Pesquisador do objETHOS participa de Colóquio sobre Jornalismo

O jornalista e professor Francisco José Castilhos Karam, pesquisador do objETHOS, participa amanhã (12), em Santa Maria, de Colóquio que discutirá o tema “Novas plataformas, agendamento e debate público”. Na mesa, com Karam, estarão os jornalistas Lúcio Flávio Pinto e Moisés Mendes, tendo como mediador Marcello Canelas. Veja os detalhes da programação, que inclui duas mesas temáticas:

Ponto de vista: A bruxa na fogueira do Estadão, uma imagem e seus símbolos

ATUALIZADO EM 06/05/2016, às 12h00

Sylvia Debossan Moretzsohn
Jornalista e professora da UFF, pesquisadora do objETHOS

1Que nenhuma imagem vale por si nem pode ser interpretada fora de contexto é algo que deveria ser claro para todos os que têm alguma cultura a respeito de semiótica ou análise de discurso. Por isso causou surpresa o elogio da foto publicada em destaque na primeira página do jornal O Estado de S.Paulo de 4/5/2016: na contramão dos que se chocaram ao ver o rosto da presidente Dilma Rousseff capturado de um ângulo em que parecia estar sendo consumido pelo fogo da tocha olímpica acesa no Planalto, não foram poucos os que classificaram aquela cena como um grande momento do fotojornalismo, capaz de traduzir, numa única imagem, todo um momento histórico.

Não há dúvida de que muitas imagens se tornam simbólicas. Ficaram na memória coletiva, por exemplo, a imagem da menina nua fugindo em desespero do bombardeio de napalm numa aldeia vietnamita, da execução de um prisioneiro vietcongue numa rua de Saigon, do chinês solitário em frente aos tanques no massacre da Praça da Paz Celestial.

Não foi por acaso, portanto, que a polêmica em torno da primeira página do Estadão levou à lembrança de outras fotos marcantes da nossa história política. Desde uma das mais recentes, de 2011 – a de Dilma “atravessada” pela espada do militar em solenidade na Academia das Agulhas Negras –, até a do ex-presidente Janio Quadros com os pés trocados, a simbolizar a falta de rumo do governo, a do general Figueiredo querendo posar de civil mas traído pelo ângulo que lhe fazia assentar na cabeça o quepe do oficial que, atrás dele, batia continência na parada militar, ou a da menina que recusou cumprimentar esse mesmo general-presidente, representando a rejeição popular à ditadura.

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Os elogios à imagem de Dilma ardendo na fogueira diziam respeito à sua qualidade, ou valor, “do ponto de vista jornalístico”. “Foto boa tem de ser publicada, ponto final”, disse um ex-editor de fotografia, com o arremate imediato e absoluto tão característico dos profissionais do ramo. Valeria a pena pensar o que significa esse “ponto de vista jornalístico”, tão claramente autolegitimante, acenado como álibi supostamente indiscutível porque ancorado na “técnica”? Valeria a pena pensar, afinal, o que é uma “boa” foto?

Ao se contrapor a essas justificativas automáticas, a jornalista e pesquisadora Amanda Cotrim resumiu o que, desde pelo menos os ensaios de Barthes, no início da década de 1960, passou a ser incorporado pelos estudiosos da área, mas ainda está bem longe do senso comum: “a foto em si não é boa ou ruim, quem atribuirá sentidos a ela somos nós, sujeitos, por isso a fotografia é polissêmica”.

Deveria ser claro, também, que uma foto pode ser interpretada de várias maneiras, e que o sentido pretendido por quem a divulga é “fechado” pela edição – o que, entretanto, não anula outras interpretações por parte do público. No caso, a foto de Dilma na fogueira, visualmente, se relaciona diretamente à manchete (“Janot denuncia Lula na Lava Jato e pede investigação contra Dilma”), embora a cena diga respeito ao acendimento da tocha no Planalto, como informa a legenda, que não deixa de mencionar o impeachment, e cujo título, “Fogo olímpico”, tem notoriamente mais de um sentido.

