Comentário da Semana: De jornalistas-cidadãos a cidadãos críticos do jornalismo

Lívia de Souza Vieira
Doutoranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

No final da década de 1970, a socióloga americana Gaye Tuchman escreveu a obra clássica “Making News: a study in the construction of reality”, com foco na produção de notícias dentro das redações jornalísticas. Para isso, Tuchman partiu de três premissas: 1) a notícia é um método institucional para fazer com que a informação esteja disponível aos consumidores; 2) a notícia é uma aliada das instituições legitimadas; 3) a notícia é localizada, recolhida e disseminada por profissionais que trabalham em organizações.

Embora ainda sejam importantes para os estudos de newsmaking, não é difícil constatar que vivemos um cenário em que essas premissas estão sendo constantemente questionadas. As instituições jornalísticas continuam sendo mediadores importantes dos acontecimentos, mas não são mais os únicos. Junto a elas está a crescente possibilidade da emissão de informação por parte da audiência. E isso muda muita coisa.

É certo que um grau de participação da audiência na produção de notícias sempre existiu. Cartas dos leitores, ligações telefônicas e mensagens por fax, por exemplo, não são meios novos de comunicação. Da mesma forma, não estamos dizendo que havia uma passividade dos leitores com relação à informação jornalística consumida. O simples ato de mudar de canal já representava autonomia e escolha crítica do cidadão.

No entanto, a partir da década de 1990, com a explosão dos blogs, o poder de participação dos cidadãos comuns foi bastante amplificado. Inicialmente utilizados como diários virtuais, os blogs passaram a noticiar acontecimentos vivenciados por pessoas que, até então, eram enxergadas somente como ‘leitores’. O ataque às Torres Gêmeas, em 2001, nos Estados Unidos, foi um marco dessa participação. Hoje, com as redes sociais digitais, fica muito mais fácil entender o empoderamento dessa audiência.

Nesse contexto, as redações jornalísticas passaram a acolher a participação individual de forma mais efetiva, chamando tais interagentes de ‘jornalistas-cidadãos’, dentro do que se convencionou como jornalismo colaborativo ou participativo. Essas nomenclaturas são frequentemente questionadas, pois ser fonte de informação ou enviar vídeos e fotos de flagrantes do cotidiano não fazem do cidadão, necessariamente, um jornalista.

Mesmo com essas ressalvas, há inúmeros exemplos que mostram que esse é um caminho sem volta: a emissão de informação jornalística, ou seja, de interesse público, não é mais exclusividade dos jornalistas.

A partir desse contexto, vamos acrescentar mais um ingrediente à reflexão: além de produtores de notícias, cidadãos comuns estão, cada vez mais, exercendo o papel de críticos do jornalismo feito pelas empresas tradicionais de mídia.

Tal fato igualmente não é algo novo, pois as críticas às práticas jornalísticas ocorreram quase que ao mesmo tempo do nascimento dos primeiros jornais. Nos dias atuais, sites de crítica de mídia como o Observatório da Imprensa, por exemplo, possuem artigos de profissionais de diversas áreas.

Embora não seja nova, a crítica ao jornalismo tem ganhado contornos interessantes nas redes sociais, com destaque para a utilização do humor através dos memes. Dessa forma, o empoderamento do cidadão comum se volta para a crítica à produção jornalística, seja questionando linhas editoriais ou enquadramento de determinados acontecimentos. Consideramos que tal fenômeno possui implicações éticas, pois, ao viralizarem nas redes, os memes depõem contra a credibilidade historicamente construída pelas instituições jornalísticas.

Com fundamento ou não, questionar as instituições é também questionar o próprio jornalismo, embora saibamos que os dois não são a mesma coisa. Após mais de 300 anos de jornalismo institucionalizado, não é fácil separar as empresas do que é o jornalismo, propriamente dito.

Quando a imprensa vira piada

Em janeiro deste ano, a Folha de S. Paulo deu, em manchete, o hoje já conhecido episódio do barco de Lula. De acordo com a reportagem, Marisa Letícia, mulher do ex-presidente, adquiriu um barco e mandou entregá-lo em um sítio na cidade de Atibaia (SP), o que comprovaria uma relação próxima de Lula com a propriedade.

O sítio está registrado em nome de Jonas Suassuna, sócio do filho de Lula, Fábio Luis. Também de acordo com a Folha, que ouviu uma fornecedora de material de construção e um marceneiro, a reforma do sítio teria sido paga pela empreiteira Odebrecht.

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No entanto, o que a reportagem não destacou em manchete é que o barco é, na verdade, uma pequena embarcação, quase uma canoa motorizada, que custa R$ 4.126. No mesmo dia, a fragilidade da ‘denúncia’ começou a ser questionada nas redes sociais.

