compartilhar generosamente com desconhecidos sua visão do mundo e dos problemas do mundo.

Em nenhum dos textos se nota a preocupação de “adaptar” para a linguagem de um jornal popular, ou para o que, no senso comum, seria o “nível cultural” de leitores de jornais como aquele, o conteúdo. É sempre uma aula que respeita a inteligência do leitor e, ainda que trate de temas complexos, não passa qualquer impressão de pedantismo, de soberba intelectual.

Para quem não teve a oportunidade de ler os artigos, trago alguns fragmentos que, espero, dêem uma ideia melhor do material que se pode encontrar naquele acervo.

No dia 5 de agosto de 2017, sob o título “Notícias verdadeiras sobre notícias falsas”, Lage faz a análise do fenômeno, para demonstrar que notícia falsa não é coisa nova: “Se o alcance do conceito é expandido – abarcando reportagens, documentários e artigos, ensaios em livros e divulgação de ciência – então são notícias falsas as que quase sempre movem as sociedades. Pode-se exemplificar com o santo graal e as cruzadas; o eldorado e a colonização da América espanhola; ou a supremacia da raça branca, que validou tanta desgraça pelo mundo e começou a ser contestada há um século.”

Até fechar o artigo com um resumo da ópera: “Nesse contexto, a atribuição às mídias sociais de serem elas as principais produtoras de notícias falsas é uma notícia falsa. As mídias sociais ampliam o efeito das notícias falsas da mídia tradicional e criam suas próprias que são muitas, mas, em geral, alcançam menor amplitude. É claro que essa notícia falsa interessa à mídia tradicional, ameaçada pela concorrência, e aos que a utilizam para vender peixe estragado.”

Uma preocupação recorrente é o desmonte da indústria cultural brasileira. “A pergunta que interessa à história é: — Onde o Brasil errou? A lista é extensa. Começa quando o país não soube defender sua indústria cultural – as produtoras de cinema e gravadoras de músicas – e de bens de consumo ligeiro, na década de 1950; prossegue com a omissão diante da eleição de 1960 de um parlamento com votos comprados em dólares e, anos depois, comprovada a fraude, a manutenção dos mandatos.” Em “A tragédia dos muitos erros” (12 de outubro de 2018), que ele encerra assim: “o Brasil é um país periférico, de classes sociais separadas por muros invisíveis e de regiões que não dialogam umas com as outras porque só se ouve a matraca da elite podre de São Paulo: o povo, mestiço, crédulo, tolerante em sua prática e conservador nos costumes, segue o What’sApp e a TV. Digamos que o conjunto dos erros se resume em múltiplo colapso comunicacional.”

O jornalismo não é central em muitas crônicas, mas quando aparece, sempre há uma contextualização histórica, que sustenta a conclusão, ferina e precisa: “O jornalismo que esperamos – testemunho honesto e íntegro da realidade – ainda existe, mas se esconde, como a melhor ciência, em um oceano de falsas verdades infinitamente repetidas. Busca-se manter padrão elevado de excitação e de medo, prometer a indivíduos o que se nega às sociedades, e promover o banal para ocultar o que é importante. Não que a estratégia seja nova – há mais de um século, método similar impunha a americanos, africanos e asiáticos a certeza da superioridade da “raça branca” –, mas cresceu com o gigantismo dos meios de comunicação, apoiada, agora, na caixa de ressonância das mídias sociais.” (A era da mentira, 24 de novembro de 2018).

E, sempre, o compartilhamento das experiências profissionais e pessoais que teve ao longo da carreira, traz informações complementares muito valiosas. Como neste trecho de “Do céu ao chão”, de 27 de abril de 2019: “David Nasser, no após Segunda Guerra, misturava ficção e realidade, tal como no apogeu do sensacionalismo americano de décadas antes; gente dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, convenceu Benjamim Vargas a deixar-se fotografar provando roupas no alfaiate, só para publicar a imagem dele vestindo fraque e cuecas – e assim descreditar a família do presidente. De certa forma, foi contra esse aparelhamento pegajoso que pretendemos – Jânio de Freitas, Evandro Carlos de Andrade, José Ramos Tinhorão, entre outros, na esteira dos ensinamentos de Pompeu de Souza e Danton Jobim –, implantar, no “Diário Carioca” e no “Jornal do Brasil” dos anos 50 e 60, linguagem noticiosa padrão, próxima da fala, referencial, simples e enxuta”.