9Mas mais importante ainda é considerar o contexto, indissociável de qualquer análise. Numa conjuntura em que as forças mais retrógradas prevalecem e aprovam o rito do impeachment não com argumentos mas em nome de Deus e da família, execram a diversidade de gênero e chegam ao cúmulo de exaltar torturadores, num momento em que decisões judiciais impedem professores de emitir opinião em sala de aula (como ocorreu em Alagoas) e tolhem a liberdade de expressão (como ocorreu na UFMG), num ambiente em que fascistas ameaçam nas ruas e nas redes quem pensa diferente, em suma, em meio à onda obscurantista que se espalha pelo do país, a imagem da presidente em chamas é mais do que o símbolo de um governo em extinção: é a expressão do desejo inquisitorial de queimar a bruxa na fogueira que o próprio jornal, em sua campanha sistemática pelo impeachment, ajudou a acender – um aspecto que, como sempre, a edição silencia.

Entre os muitos que deploraram a publicação da foto, o professor Reginaldo Nasser, que recentemente decidiu recusar entrevistas à grande imprensa, resolveu expressar seu protesto visualmente: respondeu ao jornal na mesma moeda e tocou fogo no seu exemplar. O jornalista Haroldo Ceravolo registrou, de maneira bem-humorada: “Reginaldo achou que uma imagem dizia mais que mil palavras”.

P.S.: Escrevi no calor da hora, num dia particularmente turbulento, que exigia a atenção constante de todos os que estamos preocupados com o desenrolar dos acontecimentos. Já pela manhã corria a inesperada notícia de que o ministro Teori Zavaski havia afastado liminarmente o deputado Eduardo Cunha da presidência da Câmara e o STF se reuniria à tarde para apreciar a decisão, que acabou confirmada por unanimidade. Mas, também de manhã, a suspensão arbitrária da sessão na Câmara provocou uma rebelião dos deputados contrários ao impeachment, transmitida ao vivo por um deles, e intensamente compartilhada no Facebook. Por isso, não foi possível pesquisar adequadamente para redigir o artigo, e pelo menos duas referências importantes ficaram de fora. Faço-as agora.

A primeira é a remissão às observações de Venício A. de Lima em artigo no Observatório da Imprensa de 9/9/2014 (ver a íntegra aqui), sobre o uso que o Correio Braziliense fez de uma foto no desfile de 7 de setembro daquele ano: Dilma no palanque, com o canhão do tanque na direção de seu nariz.

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Venício aponta as graves consequências desse recurso que os jornalistas, sobretudo os que trabalham com imagem, costumam valorizar simplesmente como uma grande “sacada”, esperta e criativa – embora, de tão repetida, já se tenha tornado um óbvio clichê:

“Para além da partidarização inequívoca da grande mídia brasileira e diante de exemplos sucessivos, parece que ela não está sendo capaz de fazer uma distinção fundamental, sobretudo agora, em tempos de campanha eleitoral: a distinção entre o ritual dos cargos públicos, os símbolos nacionais, a institucionalidade da política, dos políticos, dos ocupantes dos mais elevados cargos públicos da democracia representativa brasileira; e sua opinião/posição (dela, grande mídia) em relação a esses eventuais ocupantes.

“As consequências dessa ‘não-distinção’ podem ser trágicas para a própria democracia. Ao se desrespeitar reiteradamente eventuais ocupantes de altos cargos públicos, inclusive em fotos com insinuações inconfessáveis, esse desrespeito é transferido para as instituições e a credibilidade da própria democracia. Como mostrou há décadas a professora Maria do Carmo Campello de Souza, ‘o teor exclusivamente denunciatório de grande parte das informações [dos meios de comunicação] acaba por estabelecer junto à sociedade (…) uma ligação direta e extremamente nefasta entre a desmoralização da atual conjuntura e a substância mesma dos regimes democráticos’. 

“No atual nível de partidarização da grande mídia brasileira, não há solução de curto prazo para que se desfaça esta confusão nefasta. A cobertura adversa e a desqualificação da política e dos políticos é sua pauta preferencial. Resta torcer para que a democracia representativa brasileira sobreviva a uma grande mídia que, apesar de se apresentar como sua principal defensora, corrói, cotidiana e reiteradamente, seus fundamentos mais caros”.