Com a legenda ‘as canoa, os triplex, os foguete da nasa… E um dia será do filho do Lula’, o meme feito pela fanpage ‘Deboas na Revolução’ no Facebook faz alusão ao filme O Rei Leão, para criticar a relevância de tal “denúncia”.

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Também de forma bem humorada, a imagem abaixo chama atenção para o papel social do jornalismo de checagem e verificação dos fatos. Se levada à reflexão, podemos entendê-la como um alerta importante do público, já que, ao deixar de cumprir funções essenciais, o jornalismo deixa, em última instância, de ser reconhecido como tal. Diversas pessoas e páginas compartilharam a imagem, de modo que é difícil saber a fonte original.

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A imagem abaixo, compartilhada pelo escritor Fernando Morais, é uma espécie de análise semiótica de uma página do jornal O Estado de S. Paulo, em que o autor critica detalhadamente as escolhas editoriais do veículo. Desde a diferença nos semblantes de Lula e Fernando Henrique Cardoso até a estrutura verbal dos dois títulos. A intenção da crítica, que viralizou nas redes sociais, foi mostrar novamente as acusações a que Lula é submetido pela imprensa, das quais o também ex-presidente FHC é poupado.

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Questionando especialmente os títulos das notícias, a página ‘Caneta desmanipuladora’ no Facebook os reescreve de forma objetiva e, segundo o próprio nome, sem manipulação. A página recebe muitas colaborações, o que reforça nosso argumento de que os leitores não só percebem os enquadramentos enviesados da cobertura jornalística tradicional, como também a criticam. Veja alguns exemplos abaixo:

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Brincadeira séria

A relação dos jornalistas – e do jornalismo – com sua audiência foi marcada por tensões ao longo do tempo. A arrogância profissional e a primazia na emissão das informações fizeram com que os lados de quem emite e de quem recebe estivessem bem demarcados durante um longo período.

Atualmente, com o quase desaparecimento dessa demarcação, cabe às instituições ouvir de forma séria seus leitores. São eles que atestam a credibilidade de que tanto se vangloriam as empresas jornalísticas. Embora circulem pela internet de forma bem humorada, a crítica à imprensa precisa ser levada a sério.

Estamos falando, portanto, de um desafio ético, que diz respeito à credibilidade e à própria sobrevivência das empresas jornalísticas. Há que se tomar atitudes para além da retórica de que os leitores são o maior patrimônio de um jornal. Começar a ouvir as críticas que partem de cidadãos comuns é o primeiro passo para a reflexão sobre o futuro do jornalismo.

Um caminho interessante para a formação de cidadãos críticos e atentos é o contato com a leitura crítica da mídia desde a infância. Dessa forma, o cidadão aprenderia, ainda na escola, a desenvolver um senso crítico e a ler as notícias de maneira a questionar e interpretar os mais diversos enquadramentos. Seria uma excelente maneira de entender as relações entre a mídia e as audiências, o que certamente elevaria a qualidade do noticiário. Cidadãos que questionam contribuiriam, assim, para uma imprensa melhor, dentro e fora das redes sociais.

Comentário da Semana: Por que não o jornalismo público?

Mariana Rosa
Mestranda no POSJOR e pesquisadora do objETHOS

Quando se fala em jornalismo público no Brasil costumamos ter uma forte tendência à desconfiança. A ideia majoritária no senso comum e sobretudo entre os próprios jornalistas parece ser de que o jornalismo feito em instituições públicas é sinônimo de censura e falta de autonomia, de uma mera propaganda oficial, uma comunicação pública para promover a imagem dos governantes. De fato, a influência política é um risco que se corre em iniciativas desta natureza. Mas será que a ameaça à autonomia é um mal exclusivo do jornalismo público? Não deveríamos estar igualmente preocupados com o jornalismo feito nas iniciativas privadas? Por que tememos tanto um e não o outro?

Para pensar estas questões, é interessante antes refletir um pouco sobre a origem do jornalismo e o seu papel na sociedade.

Os primeiros periódicos se desenvolveram no período do mercantilismo europeu, um contexto marcado pela censura dos poderes absolutistas e da Igreja, onde as publicações eram restritas a troca de informações estratégicas entre os mais poderosos. Como aponta Daniel Cornu, na obra Ética e verdade (1999), o interesse público passa a ser alvo dos jornais após a queda destes poderes, quando os estados em formação carecem de instrumentos de mediação entre as decisões políticas e a opinião pública.

Assim, os jornais se colocaram como uma alternativa de comunicação com potencial mais abrangente que os espaços e instrumentos de representação formal, como assembleias e decretos, que por sua vez não garantiam acesso em pé de igualdade à esfera pública. Neste sentido, como aponta Daniel Cornu, este período, de formação da esfera pública, representa para as publicações um primeiro espaço de liberdade.

