Comentário da Semana: De jornalistas-cidadãos a cidadãos críticos do jornalismo

Lívia de Souza Vieira
Doutoranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

No final da década de 1970, a socióloga americana Gaye Tuchman escreveu a obra clássica “Making News: a study in the construction of reality”, com foco na produção de notícias dentro das redações jornalísticas. Para isso, Tuchman partiu de três premissas: 1) a notícia é um método institucional para fazer com que a informação esteja disponível aos consumidores; 2) a notícia é uma aliada das instituições legitimadas; 3) a notícia é localizada, recolhida e disseminada por profissionais que trabalham em organizações.

Embora ainda sejam importantes para os estudos de newsmaking, não é difícil constatar que vivemos um cenário em que essas premissas estão sendo constantemente questionadas. As instituições jornalísticas continuam sendo mediadores importantes dos acontecimentos, mas não são mais os únicos. Junto a elas está a crescente possibilidade da emissão de informação por parte da audiência. E isso muda muita coisa.

É certo que um grau de participação da audiência na produção de notícias sempre existiu. Cartas dos leitores, ligações telefônicas e mensagens por fax, por exemplo, não são meios novos de comunicação. Da mesma forma, não estamos dizendo que havia uma passividade dos leitores com relação à informação jornalística consumida. O simples ato de mudar de canal já representava autonomia e escolha crítica do cidadão.

No entanto, a partir da década de 1990, com a explosão dos blogs, o poder de participação dos cidadãos comuns foi bastante amplificado. Inicialmente utilizados como diários virtuais, os blogs passaram a noticiar acontecimentos vivenciados por pessoas que, até então, eram enxergadas somente como ‘leitores’. O ataque às Torres Gêmeas, em 2001, nos Estados Unidos, foi um marco dessa participação. Hoje, com as redes sociais digitais, fica muito mais fácil entender o empoderamento dessa audiência.

Nesse contexto, as redações jornalísticas passaram a acolher a participação individual de forma mais efetiva, chamando tais interagentes de ‘jornalistas-cidadãos’, dentro do que se convencionou como jornalismo colaborativo ou participativo. Essas nomenclaturas são frequentemente questionadas, pois ser fonte de informação ou enviar vídeos e fotos de flagrantes do cotidiano não fazem do cidadão, necessariamente, um jornalista.

Mesmo com essas ressalvas, há inúmeros exemplos que mostram que esse é um caminho sem volta: a emissão de informação jornalística, ou seja, de interesse público, não é mais exclusividade dos jornalistas.

A partir desse contexto, vamos acrescentar mais um ingrediente à reflexão: além de produtores de notícias, cidadãos comuns estão, cada vez mais, exercendo o papel de críticos do jornalismo feito pelas empresas tradicionais de mídia.

Tal fato igualmente não é algo novo, pois as críticas às práticas jornalísticas ocorreram quase que ao mesmo tempo do nascimento dos primeiros jornais. Nos dias atuais, sites de crítica de mídia como o Observatório da Imprensa, por exemplo, possuem artigos de profissionais de diversas áreas.

Embora não seja nova, a crítica ao jornalismo tem ganhado contornos interessantes nas redes sociais, com destaque para a utilização do humor através dos memes. Dessa forma, o empoderamento do cidadão comum se volta para a crítica à produção jornalística, seja questionando linhas editoriais ou enquadramento de determinados acontecimentos. Consideramos que tal fenômeno possui implicações éticas, pois, ao viralizarem nas redes, os memes depõem contra a credibilidade historicamente construída pelas instituições jornalísticas.

Com fundamento ou não, questionar as instituições é também questionar o próprio jornalismo, embora saibamos que os dois não são a mesma coisa. Após mais de 300 anos de jornalismo institucionalizado, não é fácil separar as empresas do que é o jornalismo, propriamente dito.

Quando a imprensa vira piada

Em janeiro deste ano, a Folha de S. Paulo deu, em manchete, o hoje já conhecido episódio do barco de Lula. De acordo com a reportagem, Marisa Letícia, mulher do ex-presidente, adquiriu um barco e mandou entregá-lo em um sítio na cidade de Atibaia (SP), o que comprovaria uma relação próxima de Lula com a propriedade.

O sítio está registrado em nome de Jonas Suassuna, sócio do filho de Lula, Fábio Luis. Também de acordo com a Folha, que ouviu uma fornecedora de material de construção e um marceneiro, a reforma do sítio teria sido paga pela empreiteira Odebrecht.

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No entanto, o que a reportagem não destacou em manchete é que o barco é, na verdade, uma pequena embarcação, quase uma canoa motorizada, que custa R$ 4.126. No mesmo dia, a fragilidade da ‘denúncia’ começou a ser questionada nas redes sociais.

Com a legenda ‘as canoa, os triplex, os foguete da nasa… E um dia será do filho do Lula’, o meme feito pela fanpage ‘Deboas na Revolução’ no Facebook faz alusão ao filme O Rei Leão, para criticar a relevância de tal “denúncia”.

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Também de forma bem humorada, a imagem abaixo chama atenção para o papel social do jornalismo de checagem e verificação dos fatos. Se levada à reflexão, podemos entendê-la como um alerta importante do público, já que, ao deixar de cumprir funções essenciais, o jornalismo deixa, em última instância, de ser reconhecido como tal. Diversas pessoas e páginas compartilharam a imagem, de modo que é difícil saber a fonte original.

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A imagem abaixo, compartilhada pelo escritor Fernando Morais, é uma espécie de análise semiótica de uma página do jornal O Estado de S. Paulo, em que o autor critica detalhadamente as escolhas editoriais do veículo. Desde a diferença nos semblantes de Lula e Fernando Henrique Cardoso até a estrutura verbal dos dois títulos. A intenção da crítica, que viralizou nas redes sociais, foi mostrar novamente as acusações a que Lula é submetido pela imprensa, das quais o também ex-presidente FHC é poupado.

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Questionando especialmente os títulos das notícias, a página ‘Caneta desmanipuladora’ no Facebook os reescreve de forma objetiva e, segundo o próprio nome, sem manipulação. A página recebe muitas colaborações, o que reforça nosso argumento de que os leitores não só percebem os enquadramentos enviesados da cobertura jornalística tradicional, como também a criticam. Veja alguns exemplos abaixo:

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Brincadeira séria

A relação dos jornalistas – e do jornalismo – com sua audiência foi marcada por tensões ao longo do tempo. A arrogância profissional e a primazia na emissão das informações fizeram com que os lados de quem emite e de quem recebe estivessem bem demarcados durante um longo período.

Atualmente, com o quase desaparecimento dessa demarcação, cabe às instituições ouvir de forma séria seus leitores. São eles que atestam a credibilidade de que tanto se vangloriam as empresas jornalísticas. Embora circulem pela internet de forma bem humorada, a crítica à imprensa precisa ser levada a sério.

Estamos falando, portanto, de um desafio ético, que diz respeito à credibilidade e à própria sobrevivência das empresas jornalísticas. Há que se tomar atitudes para além da retórica de que os leitores são o maior patrimônio de um jornal. Começar a ouvir as críticas que partem de cidadãos comuns é o primeiro passo para a reflexão sobre o futuro do jornalismo.

Um caminho interessante para a formação de cidadãos críticos e atentos é o contato com a leitura crítica da mídia desde a infância. Dessa forma, o cidadão aprenderia, ainda na escola, a desenvolver um senso crítico e a ler as notícias de maneira a questionar e interpretar os mais diversos enquadramentos. Seria uma excelente maneira de entender as relações entre a mídia e as audiências, o que certamente elevaria a qualidade do noticiário. Cidadãos que questionam contribuiriam, assim, para uma imprensa melhor, dentro e fora das redes sociais.

Comentário da Semana: Por que não o jornalismo público?

Mariana Rosa
Mestranda no POSJOR e pesquisadora do objETHOS

Quando se fala em jornalismo público no Brasil costumamos ter uma forte tendência à desconfiança. A ideia majoritária no senso comum e sobretudo entre os próprios jornalistas parece ser de que o jornalismo feito em instituições públicas é sinônimo de censura e falta de autonomia, de uma mera propaganda oficial, uma comunicação pública para promover a imagem dos governantes. De fato, a influência política é um risco que se corre em iniciativas desta natureza. Mas será que a ameaça à autonomia é um mal exclusivo do jornalismo público? Não deveríamos estar igualmente preocupados com o jornalismo feito nas iniciativas privadas? Por que tememos tanto um e não o outro?

Para pensar estas questões, é interessante antes refletir um pouco sobre a origem do jornalismo e o seu papel na sociedade.

Os primeiros periódicos se desenvolveram no período do mercantilismo europeu, um contexto marcado pela censura dos poderes absolutistas e da Igreja, onde as publicações eram restritas a troca de informações estratégicas entre os mais poderosos. Como aponta Daniel Cornu, na obra Ética e verdade (1999), o interesse público passa a ser alvo dos jornais após a queda destes poderes, quando os estados em formação carecem de instrumentos de mediação entre as decisões políticas e a opinião pública.

Assim, os jornais se colocaram como uma alternativa de comunicação com potencial mais abrangente que os espaços e instrumentos de representação formal, como assembleias e decretos, que por sua vez não garantiam acesso em pé de igualdade à esfera pública. Neste sentido, como aponta Daniel Cornu, este período, de formação da esfera pública, representa para as publicações um primeiro espaço de liberdade.

A liberdade de imprensa e o interesse público passam a ser, a partir daí, os dois principais fundamentos da atividade, que, no entanto, vão coexistir com um terceiro aspecto: a natureza privada das instituições jornalísticas. Por um lado, é este o aspecto que vai garantir, em um primeiro momento, a autonomia das publicações frente aos poderes. Por outro, na medida em que a atividade se desenvolve como negócio, é o mesmo quem vai comprometer que o interesse público seja plenamente atendido.

Fica desenhado assim um conflito ético estrutural na profissão: é uma atividade que visa atender o interesse público, mas tem natureza privada. Conflito típico da esfera pública contemporânea que trata-se na visão de Wilson Gomes de uma “esfera da representação pública dos interesses privados que não ousam assumir tal condição”, como aponta no texto Esfera pública política e comunicação em Mudança estrutural da esfera pública de Jurgen Habermas (2008, p.52).

Na tentativa de conciliar aspectos de caráter tão oposto, assistimos a formação de um jornalismo cínico, como bem caracteriza o professor e pesquisador do objETHOS Francisco Karam.

Quem dá conta de atender ao interesse público?

Quando insistimos em acreditar que o jornalismo privado é ainda um espaço de total liberdade e de legítima defesa do interesse público, ignoramos  que da mesma forma que a Igreja, os governos absolutistas e os governos republicanos, que em diferentes momentos históricos e países assumiram – e ainda assumem – faces ditatoriais, no jornalismo comercial também está colocado, mesmo que de forma implícita, um tipo de controle, que também pode vir a se manifestar em atos de censura, com a omissão de debates caros ao interesse público, de acordo com seus próprios interesses. E o seu interesse primordial será sempre manter a sua condição objetiva, de um negócio que precisa lucrar.

É evidente que nem sempre esse interesse vai entrar em conflito com o interesse público. Se consegue, muitas vezes fazer bom jornalismo, com contribuições relevantes para a democracia. Mas não é incomum que nas redações, sobretudo as de jornais locais, ainda se oriente – a boca pequena, ou nem tanto – que determinadas prefeituras ou políticos não sejam criticados ou denunciados, por manterem relações comerciais com o jornal. E quem está nas redações ou tem amigos por lá sabe disso. Então, sejamos francos. A iniciativa privada não nos poupa dos constrangimentos tão temidos em relação ao jornalismo público. E, se é assim, por que não o jornalismo público?

O conflito pela autonomia é intrínseco à atividade jornalística, será sempre um desafio a ser perseguido, algo a ser reivindicado  – e, evidentemente, nunca será plenamente alcançado, a autonomia completa não é possível, sobretudo em uma atividade de caráter social tão forte como é o jornalismo.

No entanto, é necessário pensar, ainda mais no atual momento que vive a profissão, quais são as estruturas onde há mais espaço para esta busca. Nos dois casos, público e privado, o exercício do jornalismo sem restrições depende de transparência e de dispositivos de fiscalização que assegurem que a atividade cumpre o seu papel de informar prezando pelo interesse publico e pela pluralidade. Enquanto no jornalismo público estes dispositivos são previstos por lei, na mídia brasileira as empresas atuam sem regulamentação, ignorando a legislação vigente em uma série de aspectos e sem se preocupar com contrapartidas ao espaço que ocupam na sociedade.

O desmonte da EBC

As ações que visam o desmonte da EBC (Empresa Brasil de Comunicação) tomadas pelo presidente interino Michel Temer desde que assumiu de forma ilegítima o governo demonstram a fragilidade do jornalismo público no país e reforçam a necessidade que o mesmo seja desvinculado de vez do poder executivo.

Apesar da notável atuação da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e da Frente Em Defesa da EBC e da Comunicação Pública no caso, as saídas públicas para o jornalismo ainda parecem intimidar boa parte da classe. Trata-se de uma bandeira que poucos parecem dispostos a levantar. Democracia saudável e instituições públicas que funcionam, estas sim, caminham sempre juntas. Há de se lutar por ambas.

Referências

CORNU, Daniel. Jornalismo e verdade: para uma ética da informação. Lisboa: Instituto Piaget, 1999.

GOMES, Wilson. Esfera pública política e comunicação em Mudança estrutural da esfera pública de Jurgen Habermas. In.: Comunicação e democracia: problemas e perspectivas. São Paulo: Paulus, 2008.

 

Pesquisador do objETHOS participa de Colóquio sobre Jornalismo

O jornalista e professor Francisco José Castilhos Karam, pesquisador do objETHOS, participa amanhã (12), em Santa Maria, de Colóquio que discutirá o tema “Novas plataformas, agendamento e debate público”. Na mesa, com Karam, estarão os jornalistas Lúcio Flávio Pinto e Moisés Mendes, tendo como mediador Marcello Canelas. Veja os detalhes da programação, que inclui duas mesas temáticas:

Ponto de vista: A bruxa na fogueira do Estadão, uma imagem e seus símbolos

ATUALIZADO EM 06/05/2016, às 12h00

Sylvia Debossan Moretzsohn
Jornalista e professora da UFF, pesquisadora do objETHOS

1Que nenhuma imagem vale por si nem pode ser interpretada fora de contexto é algo que deveria ser claro para todos os que têm alguma cultura a respeito de semiótica ou análise de discurso. Por isso causou surpresa o elogio da foto publicada em destaque na primeira página do jornal O Estado de S.Paulo de 4/5/2016: na contramão dos que se chocaram ao ver o rosto da presidente Dilma Rousseff capturado de um ângulo em que parecia estar sendo consumido pelo fogo da tocha olímpica acesa no Planalto, não foram poucos os que classificaram aquela cena como um grande momento do fotojornalismo, capaz de traduzir, numa única imagem, todo um momento histórico.

Não há dúvida de que muitas imagens se tornam simbólicas. Ficaram na memória coletiva, por exemplo, a imagem da menina nua fugindo em desespero do bombardeio de napalm numa aldeia vietnamita, da execução de um prisioneiro vietcongue numa rua de Saigon, do chinês solitário em frente aos tanques no massacre da Praça da Paz Celestial.

Não foi por acaso, portanto, que a polêmica em torno da primeira página do Estadão levou à lembrança de outras fotos marcantes da nossa história política. Desde uma das mais recentes, de 2011 – a de Dilma “atravessada” pela espada do militar em solenidade na Academia das Agulhas Negras –, até a do ex-presidente Janio Quadros com os pés trocados, a simbolizar a falta de rumo do governo, a do general Figueiredo querendo posar de civil mas traído pelo ângulo que lhe fazia assentar na cabeça o quepe do oficial que, atrás dele, batia continência na parada militar, ou a da menina que recusou cumprimentar esse mesmo general-presidente, representando a rejeição popular à ditadura.

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Os elogios à imagem de Dilma ardendo na fogueira diziam respeito à sua qualidade, ou valor, “do ponto de vista jornalístico”. “Foto boa tem de ser publicada, ponto final”, disse um ex-editor de fotografia, com o arremate imediato e absoluto tão característico dos profissionais do ramo. Valeria a pena pensar o que significa esse “ponto de vista jornalístico”, tão claramente autolegitimante, acenado como álibi supostamente indiscutível porque ancorado na “técnica”? Valeria a pena pensar, afinal, o que é uma “boa” foto?

