Dairan Paul
Doutorando em Jornalismo (UFSC) e pesquisador do objETHOS

Escrevi, em meu último comentário para o objETHOS, sobre o custo emocional de ser jornalista. O argumento central do texto relacionava as condições precárias da profissão às rotinas e valores que orientam o jornalismo. Parte disso envolvia um imaginário de sacerdócio e missão inerente à figura do repórter, disponível a trabalhar 24 horas em nome de sua “causa”.

Neste texto, desdobro uma nova discussão para aprofundar os aspectos de gênero que sustentam a cultura “heroica” do jornalismo. São valores que acabam condicionando o acesso, permanência e ascensão de mulheres jornalistas em suas carreiras.

Em “News stories about fallen journalists”, Raymond McCaffrey, professor de ética na Universidade de Maryland, argumenta que a figura do jornalista como “herói” é um mito histórico. Advém de uma cultura das redações que recompensa comportamentos de risco, masculinos, em detrimento daqueles que expressam emoções – caso de coberturas duras, como guerras e acontecimentos traumáticos. “Na superfície, esse ethos não se relaciona diretamente aos princípios do jornalismo, como verdade, equilíbrio, independência e imparcialidade”, explica o pesquisador. No entanto, normas profissionais podem derivar de mitos que reforçam qualidades ausentes dos códigos profissionais, como a coragem e a propensão a tomar riscos. Assemelha-se ao discurso religioso do jornalista-sacerdote, acrescido de valores masculinistas que exaltam uma ideia de “força” e “poder”.

Tal conjunto de valores é apenas um dos fatores que explicam os entraves à permanência de mulheres no jornalismo. Indo mais além, recorro à diferença entre dois importantes conceitos, feminilização e feminização.

Neste artigo, Andressa Kikuti, Jacques Mick e Paula Melani da Rocha explicam que o aumento numérico da mão de obra feminina denomina-se feminilização. Feminização, por outro lado, refere-se às mudanças nas condições de trabalho por conta da inserção de mulheres no campo profissional. São as alterações que efetivamente põe em xeque as relações de poder sob domínio dos homens, impactando, por exemplo, as tomadas de decisão e cargos de chefia das redações.

Estes dois conceitos ajudam a explicar uma situação que, à primeira vista, poderia soar contraditória: como mulheres não recebem tratamento igualitário nas redações se o jornalismo brasileiro é uma profissão exercida majoritariamente por elas? 

Ainda que os dados do Perfil do Jornalista Brasileiro 2021 apontem uma leve redução de 6% no número de profissionais mulheres (de 64% em 2012 para 58% no estudo mais recente), o jornalismo continua sendo uma profissão bastante feminina. Ser maioria, entretanto, não implica mudanças automáticas na cultura machista das redações ou mesmo na ascensão de carreira das profissionais. Em outras palavras, o processo de feminilização não leva necessariamente à feminização.

É por isso que Kikuti, Mick e Rocha, ao analisarem as duas pesquisas (de 2021 e 2012), identificam uma possível “desfeminilização” no jornalismo – mesmo com uma maioria numérica na profissão. Percebem, quando se debruçam sobre os dados da survey nacional realizada no ano passado, que há uma queda no número de mulheres ainda atuantes na mídia, principalmente em cargos de editoras e repórteres. É o contrário dos homens, que permanecem atuando no jornalismo e, de quebra, detêm faixas de renda mais elevadas, superando dez salários mínimos. Daí a conclusão: o aumento de mulheres não implica automaticamente em maior equidade na divisão sexual do trabalho. Kikuti, Mick e Rocha afirmam que “a mídia brasileira mandou parte das mulheres para casa” – ao menos no jornalismo mainstream, nos quais cargos de chefia ainda são exceções para elas.

Essa percepção também é ratificada em outro estudo que investigou mudanças na carreira de 517 jornalistas brasileiros, cinco anos após participarem do Perfil de 2012. Camilla Tavares, Cintia Xavier e Felipe Pontes identificam que mulheres estão entre a maioria a deixar a profissão para exercer outras atividades, como assessoria de imprensa ou docência. O alto número de mulheres que não trabalham mais com jornalismo e estão desempregadas, 60%, é um possível indício das dificuldades estruturais de gênero no mercado de trabalho, afirmam as autoras. 

O dilema entre vida social e profissional também contribui para a expulsão de mulheres no jornalismo brasileiro. Conforme atesta Felipe Pontes, “o jornalismo é uma profissão que tende a privilegiar os solteiros. E esse filtro dos que permanecem no jornalismo é mais estreito para as mulheres”. Isso porque o salário baixo reduz as expectativas de que constituam famílias; quando conseguem, isso se torna um problema, já que “[elas] tendem a não ver espaço nas hierarquias mais bem remuneradas do jornalismo – simbólica e materialmente dominada por homens”.

Diante desse quadro, afirmar que o jornalismo expulsa mulheres não parece soar tão exagerado. Embora não seja exclusividade da profissão, mas parte de um problema estrutural, busquei ressaltar neste texto alguns aspectos do jornalismo que contribuem para um entendimento masculinizado da profissão. Essa compreensão se dá a partir de valores que, por sua vez, representam horizontes desejáveis a determinados padrões de conduta para um jornalismo de “excelência” – como a coragem heroica e propensa a tomar riscos. E, a partir dessa qualidade estipulada, tomam-se decisões organizacionais que, eventualmente, barram a entrada e permanência daqueles(as) que não estão “aptos” ao ethos das redações.

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