A liberdade de imprensa e o interesse público passam a ser, a partir daí, os dois principais fundamentos da atividade, que, no entanto, vão coexistir com um terceiro aspecto: a natureza privada das instituições jornalísticas. Por um lado, é este o aspecto que vai garantir, em um primeiro momento, a autonomia das publicações frente aos poderes. Por outro, na medida em que a atividade se desenvolve como negócio, é o mesmo quem vai comprometer que o interesse público seja plenamente atendido.

Fica desenhado assim um conflito ético estrutural na profissão: é uma atividade que visa atender o interesse público, mas tem natureza privada. Conflito típico da esfera pública contemporânea que trata-se na visão de Wilson Gomes de uma “esfera da representação pública dos interesses privados que não ousam assumir tal condição”, como aponta no texto Esfera pública política e comunicação em Mudança estrutural da esfera pública de Jurgen Habermas (2008, p.52).

Na tentativa de conciliar aspectos de caráter tão oposto, assistimos a formação de um jornalismo cínico, como bem caracteriza o professor e pesquisador do objETHOS Francisco Karam.

Quem dá conta de atender ao interesse público?

Quando insistimos em acreditar que o jornalismo privado é ainda um espaço de total liberdade e de legítima defesa do interesse público, ignoramos  que da mesma forma que a Igreja, os governos absolutistas e os governos republicanos, que em diferentes momentos históricos e países assumiram – e ainda assumem – faces ditatoriais, no jornalismo comercial também está colocado, mesmo que de forma implícita, um tipo de controle, que também pode vir a se manifestar em atos de censura, com a omissão de debates caros ao interesse público, de acordo com seus próprios interesses. E o seu interesse primordial será sempre manter a sua condição objetiva, de um negócio que precisa lucrar.

É evidente que nem sempre esse interesse vai entrar em conflito com o interesse público. Se consegue, muitas vezes fazer bom jornalismo, com contribuições relevantes para a democracia. Mas não é incomum que nas redações, sobretudo as de jornais locais, ainda se oriente – a boca pequena, ou nem tanto – que determinadas prefeituras ou políticos não sejam criticados ou denunciados, por manterem relações comerciais com o jornal. E quem está nas redações ou tem amigos por lá sabe disso. Então, sejamos francos. A iniciativa privada não nos poupa dos constrangimentos tão temidos em relação ao jornalismo público. E, se é assim, por que não o jornalismo público?

O conflito pela autonomia é intrínseco à atividade jornalística, será sempre um desafio a ser perseguido, algo a ser reivindicado  – e, evidentemente, nunca será plenamente alcançado, a autonomia completa não é possível, sobretudo em uma atividade de caráter social tão forte como é o jornalismo.

No entanto, é necessário pensar, ainda mais no atual momento que vive a profissão, quais são as estruturas onde há mais espaço para esta busca. Nos dois casos, público e privado, o exercício do jornalismo sem restrições depende de transparência e de dispositivos de fiscalização que assegurem que a atividade cumpre o seu papel de informar prezando pelo interesse publico e pela pluralidade. Enquanto no jornalismo público estes dispositivos são previstos por lei, na mídia brasileira as empresas atuam sem regulamentação, ignorando a legislação vigente em uma série de aspectos e sem se preocupar com contrapartidas ao espaço que ocupam na sociedade.

O desmonte da EBC

As ações que visam o desmonte da EBC (Empresa Brasil de Comunicação) tomadas pelo presidente interino Michel Temer desde que assumiu de forma ilegítima o governo demonstram a fragilidade do jornalismo público no país e reforçam a necessidade que o mesmo seja desvinculado de vez do poder executivo.

Apesar da notável atuação da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e da Frente Em Defesa da EBC e da Comunicação Pública no caso, as saídas públicas para o jornalismo ainda parecem intimidar boa parte da classe. Trata-se de uma bandeira que poucos parecem dispostos a levantar. Democracia saudável e instituições públicas que funcionam, estas sim, caminham sempre juntas. Há de se lutar por ambas.

Referências

CORNU, Daniel. Jornalismo e verdade: para uma ética da informação. Lisboa: Instituto Piaget, 1999.

GOMES, Wilson. Esfera pública política e comunicação em Mudança estrutural da esfera pública de Jurgen Habermas. In.: Comunicação e democracia: problemas e perspectivas. São Paulo: Paulus, 2008.

 

Pesquisador do objETHOS participa de Colóquio sobre Jornalismo

O jornalista e professor Francisco José Castilhos Karam, pesquisador do objETHOS, participa amanhã (12), em Santa Maria, de Colóquio que discutirá o tema “Novas plataformas, agendamento e debate público”. Na mesa, com Karam, estarão os jornalistas Lúcio Flávio Pinto e Moisés Mendes, tendo como mediador Marcello Canelas. Veja os detalhes da programação, que inclui duas mesas temáticas: