Ponto de Vista: Boicotar a mídia é um erro

Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

Não é novidade que os grandes veículos de comunicação sejam acusados de manipulação informativa e de coberturas parciais sobre a crise brasileira. O que se pode chamar de novidade é o gesto de alguns intelectuais que se recusaram a dar entrevista ou participar de programas da grande mídia, nesta semana. Os casos vieram à tona nas redes sociais, onde foram espalhados por quem concorda com suas atitudes e vê nelas uma desforra. Pode ser entendido assim, e tenho certeza de que muita gente sorriu de contentamento. Vejo, no entanto, de uma forma diferente.

Os intelectuais em questão frisaram que não querem seus nomes e imagens associados a veículos que “além de não fazer jornalismo, incita[m] a população ao ódio” e “querem dar golpe na democracia brasileira”. Procurados por repórteres da GloboNews, G1 e O Estado de S.Paulo para entrevistas ou programas em estúdio, os professores descartaram contribuir com a produção de um noticiário enviesado.

Nunca é demais lembrar que dar entrevista ou não é um direito de toda pessoa. Pergunta quem deve (o repórter), responde quem quer (a fonte). Entrevistas não são inquéritos policiais, tomadas coercitivas de depoimento. Quem é ou já foi repórter, sabe que sempre há um risco de a fonte de informação não lhe responder ou mesmo não atender às expectativas da matéria. A fonte pode estar gripada e sem voz, não se julgar a mais competente para tratar daquilo, falar de maneira confusa e não contribuir para a reportagem, não dispor de tempo para a entrevista, não ser localizada ou simplesmente se recusar a falar. Levar um não é uma possibilidade sempre. Afinal, a entrevista é uma concessão que se faz a alguém. Por isso, dizemos “fulano concedeu entrevista a sicrano”. Dito dessa maneira, a recusa poderia ser encarada com normalidade, exceto pela intencionalidade política que a sustenta. Os entrevistáveis não quiseram falar porque desconfiam da honestidade dos veículos e de suas capacidades de apresentarem um panorama equilibrado das notícias. Porque acreditam que essas empresas jornalísticas adotaram um lado na polarização política nacional e que atuam para fragilizar o governo e para promover uma deposição ilegal da presidente. Não querem, portanto, fazer parte disso, não querem estar ligados ao golpe.

Respeito as trajetórias e as escolhas de quem se recusa a falar com a chamada grande mídia. Neste observatório de mídia, vimos apontando diversos episódios de parcialidade, oportunismo e uso político do jornalismo. Mas o momento atual é propício para que tomemos decisões movidas mais pelo fígado do que pelo cérebro.

Manipulação e frustração

Não se faz política sem discurso, sem buscar o convencimento. Não faz política apenas aqueles que detêm cargos ou mandatos. Os professores em questão sabem perfeitamente disso, e a publicização de suas recusas é um movimento político que apresenta uma nova possibilidade de atuação diante de uma mídia que a muitos não espelha. Entretanto, se estamos vivendo uma disputa de sentidos, um choque de narrativas, me parece um erro estratégico não ocupar espaços nos grandes veículos.

Nos telejornais, nos grandes portais de informação, nos jornais e revistas, é possível encontrar duas narrativas nítidas: a que deseja emplacar o impeachment e a que vê nesse movimento um golpe de estado. O país está discutindo esses sentidos, e cada lado tentando impor a sua narrativa, a sua forma de ler a realidade, a sua verdade.

É evidente que a mídia não é apenas a vitrine onde isso acontece. Ela também vocaliza discursos que servem a seus interesses (políticos, financeiros, ideológicos, religiosos…), mas muitas vezes tenta travesti-los como notícias, relatos objetivos dos fatos. Isso incomoda muito, pois se configura como um gesto desonesto, apoiado numa mentira: a de que os fatos falam por si mesmos, e assim é a realidade. Ora, é absolutamente natural a desconfiança das fontes quando se deparam com isso e quando percebem que suas falas são publicadas de forma distorcida, seja por cortes que impedem uma compreensão melhor dos sentidos, seja por complementos que criam contextos alienígenas ou pelo simples descarte de seus testemunhos.

Diversos autores já desfiaram um longo rosário para ajudar a caracterizar o que chamamos de “manipulação informativa”. No frigir dos ovos é publicar algo que não condiz com o que estava na emissão de origem. Não se reconhecer na própria fala leva à frustração, e a uma atitude de revolta por ter sido traído em que se confiou a palavra. Resposta natural é que se exija a fidelidade das falas, que haja uma retratação ou que não se confie mais tanto em seus interlocutores.

Sentidos em disputa

Como o país está dividido e porque temos duas narrativas contrárias circulando, é preciso optar por uma delas, que – hegemônica – tende a se cristalizar como a verdade dos fatos. Nossas discussões se dão em casa, no trabalho, nas ruas… Nos meios de comunicação, elas alcançam dimensões massivas e é por isso que considero um erro boicotar a mídia nesse momento. Ao não ocuparem espaços nesse plano, essas vozes não apenas dão lugar ao pensamento contrário, como também oferecem um argumento poderoso para sustentar eventuais manipulações. Nas redações, os mais cínicos poderão dizer: “Ora, queríamos equilibrar os lados, mas eles não se dispuseram a falar. Fazer o quê?”. É possível que muita gente não acredite na justificativa, mas é igualmente possível que alguém embarque nela.

Em qualquer disputa de sentidos, é preciso preencher a narrativa. Isto é, não transferir a terceiros a responsabilidade de dizer o que se pensa. E isso não vale apenas para intelectuais, mas todo tipo de fonte no processo comunicativo. Conceder entrevistas, marcar posições, participar de debates, escrever artigos são possibilidades concretas de preencher a narrativa com o próprio punho. O que se quer garantir com isso é um regime de visibilidade, o que significa existir nas sociedades contemporâneas. Só existe quem se apresenta, quem se posiciona e, portanto, aparece. Para jogar o jogo é preciso não só aceitar suas regras, como também usá-las a seu favor.

Sociedades científicas têm lançado manifestos, escritores e profissionais do meio editorial também e um listão está sendo elaborado por intelectuais brasileiros para sensibilizar seus pares no exterior. Figuras proeminentes do meio jurídico escrevem artigos e tentam convencer seus pares, personagens das duas narrativas se esforçam para formar opiniões e é assim que convicções vão sendo moldadas. Até mesmo a presidente Dilma Rousseff recebeu repórteres dos mais influentes jornais do exterior para denunciar um “golpe em curso”. A estratégia é clara: disseminar um discurso de resistência e preencher a narrativa de que está sendo perseguida injustamente. Imaginem se ela se recusasse a atender a mídia internacional? Não só seria objeto de (mais) antipatia dos profissionais de imprensa como também veria lampejos de uma narrativa distinta da sua. Preencher a narrativa é uma maneira de lutar pelo direito ao contraditório, tão caro a todos os que acreditam em justiça e democracia.

Se o argumento para a recusa de atender a mídia é o de que jornalistas se aproveitam da presença de vozes discordantes para simular a heterogeneidade de visões, por que não ser pragmático e assumir essa função? Se o entrevistado quer mais pluralidade de versões e ele pode encarnar esse papel, por que não tentá-lo? Que responda o que bem entende, que coloque como condições ser entrevistado ao vivo, que conteste as perguntas, que desvie de perguntas-armadilhas, enfim, que se coloque fora da curva.

Não alimento a ideia de que apenas ocupar espaços garanta equilíbrio na balança da mídia. O Jornal Nacional se refestelou em alardear a polêmica conversa gravada entre Dilma e Lula, mas se arvorou no zelo e na falta de tempo para não nomear os políticos da lista da Odebrecht. A guerra é assimétrica, e quem comanda a produção dos conteúdos tem muito mais poder do que aqueles que servem de ingredientes. Dificilmente, uma única pessoa terá mais poder de alcance que um veículo inteiro, mesmo que seja uma pessoa muito influente. Ocupar espaço na mídia não assegura um noticiário mais equilibrado e fiel aos fatos, mas boicotar essa arena também não ajuda. A argumentação de que Globo e outros veículos manipulam, que fazem cobertura enviesada e parcial precisam ser constantemente e macicamente marteladas.

Se uma fonte se sente traída ou com seus dizeres distorcidos, pode fazer como a atriz e apresentadora Monica Iozzi (da própria Globo!), que tornou pública a íntegra de uma entrevista que deu à Folha de S.Paulo e que, segundo ela, não condizia com os sentidos originais. A desmontagem de uma farsa se dá também pela revelação da sua fragilidade e por um discurso corajoso pela restauração da verdade.

Há quem pense diferente. Podem me acusar de estar sendo ingênuo nesse episódio, mas eu também poderia dizer que quem se recusa a atender a mídia está fugindo da raia. Não é o caso. Se a mídia é uma arena estranha e que não nos representa, que ela seja levada a mostrar isso também, pela insistência, inteligência e estratégia de quem com ela não concorda. Numa guerra de versões, numa colisão de verdades, é preciso ganhar corações e mentes. É necessário tecer uma narrativa convincente, capaz de se sobrepujar ao seu contrário. A política se faz assim também, mas sobretudo a história e a verdade que nos convém guardar e acreditar.

LEIA AINDA: a professora Sylvia Moretzsohn levanta questões sobre o boicote e o professor João Feres Jr. defende o não à grande mídia.

Comentário da Semana: Quando a busca por informações fere a privacidade alheia

Carlos Marciano
Mestrando no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

Imagine que você perde seu celular contendo todos seus arquivos de trabalho, contatos familiares, dados bancários (o que não é recomendável deixar salvo nos aparelhos) e outras particularidades que você não julgava terem importância sigilosa até o momento. Ok, você pode ter configurado um código de desbloqueio complexo dificultando o acesso de outra pessoa, mas, e se alguém tivesse a chave mestra que desbloqueia qualquer aparelho? O que você faria se sua “privacidade móbile” ficasse vulnerável?

Agora, coloque-se no lugar de uma pessoa cuja vizinha foi assassinada. Sem ter muito contato com ela, suas respostas aos policiais que investigam o caso limitam-se a observações físicas e de personalidade (como a boa aparência e simpatia da mulher), além de que, ao chegar em casa na noite do crime, você ouviu passos e conversas nos arredores, mas não conseguiu identificar as vozes. No dia seguinte essas informações que deveriam ser confidenciais são distorcidas pela mídia e de testemunha você torna-se suspeito. Além de ser preso, as apurações tendenciosas dos jornais lhe estigmatizam como o assassino.

Nesses dois cenários distintos a privacidade aos dados tem papel significativo nos desdobramentos finais. Debatê-la é uma questão sensível, mas ao mesmo tempo fundamental, principalmente em tempos cada vez mais tecnológicos onde a informação pode ser produzida e difundida com mais facilidade.

A irônica quebra da privacidade para fins de segurança

Na última semana foi divulgada a disputa jurídica entre Apple e a polícia federal americana, na qual o FBI pede que a empresa dê acesso completo ao celular de Syed Rizwan Farook, um dos responsáveis pela morte de 14 pessoas em um centro comunitário em San Bernandino, Califórnia, no dia 2 de dezembro de 2015. Para tal, a Apple diz que precisaria criar um sistema operacional novo e essa atitude poderia contribuir no caso, mas prejudicar os demais consumidores, visto que o governo teria acesso a uma chave mestra que acessaria todos os aparelhos.

De acordo com as notícias, o FBI garante que só usaria o sistema para este caso, mas essa insistência seria mais uma confirmação das denúncias de Snowden? E se o FBI cumprir com a palavra, mas a chave mestra cair nas mãos de outras pessoas? Até que ponto é permitido tornar vulneráveis as informações de milhões de pessoas para complementar um caso? Será que essas informações do celular de Farook são mesmo necessárias ou é apenas uma oportunidade do FBI adquirir mais artifícios tecnológicos e ampliar o poder de espionagem?

A privacidade abalada pela distorção de informações

O segundo cenário retratado no início deste artigo é um de vários casos em que a mídia distorce informações e atinge de maneira negativa a privacidade de pessoas inocentes. Trata-se do assassinato da paisagista Joanna Clare Yeates, em dezembro de 2010, na cidade inglesa de Bristol.

Durante as investigações, Christopher Jefferies, professor de inglês aposentado e senhorio de Joanna,  deu um depoimento que teria sido distorcido pela imprensa e as constantes matérias tendenciosas o colocavam como principal suspeito do crime. Durante o período em que foi preso os jornais o acusavam mesmo sem ter provas significativas e sua aparência também foi ressaltada nas difamações dos veículos.

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Após ser detido por mais de 96 horas, Jefferies foi libertado sem nenhuma acusação e em janeiro de 2011 os investigadores chegaram ao verdadeiro assassino, o engenheiro holandês Vincent Tabak, também vizinho de Joanna.

Assassino, louco, sinistro, opulento, estranho, voyeur. Esses foram alguns termos utilizados pelos jornais quando se referiam a Jefferies, além do fato da mídia questionar as investigações e alguns veículos serem banidos das conferências de imprensa sobre o caso.

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A distorção dos fatos gerou consequências negativas na privacidade do professor que, mesmo depois de libertado da prisão, sofria com xingamentos e desconfiança das pessoas. Jefferies processou as empresas de mídia por difamação e recebeu indenizações substanciais além de retratações e pedidos de desculpas na Corte Real de Justiça. The Sun, Daily Mirror, Daily Express e Daily Mail foram alguns dos veículos processados.

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Correr para as colinas?

Os dois exemplos trazidos aqui ilustram que qualquer pessoa está sujeita a ter sua privacidade exposta e, quando isso não acontece voluntariamente, as consequências tendem a ser problemáticas. De fato, não podemos prever se nossos dados serão cada vez mais repassados por debaixo dos panos, tão pouco podemos pautar toda a mídia e nos manter eternamente ocultos a ela. E agora?

Não podemos acessar os grandes bancos de dados digitais e deletar nossas informações, mas podemos filtrar os conteúdos e controlar o que deixamos exposto. Por exemplo, nas publicações que compartilhamos, nas fotos que exibimos, nos cadastros facilitados pelo “login com o facebook” ao invés de preencher as lacunas básicas de nome e email.

Se por acaso somos personagens de uma matéria jornalística, não nos cabe definir a pauta, sugerir as perguntas ou controlar a edição do material. No entanto, podemos refletir nas resposta que daremos, apresentar os dados e materiais que comprovem nossa fala, verificar se o que foi publicado está de acordo com aquilo que foi dito.

A praticidade nos faz refém dos aparatos tecnológicos, o avanço da tecnologia amplia a divulgação de informações e dificulta o controle do que é informado. Se é cada vez mais difícil manter nossa privacidade, precisamos ficar atentos se aquilo a que somos referenciados está correto, controlar nossas ações quando se referem a exposição pessoal ou de dados e, como Jefferies, cobrar a verdade quando dizem mentiras.

Ficar aquém deste debate é permitir que entrem em nossa casa, comam nossa comida e falem por nós, porém, sem terem sido convidados.

PS: A história de Christopher Jefferies pode ser vista no filme “The Lost Honour of Christopher Jefferies”, disponível no Netflix.

objETHOS lança livro sobre ética e crítica de mídia

IMG_0556Pesquisadores do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) acabam de lançar “Jornalismo, Crítica e Ética” (Insular, 2016), livro que reúne artigos publicados desde o surgimento do grupo de pesquisa em 2009. Organizado por Francisco José Castilhos Karam e Samuel Lima, a obra oferece um panorama de leituras do jornalismo brasileiro nos últimos anos, destacando coberturas na política e economia, transformações no jornalismo, impacto da internet nas redações e desafios para a prática jornalística.

De acordo com os organizadores, o livro “tem o objetivo de registrar, na forma impressa, análises de determinados períodos e coberturas” e que já circularam pelo site do objETHOS. “Faz parte do jornalismo a crítica da sociedade e dos poderes. Assim, o jornalismo também deve prestar contas socialmente de sua atividade, dos valores cumpridos, dos erros que afetam indivíduos e a vida pública”, completam.