A segunda referência, particularmente oportuna diante da imagem da bruxa consumida pelo fogo na capa do Estadão, é à monografia que um dos mais brilhantes alunos de jornalismo da UFF, Hugo R.C. Souza, apresentou em 2004, como trabalho de conclusão de curso, e que trata dessa espécie de mito fundador da prática jornalística, romanticamente associada à missão de um sacerdote. Hugo demonstra que “o discurso jornalístico moralista-missionário, quando apropriado pelas empresas capitalistas de comunicação muito bem geridas e administradas com ‘profissionalismo’ e de acordo com a lógica neoliberal, tende inevitavelmente do sacerdócio ao Santo Ofício”.

“Do sacerdócio ao Santo Ofício” é o título da monografia, na verdade um belo ensaio, que já deveria ter sido publicado. Não só pela qualidade, mas por ser, tragicamente, mais atual do que nunca.

 

Ponto de Vista: Boicotar a mídia é um erro

Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

Não é novidade que os grandes veículos de comunicação sejam acusados de manipulação informativa e de coberturas parciais sobre a crise brasileira. O que se pode chamar de novidade é o gesto de alguns intelectuais que se recusaram a dar entrevista ou participar de programas da grande mídia, nesta semana. Os casos vieram à tona nas redes sociais, onde foram espalhados por quem concorda com suas atitudes e vê nelas uma desforra. Pode ser entendido assim, e tenho certeza de que muita gente sorriu de contentamento. Vejo, no entanto, de uma forma diferente.

Os intelectuais em questão frisaram que não querem seus nomes e imagens associados a veículos que “além de não fazer jornalismo, incita[m] a população ao ódio” e “querem dar golpe na democracia brasileira”. Procurados por repórteres da GloboNews, G1 e O Estado de S.Paulo para entrevistas ou programas em estúdio, os professores descartaram contribuir com a produção de um noticiário enviesado.

Nunca é demais lembrar que dar entrevista ou não é um direito de toda pessoa. Pergunta quem deve (o repórter), responde quem quer (a fonte). Entrevistas não são inquéritos policiais, tomadas coercitivas de depoimento. Quem é ou já foi repórter, sabe que sempre há um risco de a fonte de informação não lhe responder ou mesmo não atender às expectativas da matéria. A fonte pode estar gripada e sem voz, não se julgar a mais competente para tratar daquilo, falar de maneira confusa e não contribuir para a reportagem, não dispor de tempo para a entrevista, não ser localizada ou simplesmente se recusar a falar. Levar um não é uma possibilidade sempre. Afinal, a entrevista é uma concessão que se faz a alguém. Por isso, dizemos “fulano concedeu entrevista a sicrano”. Dito dessa maneira, a recusa poderia ser encarada com normalidade, exceto pela intencionalidade política que a sustenta. Os entrevistáveis não quiseram falar porque desconfiam da honestidade dos veículos e de suas capacidades de apresentarem um panorama equilibrado das notícias. Porque acreditam que essas empresas jornalísticas adotaram um lado na polarização política nacional e que atuam para fragilizar o governo e para promover uma deposição ilegal da presidente. Não querem, portanto, fazer parte disso, não querem estar ligados ao golpe.

Respeito as trajetórias e as escolhas de quem se recusa a falar com a chamada grande mídia. Neste observatório de mídia, vimos apontando diversos episódios de parcialidade, oportunismo e uso político do jornalismo. Mas o momento atual é propício para que tomemos decisões movidas mais pelo fígado do que pelo cérebro.

Manipulação e frustração

Não se faz política sem discurso, sem buscar o convencimento. Não faz política apenas aqueles que detêm cargos ou mandatos. Os professores em questão sabem perfeitamente disso, e a publicização de suas recusas é um movimento político que apresenta uma nova possibilidade de atuação diante de uma mídia que a muitos não espelha. Entretanto, se estamos vivendo uma disputa de sentidos, um choque de narrativas, me parece um erro estratégico não ocupar espaços nos grandes veículos.

Nos telejornais, nos grandes portais de informação, nos jornais e revistas, é possível encontrar duas narrativas nítidas: a que deseja emplacar o impeachment e a que vê nesse movimento um golpe de estado. O país está discutindo esses sentidos, e cada lado tentando impor a sua narrativa, a sua forma de ler a realidade, a sua verdade.