Ao se contrapor a essas justificativas automáticas, a jornalista e pesquisadora Amanda Cotrim resumiu o que, desde pelo menos os ensaios de Barthes, no início da década de 1960, passou a ser incorporado pelos estudiosos da área, mas ainda está bem longe do senso comum: “a foto em si não é boa ou ruim, quem atribuirá sentidos a ela somos nós, sujeitos, por isso a fotografia é polissêmica”.

Deveria ser claro, também, que uma foto pode ser interpretada de várias maneiras, e que o sentido pretendido por quem a divulga é “fechado” pela edição – o que, entretanto, não anula outras interpretações por parte do público. No caso, a foto de Dilma na fogueira, visualmente, se relaciona diretamente à manchete (“Janot denuncia Lula na Lava Jato e pede investigação contra Dilma”), embora a cena diga respeito ao acendimento da tocha no Planalto, como informa a legenda, que não deixa de mencionar o impeachment, e cujo título, “Fogo olímpico”, tem notoriamente mais de um sentido.

9Mas mais importante ainda é considerar o contexto, indissociável de qualquer análise. Numa conjuntura em que as forças mais retrógradas prevalecem e aprovam o rito do impeachment não com argumentos mas em nome de Deus e da família, execram a diversidade de gênero e chegam ao cúmulo de exaltar torturadores, num momento em que decisões judiciais impedem professores de emitir opinião em sala de aula (como ocorreu em Alagoas) e tolhem a liberdade de expressão (como ocorreu na UFMG), num ambiente em que fascistas ameaçam nas ruas e nas redes quem pensa diferente, em suma, em meio à onda obscurantista que se espalha pelo do país, a imagem da presidente em chamas é mais do que o símbolo de um governo em extinção: é a expressão do desejo inquisitorial de queimar a bruxa na fogueira que o próprio jornal, em sua campanha sistemática pelo impeachment, ajudou a acender – um aspecto que, como sempre, a edição silencia.

Entre os muitos que deploraram a publicação da foto, o professor Reginaldo Nasser, que recentemente decidiu recusar entrevistas à grande imprensa, resolveu expressar seu protesto visualmente: respondeu ao jornal na mesma moeda e tocou fogo no seu exemplar. O jornalista Haroldo Ceravolo registrou, de maneira bem-humorada: “Reginaldo achou que uma imagem dizia mais que mil palavras”.

P.S.: Escrevi no calor da hora, num dia particularmente turbulento, que exigia a atenção constante de todos os que estamos preocupados com o desenrolar dos acontecimentos. Já pela manhã corria a inesperada notícia de que o ministro Teori Zavaski havia afastado liminarmente o deputado Eduardo Cunha da presidência da Câmara e o STF se reuniria à tarde para apreciar a decisão, que acabou confirmada por unanimidade. Mas, também de manhã, a suspensão arbitrária da sessão na Câmara provocou uma rebelião dos deputados contrários ao impeachment, transmitida ao vivo por um deles, e intensamente compartilhada no Facebook. Por isso, não foi possível pesquisar adequadamente para redigir o artigo, e pelo menos duas referências importantes ficaram de fora. Faço-as agora.

A primeira é a remissão às observações de Venício A. de Lima em artigo no Observatório da Imprensa de 9/9/2014 (ver a íntegra aqui), sobre o uso que o Correio Braziliense fez de uma foto no desfile de 7 de setembro daquele ano: Dilma no palanque, com o canhão do tanque na direção de seu nariz.

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Venício aponta as graves consequências desse recurso que os jornalistas, sobretudo os que trabalham com imagem, costumam valorizar simplesmente como uma grande “sacada”, esperta e criativa – embora, de tão repetida, já se tenha tornado um óbvio clichê:

“Para além da partidarização inequívoca da grande mídia brasileira e diante de exemplos sucessivos, parece que ela não está sendo capaz de fazer uma distinção fundamental, sobretudo agora, em tempos de campanha eleitoral: a distinção entre o ritual dos cargos públicos, os símbolos nacionais, a institucionalidade da política, dos políticos, dos ocupantes dos mais elevados cargos públicos da democracia representativa brasileira; e sua opinião/posição (dela, grande mídia) em relação a esses eventuais ocupantes.

“As consequências dessa ‘não-distinção’ podem ser trágicas para a própria democracia. Ao se desrespeitar reiteradamente eventuais ocupantes de altos cargos públicos, inclusive em fotos com insinuações inconfessáveis, esse desrespeito é transferido para as instituições e a credibilidade da própria democracia. Como mostrou há décadas a professora Maria do Carmo Campello de Souza, ‘o teor exclusivamente denunciatório de grande parte das informações [dos meios de comunicação] acaba por estabelecer junto à sociedade (…) uma ligação direta e extremamente nefasta entre a desmoralização da atual conjuntura e a substância mesma dos regimes democráticos’. 

“No atual nível de partidarização da grande mídia brasileira, não há solução de curto prazo para que se desfaça esta confusão nefasta. A cobertura adversa e a desqualificação da política e dos políticos é sua pauta preferencial. Resta torcer para que a democracia representativa brasileira sobreviva a uma grande mídia que, apesar de se apresentar como sua principal defensora, corrói, cotidiana e reiteradamente, seus fundamentos mais caros”.

A segunda referência, particularmente oportuna diante da imagem da bruxa consumida pelo fogo na capa do Estadão, é à monografia que um dos mais brilhantes alunos de jornalismo da UFF, Hugo R.C. Souza, apresentou em 2004, como trabalho de conclusão de curso, e que trata dessa espécie de mito fundador da prática jornalística, romanticamente associada à missão de um sacerdote. Hugo demonstra que “o discurso jornalístico moralista-missionário, quando apropriado pelas empresas capitalistas de comunicação muito bem geridas e administradas com ‘profissionalismo’ e de acordo com a lógica neoliberal, tende inevitavelmente do sacerdócio ao Santo Ofício”.

“Do sacerdócio ao Santo Ofício” é o título da monografia, na verdade um belo ensaio, que já deveria ter sido publicado. Não só pela qualidade, mas por ser, tragicamente, mais atual do que nunca.

 

Ponto de Vista: Boicotar a mídia é um erro

Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

Não é novidade que os grandes veículos de comunicação sejam acusados de manipulação informativa e de coberturas parciais sobre a crise brasileira. O que se pode chamar de novidade é o gesto de alguns intelectuais que se recusaram a dar entrevista ou participar de programas da grande mídia, nesta semana. Os casos vieram à tona nas redes sociais, onde foram espalhados por quem concorda com suas atitudes e vê nelas uma desforra. Pode ser entendido assim, e tenho certeza de que muita gente sorriu de contentamento. Vejo, no entanto, de uma forma diferente.

Os intelectuais em questão frisaram que não querem seus nomes e imagens associados a veículos que “além de não fazer jornalismo, incita[m] a população ao ódio” e “querem dar golpe na democracia brasileira”. Procurados por repórteres da GloboNews, G1 e O Estado de S.Paulo para entrevistas ou programas em estúdio, os professores descartaram contribuir com a produção de um noticiário enviesado.

Nunca é demais lembrar que dar entrevista ou não é um direito de toda pessoa. Pergunta quem deve (o repórter), responde quem quer (a fonte). Entrevistas não são inquéritos policiais, tomadas coercitivas de depoimento. Quem é ou já foi repórter, sabe que sempre há um risco de a fonte de informação não lhe responder ou mesmo não atender às expectativas da matéria. A fonte pode estar gripada e sem voz, não se julgar a mais competente para tratar daquilo, falar de maneira confusa e não contribuir para a reportagem, não dispor de tempo para a entrevista, não ser localizada ou simplesmente se recusar a falar. Levar um não é uma possibilidade sempre. Afinal, a entrevista é uma concessão que se faz a alguém. Por isso, dizemos “fulano concedeu entrevista a sicrano”. Dito dessa maneira, a recusa poderia ser encarada com normalidade, exceto pela intencionalidade política que a sustenta. Os entrevistáveis não quiseram falar porque desconfiam da honestidade dos veículos e de suas capacidades de apresentarem um panorama equilibrado das notícias. Porque acreditam que essas empresas jornalísticas adotaram um lado na polarização política nacional e que atuam para fragilizar o governo e para promover uma deposição ilegal da presidente. Não querem, portanto, fazer parte disso, não querem estar ligados ao golpe.

Respeito as trajetórias e as escolhas de quem se recusa a falar com a chamada grande mídia. Neste observatório de mídia, vimos apontando diversos episódios de parcialidade, oportunismo e uso político do jornalismo. Mas o momento atual é propício para que tomemos decisões movidas mais pelo fígado do que pelo cérebro.

Manipulação e frustração

Não se faz política sem discurso, sem buscar o convencimento. Não faz política apenas aqueles que detêm cargos ou mandatos. Os professores em questão sabem perfeitamente disso, e a publicização de suas recusas é um movimento político que apresenta uma nova possibilidade de atuação diante de uma mídia que a muitos não espelha. Entretanto, se estamos vivendo uma disputa de sentidos, um choque de narrativas, me parece um erro estratégico não ocupar espaços nos grandes veículos.

Nos telejornais, nos grandes portais de informação, nos jornais e revistas, é possível encontrar duas narrativas nítidas: a que deseja emplacar o impeachment e a que vê nesse movimento um golpe de estado. O país está discutindo esses sentidos, e cada lado tentando impor a sua narrativa, a sua forma de ler a realidade, a sua verdade.

É evidente que a mídia não é apenas a vitrine onde isso acontece. Ela também vocaliza discursos que servem a seus interesses (políticos, financeiros, ideológicos, religiosos…), mas muitas vezes tenta travesti-los como notícias, relatos objetivos dos fatos. Isso incomoda muito, pois se configura como um gesto desonesto, apoiado numa mentira: a de que os fatos falam por si mesmos, e assim é a realidade. Ora, é absolutamente natural a desconfiança das fontes quando se deparam com isso e quando percebem que suas falas são publicadas de forma distorcida, seja por cortes que impedem uma compreensão melhor dos sentidos, seja por complementos que criam contextos alienígenas ou pelo simples descarte de seus testemunhos.

Diversos autores já desfiaram um longo rosário para ajudar a caracterizar o que chamamos de “manipulação informativa”. No frigir dos ovos é publicar algo que não condiz com o que estava na emissão de origem. Não se reconhecer na própria fala leva à frustração, e a uma atitude de revolta por ter sido traído em que se confiou a palavra. Resposta natural é que se exija a fidelidade das falas, que haja uma retratação ou que não se confie mais tanto em seus interlocutores.

Sentidos em disputa

Como o país está dividido e porque temos duas narrativas contrárias circulando, é preciso optar por uma delas, que – hegemônica – tende a se cristalizar como a verdade dos fatos. Nossas discussões se dão em casa, no trabalho, nas ruas… Nos meios de comunicação, elas alcançam dimensões massivas e é por isso que considero um erro boicotar a mídia nesse momento. Ao não ocuparem espaços nesse plano, essas vozes não apenas dão lugar ao pensamento contrário, como também oferecem um argumento poderoso para sustentar eventuais manipulações. Nas redações, os mais cínicos poderão dizer: “Ora, queríamos equilibrar os lados, mas eles não se dispuseram a falar. Fazer o quê?”. É possível que muita gente não acredite na justificativa, mas é igualmente possível que alguém embarque nela.

Em qualquer disputa de sentidos, é preciso preencher a narrativa. Isto é, não transferir a terceiros a responsabilidade de dizer o que se pensa. E isso não vale apenas para intelectuais, mas todo tipo de fonte no processo comunicativo. Conceder entrevistas, marcar posições, participar de debates, escrever artigos são possibilidades concretas de preencher a narrativa com o próprio punho. O que se quer garantir com isso é um regime de visibilidade, o que significa existir nas sociedades contemporâneas. Só existe quem se apresenta, quem se posiciona e, portanto, aparece. Para jogar o jogo é preciso não só aceitar suas regras, como também usá-las a seu favor.

Sociedades científicas têm lançado manifestos, escritores e profissionais do meio editorial também e um listão está sendo elaborado por intelectuais brasileiros para sensibilizar seus pares no exterior. Figuras proeminentes do meio jurídico escrevem artigos e tentam convencer seus pares, personagens das duas narrativas se esforçam para formar opiniões e é assim que convicções vão sendo moldadas. Até mesmo a presidente Dilma Rousseff recebeu repórteres dos mais influentes jornais do exterior para denunciar um “golpe em curso”. A estratégia é clara: disseminar um discurso de resistência e preencher a narrativa de que está sendo perseguida injustamente. Imaginem se ela se recusasse a atender a mídia internacional? Não só seria objeto de (mais) antipatia dos profissionais de imprensa como também veria lampejos de uma narrativa distinta da sua. Preencher a narrativa é uma maneira de lutar pelo direito ao contraditório, tão caro a todos os que acreditam em justiça e democracia.

Se o argumento para a recusa de atender a mídia é o de que jornalistas se aproveitam da presença de vozes discordantes para simular a heterogeneidade de visões, por que não ser pragmático e assumir essa função? Se o entrevistado quer mais pluralidade de versões e ele pode encarnar esse papel, por que não tentá-lo? Que responda o que bem entende, que coloque como condições ser entrevistado ao vivo, que conteste as perguntas, que desvie de perguntas-armadilhas, enfim, que se coloque fora da curva.

Não alimento a ideia de que apenas ocupar espaços garanta equilíbrio na balança da mídia. O Jornal Nacional se refestelou em alardear a polêmica conversa gravada entre Dilma e Lula, mas se arvorou no zelo e na falta de tempo para não nomear os políticos da lista da Odebrecht. A guerra é assimétrica, e quem comanda a produção dos conteúdos tem muito mais poder do que aqueles que servem de ingredientes. Dificilmente, uma única pessoa terá mais poder de alcance que um veículo inteiro, mesmo que seja uma pessoa muito influente. Ocupar espaço na mídia não assegura um noticiário mais equilibrado e fiel aos fatos, mas boicotar essa arena também não ajuda. A argumentação de que Globo e outros veículos manipulam, que fazem cobertura enviesada e parcial precisam ser constantemente e macicamente marteladas.

Se uma fonte se sente traída ou com seus dizeres distorcidos, pode fazer como a atriz e apresentadora Monica Iozzi (da própria Globo!), que tornou pública a íntegra de uma entrevista que deu à Folha de S.Paulo e que, segundo ela, não condizia com os sentidos originais. A desmontagem de uma farsa se dá também pela revelação da sua fragilidade e por um discurso corajoso pela restauração da verdade.

Há quem pense diferente. Podem me acusar de estar sendo ingênuo nesse episódio, mas eu também poderia dizer que quem se recusa a atender a mídia está fugindo da raia. Não é o caso. Se a mídia é uma arena estranha e que não nos representa, que ela seja levada a mostrar isso também, pela insistência, inteligência e estratégia de quem com ela não concorda. Numa guerra de versões, numa colisão de verdades, é preciso ganhar corações e mentes. É necessário tecer uma narrativa convincente, capaz de se sobrepujar ao seu contrário. A política se faz assim também, mas sobretudo a história e a verdade que nos convém guardar e acreditar.

LEIA AINDA: a professora Sylvia Moretzsohn levanta questões sobre o boicote e o professor João Feres Jr. defende o não à grande mídia.

Comentário da Semana: Quando a busca por informações fere a privacidade alheia

Carlos Marciano
Mestrando no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

Imagine que você perde seu celular contendo todos seus arquivos de trabalho, contatos familiares, dados bancários (o que não é recomendável deixar salvo nos aparelhos) e outras particularidades que você não julgava terem importância sigilosa até o momento. Ok, você pode ter configurado um código de desbloqueio complexo dificultando o acesso de outra pessoa, mas, e se alguém tivesse a chave mestra que desbloqueia qualquer aparelho? O que você faria se sua “privacidade móbile” ficasse vulnerável?

Agora, coloque-se no lugar de uma pessoa cuja vizinha foi assassinada. Sem ter muito contato com ela, suas respostas aos policiais que investigam o caso limitam-se a observações físicas e de personalidade (como a boa aparência e simpatia da mulher), além de que, ao chegar em casa na noite do crime, você ouviu passos e conversas nos arredores, mas não conseguiu identificar as vozes. No dia seguinte essas informações que deveriam ser confidenciais são distorcidas pela mídia e de testemunha você torna-se suspeito. Além de ser preso, as apurações tendenciosas dos jornais lhe estigmatizam como o assassino.