São 41 artigos, assinados pelos organizadores e por mais quatro pesquisadores, Elaine Manini, Amanda Souza de Miranda, Lívia de Souza Vieira e Rogério Christofoletti, divididos em quatro seções. Para o jornalista Luiz Egypto de Cerqueira, redator-chefe do Observatório da Imprensa por 16 anos, “o objETHOS mostrou a que veio, e os artigos reunidos no livro são uma prova disso. No fim das contas, é disso que se trata: da defesa do jornalismo como serviço público e instrumento imprescindível para o fortalecimento da democracia”.

Confira o índice:

Apresentação – Francisco José Castilhos Karam e Samuel Pantoja Lima

Prefácio: Tempos difíceis, fascinantes – Luiz Egypto de Cerqueira

1. PAPEL DA MÍDIA NA SOCIEDADE

  • Névoa midiática e versões dos fatos – Samuel Pantoja Lima
  • Corrupção e favores: está na hora da mídia prestar contas – Francisco José Castilhos Karam
  • A naturalização social da mídia partidária, um olhar sobre a cobertura das semanais na véspera das eleições – Elaine Manini
  • O jornalismo diante da saúde de um Brasil ignorado – Elaine Manini
  • Quando é preciso ser parcial – Rogério Christofoletti
  • Duas versões e uma imagem editorializada – Samuel Pantoja Lima
  • Um lead canalha – Samuel Pantoja Lima
  • Notícias sem memória, nem história – Samuel Pantoja Lima
  • Jornalismo, estresse social e ritmo contemporâneo – Francisco José Castilhos Karam
  • Chega de intermediários: banqueiros no governo – Samuel Pantoja Lima
  • Câncer, mal-estar e sintomas na mídia – Rogério Christofoletti
  • Banqueiros à sombra da mídia, e de Keynes – Samuel Pantoja Lima
  • Enganos, autoenganos e outras liberdades – Samuel Pantoja Lima
  • Tiririca, Parlamento, Democracia e Mídia – Francisco José Castilhos Karam

2. JORNALISMO E INTERNET

  • A correção de erros no jornalismo online – Lívia de Souza Vieira
  • Erros revelam falta de habilidade com leitor – Lívia de Souza Vieira
  • O Facebook e a espetacular construção unilateral da “verdade” – Samuel Pantoja Lima
  • A importância das novas redes midiáticas para a democracia – Francisco José Castilhos Karam
  • O rei está nu? – Samuel Pantoja Lima
  • Wikileaks ensina – Rogério Christofoletti

3. REFLEXÕES SOBRE JORNALISMO E A PRÁTICA JORNALÍSTICA

  • Como é o nome disso, afinal? – Rogério Christofoletti
  • Jornalismo político para além da política – Amanda Souza de Miranda
  • Cinco questões sobre o jornalismo-drone – Rogério Christofoletti
  • TV Folha: quando a retificação não é efetiva – Lívia de Souza Vieira
  • Erros ainda assombram as redações – Rogério Christofoletti
  • A criminalidade, os negócios e o jornalismo – Francisco José Castilhos Karam
  • Muda o jornalismo, mas e o repórter? – Rogério Christofoletti
  • Cinco desafios para o jornalismo investigativo – Rogério Christofoletti
  • Palocci e Folhaleaks, transparência de uma nota só – Samuel Pantoja Lima
  • O jornalismo investigativo e o futebol – Samuel Pantoja Lima
  • Notícia boa também vende – Rogério Christofoletti

4. ÉTICA JORNALÍSTICA

  • Errata na capa do jornal Extra: discussões éticas e dilemas atuais – Lívia de Souza Vieira
  • Kate Middleton, a privacidade e a Justiça moderna – Francisco José Castilhos Karam
  • Limites difusos para o telejornalismo – Rogério Christofoletti
  • Liberdade de Imprensa, rankings e versões – Francisco José Castilhos Karam
  • A Globo e suas diretrizes – Rogério Christofoletti
  • John Locke, intolerância, mídia e violência – três séculos de uma carta atual – Francisco José Castilhos Karam
  • Qual liberdade de imprensa? – Samuel Pantoja Lima
  • Por um sistema deontológico no jornalismo – Rogério Christofoletti
  • Pra que serve uma foto? – Rogério Christofoletti
  • Empresas jornalísticas – a hipocrisia como critério de noticiabilidade – Francisco José Castilhos Karam

Comentário da Semana: O ex-presidente, a jornalista, a mídia e o submundo das elites do poder

ATUALIZADO EM 23/02/2016, às 15h30

Sylvia Debossan Moretzsohn
Professora de Jornalismo na UFF e pesquisadora do objETHOS

Uma entrevista bombástica numa revista inexpressiva – a BrazilcomZ, voltada para brasileiros residentes na Europa – rapidamente se espalhou nas mídias sociais: finalmente, depois de 25 anos, a jornalista Mirian Dutra resolveu falar. Ex-amante de Fernando Henrique Cardoso na época em que o ex-presidente ainda era senador, Mirian manteve com ele um relacionamento de seis anos, que acabou quando ela engravidou – pela terceira vez, saberíamos depois – e resolveu ter a criança. Desde então passou a viver na Europa, preservando seu contrato com a Globo, que durou 35 anos e, em dezembro do ano passado, não foi renovado. Teria sido este o principal motivo para a jornalista finalmente decidir sair da sombra: na abertura da entrevista (íntegra aqui) a repórter comenta que, agora, Mirian “sente-se livre para contar o que viveu desde os anos 80”.