É evidente que a mídia não é apenas a vitrine onde isso acontece. Ela também vocaliza discursos que servem a seus interesses (políticos, financeiros, ideológicos, religiosos…), mas muitas vezes tenta travesti-los como notícias, relatos objetivos dos fatos. Isso incomoda muito, pois se configura como um gesto desonesto, apoiado numa mentira: a de que os fatos falam por si mesmos, e assim é a realidade. Ora, é absolutamente natural a desconfiança das fontes quando se deparam com isso e quando percebem que suas falas são publicadas de forma distorcida, seja por cortes que impedem uma compreensão melhor dos sentidos, seja por complementos que criam contextos alienígenas ou pelo simples descarte de seus testemunhos.

Diversos autores já desfiaram um longo rosário para ajudar a caracterizar o que chamamos de “manipulação informativa”. No frigir dos ovos é publicar algo que não condiz com o que estava na emissão de origem. Não se reconhecer na própria fala leva à frustração, e a uma atitude de revolta por ter sido traído em que se confiou a palavra. Resposta natural é que se exija a fidelidade das falas, que haja uma retratação ou que não se confie mais tanto em seus interlocutores.

Sentidos em disputa

Como o país está dividido e porque temos duas narrativas contrárias circulando, é preciso optar por uma delas, que – hegemônica – tende a se cristalizar como a verdade dos fatos. Nossas discussões se dão em casa, no trabalho, nas ruas… Nos meios de comunicação, elas alcançam dimensões massivas e é por isso que considero um erro boicotar a mídia nesse momento. Ao não ocuparem espaços nesse plano, essas vozes não apenas dão lugar ao pensamento contrário, como também oferecem um argumento poderoso para sustentar eventuais manipulações. Nas redações, os mais cínicos poderão dizer: “Ora, queríamos equilibrar os lados, mas eles não se dispuseram a falar. Fazer o quê?”. É possível que muita gente não acredite na justificativa, mas é igualmente possível que alguém embarque nela.

Em qualquer disputa de sentidos, é preciso preencher a narrativa. Isto é, não transferir a terceiros a responsabilidade de dizer o que se pensa. E isso não vale apenas para intelectuais, mas todo tipo de fonte no processo comunicativo. Conceder entrevistas, marcar posições, participar de debates, escrever artigos são possibilidades concretas de preencher a narrativa com o próprio punho. O que se quer garantir com isso é um regime de visibilidade, o que significa existir nas sociedades contemporâneas. Só existe quem se apresenta, quem se posiciona e, portanto, aparece. Para jogar o jogo é preciso não só aceitar suas regras, como também usá-las a seu favor.

Sociedades científicas têm lançado manifestos, escritores e profissionais do meio editorial também e um listão está sendo elaborado por intelectuais brasileiros para sensibilizar seus pares no exterior. Figuras proeminentes do meio jurídico escrevem artigos e tentam convencer seus pares, personagens das duas narrativas se esforçam para formar opiniões e é assim que convicções vão sendo moldadas. Até mesmo a presidente Dilma Rousseff recebeu repórteres dos mais influentes jornais do exterior para denunciar um “golpe em curso”. A estratégia é clara: disseminar um discurso de resistência e preencher a narrativa de que está sendo perseguida injustamente. Imaginem se ela se recusasse a atender a mídia internacional? Não só seria objeto de (mais) antipatia dos profissionais de imprensa como também veria lampejos de uma narrativa distinta da sua. Preencher a narrativa é uma maneira de lutar pelo direito ao contraditório, tão caro a todos os que acreditam em justiça e democracia.

Se o argumento para a recusa de atender a mídia é o de que jornalistas se aproveitam da presença de vozes discordantes para simular a heterogeneidade de visões, por que não ser pragmático e assumir essa função? Se o entrevistado quer mais pluralidade de versões e ele pode encarnar esse papel, por que não tentá-lo? Que responda o que bem entende, que coloque como condições ser entrevistado ao vivo, que conteste as perguntas, que desvie de perguntas-armadilhas, enfim, que se coloque fora da curva.

Não alimento a ideia de que apenas ocupar espaços garanta equilíbrio na balança da mídia. O Jornal Nacional se refestelou em alardear a polêmica conversa gravada entre Dilma e Lula, mas se arvorou no zelo e na falta de tempo para não nomear os políticos da lista da Odebrecht. A guerra é assimétrica, e quem comanda a produção dos conteúdos tem muito mais poder do que aqueles que servem de ingredientes. Dificilmente, uma única pessoa terá mais poder de alcance que um veículo inteiro, mesmo que seja uma pessoa muito influente. Ocupar espaço na mídia não assegura um noticiário mais equilibrado e fiel aos fatos, mas boicotar essa arena também não ajuda. A argumentação de que Globo e outros veículos manipulam, que fazem cobertura enviesada e parcial precisam ser constantemente e macicamente marteladas.