Nesses dois cenários distintos a privacidade aos dados tem papel significativo nos desdobramentos finais. Debatê-la é uma questão sensível, mas ao mesmo tempo fundamental, principalmente em tempos cada vez mais tecnológicos onde a informação pode ser produzida e difundida com mais facilidade.

A irônica quebra da privacidade para fins de segurança

Na última semana foi divulgada a disputa jurídica entre Apple e a polícia federal americana, na qual o FBI pede que a empresa dê acesso completo ao celular de Syed Rizwan Farook, um dos responsáveis pela morte de 14 pessoas em um centro comunitário em San Bernandino, Califórnia, no dia 2 de dezembro de 2015. Para tal, a Apple diz que precisaria criar um sistema operacional novo e essa atitude poderia contribuir no caso, mas prejudicar os demais consumidores, visto que o governo teria acesso a uma chave mestra que acessaria todos os aparelhos.

De acordo com as notícias, o FBI garante que só usaria o sistema para este caso, mas essa insistência seria mais uma confirmação das denúncias de Snowden? E se o FBI cumprir com a palavra, mas a chave mestra cair nas mãos de outras pessoas? Até que ponto é permitido tornar vulneráveis as informações de milhões de pessoas para complementar um caso? Será que essas informações do celular de Farook são mesmo necessárias ou é apenas uma oportunidade do FBI adquirir mais artifícios tecnológicos e ampliar o poder de espionagem?

A privacidade abalada pela distorção de informações

O segundo cenário retratado no início deste artigo é um de vários casos em que a mídia distorce informações e atinge de maneira negativa a privacidade de pessoas inocentes. Trata-se do assassinato da paisagista Joanna Clare Yeates, em dezembro de 2010, na cidade inglesa de Bristol.

Durante as investigações, Christopher Jefferies, professor de inglês aposentado e senhorio de Joanna,  deu um depoimento que teria sido distorcido pela imprensa e as constantes matérias tendenciosas o colocavam como principal suspeito do crime. Durante o período em que foi preso os jornais o acusavam mesmo sem ter provas significativas e sua aparência também foi ressaltada nas difamações dos veículos.

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Após ser detido por mais de 96 horas, Jefferies foi libertado sem nenhuma acusação e em janeiro de 2011 os investigadores chegaram ao verdadeiro assassino, o engenheiro holandês Vincent Tabak, também vizinho de Joanna.

Assassino, louco, sinistro, opulento, estranho, voyeur. Esses foram alguns termos utilizados pelos jornais quando se referiam a Jefferies, além do fato da mídia questionar as investigações e alguns veículos serem banidos das conferências de imprensa sobre o caso.

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A distorção dos fatos gerou consequências negativas na privacidade do professor que, mesmo depois de libertado da prisão, sofria com xingamentos e desconfiança das pessoas. Jefferies processou as empresas de mídia por difamação e recebeu indenizações substanciais além de retratações e pedidos de desculpas na Corte Real de Justiça. The Sun, Daily Mirror, Daily Express e Daily Mail foram alguns dos veículos processados.

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Correr para as colinas?

Os dois exemplos trazidos aqui ilustram que qualquer pessoa está sujeita a ter sua privacidade exposta e, quando isso não acontece voluntariamente, as consequências tendem a ser problemáticas. De fato, não podemos prever se nossos dados serão cada vez mais repassados por debaixo dos panos, tão pouco podemos pautar toda a mídia e nos manter eternamente ocultos a ela. E agora?

Não podemos acessar os grandes bancos de dados digitais e deletar nossas informações, mas podemos filtrar os conteúdos e controlar o que deixamos exposto. Por exemplo, nas publicações que compartilhamos, nas fotos que exibimos, nos cadastros facilitados pelo “login com o facebook” ao invés de preencher as lacunas básicas de nome e email.

Se por acaso somos personagens de uma matéria jornalística, não nos cabe definir a pauta, sugerir as perguntas ou controlar a edição do material. No entanto, podemos refletir nas resposta que daremos, apresentar os dados e materiais que comprovem nossa fala, verificar se o que foi publicado está de acordo com aquilo que foi dito.

A praticidade nos faz refém dos aparatos tecnológicos, o avanço da tecnologia amplia a divulgação de informações e dificulta o controle do que é informado. Se é cada vez mais difícil manter nossa privacidade, precisamos ficar atentos se aquilo a que somos referenciados está correto, controlar nossas ações quando se referem a exposição pessoal ou de dados e, como Jefferies, cobrar a verdade quando dizem mentiras.

Ficar aquém deste debate é permitir que entrem em nossa casa, comam nossa comida e falem por nós, porém, sem terem sido convidados.

PS: A história de Christopher Jefferies pode ser vista no filme “The Lost Honour of Christopher Jefferies”, disponível no Netflix.

objETHOS lança livro sobre ética e crítica de mídia

IMG_0556Pesquisadores do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) acabam de lançar “Jornalismo, Crítica e Ética” (Insular, 2016), livro que reúne artigos publicados desde o surgimento do grupo de pesquisa em 2009. Organizado por Francisco José Castilhos Karam e Samuel Lima, a obra oferece um panorama de leituras do jornalismo brasileiro nos últimos anos, destacando coberturas na política e economia, transformações no jornalismo, impacto da internet nas redações e desafios para a prática jornalística.

De acordo com os organizadores, o livro “tem o objetivo de registrar, na forma impressa, análises de determinados períodos e coberturas” e que já circularam pelo site do objETHOS. “Faz parte do jornalismo a crítica da sociedade e dos poderes. Assim, o jornalismo também deve prestar contas socialmente de sua atividade, dos valores cumpridos, dos erros que afetam indivíduos e a vida pública”, completam.

São 41 artigos, assinados pelos organizadores e por mais quatro pesquisadores, Elaine Manini, Amanda Souza de Miranda, Lívia de Souza Vieira e Rogério Christofoletti, divididos em quatro seções. Para o jornalista Luiz Egypto de Cerqueira, redator-chefe do Observatório da Imprensa por 16 anos, “o objETHOS mostrou a que veio, e os artigos reunidos no livro são uma prova disso. No fim das contas, é disso que se trata: da defesa do jornalismo como serviço público e instrumento imprescindível para o fortalecimento da democracia”.

Confira o índice:

Apresentação – Francisco José Castilhos Karam e Samuel Pantoja Lima

Prefácio: Tempos difíceis, fascinantes – Luiz Egypto de Cerqueira

1. PAPEL DA MÍDIA NA SOCIEDADE

  • Névoa midiática e versões dos fatos – Samuel Pantoja Lima
  • Corrupção e favores: está na hora da mídia prestar contas – Francisco José Castilhos Karam
  • A naturalização social da mídia partidária, um olhar sobre a cobertura das semanais na véspera das eleições – Elaine Manini
  • O jornalismo diante da saúde de um Brasil ignorado – Elaine Manini
  • Quando é preciso ser parcial – Rogério Christofoletti
  • Duas versões e uma imagem editorializada – Samuel Pantoja Lima
  • Um lead canalha – Samuel Pantoja Lima
  • Notícias sem memória, nem história – Samuel Pantoja Lima
  • Jornalismo, estresse social e ritmo contemporâneo – Francisco José Castilhos Karam
  • Chega de intermediários: banqueiros no governo – Samuel Pantoja Lima
  • Câncer, mal-estar e sintomas na mídia – Rogério Christofoletti
  • Banqueiros à sombra da mídia, e de Keynes – Samuel Pantoja Lima
  • Enganos, autoenganos e outras liberdades – Samuel Pantoja Lima
  • Tiririca, Parlamento, Democracia e Mídia – Francisco José Castilhos Karam

2. JORNALISMO E INTERNET

  • A correção de erros no jornalismo online – Lívia de Souza Vieira
  • Erros revelam falta de habilidade com leitor – Lívia de Souza Vieira
  • O Facebook e a espetacular construção unilateral da “verdade” – Samuel Pantoja Lima
  • A importância das novas redes midiáticas para a democracia – Francisco José Castilhos Karam
  • O rei está nu? – Samuel Pantoja Lima
  • Wikileaks ensina – Rogério Christofoletti

3. REFLEXÕES SOBRE JORNALISMO E A PRÁTICA JORNALÍSTICA

  • Como é o nome disso, afinal? – Rogério Christofoletti
  • Jornalismo político para além da política – Amanda Souza de Miranda
  • Cinco questões sobre o jornalismo-drone – Rogério Christofoletti
  • TV Folha: quando a retificação não é efetiva – Lívia de Souza Vieira
  • Erros ainda assombram as redações – Rogério Christofoletti
  • A criminalidade, os negócios e o jornalismo – Francisco José Castilhos Karam
  • Muda o jornalismo, mas e o repórter? – Rogério Christofoletti
  • Cinco desafios para o jornalismo investigativo – Rogério Christofoletti
  • Palocci e Folhaleaks, transparência de uma nota só – Samuel Pantoja Lima
  • O jornalismo investigativo e o futebol – Samuel Pantoja Lima
  • Notícia boa também vende – Rogério Christofoletti

4. ÉTICA JORNALÍSTICA

  • Errata na capa do jornal Extra: discussões éticas e dilemas atuais – Lívia de Souza Vieira
  • Kate Middleton, a privacidade e a Justiça moderna – Francisco José Castilhos Karam
  • Limites difusos para o telejornalismo – Rogério Christofoletti
  • Liberdade de Imprensa, rankings e versões – Francisco José Castilhos Karam
  • A Globo e suas diretrizes – Rogério Christofoletti
  • John Locke, intolerância, mídia e violência – três séculos de uma carta atual – Francisco José Castilhos Karam
  • Qual liberdade de imprensa? – Samuel Pantoja Lima
  • Por um sistema deontológico no jornalismo – Rogério Christofoletti
  • Pra que serve uma foto? – Rogério Christofoletti
  • Empresas jornalísticas – a hipocrisia como critério de noticiabilidade – Francisco José Castilhos Karam

Comentário da Semana: O ex-presidente, a jornalista, a mídia e o submundo das elites do poder

ATUALIZADO EM 23/02/2016, às 15h30

Sylvia Debossan Moretzsohn
Professora de Jornalismo na UFF e pesquisadora do objETHOS

Uma entrevista bombástica numa revista inexpressiva – a BrazilcomZ, voltada para brasileiros residentes na Europa – rapidamente se espalhou nas mídias sociais: finalmente, depois de 25 anos, a jornalista Mirian Dutra resolveu falar. Ex-amante de Fernando Henrique Cardoso na época em que o ex-presidente ainda era senador, Mirian manteve com ele um relacionamento de seis anos, que acabou quando ela engravidou – pela terceira vez, saberíamos depois – e resolveu ter a criança. Desde então passou a viver na Europa, preservando seu contrato com a Globo, que durou 35 anos e, em dezembro do ano passado, não foi renovado. Teria sido este o principal motivo para a jornalista finalmente decidir sair da sombra: na abertura da entrevista (íntegra aqui) a repórter comenta que, agora, Mirian “sente-se livre para contar o que viveu desde os anos 80”.

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Capa da revista BrazilcomZ

À parte a mágoa com a empresa – que, como disse, a marginalizou a ponto de apagar sua imagem – e o ex-amante, seu relato aponta as engrenagens dos meandros do poder: as articulações entre políticos, lobistas, dirigentes de empresas jornalísticas e outros empresários para tirar de circulação quem pudesse atrapalhar o projeto da eleição de Fernando Henrique à presidência da República. Afirma que a presença dela era uma permanente sombra nesse caminho, pois a candidatura inevitavelmente seria abalada se a história do relacionamento extraconjugal viesse à tona.

Mirian cita um pequeno mas significativo aspecto dessa articulação: o acordo que, segundo ela, Fernando Henrique e o então diretor de redação da Veja, Mario Sergio Conti, fizeram para a publicação de uma nota forjada.

“FHC me obrigou a dar uma entrevista para a Veja dizendo que o pai do meu filho era um biólogo, pode olhar na hemeroteca, em julho de 1991, naquela seção ‘Gente’. Quem é a Mirian Dutra para aparecer na ‘Gente’ dizendo que vai ter um segundo filho de um biólogo?! Foi Fernando Henrique com Mário Sérgio Conde (sic)!. Isso foi um acerto com o diretor da Veja”.

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Veja, 24/7/1991, seção “Gente”

A entrevista gerou desdobramentos tanto na grande imprensa quanto nos sites e blogs identificados com o governo. Em síntese, Mirian levantava suspeitas sobre as contas de FHC no exterior; dizia que havia sido “bancada” por ele com uma quantia de US$ 3 mil mensais repassada pela empresa Brasif – que, na época, explorava as lojas duty free dos aeroportos brasileiros; que tinha assinado com essa empresa um contrato fictício, mediado por um dos mais conhecidos lobistas do país e casado com sua irmã – que logo seria apontada como funcionária fantasma do gabinete do senador José Serra, o que provocou um episódio cômico: Serra afirmou que a funcionária trabalhava em casa – irregularmente, portanto – num “projeto sigiloso” na área de educação; e que, finalmente, duvidava dos exames de DNA divulgados por Fernando Henrique.

Fernando Henrique, por sua vez, garantiu que suas contas são legais e que não cometeu nenhuma irregularidade nas transações financeiras. Lembrou que, depois de muitos anos, fez dois exames de DNA, que deram negativo, mas ainda assim mantinha os vínculos com o filho que até então achava que era seu, a ponto de ter comprado para ele um apartamento em Barcelona por 200 mil euros e custeado seus estudos. Finalmente, lamentou “o uso político de uma questão pessoal”.

Já a Brasif informou, numa nota lacônica, os termos do contrato com Mirian, e isentou o ex-presidente de qualquer responsabilidade nesse acordo. Como, evidentemente, tratava-se de um contrato fictício, restaria saber por que ele precisou ser firmado: estaria aí o fio para uma investigação que pode revelar muita coisa.

Também caberia indagar como a informação de que Fernando Henrique pagou dois abortos para a ex-amante pode passar assim, sem um arquear de sobrancelhas, quando se trata de um tema sempre tão explosivo e, por isso, explorado negativamente em todas as campanhas eleitorais.

Verdade precária

A Folha de S.Paulo foi o primeiro dos grandes jornais a entrar no caso, publicando chamada de primeira e duas páginas internas no dia 18/2, uma delas com nova entrevista com a jornalista. Os outros jornais tiveram também de noticiar. Mas imediatamente começou a reação: colunistas insinuavam, quando não afirmavam categoricamente, que o timing da denúncia era suspeito e destinava-se a servir de exploração política para tirar Lula e o PT das manchetes. Eliane Catanhêde, no Estado de S.Paulo, mencionou “o fator amante”, recordando o episódio de uma outra Miriam, a Cordeiro, ex-namorada de Lula, que em 1989 foi utilizada pela campanha de Collor e ajudou a sepultar as chances do líder petista. Augusto Nunes, na Veja, chamou a denunciante de ressentida. Ricardo Noblat, num texto de generosas duas colunas no Globo, prometia informar “o que sei (ou acho que sei) sobre o caso Miriam Dutra”. Ali, lembrou que “a imprensa brasileira sempre evitou falar da vida privada de homens públicos”, verdade precária que desmorona na frase seguinte: “O Jornal do Brasil, em 1989, descobriu que Lula tinha uma filha de um relacionamento passado com uma enfermeira. Lula confirmou a notícia. A mãe da menina também. Então o jornal publicou”.

Noblat sabe que as coisas não se passaram com a tranquilidade que o seu relato faz supor e dá um verniz ético à atitude desprezível do repórter Luiz Maklouf de Carvalho, que enganou Lurian, a filha de Lula, com o pretexto de estar tomando depoimentos para o livro que estava sendo produzido na época, contando a trajetória de seu pai. Ele e o repórter fotográfico ficaram aguardando a menina. Quando Lurian entrou em casa, “José Carlos Brasil começou a bater fotografias. Em matérias envolvendo menores de idade, o melhor era fotografar antes e pedir autorização depois: se houvesse alguma encrenca, pelo menos as fotos já teriam sido feitas”. Quase dá para ver o sorriso de Mario Sergio Conti ao relatar essa estratégia em Notícias do Planalto (p. 132-3) como se fosse a coisa mais natural – e “esperta”, e justa – do mundo, desprezando as consequências que uma exposição daquelas traria para uma adolescente de 15 anos, que vivia uma situação familiar conflituosa e especialmente tensa diante da candidatura do pai à presidência.