Neste link é possível acessar as crônicas, no site do jornal. A última, de 20 de abril de 2020, não foi escrita para o jornal. Ele a publicou no facebook e o jornal pediu licença para republicar. É curtinha e emocionante.


NAZISMO

Conheço o nazismo desde criancinha. Gente próxima de minha família morreu lutando contra ele nas encostas geladas de morros na Itália.

Meus instrutores no Colégio Militar eram ex-combatentes. Falavam-me da guerra e das razões da luta em que se empenharam.

Li autores do fascismo, dei aulas sobre isso.  Estudei a relação umbilical entre a ideologia da eugenia, o darwinismo social e a deformidade moral que leva à seleção dos homens conforme sua utilidade econômica, a ponto de justificar os campos de extermínio.

Sei que o país é governado por assassinos de jovens prisioneiros e heróis de salas de tortura. No entanto, saber é diferente de sentir.

E é terrível sentir-se desprezado como um traste na etapa final da vida, exatamente quando o amor próprio se sustenta de feitos e sonhos do passado. Muito mais doloroso do que vocês pensam.

o dá para ver a tela do computador: os olhos estão molhados e molham o rosto.

Coisa de velho.”


“BIBLIOGRAFIA”

Transcrevo a seguir uma das mais peculiares, dentre as 130 crônicas da coluna “Em Geral”. Nilson Lage oferece (em 19 de outubro de 2019), aos leitores, um roteiro bibliográfico sobre opinião pública. Como ele mesmo diz, ao final: “divirtam-se”.

Opinião pública — o caminho (das pedras) dos livros

Escrevo, às vezes, aqui sobre discursos utilizados para o controle de opinião pública — e aparecem interessados no assunto. Para os muito interessados, eis um roteiro bibliográfico:

1. A base argumental das estratégias utilizadas até hoje são falácias retóricas e lógicas descritas na Antiguidade: os argumentos ad hominem, ad verecundiam, ad baculum, ad ignoriantiam etc.; ou construções tais como as em que se nega o antecedente de uma implicação para negar o consequente, violando o mecanismo do modus ponendo ponens, ou deduz da negação do consequente que o antecedente é falso, violando o modus tolendo tollens. Sobre esses temas, leitura didática e clara (embora voltada estritamente para o universo cultural norte-americano) está em Irving Copi, “Introdução à Lógica”, disponível grátis na web.

2. O quadro psicossocial depressivo e raivoso que se implantou na Europa na segunda metade do Século XIX, atribuído a prolongada recessão e que serviu de terreno para a implantação do fascismo é descrito em “A multidão criminosa” (“La folla delinquente”, 1891), de Scipio Sighelle e “Psicologia das multidões”, de Gustave Le Bon (“Psyhologie des foulles”, 1985), ambos igualmente disponíveis grátis em pdf.

3. A propaganda comunista obedece a normas clássicas (fixadas, por exemplo, congregação para propagação da fé — Propaganda Fidei —, fundada em 1622 pelo papa Gregório XV: sequência teoria-doutrina-normas-dísticos; tom apologético, apelo emocional fundamentado em verdade revelada.