Se uma fonte se sente traída ou com seus dizeres distorcidos, pode fazer como a atriz e apresentadora Monica Iozzi (da própria Globo!), que tornou pública a íntegra de uma entrevista que deu à Folha de S.Paulo e que, segundo ela, não condizia com os sentidos originais. A desmontagem de uma farsa se dá também pela revelação da sua fragilidade e por um discurso corajoso pela restauração da verdade.

Há quem pense diferente. Podem me acusar de estar sendo ingênuo nesse episódio, mas eu também poderia dizer que quem se recusa a atender a mídia está fugindo da raia. Não é o caso. Se a mídia é uma arena estranha e que não nos representa, que ela seja levada a mostrar isso também, pela insistência, inteligência e estratégia de quem com ela não concorda. Numa guerra de versões, numa colisão de verdades, é preciso ganhar corações e mentes. É necessário tecer uma narrativa convincente, capaz de se sobrepujar ao seu contrário. A política se faz assim também, mas sobretudo a história e a verdade que nos convém guardar e acreditar.

LEIA AINDA: a professora Sylvia Moretzsohn levanta questões sobre o boicote e o professor João Feres Jr. defende o não à grande mídia.

Comentário da Semana: Quando a busca por informações fere a privacidade alheia

Carlos Marciano
Mestrando no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

Imagine que você perde seu celular contendo todos seus arquivos de trabalho, contatos familiares, dados bancários (o que não é recomendável deixar salvo nos aparelhos) e outras particularidades que você não julgava terem importância sigilosa até o momento. Ok, você pode ter configurado um código de desbloqueio complexo dificultando o acesso de outra pessoa, mas, e se alguém tivesse a chave mestra que desbloqueia qualquer aparelho? O que você faria se sua “privacidade móbile” ficasse vulnerável?

Agora, coloque-se no lugar de uma pessoa cuja vizinha foi assassinada. Sem ter muito contato com ela, suas respostas aos policiais que investigam o caso limitam-se a observações físicas e de personalidade (como a boa aparência e simpatia da mulher), além de que, ao chegar em casa na noite do crime, você ouviu passos e conversas nos arredores, mas não conseguiu identificar as vozes. No dia seguinte essas informações que deveriam ser confidenciais são distorcidas pela mídia e de testemunha você torna-se suspeito. Além de ser preso, as apurações tendenciosas dos jornais lhe estigmatizam como o assassino.

Nesses dois cenários distintos a privacidade aos dados tem papel significativo nos desdobramentos finais. Debatê-la é uma questão sensível, mas ao mesmo tempo fundamental, principalmente em tempos cada vez mais tecnológicos onde a informação pode ser produzida e difundida com mais facilidade.

A irônica quebra da privacidade para fins de segurança

Na última semana foi divulgada a disputa jurídica entre Apple e a polícia federal americana, na qual o FBI pede que a empresa dê acesso completo ao celular de Syed Rizwan Farook, um dos responsáveis pela morte de 14 pessoas em um centro comunitário em San Bernandino, Califórnia, no dia 2 de dezembro de 2015. Para tal, a Apple diz que precisaria criar um sistema operacional novo e essa atitude poderia contribuir no caso, mas prejudicar os demais consumidores, visto que o governo teria acesso a uma chave mestra que acessaria todos os aparelhos.

De acordo com as notícias, o FBI garante que só usaria o sistema para este caso, mas essa insistência seria mais uma confirmação das denúncias de Snowden? E se o FBI cumprir com a palavra, mas a chave mestra cair nas mãos de outras pessoas? Até que ponto é permitido tornar vulneráveis as informações de milhões de pessoas para complementar um caso? Será que essas informações do celular de Farook são mesmo necessárias ou é apenas uma oportunidade do FBI adquirir mais artifícios tecnológicos e ampliar o poder de espionagem?