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Capa da revista BrazilcomZ

À parte a mágoa com a empresa – que, como disse, a marginalizou a ponto de apagar sua imagem – e o ex-amante, seu relato aponta as engrenagens dos meandros do poder: as articulações entre políticos, lobistas, dirigentes de empresas jornalísticas e outros empresários para tirar de circulação quem pudesse atrapalhar o projeto da eleição de Fernando Henrique à presidência da República. Afirma que a presença dela era uma permanente sombra nesse caminho, pois a candidatura inevitavelmente seria abalada se a história do relacionamento extraconjugal viesse à tona.

Mirian cita um pequeno mas significativo aspecto dessa articulação: o acordo que, segundo ela, Fernando Henrique e o então diretor de redação da Veja, Mario Sergio Conti, fizeram para a publicação de uma nota forjada.

“FHC me obrigou a dar uma entrevista para a Veja dizendo que o pai do meu filho era um biólogo, pode olhar na hemeroteca, em julho de 1991, naquela seção ‘Gente’. Quem é a Mirian Dutra para aparecer na ‘Gente’ dizendo que vai ter um segundo filho de um biólogo?! Foi Fernando Henrique com Mário Sérgio Conde (sic)!. Isso foi um acerto com o diretor da Veja”.

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Veja, 24/7/1991, seção “Gente”

A entrevista gerou desdobramentos tanto na grande imprensa quanto nos sites e blogs identificados com o governo. Em síntese, Mirian levantava suspeitas sobre as contas de FHC no exterior; dizia que havia sido “bancada” por ele com uma quantia de US$ 3 mil mensais repassada pela empresa Brasif – que, na época, explorava as lojas duty free dos aeroportos brasileiros; que tinha assinado com essa empresa um contrato fictício, mediado por um dos mais conhecidos lobistas do país e casado com sua irmã – que logo seria apontada como funcionária fantasma do gabinete do senador José Serra, o que provocou um episódio cômico: Serra afirmou que a funcionária trabalhava em casa – irregularmente, portanto – num “projeto sigiloso” na área de educação; e que, finalmente, duvidava dos exames de DNA divulgados por Fernando Henrique.

Fernando Henrique, por sua vez, garantiu que suas contas são legais e que não cometeu nenhuma irregularidade nas transações financeiras. Lembrou que, depois de muitos anos, fez dois exames de DNA, que deram negativo, mas ainda assim mantinha os vínculos com o filho que até então achava que era seu, a ponto de ter comprado para ele um apartamento em Barcelona por 200 mil euros e custeado seus estudos. Finalmente, lamentou “o uso político de uma questão pessoal”.

Já a Brasif informou, numa nota lacônica, os termos do contrato com Mirian, e isentou o ex-presidente de qualquer responsabilidade nesse acordo. Como, evidentemente, tratava-se de um contrato fictício, restaria saber por que ele precisou ser firmado: estaria aí o fio para uma investigação que pode revelar muita coisa.

Também caberia indagar como a informação de que Fernando Henrique pagou dois abortos para a ex-amante pode passar assim, sem um arquear de sobrancelhas, quando se trata de um tema sempre tão explosivo e, por isso, explorado negativamente em todas as campanhas eleitorais.

Verdade precária

A Folha de S.Paulo foi o primeiro dos grandes jornais a entrar no caso, publicando chamada de primeira e duas páginas internas no dia 18/2, uma delas com nova entrevista com a jornalista. Os outros jornais tiveram também de noticiar. Mas imediatamente começou a reação: colunistas insinuavam, quando não afirmavam categoricamente, que o timing da denúncia era suspeito e destinava-se a servir de exploração política para tirar Lula e o PT das manchetes. Eliane Catanhêde, no Estado de S.Paulo, mencionou “o fator amante”, recordando o episódio de uma outra Miriam, a Cordeiro, ex-namorada de Lula, que em 1989 foi utilizada pela campanha de Collor e ajudou a sepultar as chances do líder petista. Augusto Nunes, na Veja, chamou a denunciante de ressentida. Ricardo Noblat, num texto de generosas duas colunas no Globo, prometia informar “o que sei (ou acho que sei) sobre o caso Miriam Dutra”. Ali, lembrou que “a imprensa brasileira sempre evitou falar da vida privada de homens públicos”, verdade precária que desmorona na frase seguinte: “O Jornal do Brasil, em 1989, descobriu que Lula tinha uma filha de um relacionamento passado com uma enfermeira. Lula confirmou a notícia. A mãe da menina também. Então o jornal publicou”.

Noblat sabe que as coisas não se passaram com a tranquilidade que o seu relato faz supor e dá um verniz ético à atitude desprezível do repórter Luiz Maklouf de Carvalho, que enganou Lurian, a filha de Lula, com o pretexto de estar tomando depoimentos para o livro que estava sendo produzido na época, contando a trajetória de seu pai. Ele e o repórter fotográfico ficaram aguardando a menina. Quando Lurian entrou em casa, “José Carlos Brasil começou a bater fotografias. Em matérias envolvendo menores de idade, o melhor era fotografar antes e pedir autorização depois: se houvesse alguma encrenca, pelo menos as fotos já teriam sido feitas”. Quase dá para ver o sorriso de Mario Sergio Conti ao relatar essa estratégia em Notícias do Planalto (p. 132-3) como se fosse a coisa mais natural – e “esperta”, e justa – do mundo, desprezando as consequências que uma exposição daquelas traria para uma adolescente de 15 anos, que vivia uma situação familiar conflituosa e especialmente tensa diante da candidatura do pai à presidência.