Portanto, o respeito à vida privada de pessoas públicas – como qualquer outro nobre princípio da nossa imprensa – só é válido quando interessa. E, frequentemente, passa longe de escrúpulos éticos: tem o propósito de encobrir o que não vale a pena mostrar, para que a estrutura do poder não seja atingida.

Vida privada e interesse público

Embora em Brasília não haja segredo possível para esse tipo de relação, a história entre Fernando Henrique e Mirian só foi tornada pública, pela primeira vez, em dezembro de 1999, numa entrevista do jornalista Sebastião Nery ao jornal Opção, de Goiás, que deu manchete interna para “o filho de FHC com a jornalista da Globo”. Meses depois, a revista Caros Amigos indagaria, na capa de sua edição de abril de 2000: “Por que a imprensa esconde o filho de 8 anos de FHC com a jornalista da Globo?”. A equipe fez essa pergunta aos editores dos principais jornais e revistas do país. Tentou também, sem sucesso, entrevistar Mirian. O título da reportagem, “um fato jornalístico”, era uma resposta aos que rejeitavam a publicação da história, por considerarem tratar-se de assunto privado.

Antes fosse: em política, desde tempos imemoriais os assuntos de alcova estão longe de dizerem respeito exclusivamente à intimidade dos envolvidos. São jogos de sedução e poder, com tudo o que significam de imposição, coerção, intimidação, favorecimentos, chantagem. E isso tem consequências públicas muito relevantes, que não podem ser ignoradas. No nosso passado recente, bastaria lembrar o papel da “promotora de eventos” Jeane Mary Corner e sua rede de prostitutas na organização de festas que reuniam políticos e lobistas, motivo de escândalo que concorreu para derrubar Antonio Palocci do Ministério da Fazenda, em 2006.

O problema é a forma jornalística de tratar desses assuntos: a tendência é vasculhar os detalhes mais apimentados de uma relação proibida, de preferência exagerando-os, para excitar e satisfazer a curiosidade da massa. Um jornalismo responsável fugiria dessa tentação ao voyeurismo, pois o que importa é demonstrar como essas relações íntimas interferem na vida pública.

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Reprodução Caros Amigos, abril de 2000

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Caros Amigos, abertura da reportagem de capa, abril de 2000

A leitura da reportagem da Caros Amigos (disponível aqui) permite avaliar diferentes pontos de vista. Mas, na época, tratava-se apenas de questionar os motivos da blindagem de FHC. Tantos anos depois, a entrevista de Mirian Dutra acabou revelando-os: são aspectos das engrenagens do poder, do submundo da política, de óbvio interesse público.

Promiscuidade

Entre esses aspectos está um que não chegou a ser discutido com a devida atenção: a naturalidade com que se encara essa intimidade entre jornalistas e políticos. Ruth de Aquino, em seu blog na revista Época, comentou que aquele caso “começou como tantos casos começam, no restaurante dos políticos em Brasília, com um flerte e uma atração mútua”.

As relações humanas às vezes são atravessadas por paixões arrebatadoras, mas conviria lembrar que políticos e jornalistas deveriam saber frear seus impulsos, tendo em vista o papel que desempenham. Mesmo porque a atração mútua, nesses casos, em geral carrega outros interesses, incompatíveis com o adequado exercício profissional. E, eventualmente, se transforma em escândalos, como o protagonizado em 2007 pelo senador Renan Calheiros, que teve uma filha com a jornalista Mônica Veloso – que depois exibiria seus dotes na Playboy e escreveria um livro desses que “contam tudo” – e se valia de um lobista de uma empreiteira para lhe pagar o aluguel e a pensão da menina.

A força (relativa) da internet

A repercussão da entrevista de Mirian Dutra nos grandes jornais, e até no Jornal Nacional, que no dia 18/2 dedicou mais de seis minutos ao tema, levou muita gente a comemorar o papel da internet na ruptura do silêncio que a mídia hegemônica impõe às pautas inconvenientes.

Talvez não seja para tanto: se é verdade que os fatos já não podem ser escondidos como antes, nem por isso eles serão necessariamente notícia para a grande imprensa apenas porque se tornam “virais” na internet. Bastaria observar o que ocorreu com o farto material produzido por sites e blogs sobre o escândalo da mansão da família Marinho, proprietária do Grupo Globo, que estaria registrada em nome de uma empresa controlada por offshores no Panamá e foi construída ilegalmente numa área de preservação ambiental em Paraty, na Costa Verde: as denúncias fizeram alarde nas redes mas não despertaram qualquer interesse na imprensa tradicional. A única referência, por isso mesmo subversiva, foi a notável charge de Laerte publicada na Folha de S.Paulo em 16/2, que sintetiza o contraste entre o silêncio em relação a esse caso e a superexploração do noticiário sobre o triplex no Guarujá, cuja propriedade é atribuída a Lula, apesar dos desmentidos do ex-presidente.

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Reprodução/Facebook Laerte Coutinho

À revista Fórum, Laerte declarou: “Acho que está havendo, sim, um tratamento tendencioso dos fatos por parte da midia – ou da ‘grande midia’ – em relação a partidos e pessoas da política, no sentido de desgastar Lula, Dilma e o PT; e que é uma ação coordenada com instâncias do poder judiciário e do aparato policial do país”. E concluiu: “Sinto que atravessamos um momento de grande perigo para a vida democrática”.

As grandes corporações de mídia, como parte da engrenagem do poder – e não como sua contrapartida crítica, como prometem ser – continuarão agindo como sempre. Pode ser que repercutam algo que destoe de sua pauta, como ocorreu neste caso. Importa prosseguir explorando os espaços alternativos para tentar oferecer o contraponto a esse rolo compressor.

 

 

Comentário da Semana: O zika vírus e a midiapondria: três momentos de uma cobertura

Amanda Miranda
Doutoranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

No início desse mês, o Google News indicava a ocorrência de cerca de 38 milhões de notícias com a palavra “zika vírus”. Se considerarmos que há uma gama de produtos midiáticos que não chegam ao buscador, esse número deve ser ainda maior. O assunto, considerado de interesse público devido aos constantes alertas emitidos pelo Estado e pelos organismos de saúde, tem ocupado também os programas de entretenimento, como os populares Encontro com a Fátima Bernardes e Domingão do Faustão. A tentativa de analisar como tais produtos desenham o fenômeno é importante por dois motivos: o jornalismo produz conhecimento e, como tal, fomenta o debate sobre o assunto.

Como forma de produção do conhecimento, o jornalismo tem um papel muito relevante nos períodos de incerteza: é ele quem se ocupa de tentar organizar as informações e levá-las ao público com uma linguagem abrangente e sem vícios do campo de origem. Se os cientistas se preocupam, agora, em tentar compreender a dinâmica do vírus, os jornais têm a missão de sintetizar isso de modo que a audiência consiga entender melhor o momento sem que para isso precise de um diploma de biologia ou medicina. Este percurso da “tradução” é tradicional no jornalismo científico e também vem sendo a tônica nos produtos do jornalismo especializado em saúde. Nas palavras de Lopes et al (2012, p.131):

A comunicação mediática passou a ser entendida como o meio privilegiado para aumentar o conhecimento e a consciência das populações sobre os assuntos de saúde, bem como para influenciar as suas percepções, crenças e atitudes, muito para além do clássico modelo de comunicação médico-paciente.

Como campo relevante para a propagação do debate público, o jornalismo traz em seus produtos questões que podem levar à tomada de posição sobre determinados fatos. É assim, por exemplo, que se tem discutido como os agentes públicos podem orientar a prevenção da proliferação do mosquito ou mesmo como o país precisa de mais investimento em ciência e tecnologia para reagir a momentos de incerteza. Ao ter contato com os argumentos difundidos na esfera midiática, por fontes que muitas vezes revelam posições contrastantes, a audiência se sente parte do que ocorre em dimensões que transcendem sua casa, seu bairro, sua cidade.

Também é pertinente identificarmos o jornalismo como um produto cultural. Assim, se a cobertura segue um rumo alarmista, podemos considerar que os agentes públicos também emitem estes alarmes de forma sistemática. Se ela parece confusa e fragmentada, também compreendemos que é por se tratar de um fenômeno novo, em processo, incerto. Não estamos falando que o jornalismo reflete uma suposta realidade, nem isentando os seus produtos dos erros, mas é importante pensar na cobertura dentro de um contexto de indefinições. Os produtos midiáticos são frutos do seu tempo e estão a ele conectados.

Partindo dessas definições do jornalismo, elencamos três diferentes momentos da cobertura sobre o zika vírus. A perspectiva é cronológica, o que não significa que ela seja assumida como absolutamente linear. Os links foram coletados a partir de alertas do Google News para expressões como “zika vírus”, “microcefalia” e “Ministério da Saúde”.

  1. A incerteza

Consideramos o decreto de situação de emergência por conta da associação do zika vírus à microcefalia como o ponto alto do início da cobertura jornalística. Em 11 de novembro, o portal UOL publicou a notícia, em associação às estatísticas da doença divulgadas pelo estado de Pernambuco.

Trata-se de um momento de total incerteza – tanto dos órgãos públicos, quanto dos produtos jornalísticos. Há, também, a ênfase na busca de dados estatísticos, uma das formas mais recorrentes de objetivação dos fatos em textos jornalísticos. Outra preocupação é a de didatizar o fenômeno e elucidar questões que antes era restritas aos corpos médicos.

Os desencontros de informação são evidentes, algo que parece comum diante de um período de incertezas, mas que exige um movimento de análise permanente dos produtores de conteúdo a fim de identificar erros e problemas de informação. A opção por divulgar casos suspeitos também pode ser questionada, especialmente se as atualizações dos dados forem negligenciadas

Neste momento, os produtos jornalísticos tendem a assumir um tom catastrófico, alarmista e sensacionalista – o que pode eventualmente prejudicar as políticas de contenção formuladas pelos órgãos públicos ou mesmo originar uma epidemia que não existe. A ânsia em sair na frente e em produzir informações sobre algo ainda desconhecido pode resultar em prejuízos para a audiência, que não raramente tem no jornalismo sua principal fonte de informação.

  1. Adesão à ciência

Em um segundo momento da cobertura, percebeu-se a busca contínua de didatização do fenômeno, na tentativa de minimizar as sensações de riscos. Entraram, aí, as notícias que se propunham a derrubar mitos e as que se comunicavam com o leitor no sentido de fazê-lo compreender informações que antes circulavam de modo restrito. A prevenção também passou a ser pauta, com destaque para dicas práticas e utilitárias.

Foi nesta fase, também, que identificamos um movimento interessante a ser estudado: a transformação dos cientistas e pesquisadores brasileiros em definidores primários. Se no primeiro momento da cobertura os agentes públicos e organismos de saúde tinham o peso das fontes oficias, neste segundo momento os próprios cientistas passaram a ser visados pelos jornalistas. Mais do que isso: a imprensa começou a acompanhar o trabalho de centros de referência, como a Fiocruz.

Tradicionalmente, o jornalismo científico é criticado por se ater às descobertas e às certezas (sempre incertas, diga-se) produzidas pela ciência. Neste caso, o movimento pareceu diferente, voltado também aos processos, como no caso do acompanhamento de uma equipe de investigadores da Universidade de São Paulo ou até mesmo na humanização da figura dos cientistas, algo pouco comum em coberturas desse tipo.

O problema, aqui, é partir para um outro extremo: o de fortalecer a fé na ciência, como se a ela nada pudesse escapar. Em períodos de incerteza, é comum que determinadas instituições se fortaleçam. Se o poder público pode ser elevado ao posto de culpado por não conseguir conter uma suposta crise, os cientistas ganham o status de potenciais pontos de fuga dessa mesma crise. Reforça-se, assim, o estereótipo da ineficiência do Estado e da crença segura na ciência.

  1. O caminho do debate público

Identificamos, agora, um terceiro momento da cobertura da epidemia: o fortalecimento dos argumentos que constituem o jornalismo como um espaço de debate público. É o que temos acompanhado, por exemplo, nas discussões acerca da legalização do aborto para gestante com fetos diagnosticados com microcefalia.

O debate promete acirrar argumentos favoráveis e contrários à indicação da interrupção da gravidez, envolvendo o poder público e o judiciário e a religião. A cobertura também busca a humanização da temática, recorrendo a histórias de vida de jovens com microcefalia e abordando a temática social que emerge desta questão.

Trata-se, em suma, de um momento de mobilização de fontes antagônicas, da busca da racionalidade científica de um lado (ou do saber médico, como preferiria o filósofo Michel Foucault) e do apelo à religião e à política de outro. A polêmica, evidentemente, alimenta o debate e também mobiliza a audiência, gerando engajamento, cliques e compartilhamentos.

Neste mesmo momento, a ciência ainda revela suas incertezas, os agentes públicos continuam a se manifestar na tentativa de reduzir danos e de acenar para a prevenção. Por outro lado, os desencontros de informação (aqui e aqui, por exemplo) e a ênfase nas estatísticas também persistem. Ao divulgar os casos suspeitos – com números sempre altos – , o poder público e a imprensa tendem a aumentar a sensação de pânico e de incerteza, o que pode motivar na audiência uma dependência cada vez maior dessas informações, ainda que estas sejam tão duvidosas quanto é o próprio vírus.

Midiapondria e o protagonismo do (bom) jornalismo especializado em saúde

Ao tentar  levantar a cronologia da cobertura jornalística sobre o zika vírus, podemos concluir, ao menos no estágio em que estamos hoje, que os produtos midiáticos alimentam o que chamaremos de midiapondria: uma necessidade permanente por parte da audiência de receber informações atualizadas sobre pautas da área.

Mas quem calcula essa necessidade? Como os jornalistas sabem que o leitor realmente está interessado neste volume de pautas? Por um lado, seria um interesse óbvio, considerando que o jornalismo é produto cultural e estamos sintonizados a uma era de cuidados com o corpo e com a mente, uma era da saúde perfeita, como já disse o filósofo Lucien Sfez. Por outro, não se pode desconsiderar que se trata de um interesse dos próprios veículos, de seus financiadores e da estrutura biopolítica à qual estamos integrados. Nas palavras de Kucinsky (2012), esta temática também precisa ser compreendida à luz dos interesses mercadológicos que projeta.

Revistas como a Veja produzem capas de saúde regularmente, porque são as capas que vendem, na concepção de mercado que eles têm; mesmo quando está caindo um World Trade Center, eles fazem questão de a cada três ou quatro edições dar uma capa de saúde. (…) Então nós vemos que há uma espécie dum turbinamento: a saúde é vendida como mercadoria e, portanto, na mídia ela é mais mercadoria ainda, é dupla-mercadoria porque tem que ser muito mercadológica a forma como é apresentada, a forma como é tratada.

Em qualquer cenário, o jornalismo especializado em saúde acaba alçado ao papel de protagonista de um tempo de indefinições. Por conta disso, é importante que ele esteja alinhado às estratégias de prevenção, sem apelar para um tom catastrófico e alarmista e buscando organizar os fatos de forma a minimizar dúvidas. Para os midiapondríacos, nenhum remédio é melhor do que a informação de qualidade.

Referências:

KUSCINSKY, Bernardo. Jornalismo e Saúde na Era Neoliberal. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/sausoc/v11n1/10.pdf. Acesso em: 10 de outubro de 2013.

LOPES, Felisbela et al. (org). Ebook. A saúde em notícia. Repensando práticas de comunicação. Universidade do Minho. 2013. Disponível em: <http://www.ics.uminho.pt/uploads/eventos/EV_8167/20131217286093508750.pdf&gt;. Acesso em: 12 dez. 2013.