A privacidade abalada pela distorção de informações

O segundo cenário retratado no início deste artigo é um de vários casos em que a mídia distorce informações e atinge de maneira negativa a privacidade de pessoas inocentes. Trata-se do assassinato da paisagista Joanna Clare Yeates, em dezembro de 2010, na cidade inglesa de Bristol.

Durante as investigações, Christopher Jefferies, professor de inglês aposentado e senhorio de Joanna,  deu um depoimento que teria sido distorcido pela imprensa e as constantes matérias tendenciosas o colocavam como principal suspeito do crime. Durante o período em que foi preso os jornais o acusavam mesmo sem ter provas significativas e sua aparência também foi ressaltada nas difamações dos veículos.

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Após ser detido por mais de 96 horas, Jefferies foi libertado sem nenhuma acusação e em janeiro de 2011 os investigadores chegaram ao verdadeiro assassino, o engenheiro holandês Vincent Tabak, também vizinho de Joanna.

Assassino, louco, sinistro, opulento, estranho, voyeur. Esses foram alguns termos utilizados pelos jornais quando se referiam a Jefferies, além do fato da mídia questionar as investigações e alguns veículos serem banidos das conferências de imprensa sobre o caso.

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A distorção dos fatos gerou consequências negativas na privacidade do professor que, mesmo depois de libertado da prisão, sofria com xingamentos e desconfiança das pessoas. Jefferies processou as empresas de mídia por difamação e recebeu indenizações substanciais além de retratações e pedidos de desculpas na Corte Real de Justiça. The Sun, Daily Mirror, Daily Express e Daily Mail foram alguns dos veículos processados.

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Correr para as colinas?

Os dois exemplos trazidos aqui ilustram que qualquer pessoa está sujeita a ter sua privacidade exposta e, quando isso não acontece voluntariamente, as consequências tendem a ser problemáticas. De fato, não podemos prever se nossos dados serão cada vez mais repassados por debaixo dos panos, tão pouco podemos pautar toda a mídia e nos manter eternamente ocultos a ela. E agora?

Não podemos acessar os grandes bancos de dados digitais e deletar nossas informações, mas podemos filtrar os conteúdos e controlar o que deixamos exposto. Por exemplo, nas publicações que compartilhamos, nas fotos que exibimos, nos cadastros facilitados pelo “login com o facebook” ao invés de preencher as lacunas básicas de nome e email.

Se por acaso somos personagens de uma matéria jornalística, não nos cabe definir a pauta, sugerir as perguntas ou controlar a edição do material. No entanto, podemos refletir nas resposta que daremos, apresentar os dados e materiais que comprovem nossa fala, verificar se o que foi publicado está de acordo com aquilo que foi dito.

A praticidade nos faz refém dos aparatos tecnológicos, o avanço da tecnologia amplia a divulgação de informações e dificulta o controle do que é informado. Se é cada vez mais difícil manter nossa privacidade, precisamos ficar atentos se aquilo a que somos referenciados está correto, controlar nossas ações quando se referem a exposição pessoal ou de dados e, como Jefferies, cobrar a verdade quando dizem mentiras.

Ficar aquém deste debate é permitir que entrem em nossa casa, comam nossa comida e falem por nós, porém, sem terem sido convidados.

PS: A história de Christopher Jefferies pode ser vista no filme “The Lost Honour of Christopher Jefferies”, disponível no Netflix.

objETHOS lança livro sobre ética e crítica de mídia

IMG_0556Pesquisadores do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) acabam de lançar “Jornalismo, Crítica e Ética” (Insular, 2016), livro que reúne artigos publicados desde o surgimento do grupo de pesquisa em 2009. Organizado por Francisco José Castilhos Karam e Samuel Lima, a obra oferece um panorama de leituras do jornalismo brasileiro nos últimos anos, destacando coberturas na política e economia, transformações no jornalismo, impacto da internet nas redações e desafios para a prática jornalística.

De acordo com os organizadores, o livro “tem o objetivo de registrar, na forma impressa, análises de determinados períodos e coberturas” e que já circularam pelo site do objETHOS. “Faz parte do jornalismo a crítica da sociedade e dos poderes. Assim, o jornalismo também deve prestar contas socialmente de sua atividade, dos valores cumpridos, dos erros que afetam indivíduos e a vida pública”, completam.