Portanto, o respeito à vida privada de pessoas públicas – como qualquer outro nobre princípio da nossa imprensa – só é válido quando interessa. E, frequentemente, passa longe de escrúpulos éticos: tem o propósito de encobrir o que não vale a pena mostrar, para que a estrutura do poder não seja atingida.

Vida privada e interesse público

Embora em Brasília não haja segredo possível para esse tipo de relação, a história entre Fernando Henrique e Mirian só foi tornada pública, pela primeira vez, em dezembro de 1999, numa entrevista do jornalista Sebastião Nery ao jornal Opção, de Goiás, que deu manchete interna para “o filho de FHC com a jornalista da Globo”. Meses depois, a revista Caros Amigos indagaria, na capa de sua edição de abril de 2000: “Por que a imprensa esconde o filho de 8 anos de FHC com a jornalista da Globo?”. A equipe fez essa pergunta aos editores dos principais jornais e revistas do país. Tentou também, sem sucesso, entrevistar Mirian. O título da reportagem, “um fato jornalístico”, era uma resposta aos que rejeitavam a publicação da história, por considerarem tratar-se de assunto privado.

Antes fosse: em política, desde tempos imemoriais os assuntos de alcova estão longe de dizerem respeito exclusivamente à intimidade dos envolvidos. São jogos de sedução e poder, com tudo o que significam de imposição, coerção, intimidação, favorecimentos, chantagem. E isso tem consequências públicas muito relevantes, que não podem ser ignoradas. No nosso passado recente, bastaria lembrar o papel da “promotora de eventos” Jeane Mary Corner e sua rede de prostitutas na organização de festas que reuniam políticos e lobistas, motivo de escândalo que concorreu para derrubar Antonio Palocci do Ministério da Fazenda, em 2006.

O problema é a forma jornalística de tratar desses assuntos: a tendência é vasculhar os detalhes mais apimentados de uma relação proibida, de preferência exagerando-os, para excitar e satisfazer a curiosidade da massa. Um jornalismo responsável fugiria dessa tentação ao voyeurismo, pois o que importa é demonstrar como essas relações íntimas interferem na vida pública.

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Reprodução Caros Amigos, abril de 2000

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Caros Amigos, abertura da reportagem de capa, abril de 2000

A leitura da reportagem da Caros Amigos (disponível aqui) permite avaliar diferentes pontos de vista. Mas, na época, tratava-se apenas de questionar os motivos da blindagem de FHC. Tantos anos depois, a entrevista de Mirian Dutra acabou revelando-os: são aspectos das engrenagens do poder, do submundo da política, de óbvio interesse público.

Promiscuidade

Entre esses aspectos está um que não chegou a ser discutido com a devida atenção: a naturalidade com que se encara essa intimidade entre jornalistas e políticos. Ruth de Aquino, em seu blog na revista Época, comentou que aquele caso “começou como tantos casos começam, no restaurante dos políticos em Brasília, com um flerte e uma atração mútua”.

As relações humanas às vezes são atravessadas por paixões arrebatadoras, mas conviria lembrar que políticos e jornalistas deveriam saber frear seus impulsos, tendo em vista o papel que desempenham. Mesmo porque a atração mútua, nesses casos, em geral carrega outros interesses, incompatíveis com o adequado exercício profissional. E, eventualmente, se transforma em escândalos, como o protagonizado em 2007 pelo senador Renan Calheiros, que teve uma filha com a jornalista Mônica Veloso – que depois exibiria seus dotes na Playboy e escreveria um livro desses que “contam tudo” – e se valia de um lobista de uma empreiteira para lhe pagar o aluguel e a pensão da menina.

A força (relativa) da internet

A repercussão da entrevista de Mirian Dutra nos grandes jornais, e até no Jornal Nacional, que no dia 18/2 dedicou mais de seis minutos ao tema, levou muita gente a comemorar o papel da internet na ruptura do silêncio que a mídia hegemônica impõe às pautas inconvenientes.

Talvez não seja para tanto: se é verdade que os fatos já não podem ser escondidos como antes, nem por isso eles serão necessariamente notícia para a grande imprensa apenas porque se tornam “virais” na internet. Bastaria observar o que ocorreu com o farto material produzido por sites e blogs sobre o escândalo da mansão da família Marinho, proprietária do Grupo Globo, que estaria registrada em nome de uma empresa controlada por offshores no Panamá e foi construída ilegalmente numa área de preservação ambiental em Paraty, na Costa Verde: as denúncias fizeram alarde nas redes mas não despertaram qualquer interesse na imprensa tradicional. A única referência, por isso mesmo subversiva, foi a notável charge de Laerte publicada na Folha de S.Paulo em 16/2, que sintetiza o contraste entre o silêncio em relação a esse caso e a superexploração do noticiário sobre o triplex no Guarujá, cuja propriedade é atribuída a Lula, apesar dos desmentidos do ex-presidente.