Comentário da Semana: O jornalismo cínico e o ponto de não-retorno

Francisco José Castilhos Karam
Professor na UFSC e pesquisador do objETHOS

Em 1988, o psicanalista Jurandir Freire Costa alertava que a sociedade brasileira poderia estar chegando a um perigoso ponto de não-retorno. Ela estaria incorporando quatro valores: cinismo, narcisismo, violência e delinquência. À época, seus estudos tinham como referência, entre outros, as ideias de Peter Sloterdijk. O filósofo alemão havia escrito, desde a década de 1970, artigos sobre o cinismo. Suas ideias culminariam no clássico livro “Crítica da razão cínica”, publicado na Alemanha no início dos anos 80, com grande repercussão naquele País e Europa em geral. Mais tarde, além de outros idiomas, foi traduzido para o espanhol (1989) e para o português (2012). Nele, o autor aborda o crescimento do cinismo em escala institucional e pessoal na contemporaneidade. Para Sloterdijk, sob a capa das instituições e grupos, e em contrapartida com discursos de interesse público, crescem os componentes cínicos que se amparam em interesses privados.

Sloterdijk era cético com o destino das instituições. Em relação à mídia, considera viver num mundo aparentemente “superinformado” e, no entanto, de notícias “hipertrofiadas”. Estudioso do cinismo que se agigantava, o autor alemão era descrente em relação às potencialidades midiáticas tradicionais para a democracia. E, por extensão, do jornalismo com sua volumosa informação, que para ele era cada vez mais um espaço de mediação pública de interesses privados. E com a colaboração crescente de jornalistas que incorporam tal “valor”, de forma ingênua ou não, conscientemente ou não…

Já o ponto de não-retorno de Freire Costa atingiria diversas instituições e o comportamento individual. Segundo o psicanalista, a cultura do cinismo deriva da cultura narcísica e “se não há como recorrer a regras supraindividuais, historicamente estabelecidas pela negociação e pelo consenso, para dirimir direitos e deveres privados, tudo passa a ser uma questão de força, de deliberação ou de decisão, em função de interesses particulares. Donde o recurso sistemático à violência, à delinquência, à mentira, à escroqueria, ao banditismo ‘legalizado’ e à demissão de responsabilidade, que caracterizam a ‘cultura cíniconarcísica’ dos dias de hoje” (Costa: 1989, p. 30-31).

O que o Jornalismo tem a ver com isso?

O Jornalismo tentou se afirmar, nos últimos 300 anos, como espaço de informação, conhecimento e esclarecimento sociais, baseado na crença de que tem legitimidade social para isso e fundamentado na credibilidade das informações que por ele circulam.  Desde a década de 1970 passou a ser quase um subproduto dentro dos conglomerados midiáticos, em que cada vez mais sócios de empresas de fora da mídia atuam dentro dele, a ponto de não se saber quem investe em quem: se acionistas investem na produção informativa e interferem na adequação a seus interesses; se empresários da mídia e do jornalismo investem em empresas de fora da área para fortalecer interesses particulares que não estão mais no próprio modelo de negócios;  ou, afinal, se são um só faz muito tempo e hoje as coisas ficaram apenas mais claras, mais descaradas…

O que vem acontecendo, de forma reiterada, é de uma desfaçatez enorme diante da ideia de esclarecimento público e da defesa de que o jornalismo é o porta-voz da controvérsia e, portanto, a liberdade de expressão é sagrada, bandeira não só dos profissionais – a maioria honestos -, mas também de empresários – a maioria envolvida em sonegação de impostos, achaque dos cofres públicos e política de demissões e rotatividade sem qualquer piedade, embora sempre defendam o jornalismo, em quaisquer circunstâncias oficiais, como vinculado ao interesse público, à informação de qualidade, à fidelidade sobre a história do cotidiano.

Talvez por isso que Sloterdijk tenha escrito que “cinicamente dispostas estão estas épocas de gestos vazios e de fraseologia refinadamente tramada, em que sob cada palavra oficial se ocultam reservas privadas” (1989: v. II, p. 209);

O cinismo e o narcisismo tem se configurado em diversas coberturas, opiniões, comentários e tratamentos dos fatos, apesar de vários profissionais darem o melhor de si para a profissão e a sociedade em muitas matérias, em variadas notícias e reportagens. E sejam honestos em comentários. No entanto, isso parece ser cada vez mais exceção na grande empresa jornalística. O processo que engole e ameaça jornalistas é dilacerante para a profissão e presume que o jornalismo, para sobreviver com o melhor que conseguiu nos últimos séculos, estaria fora do modelo de negócios tradicional, este hoje e de forma inexorável muito mais pautado pelos critérios de audiência do que por relevância temática social. E acentua de forma descarada esta vertente a cada dia…

Rapidamente, três exemplos:

  1. Na semana de 25 a 29 de janeiro, o Jornal Nacional exibiu série de reportagens sobre os problemas da saúde no Brasil, focando, claro, no setor público, tratando do SUS, dos hospitais públicos… O JN esmerou-se em retratar as mazelas pelas quais passa o povo brasileiro em atendimento médico e em tratamento de doenças como câncer e várias outras: filas, espera, mau atendimento, falta de estrutura e tantos outros problemas foram apontados. Isso para o tratamento público e gratuito. Situações reais. Mas durante muito tempo, e hoje, todo o jornalismo da Rede Globo, e especialmente o JN, fez campanha aberta pela redução dos gastos públicos, pelo enxugamento da máquina pública. Depois de intensa e sistemática campanha ao longo de anos, mobilizando a sociedade para cortes em todas as áreas do Estado, há um claro cinismo – e responsabilidade – quando falta dinheiro para qualquer área social, incluindo a saúde. Além disso, o JN esquece de dizer que uma parte da estrutura e do dinheiro que falta é responsabilidade da própria emissora e do grupo que representa, sonegador de impostos e com dívidas que ultrapassam a casa do bilhão de reais com a União. Se a dívida fosse paga, certamente seria de muita valia para o uso na área da saúde, como de resto tem sido o atendimento feito, se não perfeito, em geral bem razoável, por exemplo, pelos postos de saúde, hospitais públicos e o setor em geral e que tem logrado salvar muita gente. E ainda mais quando o próprio grupo do qual faz parte o JN esperneia quando o governo ameaça cortar gastos de publicidade, bilionário ao longo dos anos. É o cinismo que beira à delinquência jornalística, à escroqueria: o grupo Globo recebeu do Estado brasileiro – ou seja, “saiu do meu bolso, do seu bolso, da saúde” – mais de seis bilhões de reais nos últimos 12 anos;
  2. Na edição de 30/01/2016, a Folha de S. Paulo traz matéria, quase humorística, assinada por Flávio Ferreira. Em editoria específica de “brasil em crise” (em minúsculo mesmo), o critério de noticiabilidade utilizado pela Folha colocou, no primeiro plano e em tom acusatório, a sensacional informação de que “Mulher de Lula adquiriu barco para sítio”. Um barco que não chega a cinco mil reais; uma propriedade que não se compara em valor às de Aécio Neves, Fernando Henrique Cardoso e a de tantos outros ex-presidentes, parlamentares, mulheres de parlamentares e de presidentes. E que jamais foi notícia. Trata-se de uma peça jornalística que beira à delinquência e ao cinismo, feita a mando talvez para tentar corrigir os continuados dados equivocados sobre o triplex de Lula, sobre os imóveis e negócios comprados sem prova alguma por filho de Lula (Havan, entre eles), pelos “ilícitos” nunca provados feitos pelo ex-presidente, que além de não serem ilegais, muitas vezes foram feitos à luz do dia e em função de parcerias de governo, seja com Estados Unidos ou Cuba, conforme deve ser em qualquer relação comercial entre dois países. Suspeitas, sempre suspeitas, e mais suspeitas… Se houvesse provas já haveria faz muito tempo. O mesmo ocorreu quando parte do jornalismo brasileiro insistia em atacar Leonel Brizola sem nunca provar nada;
  3. É quase autoexplicativa a seleção feita pelo site/blog Mídia Independente Coletiva, feita a partir do site do G1 (Rede Globo) e como este trata determinados assuntos. É exemplar e pedagógica. O cinismo bate à porta e ocupa o posto do jornalismo:

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O crescente número de agressões e processos contra profissionais e empresas está num quadro de perda de legitimidade e de credibilidade, valores que precisam ser arduamente recuperados. No entanto, na lógica empresarial em que se move o jornalismo tradicional, e na submissão de grande parte de seus profissionais em questões-chave de economia e de política, está cada vez mais distante o reconhecimento público à atividade e o respeito a uma profissão que lutou muito, por suas entidades, para adquirir um estatuto profissional específico e uma moral ancorada no interesse público, coisa que ainda as escolas estão a propor e a realizar. Mas que encontra cada vez mais espaço fora do jornalismo de referência histórica e encontra mais possibilidades dentro de modelos alternativos que surgem, dentro ou fora das redes sociais. Parece ser um caminho para continuar chamando Jornalismo de Jornalismo, driblando os quatro vértices elencados por Freire Costa: cinismo, narcisismo, violência e delinquência. Quem sabe assim o jornalismo, sobretudo o tradicional, escape do que inevitavelmente tem sido a sua marca atual: o perigoso ponto de não-retorno. Ali onde o pêndulo da dialética que sempre marcou a sua história – entre o capital/interesse privado versus interesse público – tem pendido sempre para o lado do primeiro. Pelo menos corresponderia em parte ao que se propôs historicamente.

Referências

COSTA, Jurandir Freire. Psicanálise e Moral. São Paulo: Educ, 1989.

SLOTERDIJK, Peter. Crítica de la razón cínica. Madrid: Taurus, 1989, 2v.

Ponto de Vista: Por que o jornalismo político está destruindo a política?

Ricardo José Torres
Mestrando em Jornalismo no POSJOR e pesquisador do objETHOS

Em tempos de “combate à corrupção”, as delações premiadas se tornaram uma verdadeira obsessão dos jornalistas ligados ao segmento político no Brasil. Atualmente, o leitor desinformado terá dificuldades para identificar e diferenciar as informações políticas e as informações policiais presentes nas páginas dos jornais, sites e mídias sociais, particularmente nos veículos tradicionais de comunicação. A abordagem adversarial dos temas políticos não é novidade, entretanto, o jornalismo político contemporâneo pode ser comparado a um “esgoto a céu aberto”. Sem dúvida, o teor das “revelações” é estarrecedor, os índices de corrupção e a falta de comprometimento dos nossos representantes merecem ser divulgados e os interesses privados, que afetam o interesse público, devem ser revelados. Mas, em uma perspectiva embasada nos princípios da ética jornalística, podemos afirmar que o conteúdo das delações pode ser considerado informação política?

Para clarear os aspectos e os dilemas éticos que envolvem essa problemática recorro à etimologia de duas palavras que, na minha opinião, devem estar atreladas a abordagem de temas políticos, são elas: respeito e política. A origem da palavra respeito está relacionada ao Latim, respectus que significa “olhar outra vez”. O sentido singular da palavra, e que quero enaltecer, está ligado a algo que merece consideração. Os temas políticos que emergem da sociedade merecem “respeito”, nem tudo o que é político está impregnado pelo miasma da corrupção.

O jornalista Jonathan Stray (2015) lembra que a política não pode se limitar aos políticos e aos governos. ““Política” não significa políticos, nem governo. O governo é um dos lugares em que ocorre a política, com certeza. Mas a política é muito mais do que isso: é o conjunto de maneiras pelas quais as pessoas se juntam para exercer o poder coletivamente”. As convenções jornalísticas consolidadas ao longo dos anos no segmento político trouxeram uma série de limitações e debilidades. O jornalismo político se transformou em um espaço repleto de vícios excludentes onde apenas alguns “escolhidos” podem transitar. “A maioria das coberturas políticas é sobre políticos, e não sobre as coisas com que me preocupo e com as medidas que eu poderia vir a tomar” (STRAY, 2015).

A palavra política está relacionada ao Grego politikos, que significa cívico, e polites, que está ligado a cidadão, além da palavra polis relacionada à cidade. Em linha com esse conjunto de sentidos cabe observar que as abordagens preponderantes, sobre temáticas políticas, buscam constantemente ratificar a política como algo que causa danos à sociedade. Em um artigo com o título “É política sim, Geraldo”, a jornalista Eliane Brum descreve com propriedade os riscos que essa perspectiva pejorativa pode apresentar e expõe alguns aspectos políticos que o caso da ocupação das escolas de São Paulo oferece.

Brum (2015) destaca uma declaração do governador de São Paulo, Geraldo Alckmim: “Não é razoável obstrução de via pública, é nítido que há uma ação política no movimento. Há uma nítida ação política”. A jornalista enaltece que a ocupação das escolas de São Paulo, obviamente, é um tema político que merece ser abordado como tal, especialmente diante do cenário degradante vivenciado pela política institucional: “Mas, vale repetir, o que o governador denuncia? Que o movimento é político. Qual seria a acusação? É óbvio que o movimento é político. E a melhor qualidade do movimento é justamente a de que é político”. De acordo com Brum (2015), por meio do exercício da política a sociedade alcançou o que de melhor existe na experiência humana. Para a jornalista, a suspensão da política significa a instauração da aniquilação.

A quem interessa a degradação da política?

Uma constatação que parece óbvia diante da apresentação adversarial dos temas políticos, particularmente a preponderância de informações relacionadas a corrupção, é que quanto mais a percepção sobre o universo político é negativa mais ele se restringe aos especialistas habituais. A omissão de informações políticas relacionadas aos diversos grupos que estão à margem do sistema político institucional/formal e buscam discutir e apresentar argumentos no cenário político, demonstra a centralidade do entendimento de política e, ao mesmo tempo, quem são os atores políticos que merecem notoriedade para o jornalismo político. Ao voltar as suas atenções, quase que exclusivamente, aos criminosos das operações da Polícia Federal e aos políticos “profissionais”, as editorias de política se descolam dos debates políticos presentes na sociedade. Esses fatores ocasionam o apagamento e a deturpação da etimologia da palavra política que, como já visto, está ligada ao cidadão e à cidadania.

Recentemente os pesquisadores do objETHOS, Sylvia Moretzsohn, Lívia Vieira e Dairan Paul abordaram temas relacionadas a essa problemática. No artigo Spotlight, vazamentos seletivos e os dentes do cavalo, Moretzsohn destacou a falta de verificação das informações provenientes das delações premiadas: “o cuidado elementar de todo jornalista, que é, antes de mais nada, verificar a quem interessa a informação que lhe cai no colo, confirmar sua veracidade e publicá-la – quando for o caso – em seu devido contexto, passou a ser algo perfeitamente dispensável”. Vieira destacou a utilização das delações premiadas como fonte de informações jornalísticas no artigo “Algumas certezas diante de um cenário instável para o jornalismo”. A pesquisadora chama a atenção para o tom declaratório das informações jornalísticas baseadas nas delações. “Muitos veículos jornalísticos têm tratado a informação desses réus como verdade absoluta, deixando espaço irrisório para outras versões”. Já Paul observa a cobertura de alguns veículos relacionada à ocupação das escolas de São Paulo no artigo “Intervenção militar nas ruas, democracia radical nas escolas”. Conforme o pesquisador, o discurso jornalístico “parece ainda ter muitas dificuldades para lidar com fenômenos políticos que estão longe das tradicionais bandeiras políticas”.

As abordagens jornalísticas que estão sendo empregadas em um contexto permeado por delações merecem uma reflexão ética mais consistente. Não podemos aceitar que a política se resuma ao conjunto de acusações seletivas que está pautando as editorias de política atualmente. Essa constatação pode ser facilmente identificada nas “informações políticas” apresentadas abaixo.

Reprodução do site da Folha de S. Paulo do dia 12-01-2016. Disponível em: http://migre.me/sHcuL

Reprodução do site da Carta Capital do dia 11-01-2016. Disponível em: http://migre.me/sHczx

Reprodução do site da Veja do dia 08-01-2016. Disponível em: http://migre.me/sHcGV

Reprodução do site da Veja do dia 13-01-2016. Disponível em: http://migre.me/sHcLW

Reprodução do site da Exame do dia 14-01-2016. Disponível em: http://migre.me/sHevM

Não estou propondo que as ações jornalísticas esqueçam os desvios políticos, as investigações policiais e as informações oriundas do Poder Judiciário. Entretanto, é preciso estar ciente de que nenhuma fonte de informação está imune ao erro. A apuração segue sendo um elemento fundamental para que acusações infundadas não se tornem verdades absolutas.

Um caso exemplar que demonstra que a “justiça” pode errar está sendo amplamente debatido nos EUA, devido à repercussão da série documental disponibilizada pelo Netflix “Making a Murderer” (Fabricando um assassino). A série retrata o caso de Steven Avery, que provou a sua inocência por meio de um exame de DNA, após passar dezoito anos na cadeia. Não vou me estender nos comentários a respeito do documentário, mas, sem dúvida, ele provoca uma série de reflexões sobre as informações “oficiais” e os seus pressupostos. O caso de Avery destaca a importância de uma atividade jornalística norteada pelo esclarecimento dos fatos em todas as suas nuances.