São 41 artigos, assinados pelos organizadores e por mais quatro pesquisadores, Elaine Manini, Amanda Souza de Miranda, Lívia de Souza Vieira e Rogério Christofoletti, divididos em quatro seções. Para o jornalista Luiz Egypto de Cerqueira, redator-chefe do Observatório da Imprensa por 16 anos, “o objETHOS mostrou a que veio, e os artigos reunidos no livro são uma prova disso. No fim das contas, é disso que se trata: da defesa do jornalismo como serviço público e instrumento imprescindível para o fortalecimento da democracia”.

Confira o índice:

Apresentação – Francisco José Castilhos Karam e Samuel Pantoja Lima

Prefácio: Tempos difíceis, fascinantes – Luiz Egypto de Cerqueira

1. PAPEL DA MÍDIA NA SOCIEDADE

  • Névoa midiática e versões dos fatos – Samuel Pantoja Lima
  • Corrupção e favores: está na hora da mídia prestar contas – Francisco José Castilhos Karam
  • A naturalização social da mídia partidária, um olhar sobre a cobertura das semanais na véspera das eleições – Elaine Manini
  • O jornalismo diante da saúde de um Brasil ignorado – Elaine Manini
  • Quando é preciso ser parcial – Rogério Christofoletti
  • Duas versões e uma imagem editorializada – Samuel Pantoja Lima
  • Um lead canalha – Samuel Pantoja Lima
  • Notícias sem memória, nem história – Samuel Pantoja Lima
  • Jornalismo, estresse social e ritmo contemporâneo – Francisco José Castilhos Karam
  • Chega de intermediários: banqueiros no governo – Samuel Pantoja Lima
  • Câncer, mal-estar e sintomas na mídia – Rogério Christofoletti
  • Banqueiros à sombra da mídia, e de Keynes – Samuel Pantoja Lima
  • Enganos, autoenganos e outras liberdades – Samuel Pantoja Lima
  • Tiririca, Parlamento, Democracia e Mídia – Francisco José Castilhos Karam

2. JORNALISMO E INTERNET

  • A correção de erros no jornalismo online – Lívia de Souza Vieira
  • Erros revelam falta de habilidade com leitor – Lívia de Souza Vieira
  • O Facebook e a espetacular construção unilateral da “verdade” – Samuel Pantoja Lima
  • A importância das novas redes midiáticas para a democracia – Francisco José Castilhos Karam
  • O rei está nu? – Samuel Pantoja Lima
  • Wikileaks ensina – Rogério Christofoletti

3. REFLEXÕES SOBRE JORNALISMO E A PRÁTICA JORNALÍSTICA

  • Como é o nome disso, afinal? – Rogério Christofoletti
  • Jornalismo político para além da política – Amanda Souza de Miranda
  • Cinco questões sobre o jornalismo-drone – Rogério Christofoletti
  • TV Folha: quando a retificação não é efetiva – Lívia de Souza Vieira
  • Erros ainda assombram as redações – Rogério Christofoletti
  • A criminalidade, os negócios e o jornalismo – Francisco José Castilhos Karam
  • Muda o jornalismo, mas e o repórter? – Rogério Christofoletti
  • Cinco desafios para o jornalismo investigativo – Rogério Christofoletti
  • Palocci e Folhaleaks, transparência de uma nota só – Samuel Pantoja Lima
  • O jornalismo investigativo e o futebol – Samuel Pantoja Lima
  • Notícia boa também vende – Rogério Christofoletti

4. ÉTICA JORNALÍSTICA

  • Errata na capa do jornal Extra: discussões éticas e dilemas atuais – Lívia de Souza Vieira
  • Kate Middleton, a privacidade e a Justiça moderna – Francisco José Castilhos Karam
  • Limites difusos para o telejornalismo – Rogério Christofoletti
  • Liberdade de Imprensa, rankings e versões – Francisco José Castilhos Karam
  • A Globo e suas diretrizes – Rogério Christofoletti
  • John Locke, intolerância, mídia e violência – três séculos de uma carta atual – Francisco José Castilhos Karam
  • Qual liberdade de imprensa? – Samuel Pantoja Lima
  • Por um sistema deontológico no jornalismo – Rogério Christofoletti
  • Pra que serve uma foto? – Rogério Christofoletti
  • Empresas jornalísticas – a hipocrisia como critério de noticiabilidade – Francisco José Castilhos Karam