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Reprodução/Facebook Laerte Coutinho

À revista Fórum, Laerte declarou: “Acho que está havendo, sim, um tratamento tendencioso dos fatos por parte da midia – ou da ‘grande midia’ – em relação a partidos e pessoas da política, no sentido de desgastar Lula, Dilma e o PT; e que é uma ação coordenada com instâncias do poder judiciário e do aparato policial do país”. E concluiu: “Sinto que atravessamos um momento de grande perigo para a vida democrática”.

As grandes corporações de mídia, como parte da engrenagem do poder – e não como sua contrapartida crítica, como prometem ser – continuarão agindo como sempre. Pode ser que repercutam algo que destoe de sua pauta, como ocorreu neste caso. Importa prosseguir explorando os espaços alternativos para tentar oferecer o contraponto a esse rolo compressor.

 

 

Comentário da Semana: O zika vírus e a midiapondria: três momentos de uma cobertura

Amanda Miranda
Doutoranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

No início desse mês, o Google News indicava a ocorrência de cerca de 38 milhões de notícias com a palavra “zika vírus”. Se considerarmos que há uma gama de produtos midiáticos que não chegam ao buscador, esse número deve ser ainda maior. O assunto, considerado de interesse público devido aos constantes alertas emitidos pelo Estado e pelos organismos de saúde, tem ocupado também os programas de entretenimento, como os populares Encontro com a Fátima Bernardes e Domingão do Faustão. A tentativa de analisar como tais produtos desenham o fenômeno é importante por dois motivos: o jornalismo produz conhecimento e, como tal, fomenta o debate sobre o assunto.

Como forma de produção do conhecimento, o jornalismo tem um papel muito relevante nos períodos de incerteza: é ele quem se ocupa de tentar organizar as informações e levá-las ao público com uma linguagem abrangente e sem vícios do campo de origem. Se os cientistas se preocupam, agora, em tentar compreender a dinâmica do vírus, os jornais têm a missão de sintetizar isso de modo que a audiência consiga entender melhor o momento sem que para isso precise de um diploma de biologia ou medicina. Este percurso da “tradução” é tradicional no jornalismo científico e também vem sendo a tônica nos produtos do jornalismo especializado em saúde. Nas palavras de Lopes et al (2012, p.131):

A comunicação mediática passou a ser entendida como o meio privilegiado para aumentar o conhecimento e a consciência das populações sobre os assuntos de saúde, bem como para influenciar as suas percepções, crenças e atitudes, muito para além do clássico modelo de comunicação médico-paciente.

Como campo relevante para a propagação do debate público, o jornalismo traz em seus produtos questões que podem levar à tomada de posição sobre determinados fatos. É assim, por exemplo, que se tem discutido como os agentes públicos podem orientar a prevenção da proliferação do mosquito ou mesmo como o país precisa de mais investimento em ciência e tecnologia para reagir a momentos de incerteza. Ao ter contato com os argumentos difundidos na esfera midiática, por fontes que muitas vezes revelam posições contrastantes, a audiência se sente parte do que ocorre em dimensões que transcendem sua casa, seu bairro, sua cidade.

Também é pertinente identificarmos o jornalismo como um produto cultural. Assim, se a cobertura segue um rumo alarmista, podemos considerar que os agentes públicos também emitem estes alarmes de forma sistemática. Se ela parece confusa e fragmentada, também compreendemos que é por se tratar de um fenômeno novo, em processo, incerto. Não estamos falando que o jornalismo reflete uma suposta realidade, nem isentando os seus produtos dos erros, mas é importante pensar na cobertura dentro de um contexto de indefinições. Os produtos midiáticos são frutos do seu tempo e estão a ele conectados.

Partindo dessas definições do jornalismo, elencamos três diferentes momentos da cobertura sobre o zika vírus. A perspectiva é cronológica, o que não significa que ela seja assumida como absolutamente linear. Os links foram coletados a partir de alertas do Google News para expressões como “zika vírus”, “microcefalia” e “Ministério da Saúde”.

  1. A incerteza

Consideramos o decreto de situação de emergência por conta da associação do zika vírus à microcefalia como o ponto alto do início da cobertura jornalística. Em 11 de novembro, o portal UOL publicou a notícia, em associação às estatísticas da doença divulgadas pelo estado de Pernambuco.

Trata-se de um momento de total incerteza – tanto dos órgãos públicos, quanto dos produtos jornalísticos. Há, também, a ênfase na busca de dados estatísticos, uma das formas mais recorrentes de objetivação dos fatos em textos jornalísticos. Outra preocupação é a de didatizar o fenômeno e elucidar questões que antes era restritas aos corpos médicos.

Os desencontros de informação são evidentes, algo que parece comum diante de um período de incertezas, mas que exige um movimento de análise permanente dos produtores de conteúdo a fim de identificar erros e problemas de informação. A opção por divulgar casos suspeitos também pode ser questionada, especialmente se as atualizações dos dados forem negligenciadas

Neste momento, os produtos jornalísticos tendem a assumir um tom catastrófico, alarmista e sensacionalista – o que pode eventualmente prejudicar as políticas de contenção formuladas pelos órgãos públicos ou mesmo originar uma epidemia que não existe. A ânsia em sair na frente e em produzir informações sobre algo ainda desconhecido pode resultar em prejuízos para a audiência, que não raramente tem no jornalismo sua principal fonte de informação.

  1. Adesão à ciência

Em um segundo momento da cobertura, percebeu-se a busca contínua de didatização do fenômeno, na tentativa de minimizar as sensações de riscos. Entraram, aí, as notícias que se propunham a derrubar mitos e as que se comunicavam com o leitor no sentido de fazê-lo compreender informações que antes circulavam de modo restrito. A prevenção também passou a ser pauta, com destaque para dicas práticas e utilitárias.