4. Os textos básicos sobre a propaganda norte-americana são “Opinião Pública”, de Walter Lipmann (“Public Opinion”, 1922) e “Propaganda”, de Edward Bernays (“Propaganda!, 1928). O livro de Lipmann pode ser achado na web em pdf e o de Bernays em inglês, ou em espanhol, com o mesmo título. Dentre os textos críticos a respeito, destacam-se “Manufacturing consent, the political economy of mass media” (“A fabricação do consenso” — ou “do consentimento”, de Noam Chomsky e Edward Herman, 1988): a edição original pode ser acessada via Google Play ou Amazon, ou encontrada, grátis, em pdf, em espanhol, via https://yadi.sk/i/cmXOdnY1tRjP8. Há muitas resenhas e artigos comentando o assunto, e um filme baseado nele, “Necessary Ilusions”, acessível grátis, no Youtube, com o título “Consenso fabricado” e legendas em português.

5. A propaganda nazista foi estudada, entre outros autores, por Jean-Marie Domenach, em “A propaganda política” (“La propagande politique”, 1951), disponível na web, e por Serge Tchakhotine, biólogo e discípulo de Pavlov, que a analisa aplicando a Teoria dos Reflexos, em “A mistificação das massas pela propaganda politica” (“Le viol des foulles para la propagadande politique”, 1938-1952), traduzido para o português por Miguel Arraes e disponível em pdf.

6. Os dois modelos — o alemão e o norte-americano, diferenciados pela natureza dos regimes políticos — tiveram percursos paralelos e contatos frequentes. Baseiam-se, ambos, na convicção expressa em termos filosóficos por Martin Heidegger (“Sobre a essência da verdade”, texto complexo de que há boa tradução na coleção “Os Pensadores”, da Editora Abril) de que alguns homens são capazes de, em lugar de adequar seus enunciados à realidade, como na definição platônica da verdade por Isaac Israeli (Século IX), adequar a realidade a seus enunciados.

7. Após a Segunda Guerra Mundial, conhecimentos operacionais da propaganda alemã incorporaram-se à gigantesca máquina de relações-públicas do Estados Unidos. Ela assumiria amplitude global; seria particularmente beneficiada com o desenvolvimento da estatística aplicada ao monitoramento da opinião pública; o progresso das telecomunicações e a Internet, e a manipulação de dados comportamentais de grupos cada vez mais limitados de indivíduos..

8. Do ponto de vista da estruturação das mensagens, as contribuições contemporâneas mais importantes são estudos sobre as metáforas como estrutura básica da construção do léxico e, daí, para a percepção e raciocínio humano sobre a realidade – em que se destacam textos de George Lakoff; a semiologia derivada, entre outros, de Roland Barthes (“Mitologias”, Mythologies, 1957, disponível na web em francês, português e outros idiomas); e os avanços no campo denominado “análise do discurso”, em que se desvelam mecanismos de construção da realidade em narrativas complexas (como coberturas jornalísticas sintéticas), área em que se destaca Teun Van Dijk. Há fartura de estudos sobre isso na rede e alhures.

Divirtam-se.”


[1] Nilson Lage cursou Medicina, mas não concluiu; formado em Letras (Português-Russo) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1977); mestrado em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1978) e doutorado em Lingüística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1986). Atuou como jornalista no Jornal do Brasil, O Globo, Última Hora, Manchete e na Televisão Educativa do Rio de Janeiro. Também trabalhou nas assessorias de comunicação da Estrada de Ferro Central do Brasil, Caixa Econômica Federal e Eletrobrás. Foi professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Universidade Federal do Rio de Janeiro e Universidade Federal Fluminense. É autor de seis livros, entre eles Estrutura da Notícia, Linguagem Jornalística, Controle de Opinião Pública, Os Grandes Enigmas de Nossa História, A Reportagem: teoria e técnica da pesquisa jornalística e Teoria e Técnica do Texto Jornalístico. Foi diretor do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), órgão vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia. Faleceu em Florianópolis, SC, em 23 de agosto de 2021, aos 84 anos.

[2] Essas informações foram coletadas pelo autor nas várias ocasiões em que atuou como consultor editorial do jornal, ministrou seminários para a redação, criou o atual projeto gráfico do jornal e redigiu o uia de Ética e Autorregulamentação Jornalística do Diarinho.

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