Em relação ao segmento político, Stray (2015) ressalta: “A ação política é muito mais ampla do que votar e a política é muito mais do que os políticos e o governo. É essencial uma fonte de informação política que ajude a compreender o panorama político, que aperfeiçoe seus objetivos e sua estratégia, que estabeleça uma conexão com pessoas com ideias afins e, em última instância, que seja bem-sucedida no que você entende por política. Tudo o mais é fofoca”. Para fortalecer a democracia precisamos de um jornalismo político plural, que tenha em seu horizonte as informações políticas invisíveis aos olhos norteados pelas formalidades e pelos interesses privados. As informações políticas devem abarcar os diferentes atores políticos espalhados pela sociedade, não pelas causas que defendem, mas pelo debate político que potencialmente podem proporcionar.

Chegamos ao fundo do poço

Na segunda-feira (18), a Folha de S. Paulo ratificou os erros que o jornalismo político vem cometendo ao anunciar o seu novo colunista, Kim Kataguiri. O “estudante” de 19 anos é coordenador do Movimento Brasil Livre (MBL), que foi criado no final de 2014 para difundir ideias liberais e “combater o PT”. Uma entrevista publicada pela Folha no dia 27/09/2015 informa que Kataguiri abandonou a universidade para dedicar-se integralmente “à causa anti-Dilma Rousseff”. Claramente influenciado pelas informações desencontradas do noticiário político, Kataguiri faz afirmações superficiais e categóricas, alinhadas à visão adversarial e polarizada de política que está sendo disseminada pelo jornalismo político atualmente.

A primeira coluna do coordenador do MBL foi publicada no dia 19/01/2016. O jovem colunista infelizmente não surpreendeu. De forma bizarra tentou rotular o Movimento Passe Livre (MPL) da seguinte maneira: “Aqueles que andam de camisa negra, máscara no rosto e pedra na mão e chamam os outros de fascista estão de volta às ruas. Enquanto berram pelo mito do transporte público, gratuito e de qualidade e pedem menos violência militantes queimam ônibus e jogam coquetéis molotov na polícia”. Para ele as ações do MPL podem ser classificadas como “terrorismo”. É irônico constatar que a primeira coluna de alguém que coordena um movimento social busque desqualificar mobilizações sociais e reivindicações políticas. Não vou me estender na análise da coluna de Kataguiri, pois seu texto não merece maiores considerações.

Não sei se podemos condenar um jovem alimentado pelo ódio e pela desinformação. As suas ideias são a continuidade de uma perspectiva degradante do conceito de política que é amplificada pelos veículos de comunicação tradicionais. O desrespeito ao leitor e ao jornalismo chegou a níveis inimagináveis de hipocrisia e desserviço. É hora de repensarmos o jornalismo “político”, a sociedade e a democracia precisam de um jornalismo sobre política pautado pelo respeito e pela pluralidade.

Referências:

BRUM, Eliane. É política sim, Geraldo. 07/12/2015. El País. Disponível em: http://migre.me/sHf2z. Acesso em: 14 jan 2016.

STRAY, Jonathan. Jornais e TV priorizam políticos em vez do cidadão. 22/12/2015. Observatório da imprensa. Disponível em: http://migre.me/sHeLc. Acesso em: 14 jan 2016.

PAUL, Dairan. Intervenção militar nas ruas, democracia radical nas escolas. 14/12/2016. objETHOS. Disponível em: http://migre.me/sHfhC. Acesso em: 14 jan 2016.

VIEIRA, Lívia. Algumas certezas diante de um cenário instável para o jornalismo. 11/01/2016. objETHOS. Disponível em: http://migre.me/sHflI. Acesso em: 14 jan 2016.

Comentário da Semana: Algumas certezas diante de um cenário instável para o jornalismo

Lívia de Souza Vieira 
Doutoranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

Num tempo em que tudo está em transformação no jornalismo, o que não muda? Este texto pretende refletir sobre o tema, problematizando alguns valores fundantes da profissão, em contraste com o presente cenário de crise.

Para isso, vamos voltar no tempo. Após arrefecer-se o controle da Igreja sobre a sociedade na Idade Média, a era Moderna inicia com uma imprensa muito próxima do poder. Daniel Cornu (1999) lembra que os primeiros periódicos feitos à mão, anteriores à impressão, se destinavam a informar os príncipes, banqueiros e comerciantes. “Se os jornais se desenvolvem, apesar de tudo, é porque a informação, que não deixou de acompanhar os progressos das trocas e do comércio, tende ela própria a tornar-se uma mercadoria” (p. 137).

Na França, a nova burguesia começa a se reunir nos salões. Na Inglaterra, nos cafés. Nestes espaços públicos, a informação circula junto aos primeiros periódicos, num período de transição entre a esfera privada e a pública. Conversar e debater sobre os acontecimentos da cidade se torna cada vez mais importante, embora tal ato estivesse restrito a determinada classe social.

A prensa móvel de Gutenberg, em meados do século XVIII, conferiu à imprensa o status de atividade profissional. No entanto, Amado (2005) chama atenção para a tensão que se instaura, a partir daí, com a circulação da informação como uma mercadoria. “Es decir que el periodismo se desarolló, desde que existe, como um negocio. Y hay quienes sostienen – precisamente por eso – que el periodismo ha vivido siempre atravesado por crisis” (p. 34).

Ao investir em pesados maquinários industriais de impressão, os donos de jornais encontraram na publicidade um meio de não só repor esse investimento, mas também de lucrar com a atividade jornalística. Genro Filho (1987) destaca que o crescimento da população urbana e a diminuição do analfabetismo contribuíram para aumentar o número de leitores. A utilização dos avanços técnicos e o aumento da circulação, que foi impulsionado com a baixa do preço do exemplar, aumentaram os gastos. “O próprio desenvolvimento do capitalismo mostrou a solução através da publicidade. Os anunciantes se encarregariam de financiar os custos” (p.165).

Dessa forma, se por um lado há uma busca por informação, aliada a todas as discussões a respeito da liberdade de expressão, há também o nascimento de um negócio intrinsicamente ligado ao capital e à era industrial.

Tal engrenagem contrasta, desde então, com a função social do jornalismo. Ao longo da história, não foram raros os momentos em que interesses das grandes empresas de mídia se chocaram com o interesse público. E hoje, quando esse modelo de publicidade entra em crise, devido à queda nas vendas do jornal impresso, à falta de rentabilidade na internet, e à pluralidade de narrativas produzidas por cidadãos comuns nas redes sociais, questionamos: a atividade jornalística ainda é viável e necessária?

Concentremo-nos então na reflexão a respeito dos valores cânones desta profissão, para tentar responder à pergunta. A informação jornalística, conforme aponta Cornu (1999), liga-se a um aspecto específico da verdade, que é a de interesse público. Ao jornalista, a rigor, não competem as verdades privadas.

A partir desse valor – o da verdade de interesse público – já podemos estabelecer a primeira reflexão. Por que, então, o jornalismo atual se dedica tanto à vida privada de celebridades? Ao jornalismo cabe encontrar o ponto de equilíbrio entre a liberdade de imprensa e a proteção à pessoa. Manchetes como a abaixo destorcem o que a profissão realmente é e acaba por contribuir para seu descrédito.

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Fig. 1: Matéria do site Ego noticia a ida do cantor Chico Buarque à padaria[1]

O jornalista é, também, um homem político, segundo Max Weber. Sua responsabilidade é, antes de tudo para com o público, pelo direito deste último ser informado. “Essa missão pública é a primeira condição da democracia. A ignorância favorece o poder dos que detêm nas suas mãos a informação e a protegem pelo segredo” (CORNU, 1999, p. 382). Isso não significa uma prática política, no sentido estrito. Mas a responsabilidade que todo jornalista tem de “restaurar as faculdades críticas da informação” (p. 390). Ou seja, a informação jornalística, tida como um direito, deve contribuir para a formação crítica do cidadão.

Tal valor não aconteceu no início da cobertura sobre o crime ambiental em Mariana (MG), em que as primeiras matérias eram reproduções das versões das assessorias de imprensa da Vale e Samarco. Além da posição acrítica, muitos veículos ainda desinformaram, como no exemplo abaixo, em que a Folha de S. Paulo reproduz declarações da Samarco e da Guarda Municipal, insinuando que o rompimento da barragem havia acontecido após um abalo sísmico. Se o próprio observatório da USP disse que o impacto registrado nem seria sentido pelas pessoas, pra quê noticiar uma informação visivelmente falsa?

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Fig 2: Trecho de matéria do jornal Folha de S. Paulo[2]

Sendo o jornalista responsável pela verdade, o rigor e seu método investigativo – a saber – a objetividade do relato – é também um cânone. “É a recolha de todos os fatos confirmados disponíveis. É tudo o que se opõe à falsificação, à deformação, à mentira. O rigor é um caminho balizado” (CORNU, 1999, p. 391). Em tempos de proliferação de boatos na internet, este talvez seja o papel mais importante do jornalismo em nossos tempos: o de apurar, verificar e publicar a informação mais precisa possível. E, para isso, o repórter dispõe de alguns privilégios: só ele pode entrar em determinados lugares, como em coletivas de ministros, em hospitais, em departamentos públicos, em nome do direito da sociedade à informação. Dessa forma, reproduzir fatos não confirmados é, novamente, contribuir para o descrédito da profissão.

Como fez a revista Veja, ao publicar reportagem de capa às vésperas do segundo turno da eleição presidencial de 2014, acusando Dilma e Lula de saberem sobre a corrupção na Petrobras. A presidente processou a revista e ela teve que se retratar.

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Fig. 3: Capa da revista Veja[3]

Enfrentar os dilemas do cotidiano recorrendo a interrogações éticas é também essencial em tempos de crise. “La ética no sólo ayuda a saber discernir, sino que ensena a dudar razonablemente y a buscar salidas razonables al impasse al cual nos aboca la duda irrestringida” (GUISÁN, 1986, p. 21). Com isso, não queremos dizer que a ética jornalística é um conjunto de regras imutáveis. Pelo contrário, ela é sempre fruto de uma interrogação que se move junto à dinâmica das relações sociais e à cultura. Como disse Eugênio Bucci (2000), muitas vezes a decisão ética não se faz entre o certo e o errado, mas entre o certo e o certo.

Diante disso, não é difícil constatar que programas jornalísticos como os apresentados por Datena e Marcelo Rezende por vezes assumem posturas antiéticas ao apelarem para o sensacionalismo. Ou casos em que o jornalista trabalha como assessor de imprensa em órgão público ou privado concomitantemente com a função de repórter de redação. Ou ainda ocasiões como a do extinto jornal “News of the World”, de Rupert Murdoch, acusado de fazer escutas ilegais de ligações de políticos e celebridades inglesas.

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Fig. 4: Última capa do “News of the World”, após escândalo[4]

Além da importância canônica da verificação, da qual já tratamos, nos parece igualmente essencial checar a informação e as versões com o maior número possível de pessoas, a fim de garantir a pluralidade. Cornu (1999) ressalta que o jornalismo deve procurar “pôr em discussão, no respeito pelo pluralismo, a universalização dos interesses universalizáveis” (p. 396). Isso quer dizer que os interesses das fontes não podem sobrepor-se ao interesse público e que o jornalista deve recorrer a outras vozes além das oficiais, evitando assim, o tom declaratório nas matérias.

Exemplo recorrente nos últimos tempos tem sido a simples reprodução de afirmações feitas por políticos em delação premiada. Muitos veículos jornalísticos têm tratado a informação desses réus como verdade absoluta, deixando espaço irrisório para outras versões. No exemplo abaixo, do jornal O Estado de S. Paulo, o contraponto à acusação de um dos delatores na operação Lava-Jato aparece só no último parágrafo do texto.

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Fig 5.: Matéria do jornal O Estado de S. Paulo[5]

O respeito pela pessoa e a não espetacularização da notícia igualmente são virtudes permanentes de um jornalismo responsável. “É contestável o uso dos testemunhos, dos documentos e das imagens como meios de uma informação que só se satisfaz com o seu próprio espetáculo – e não como fim de uma informação que procura a verdade no respeito pelo homem” (CORNU, 1999, p. 409). No exemplo a seguir, a repórter da TV Band constrange um rapaz preso diversas vezes, debochando da forma como fala e o acusando diretamente.

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Fig. 6: Frame de vídeo com reportagem da TV Band[6]

Dessa forma, compreendemos que, mesmo num cenário de instabilidade econômica, a atividade jornalística ainda se faz extremamente necessária para o registro dos acontecimentos do tempo presente com responsabilidade, precisão e ética. No entanto, os exemplos citados mostram o quão difícil é o cumprimento de valores fundantes do jornalismo, capazes de garantir a tão sonhada legitimidade diante do surgimento de narrativas muitas vezes feitas por não jornalistas. São eles, a saber:

– A verdade de interesse público

– A informação que contribui para a formação crítica do cidadão

– O rigor e a objetividade do relato

– O enfrentamento de dilemas do cotidiano recorrendo a interrogações éticas

– A pluralidade de fontes e versões

– O respeito pela pessoa e a não espetacularização da notícia

Certamente esses valores não se esgotam aqui, mas ressaltamos o fato de que eles independem de suportes midiáticos. Seja no impresso, rádio, TV ou internet, recorrendo a esses cânones, o jornalismo pode ser capaz de sobreviver e tornar-se essencial para a formação de uma sociedade mais democrática. Simplesmente porque não há outra profissão ou cidadão que se preocupe com tantos aspectos dos acontecimentos da realidade. Por isso mesmo, abdicar desses valores em nome de outros interesses é um enorme erro. Algumas coisas não mudam. E não devem mesmo mudar.

Referências

AMADO SUÁREZ, Adriana (Ed.). Se puede saber lo que se pasa? Buenos Aires: Norma, 2005.

BUCCI, Eugênio. Sobre ética e imprensa. São Paulo: Cia das Letras, 2000.

CORNU, Daniel. Jornalismo e Verdade: para uma ética da informação. Tradução de Armando Pereira da Silva. Lisboa: Instituto Piaget, 1999.

GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide – para uma teoria marxista do jornalismo. Porto Alegre: Tchê, 1987.

GUISÁN, Esperanza. Razón y pasión en ética: los dilemas de la ética contemporânea. Barcelona: Anthropos, 1986.

[1] Disponível em: http://ego.globo.com/Gente/Noticias/0,,MUL1363727-9798,00-CHICO+BUARQUE+COMPRA+BAGUETES+PARA+O+LANCHE+DA+TARDE.html (acesso em 4 dez 2015)

[2] Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/11/1702906-rompimento-de-barragens-atinge-distritos-em-mariana-mg.shtml (acesso em 04 dez 2015)

[3] Disponível em: http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/politica-cia/exclusivo-dilma-e-lula-sabiam-de-tudo-diz-alberto-youssef-a-pf/ (acesso em 04 dez 2015)

[4] Disponível em: http://portalimprensa.com.br/noticias/internacional/62035/procurador+acusa+ex+chefes+do+news+of+the+world+de+envolvimento+com+escutas+ilegais (acesso em 4 dez 2015)

[5] Disponível em: http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/delator-diz-que-pediu-ajuda-a-amigo-de-lula-por-sua-relacao-com-palocci/ (acesso em 4 dez 2015)

[6] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=1lk0yMCCWso (acesso em 4 dez 2015)

Comentário da Semana: 10 desejos para o jornalismo em 2016

Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

Previsões são comuns ao final de um ano, sempre com a tentativa de entrever o que encontraremos na próxima etapa. Alguns desses prognósticos são baseados em fatores que – combinados – ajudam a tecer um cenário para uma situação qualquer. No final de 2015, aconteceu o mesmo e circularam diversas leituras antecipadas da política, economia, artes e tecnologia. O jornalismo não ficou alheio, e o Nieman Lab (Universidade de Harvard) convocou diversos especialistas para desenharem os contornos de 2016.

Algumas das tendências até podem se verificar nos próximos doze meses. Mas não se deve ignorar que muitas dessas “previsões” são menos projeções ancoradas na realidade e mais desejos, atrelados a interesses pessoais e corporativos.

Já que o começo de um ano permite certas extravagâncias – como um regime novo e metas pessoais ambiciosas – pensei: por que não fazer uma lista de desejos para o jornalismo em 2016? Vou poupar o leitor da ilusão de que eu esteja oferecendo previsões. O que vem a seguir é uma lista de desejos, a mera manifestação do que eu gostaria de enxergar nos profissionais, organizações, produtos e serviços de informação neste ano. Talvez alguns itens coincidam com a vontade do leitor, outros fugirão disso, o que é esperado também. De qualquer forma, fique à vontade para fazer a sua lista. Afinal, sonhar é o primeiro passo para realizar…

Foco

Se 2015 foi um período politicamente conturbado, não é prudente esperar que este seja um ano mais sereno, até porque teremos no Brasil eleições municipais. Serão dezenas de milhares de cargos em disputa, acirrando os ânimos já exaltados em todas as partes. Embora as votações aconteçam só em outubro (dias 2 e 30, se e onde houver segundo turno), os debates vão ocupar quase todo o ano. Espero que as coberturas das eleições sejam menos concentradas nos planejamentos dos partidos e em suas agendas de campanha e mais nas demandas dos eleitores, refletindo as esperanças de melhora nas cidades.

Equilíbrio

O ano terá Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, evento inédito que vai mobilizar exércitos de repórteres, editores, técnicos e produtores. A julgar pela tradição nacional das redações, é muito possível que estejamos todos expostos a doses cavalares de patriotismo exagerado e euforia desmedida. O civismo não é um mal em si, mas restringir o sentimento de pátria a disputas esportivas (sem qualquer implicação na melhoria das condições de vida nacionais) é uma perda incrível de oportunidade e energia. A euforia também não é um problema, a não ser que ela nos embace a vista diante da realidade e nos prive de senso crítico. Meu desejo para 2016 é que os jornalistas se contagiem menos com esse espírito olímpico e nos ofereçam uma cobertura mais abrangente, mais aprofundada e mais equilibrada.

Diversidade

Já que mencionamos os Jogos Olímpicos, espero que – depois do evento de agosto – a cobertura esportiva brasileira de 2016 vá além do tradicional acompanhamento de partidas de futebol e que outros esportes igualmente importantes sejam mais visíveis. As redações são costumeiramente dedicadas ao futebol masculino e profissional, e se pensássemos fora dessa caixinha? Existe suor e competição nas ruas, nas quadras dos bairros, nos ginásios, nas escolas, universidades e quartéis, na larga costa brasileira, nos sertões, enfim… Minha esperança é ver em 2016 um jornalismo esportivo mais heterogêneo, plural e verdadeiramente dinâmico.

Menos banalidades

Diversidade é importante, mas ela não pode estar desprovida de filtros de qualidade, de peneiras que possam triar o que é relevante, oportuno, útil e adequado. Por isso, neste novo ano, os portais de notícia brasileiros poderiam insistir menos nos mexericos e nas bizarrices, deixando morrer à míngua o circo de horrores que se tornou a seção de Mais Lidos. Não se trata de privar os públicos da ruidosa separação de Chimbinha e Joelma, mas de não considerar que o entorno desse episódio mereça uma cobertura ostensiva e que se reinvindique jornalística. Meios jornalísticos não podem se eximir da tarefa de selecionar fatos e priorizar notícias, oferecendo um panorama mais orientador da vida social. Deixar que a idiotia impere nos portais é abrir mão dessa função social do jornalismo.

Independência e credibilidade

Que em 2016 o jornalismo econômico seja menos impressionista e submisso a conglomerados, fundos de pensão, agências de classificação de risco e outros núcleos de poder. Que repórteres, editores, redatores e produtores sejam menos aderentes à ladainha queixosa dos poderosos, e que vejam os indicadores econômicos como sinais da realidade que afeta a todos os seres. Que esses profissionais sejam mais claros e simples em seus relatos e que não usem a linguagem cifrada como um recurso de poder e opressão sobre os ignorantes… Que ao fim e ao cabo os meios jornalísticos encarem o compromisso de assumir e corrigir seus erros publicamente, sem temores ou vergonha. Credibilidade é o nome do jogo.

Dados!

No ano que passou, os brasileiros viram nascer um punhado de projetos jornalísticos especializados na checagem de informações e na visualização de dados. Esses meios não só assumiram lacunas na dieta informativa como também permitiram a emergência de temas importantes para os debates públicos qualificados. Meu desejo é que em 2016 mais projetos como esses surjam e que essa modalidade ocupe mais espaço e tenha mais relevância na paisagem jornalística nacional.

Alternativas

Que neste ano os projetos jornalísticos alternativos prosperem e encontrem formas próprias para se autosustentar. O financiamento coletivo tem sido apontado como um caminho, mas envolvimento dos públicos, gestão eficiente e perenidade dos apoios são desafios para gestores e jornalistas, que nesses casos ocupam as mesmas cadeiras. Atuar em escalas hiperlocais, investir em relacionamentos duradouros com as audiências e se distanciar dos meios convencionais também precisam estar no horizontes desses empreendedores.

Não ao caminho único

Em 2015, o cada vez mais poderoso Facebook fechou acordos com influentes meios para difundir seus conteúdos diretamente naquela rede social. Em uma frase: terceirizaram a distribuição das notícias, diante do gigantesco sucesso do newsfeed de Mark Zuckerberg. Pode ser prático para as redações, mas ninguém pode negar que é perigoso demais demonstrar ser tão vulnerável e recorrer a uma única solução. Meu desejo é que as organizações jornalísticas encontrem outras formas de distribuir seus conteúdos para além do Facebook, porque concentrar não é necessariamente bom… Que em 2016 as plataformas de difusão e circulação tenham menos importâncias que os conteúdos e seus públicos. Uma app é apenas uma app.

Resultados

Que engenheiros, programadores, gestores e jornalistas sentem à mesma mesa e desenvolvam métricas que ajudem a medir satisfação, impacto social e relevância informativa. Tiragens e circulação, índices de audiência, tempo de leitura, números de visitantes únicos, cliques em anúncios e engajamento dos públicos são nomes diferentes para a mesma coisa: atenção. Desde sempre, o jornalismo quis convencer seus financiadores de que era relevante pelo número de olhares que era capaz de atrair. De muitas maneiras isso já não funciona hoje como antes. Que as métricas deixem de ser fetiches e argumentos numéricos em 2016, e que elas possam também auxiliar a medir o quanto o jornalismo está sendo útil e imprescindível.

Histórias

Espero ainda que neste ano os jornalistas realmente exagerem no desenvolvimento de novas formas narrativas, informando, aprofundando, envolvendo e instigando seus públicos. Que a reportagem venha com força! Que o jornalismo reencontre um lugar para si como uma modalidade narrativa distinta das demais, incompleta por natureza, mas ainda válida e que agregue razões à vida social.

Comentário da semana: regras mais claras lá e aqui

Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

Uma poderosa conjunção astral atraiu dois eventos distintos de países vizinhos para convergir na mesma época. Embora sejam episódios particulares, dialogam entre si e vão impactar pessoas e organizações num plano comum. Por isso, é possível afirmar que haja uma ligação entre uma decisão da Suprema Corte argentina na semana passada e o resultado de uma votação no Congresso Nacional brasileiro nos próximos dias. Cada uma, a seu tempo e com seu escopo, pode redesenhar o mapa das comunicações em seu país e trazer à tona regras mais claras para o setor.

Na última terça-feira (29/10), a Corte Suprema de Justiça argentina declarou que a polêmica Lei de Meios é constitucional, colocando um ponto final a uma batalha nos tribunais que se arrastava há quatro anos. Proposta pela presidente Cristina Kirchner, a lei foi aprovada pelo parlamento, mas foi constestada pelo maior conglomerado de mídia do país, o Clarín. Também pudera, a lei limita número de concessões de radiodifusão e ataca frontalmente oligopólios.

O Clarín era um aliado de primeira hora dos Kirchner, mas a lua-de-mel terminou quando alguns de seus interesses na área agrícola foram contrariados por medidas do governo. A partir de então, as relações esfriaram e os veículos do conglomerado midiático ofereceram à presidente uma resistência que nem mesmo a oposição fora capaz. O movimento de Cristina com uma lei que afetava o tamanho e a composição dos grupos do setor foi recebida como uma ofensiva contra a liberdade de expressão, a possibilidade de crítica e a fiscalização dos poderes. Foi como jogar gasolina para apagar a fogueira.

Aprovada em 2009, a Lei de Meios foi rechaçada pelo Clarín, por alguns concorrentes e até mesmo por aliados de outros países, como as Organizações Globo que empenharam parte de sua cobertura noticiosa para apavorar o público com as medidas censoras da presidente argentina. O Clarín apelou na justiça contra quatro artigos da lei e a queda de braço se estendeu até a corte mais alta do país. A decisão da semana passada obriga os conglomerados a se adequarem aos limites das concessões, e o maior grupo de mídia vai precisar de desfazer de dezenas de licenças de TV a cabo, por exemplo, encolhendo de uma maneira nunca vista. A Lei de Meios, agora com possibilidade real de implantação, vai redesenhar o mapa argentino das comunicações, mas é preciso atentar para um aspecto muito importante: a criação de novas regras apenas não garante que haja uma reconfiguração efetiva no setor. A mesma lei prevê uma complementaridade no sistema de radiodifusão entre governos, empresas e sociedade civil, cada um deles com um terço das licenças. A “retirada” de concessões dos grandes grupos não assegura que outros titulares tenham qualidade técnica, sustentação financeira e condições operacionais de atuar com o mesmo nível de satisfação dos anteriores. É preciso ainda que o governo lance linhas de financiamento para pequenos grupos que queiram entrar no mercado, que pulverize as verbas publicitárias de forma a alcançar esses novos players e que crie regras complementares que mantenham um ambiente estável para que os novatos sobrevivam. Embora haja grandes chances de a Argentina promover uma democratização das comunicações – algo inédito na América do Sul e bastante raro em outras partes do mundo -, este processo está apenas nos seus primeiros passos, sendo necessário adotar tais movimentos como decisões de Estado e não apenas de governos, haja vista que Cristina Kirchner não deve permanecer na Casa Rosada por toda a eternidade.

No Brasil, estamos muito distantes de contar com um governo que insinue uma política efetivamente democratizante das comunicações. Por aqui, licenças e outorgas de radiodifusão são praticamente infinitas, já que se renovam quase que automaticamente, têm a cumplicidade do Estado e quase nenhuma fiscalização das agências reguladoras. No entanto, um importante movimento pode ser dar finalmente no país esta semana com a votação no Congresso Nacional do Marco Civil da Internet. Pelo menos desde 2011, setores organizados da sociedade discutem as bases para o que deve funcionar como uma Constituição para internautas, empresas, governos e todos aqueles que se conectam. Polêmica, a proposta reafirma princípios como o da neutralidade de rede, a privacidade e a guarda dos dados dos usuários, o que contraria interesses de companhias telefônicas, de provedores de acesso, de empresas de tecnologia, que fazem pressão sobre os parlamentares. Não é à toa que o projeto foi a plenário pelo menos meia dúzia de vezes no ano passado e em todas elas teve sua votação adiada por falta de consenso. Líderes do governo sentiram que recuar era avançar e por isso retiraram o projeto da pauta até onde foi possível.

Em julho passado, com as denúncias dos atos de espionagem de agências norte-americanas à presidência da República e a empresas nacionais como a Petrobras, o Marco Civil passou a ser uma prioridade para o governo Dilma Rousseff. Assim, uma legislação para a internet ganhou uma importância concreta para assegurar direitos de usuários e para restringir ações de bisbilhoteiros. O Palácio do Planalto colocou o projeto em regime de urgência na Câmara Federal, e a presidente usou a tribuna da Organização das Nações Unidas para defender o Marco Civil, uma governança mais democrática e responsável da internet em escala mundial e o fim da espionagem cibernética.

Na semana passada, o Marco Civil entrou novamente em pauta, e só não foi votado porque líderes da base aliada negociaram com outros líderes uma comissão geral, sessão parlamentar de debate público entre deputados e convidados, agendada para esta semana. O objetivo é reduzir as margens de dúvida sobre a proposta e aprová-la com a forma mais próxima do projeto original. Em setembro, o texto recebeu 34 emendas.

Em linhas gerais, o Marco Civil quer manter que a internet no país não priorize o tráfego de pacotes de informações conforme aspectos mercadológicos, que os dados pessoais dos usuários não sejam comercializados nem tornados públicos pelos provedores de serviço, que a rede promova a cultura, o desenvolvimento humano e social, e a inteligência coletiva. A exemplo da Lei de Meios argentina, o Marco Civil – caso venha a ser aprovado e mantenha o espírito original – traz luz a setores cada vez mais estratégicos na sociedade, como é o caso das comunicações e da tecnologia informacional. Não chega a redesenhar o setor, como o faz a lei dos vizinhos, mas finca bandeiras importantes e sinaliza para o mundo que o país defende uma internet plural e social (e não majoritariamente comercial). O Marco Civil não resolve o problema da espionagem contra governos e empresas, mas permite que surjam leis complementares que responsabilizem transgressores e que fermente um amplo debate sobre limites nacionais, soberania, respeito mútuo e privacidade pessoal em detrimento de ganhos financeiros. Pode ser um passo importante, tão relevante como discutir vencimento de concessões de radiodifusão e transferência de licenças de rádio.

Pesquisador do objETHOS lança ebook sobre jornalismo científico

Screenshot 2013-08-22 09.01.47O professor Samuel Lima, pesquisador do objETHOS, está lançando o livro “Jornalismo Científico e Pesquisa na Amazônia”.

O e-book é resultado do curso de pós-graduação em jornalismo científico da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFopa), instituição do professor Manuel Dutra, que também assina a organização do volume.

Com 176 páginas, a obra reúne entrevistas com 17 pesquisadores e jornalistas da região amazônica, vem com selo da Editora Insular e pode ser acessado neste link.

Comentário objETHOS: Quando é preciso ser parcial

Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

Edição de 15/11/2012

A semana que passou trouxe alarme social e uma coleção de manchetes inédita e inesquecível para os catarinenses. Por conta da sucessão de ataques de criminosos, a população de dezesseis cidades se sentiu como se vivesse em grandes centros metropolitanos, muitas vezes mergulhados na insegurança pública. Entre a segunda-feira, 12 de novembro, e o domingo, 18, bases policiais foram alvejadas, ônibus e veículos particulares foram queimados, totalizando 58 ações. A concentração dos atentados em poucos dias e sua visibilidade foram tantas que as ocorrências no interior de São Paulo e na própria capital paulista chegaram a ser ofuscadas no noticiário nacional. O episódio mostrou a fragilidade da população em ações coordenadas do crime, mas revelou também um lado do Estado que não se quer acreditar e outro da imprensa que os jornalistas teimam em esquecer.

Os dias dos atentados em Santa Catarina tornaram mais nítido para todos que governo, população e imprensa não estão exatamente do mesmo lado. Nos primeiros dois dias de ataques, o Estado insistiu em minimizar as ocorrências, um comportamento-padrão repetido em outras geografias. A estratégia está apoiada na ideia não totalmente comprovada de que não se deve dar créditos ao inimigo, sob pena de fortalecer seus atos. O chefe da polícia desdenha das ações, o governador não aparece para dar satisfações, e assim, o Estado espera mandar um recado para a população de que tudo está sob controle. Nos corredores palacianos, de forma subterrânea, o que se vê é a correria, a tomada de decisões intempestivas, a busca de compreensão do que está acontecendo e a tentativa de antecipação dos movimentos do oponente. Seja por questões estratégicas – para não revelar o que está fazendo -, seja por despreparo – para não revelar o que não fez -, o Estado deixa o cidadão comum sem a devida informação. A ironia é que o Estado existe para servir o cidadão, atendê-lo em suas necessidades, protegê-lo.

Tom conciliador

Edição de 17 e 18/11

Entre o governo e a população, quem poderia construir pontes de compreensão é o jornalismo. Os meios de comunicação atuariam para desvelar o lado oculto dos ataques, para contrapor as diversas versões dos fatos e para, acima de tudo, tornar o cidadão mais bem informado sobre o que está ocorrendo. Enquanto o Estado se orienta pela busca da ordem – muitas vezes, revestindo seus atos com opacidade -, o jornalismo deveria se guiar pela clareza, pela nitidez dos acontecimentos.