Foi nesta fase, também, que identificamos um movimento interessante a ser estudado: a transformação dos cientistas e pesquisadores brasileiros em definidores primários. Se no primeiro momento da cobertura os agentes públicos e organismos de saúde tinham o peso das fontes oficias, neste segundo momento os próprios cientistas passaram a ser visados pelos jornalistas. Mais do que isso: a imprensa começou a acompanhar o trabalho de centros de referência, como a Fiocruz.

Tradicionalmente, o jornalismo científico é criticado por se ater às descobertas e às certezas (sempre incertas, diga-se) produzidas pela ciência. Neste caso, o movimento pareceu diferente, voltado também aos processos, como no caso do acompanhamento de uma equipe de investigadores da Universidade de São Paulo ou até mesmo na humanização da figura dos cientistas, algo pouco comum em coberturas desse tipo.

O problema, aqui, é partir para um outro extremo: o de fortalecer a fé na ciência, como se a ela nada pudesse escapar. Em períodos de incerteza, é comum que determinadas instituições se fortaleçam. Se o poder público pode ser elevado ao posto de culpado por não conseguir conter uma suposta crise, os cientistas ganham o status de potenciais pontos de fuga dessa mesma crise. Reforça-se, assim, o estereótipo da ineficiência do Estado e da crença segura na ciência.

  1. O caminho do debate público

Identificamos, agora, um terceiro momento da cobertura da epidemia: o fortalecimento dos argumentos que constituem o jornalismo como um espaço de debate público. É o que temos acompanhado, por exemplo, nas discussões acerca da legalização do aborto para gestante com fetos diagnosticados com microcefalia.

O debate promete acirrar argumentos favoráveis e contrários à indicação da interrupção da gravidez, envolvendo o poder público e o judiciário e a religião. A cobertura também busca a humanização da temática, recorrendo a histórias de vida de jovens com microcefalia e abordando a temática social que emerge desta questão.

Trata-se, em suma, de um momento de mobilização de fontes antagônicas, da busca da racionalidade científica de um lado (ou do saber médico, como preferiria o filósofo Michel Foucault) e do apelo à religião e à política de outro. A polêmica, evidentemente, alimenta o debate e também mobiliza a audiência, gerando engajamento, cliques e compartilhamentos.

Neste mesmo momento, a ciência ainda revela suas incertezas, os agentes públicos continuam a se manifestar na tentativa de reduzir danos e de acenar para a prevenção. Por outro lado, os desencontros de informação (aqui e aqui, por exemplo) e a ênfase nas estatísticas também persistem. Ao divulgar os casos suspeitos – com números sempre altos – , o poder público e a imprensa tendem a aumentar a sensação de pânico e de incerteza, o que pode motivar na audiência uma dependência cada vez maior dessas informações, ainda que estas sejam tão duvidosas quanto é o próprio vírus.

Midiapondria e o protagonismo do (bom) jornalismo especializado em saúde

Ao tentar  levantar a cronologia da cobertura jornalística sobre o zika vírus, podemos concluir, ao menos no estágio em que estamos hoje, que os produtos midiáticos alimentam o que chamaremos de midiapondria: uma necessidade permanente por parte da audiência de receber informações atualizadas sobre pautas da área.

Mas quem calcula essa necessidade? Como os jornalistas sabem que o leitor realmente está interessado neste volume de pautas? Por um lado, seria um interesse óbvio, considerando que o jornalismo é produto cultural e estamos sintonizados a uma era de cuidados com o corpo e com a mente, uma era da saúde perfeita, como já disse o filósofo Lucien Sfez. Por outro, não se pode desconsiderar que se trata de um interesse dos próprios veículos, de seus financiadores e da estrutura biopolítica à qual estamos integrados. Nas palavras de Kucinsky (2012), esta temática também precisa ser compreendida à luz dos interesses mercadológicos que projeta.

Revistas como a Veja produzem capas de saúde regularmente, porque são as capas que vendem, na concepção de mercado que eles têm; mesmo quando está caindo um World Trade Center, eles fazem questão de a cada três ou quatro edições dar uma capa de saúde. (…) Então nós vemos que há uma espécie dum turbinamento: a saúde é vendida como mercadoria e, portanto, na mídia ela é mais mercadoria ainda, é dupla-mercadoria porque tem que ser muito mercadológica a forma como é apresentada, a forma como é tratada.

Em qualquer cenário, o jornalismo especializado em saúde acaba alçado ao papel de protagonista de um tempo de indefinições. Por conta disso, é importante que ele esteja alinhado às estratégias de prevenção, sem apelar para um tom catastrófico e alarmista e buscando organizar os fatos de forma a minimizar dúvidas. Para os midiapondríacos, nenhum remédio é melhor do que a informação de qualidade.

Referências:

KUSCINSKY, Bernardo. Jornalismo e Saúde na Era Neoliberal. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/sausoc/v11n1/10.pdf. Acesso em: 10 de outubro de 2013.

LOPES, Felisbela et al. (org). Ebook. A saúde em notícia. Repensando práticas de comunicação. Universidade do Minho. 2013. Disponível em: <http://www.ics.uminho.pt/uploads/eventos/EV_8167/20131217286093508750.pdf&gt;. Acesso em: 12 dez. 2013.