Clarissa Peixoto
Jornalista, mestra em Jornalismo pelo PPGJor/UFSC e pesquisadora do objETHOS

Existir na cidade exige cada vez mais malabarismos de quem sobrevive com a venda da própria força de trabalho. Pagar a conta de aluguel, de luz, do condomínio, da internet. O transporte para a escola ou para o trabalho, muitas vezes, requer mais de uma condução. É preciso comer, se vestir, ter um diploma e seguir nesse ciclo vicioso retroalimentado por ele mesmo.

Guardo alguma memória sobre o que tem sido viver no Brasil, nos últimos 20 anos, e me atrevo a dizer que essa deve ser a principal crise econômica e política desde que começou o século 21. Uma situação que se agravou com a pandemia e que nos empurra para o pico de uma crise social e urbana com origem na lógica desigual de ocupação do território.

Para Ermínia Maricato, entender a ocupação do território nas grandes cidades, requer perceber sua lógica excludente. A pesquisadora afirma que há uma determinação estrutural da exclusão urbana e isso tem a ver com a nossa história. A passagem do meio rural para o urbano aconteceu de forma desordenada e “temos pouca tradição de pensar (e implementar) direitos universais”.

Se a situação econômica atual piorou as condições de vida das pessoas, o clima político também é responsável por acelerar as desigualdades dentro dos limites das cidades, promovendo violência sobre a parcela da população mais vulnerável.

Do ponto de vista da cobertura jornalística, parece óbvio que essas pessoas sejam visibilizadas. Como arena pública, é papel do jornalismo discutir as questões em torno desse “existir”, cada vez mais conflituoso, dentro das cidades. É um debate público atual, que diz respeito aos direitos humanos e às questões ambientais emergentes.

Ocupações urbanas populares na Grande Florianópolis

A situação não é diferente do que acontece em outras regiões metropolitanas. Na Grande Florianópolis, a expulsão das classes subalternas e menos favorecidas de áreas que interessam à especulação imobiliária, não é um fenômeno novo. Soma-se a isso, os efeitos de um período de completo sucateamento do sistema previdenciário brasileiro e do rebaixamento das leis trabalhistas, políticas aprofundadas no governo Temer e Bolsonaro.

O aluguel em Florianópolis aumentou 15% no último ano. O gás de cozinha é também o mais caro da região Sul. Sem contar os aumentos frequentes do combustível e da energia elétrica. A cesta básica de Florianópolis, segundo o DIEESE, é a segunda mais cara do Brasil. Uma pesquisa do TCE/SC, realizada em 2020, também identificou o aumento da população em situação de rua na região. O momento estimula as pessoas a buscarem alternativas de sobrevivência.

Atualmente, a Grande Florianópolis registra 11 ocupações urbanas populares organizadas. São quatro na capital, quatro em Palhoça, duas em São José e um assentamento em Água Mornas. De acordo com o estudo realizado pelo pesquisador Jefferson Maier, do programa de Pós-Graduação em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Socioambiental da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), pelo menos mil famílias vivem nesses espaços.

Esse número não inclui outras formas de ocupação populares urbanas mais espontâneas, ou mesmo o importante déficit habitacional na região, estimado em torno de 30 a 60 mil domicílios, segundo dados de 2019 da Fundação João Pinheiro. No estado, o déficit é de mais de 200 mil domicílios.

O jornalismo não pode comportar preconceito e discriminação social

Não é uma novidade a crítica dessas populações a respeito da cobertura realizada pelos veículos tradicionais de comunicação quando o assunto são ocupações urbanas populares. Em geral, apontam para a invisibilidade conferida pelos veículos e a estigmatização de quem mora em áreas populares de ocupação urbana. Essa crítica também se estende para a apropriação, pelo jornalismo, do discurso de Estado que as trata como ocupações irregulares.

Sejam elas organizadas ou espontâneas, constituídas em periferias urbanas ou em bolsões no centro da cidade, o debate público sobre o tema, muitas vezes, se limita às grandes questões corporativas ou a marginalização e vitimização das pessoas que vivem nessas regiões.

Pensar uma editoria de cidades, requer visibilizar os conflitos sociais dos quais elas são palco. Resguardar os direitos humanos, reportando com transparência e visibilizando a variedade de nosso contigente populacional, sem discriminação ou preconceito, é uma responsabilidade de jornalistas.

Superado o desafio de pautar o tema, é importante não estigmatizar e agir com equidade. Para isso, é preciso respeitar o modo que as pessoas encontram para se articular no espaço urbano, diante do aprofundamento da crise imposta pelo sistema capitalista global.

Olhar para esse aspecto ajuda a garantir um equilíbrio na construção da narrativa jornalística, algo que não se dá de forma matemática. Ou seja, não basta ouvir “os dois lados” se ambos resguardarem entre si uma relação de desigualdade. É um desafio desviar de discursos de exclusão incorporados pelo senso comum. Por isso, é bastante salutar para jornalistas a reflexão sobre equidade no conjunto do seu trabalho, o que inclui a seleção e a escuta de fontes.

Considerar o interesse público e de coletivos em detrimento dos interesses privados de grandes corporações não é uma tarefa simples. Muitas vezes, essas organizações privadas podem ser as próprias empresas jornalísticas que, cada vez mais, atuam interligadas aos mais diversos setores econômicos e articuladas aos interesses do mercado.

Mas, essas são as nossas atribuições como jornalistas, sobretudo, quando o assunto é desigualdade social e garantia de direitos humanos, como a habitação. Não é prescritivo, mas essencial que jornalistas mantenham a atenção sobre o que acontece em sua própria aldeia, incluindo as contradições e conflitos sociais que constroem o cenário urbano.

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