Entretanto, parece vigorar nas redações um raciocínio de que, em tempos de crise, é preciso dar uma trégua ao Estado para que a ordem seja restabelecida. É assim em desastres naturais, em que a mídia tenta atuar como um braço da Defesa Civil, prestando serviços que seriam uma extensão do Estado. Pelo que se viu, isso também acontece diante de ataques coordenados do crime organizado, quando sobressaem os desserviços. Tão surpresas quanto o cidadão, as redações externam nas manchetes algum despreparo para cobrir o assunto e muito de senso comum. As primeiras páginas gritam com o público, chacoalhando o leitor. Histeria, alarme social e medo coletivo são os espíritos dessas páginas, enquanto a informação vital – aquela que ajuda o leitor a tomar decisão, aquela que o ajuda a compreender o cenário complexo, aquela que permite que ele se proteja -, essa informação vital fica subsumida. Os dilemas se instalam nas mesas de editores: Como dar a notícia na dimensão precisa sem apelar para o sensacionalismo? Se o conjunto de ações é inédito, se sua intensidade é única, como não ressaltar isso nas matérias? Como buscar equilíbrio na cobertura quando a ordem social e a segurança pública se traduzem apenas como expressões nas bocas dos políticos e não nas ruas ou bairros?

O noticiário dos jornais de Santa Catarina oscilou na semana em questão. O Diário Catarinense tentou se conter: Escolta e ataques (15/11); “Deixa eu sair” (16/11); Varredura nos presídios começa por Santa Catarina (17/11); Porque o terror atacou (18/11).

O Jornal de Santa Catarina, de Blumenau, mostrou-se distante: Facção criminosa recruta devedores (16/11); O pior presídio (17/11); Presos deram ordem para reduzir ataques (18/11).

Notícias do Dia, oscilou quase de de forma errante: Prisões, mortes e novos atentados (16/11, edição de Florianópolis); Atentados em SC – Mais ataques (16/11, edição de Joinville); “O pior já passou”, diz o governo (Joinville, 17 e 18/11); Segurança em alerta (Florianópolis, 19/11); Cai ritmo dos ataques no Estado (Joinville, 19/11).

A Notícia, o segundo maior jornal catarinense, só despertou quando a onda chegou perto da sede, em Joinville: Estado em alerta: Ataques chegam ao norte (18/11).

Edição de 16/11

Deliberadamente mais impactante, a Hora de Santa Catarina intensificou a sensação geral de insegurança com seis manchetes: Noite de ataques (12/11); A que ponto chegamos (13/11); Isso, sim, é o fim do mundo (14/11); Quatro noites de terrorismo (16/11); Medo coletivo (17/11); Escoltas até quarta-feira (19/11).

Curiosamente, o diário que mais traduziu o sentimento geral da população é o que adota estética mais chamativa, linguagem direta e cobertura superficial. Mas também o que não assumiu o discurso tranquilizador insistido pelas autoridades, destoando dos demais, mesmo que cometendo alguns exageros.

Parcialidade sim!

A onda de ataques do crime organizado trouxe (mais uma vez) à tona que as redações podem padecer de uma certa miopia sobre o seu papel na sociedade. Embora o Estado tenha, constitucionalmente, o dever de proteger o cidadão, não são raras as vezes em que deixa o contribuinte sem informação ou sem serviços básicos. Nessas ocasiões, prevalecem as razões de Estado que podem colidir com o interesse público: para manter uma ordem aparente, as autoridades negam a realidade e ocultam informações importantes, alimentando a sensação de incerteza geral. De forma inaceitável, o Estado “protege” o cidadão da informação que não lhe poderia ser sonegada.

O jornalismo não tem que estar ao lado do Estado, mas sim da população. Nem sempre são coincidentes as posições do governo e do cidadão, pelo que se pode ver. Na guerra das versões, o sujeito das ruas fica sem amparo, sem saber, seja porque o Estado lhe nega, seja porque os jornalistas não lhe fornecem.

Num cenário de crise de confiança e de solvência, o jornalismo – cada vez mais! – precisa ficar ao lado da população, quando ela assiste bestializada à sucessão de ataques, da qual é a vítima mais evidente. Embora os ataques tenham sido contra algumas bases policiais, é o cidadão que mais sofre nessas ocasiões, pois é ele quem sai às pressas do ônibus prestes a ser incendiado; é ele quem se sente acuado pelo crime, pois não tem armas ou instrumentos de inteligência para reagir eventualmente. O Estado deve ser indagado pelos jornais; os repórteres não podem fazer as vezes de meros porta-vozes do governador para acalmar o cidadão; as redações devem buscar formas próprias de extrair as informações que o público espera e necessita; a polícia e os demais aparatos estatais não podem ser os únicos lados da história, e os detentores das versões mais privilegiadas. Isto é, o jornalismo precisa deixar de lado o pudor de ser parcial nessas ocasiões, e tomar o partido da população, mesmo que isso implique em contrariar os interesses de um governo ou de outro.

O descalabro dos presídios, as condições precárias em que vivem os policiais, a incapacidade do Estado de garantir a segurança de todos, o torpor e a própria desinformação governamental sobre os movimentos do crime organizado, tudo isso deve estar na pauta jornalística. Mas tão importante quanto ela é a clareza com que repórteres e editores devem ter sobre o papel a ser assumido nessa história toda: o jornalismo tem lado, e esse lado é o do público, não o das autoridades, dos conglomerados econômicos ou dos núcleos de poder. Fortalecer os laços da confiança que a população deposita sobre a mídia é essencial para um novo cenário comunicacional. Não só para “salvar” os veículos de informação, mas para fazer valer sua finalidade pública e sua justificativa social.

Comentário objETHOS: o que esperar do jornalismo, após a Lei de Acesso

Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

A lei de acesso a informações públicas entrou em vigor no último dia 16 de maio, coroando de êxito mais de uma década de luta e empenho de entidades civis nacionais. Sancionada em novembro de 2011, a Lei nº 12527/11 tinha bases constitucionais desde o final dos anos 1980 e sua elaboração teve ampla participação da sociedade civil por meio do Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas. A vigência da lei ganhou espaço no noticiário nacional, tomando contornos de vitória da sociedade, de amadurecimento do país. Nas redações, pode-se supor que houve uma certa contagem regressiva para que a lei finalmente passasse a valer, o que veio acontecer na mesma época em que o governo federal implantava uma Comissão da Verdade, dedicada a revisar um passado que a nem todos interessa reavaliar.

Do ponto de vista institucional, a Lei de Acesso fortalece a cidadania e ajuda a elevar os padrões da nossa cidadania. A partir de um novo marco jurídico, novas relações podem ser estabelecidas entre o Estado e os cidadãos. O “segredo”, as “razões de Estado” e a “segurança nacional” encolhem na extensão de suas semânticas, antes infinitas. Órgãos públicos e governos deslocam-se de posições antes inatingíveis para patamares em que podem ser inquiridos, questionados, cobrados de seus atos anteriores. Temos, então, a solução para todos os males do Brasil, certo?

Claro que não. A Lei de Acesso é apenas mais um instrumento que contribui para uma conciliação social, para uma reorganização dos atores no tecido conjuntivo que chamamos de país. A lei permite que o cidadão comum possa ter uma relação menos subalterna e precária com o Estado que sustenta. Possibilita que se atenuem algumas zonas cinzentas que separam as decisões governamentais do cotidiano rasteiro dos brasileiros. É pouco, mas tem o seu valor. Com uma lei como essa, pedir informações sobre atos que deveriam ser públicos escapa da esfera do favor e da concessão; passa a fazer parte de um processo, naturaliza-se. A lei não mata a fome de ninguém, mas permite saber porque recursos destinados à merenda escolar não foram usados para esse fim, por exemplo.

Mas e o jornalismo?

Se uma lei como essa pode ajudar a transformar as relações entre Estado e cidadãos, imagine suas implicações junto a uma instituição que se orienta pelo trabalho de tornar visível o que é insistentemente ocultado… É mais ou menos assim que tento dimensionar o impacto da Lei de Acesso para o jornalismo.

Um questionamento esperado em território brasileiro é “será que a lei vai pegar?” Difícil responder agora, mas acredito que as condições políticas urdidas nas últimas décadas podem compor uma força que impeça a lei de naufragar. Este empuxo – alimentado por uma vontade coletiva de saber, por um desejo de mudanças nas relações sociais – faz com que a Lei de Acesso se torne um instrumento de empoderamento que tonifica a presença no cenário do cidadão comum (do eleitor, se quiserem). Assim, jornalistas podem esfregar as mãos porque a história pode estar apenas começando…

O que se pode esperar a partir de então?

Primeiro, penso que assistiremos a um período de acomodação para órgãos públicos e governos. Eles não estão preparados para atender e satisfazer os pedidos de informação de milhões de pessoas, quem estaria? Eles precisam se acostumar a isso. Neste período, portanto, é muito possível que haja atritos entre jornalistas, servidores e políticos, entre cidadãos e órgãos, enfim, entre quem se atreve a perguntar e quem tinha prerrogativas infinitas de negar informações.

À medida que a transparência enquanto valor social ganha músculos, uma quantidade razoável de poder que antes estava centralizada e encerrada nas mãos de alguns atores se fragmenta, e como sempre acontece quando algo se espatifa, há cacos que se perdem para sempre.

Assim que o sistema conquistar alguma estabilidade, novas relações devem emergir, muito possivelmente com cidadãos mais fortalecidos no palco político. Jornalistas e veículos de informação também podem se sobressair, caso reforcem suas vocações de cobradores de respostas. Caso insistam na encarnação de delegados do público para buscar dados e explicações. Mas para isso, não poderão abandonar o compromisso ético de checar informações, de contrapor versões, de ouvir os lados envolvidos, de investigar e conferir. Solicitar números e declarações por meio de formulários e publicar na sequência o que se obtiver não será nada demais! Isso está longe de ser jornalismo, pois se aproximar mais dos serviços de um cartorário…

Será necessário investir na produção de informação qualificada, inédita, exclusiva e socialmente útil; será preciso oferecer relatos contextualizados, claros, bem explicados; será imprescindível que os jornalistas aprimorem técnicas de reportagem, que tornem mais sofisticados seus métodos de investigação e que não se contentem com os primeiros resultados de suas investidas às fontes.

O leitor mais atento poderá se contrapor: mas isso é básico do jornalismo! Sim, é. Mas diante de uma possível explosão de dados, selecionar e processar informações serão ações cada vez mais centrais no processo de comunicação e tradução do mundo. Os jornalistas não poderão prescindir desses cuidados. Em nome de uma relação ética com seu público e fontes, e em nome da sobrevivência disso que convencionamos chamar de jornalismo.

 

Comentário objETHOS: Limites difusos para o telejornalismo

Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

O jornalismo parece ser daquelas práticas humanas que necessitam frequentemente se olhar no espelho para reconhecer suas feições, admitir seus contornos. Com outras profissões, isso não é necessário. Os médicos sabem exatamente quando estão e quando não estão fazendo medicina. Os engenheiros também não padecem das dúvidas sobre a matéria e a natureza de suas atuações. Jornalistas não têm a mesma sorte e, volta e meia, discutem o que é fazer jornalismo e até onde isso vai. Talvez porque essa prática atravesse diversos outros campos, se mescle tanto socialmente que fique difícil discernir seus limites. Buscar se reconhecer é, então, um gesto permanente no jornalismo, o que, por um lado, auxilia o fortalecimento de uma convicção e, por outro, desestabiliza continuamente as certezas.

Críticos de mídia se ocupam de fazer esse debate, bem como pesquisadores da academia e observadores diversos. Mas quando os questionamentos partem das próprias redações, a dúvida emerge preenchida da legitimidade do empirismo, lembrando-nos a todo o momento do exercício prático da função. Foi assim esta semana quando se noticiou que alguns jornalistas da Rede Record estariam insatisfeitos com suas atuações na emissora. A informação foi dada por Mauricio Stycer em seu blog, inclusive com o anúncio de que o repórter Carlos Dorneles teria pedido demissão da Record por discordar de novas orientações do jornalismo. Dorneles negou sua saída em e-mail a Stycer, mas o foco do problema estaria numa suposta “crise” do jornalismo na Record por conta de interferências editoriais da Igreja Universal do Reino de Deus, proprietária da rede. Outro jornalista, não identificado por Stycer, teria dito “Não estou fazendo jornalismo, estou fazendo entretenimento”, e é esta fala em particular que me chama a atenção.

No âmago do jornalismo, esta distinção é histórica e tenta demarcar limites de atuação, bem como contornos do que significa reportar fatos. Uma tradição cultural se construiu ao longo das décadas de que jornalistas se ocupam da narração dos acontecimentos que interessem diretamente ao seu público, muitas vezes desagradando partes envolvidas e citadas, noutras contrariando até mesmo camadas da sua audiência. Quando opera dessa forma, o jornalismo se distancia do entretenimento na medida em que não conforma, não acomoda, não distrai. Corre o risco, portanto, de desagregar, de fomentar o dissenso, a crítica. Agindo assim, jornalistas – de forma incontornável – colecionam desafetos já que produzem dissabores. Parece simples e fácil, mas, na prática, manter essa direção requer pleno entendimento do exercício jornalístico, coragem, disciplina, atenção permanente e compromisso ético com um conjunto de valores que transcende a esfera do individual.

Sim, o jornalismo é dessas práticas que precisam frequentemente se olhar no espelho para reconhecer suas feições. Isso é saudável e necessário pois sua imagem é fugidia. Ainda mais num meio como a televisão, onde as fronteiras entre jornalismo e diversão ficam perigosamente embaçadas. A preocupação do jornalista anônimo chama a atenção, mais uma vez, da urgência de discutir, estabelecer e frisar os limites entre uma coisa e outra.

Esses limites não apenas determinam orientações para a conduta de profissionais e veículos, mas também auxiliam a enaltecer o que é prioritário, importante, essencial para a relação do jornalismo com a sociedade. Estou me referindo claramente a interesse público, aos critérios e processos de tomada de decisão que vão eleger o que deve ser narrado primeiro e melhor e o que deve ser simplesmente mencionado ou descartado. O anúncio das manchetes do Jornal Hoje, no último sábado (19), na Rede Globo, ajudam a ilustrar como é fácil perder o foco. A notícia que abriu a edição foi a execução do filho do coreógrafo Carlinhos de Jesus, Dudu, no Rio de Janeiro. O crime é bárbaro – oito tiros em alguém desarmado no meio da madrugada -, a perda de um filho é sempre um enredo dramático, mas o que parece ter influenciado definitivamente na decisão de escolher este acontecimento como o primeiro do telejornal foi a celebridade do pai-vítima. Tanto é que o nome de Carlinhos de Jesus é o anunciado na chamada e não de seu filho, menos conhecido.

Uma matéria como esta tem interesse público? Pode ter na medida em que se relaciona a um cenário mais amplo, de denúncia da violência urbana que ainda assusta aos moradores do Rio de Janeiro. Mas no frigir dos ovos, o fato é uma tragédia familiar, particular e não coletiva. Diferente de uma matéria que teve muito menos destaque na mesma edição do Jornal Hoje, de sábado: o desaparecimento de um cacique no Mato Grosso do Sul, que teria sido executado por fazendeiros da região. O filho adolescente da vítima exibe no próprio corpo marcas de balas de borracha e denuncia que o pai levou tiros na cabeça e pescoço, tendo sido levado por um bando de quarenta pistoleiros. Também neste caso, a ação é violenta e desproporcional, e o enredo é dramático. Três elementos diferenciam esta notícia da primeira: a inversão dos papeis das vítimas – agora, é o filho que sente a perda do pai -, a falta de notoriedade dos índios em comparação com o artista e a extensão do drama: a execução de um cacique atinge toda a sua comunidade e não apenas o seu núcleo familiar. Resumo da ópera: há mais interesse público e relevância jornalística no desaparecimento de um cacique numa área de litígio de terras do que a execução de um músico, filho de um conhecido coreógrafo.

A televisão dilui sutilmente os limites entre jornalismo e diversão, mesmo em casos graves como os citados. Foi mais determinante o star system que o caráter político de matérias sobre disputas agrárias. O jornalismo é feito de escolhas. Estas sinalizam limites. Em algumas situações, no espelho, o jornalismo entrevê sua imagem embaçada, tremida, desconfigurada. Precisamos de mais nitidez.