Bob Roberts

Por Daniela Ferreira
Acadêmica de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina

Bob Roberts é uma sátira à vida política dos Estados Unidos – se bem que muitas de suas críticas poderiam ser aplicadas facilmente ao Brasil. Tim Robbins se esmerou para trazer às telas a história de um candidato republicano ao senado pela Pensilvânia. Para dar o toque de realidade desejado, Robbins, que assina o roteiro, escolheu a forma de um documentário fictício. O formato é interessante, pois deixa entrever as características do personagem e sua forma de atuar na política sem que para isso sejam necessários diálogos ou situações muito explícitas. Um jornalista acompanha o candidato durante sua campanha, mostrando os bastidores. É pela visão desse repórter e da câmera que segue Roberts que descobriremos tudo o que está por trás da figura do futuro senador.

Roberts é um cantor folk popular, um investidor na bolsa agressivo, e que utiliza seu carisma e fortuna para tentar uma vaga no senado. Robbins, que além de dirigir também interpreta o protagonista, escreveu a música especialmente para o filme e a interpreta durante o longa. As letras das canções são essenciais para que se entendam as idéias conservadoras do personagem, o que, durante o filme, podemos entender como apenas uma atitude hipócrita do cantor, mais do que suas crenças verdadeiras. Tudo para conquistar uma determinada fatia do eleitorado e vencer a eleição. Roberts é um republicano conservador e extremista, que canta contra os imigrantes, faz críticas às drogas e aos programas sociais, coloca o consumo e a atividade econômica como prioridade, defende a presença de Deus e de interpretações religiosas nas escolas. Pelo menos, essa é a face que ele procura mostrar a seus eleitores. Mas os democratas não escapam da crítica. O candidato rival de Roberts ao senado é um senhor apagado, sem expressividade, e que enfrenta um escândalo sexual.

A imprensa e sua forma de retratar a política são abordados em momentos importantes do filme, a começar pela presença constante da câmera e do jornalista que acompanham Roberts. Uma cena significativa é a entrevista com uma repórter negra e os confrontos tanto nos bastidores quanto em frente às câmeras, mostrando como nem sempre é possível ser neutro com relação a determinado entrevistado. Outro personagem importante que aparecerá de forma recorrente na trama e terá um papel preponderante no resultado final da eleição é um repórter de um jornal pequeno e obscuro, chamado Troubled Times, e que busca desmascarar Roberts. Ele possui evidências que envolvem Roberts e seu império financeiro com o tráfico de drogas, realizado por meio de uma organização supostamente beneficente do candidato. Ninguém lhe dá ouvidos, o que pode ser explicado tanto pelo porte do jornal a que representa, como pelo fato de ser negro e agir de forma atribulada. Apenas quando as denúncias chegam à grande mídia por meio de um canal de TV, é que o candidato se vê obrigado a rearticular sua estratégia de campanha. E a forma como decide fazê-lo demonstra a que nível a disputa eleitoral pode chegar. Roberts não tem caráter ou escrúpulos, mas vence. E então a ficção se mistura à realidade, como no próprio documentário fictício que acabamos de ver.

FICHA TÉCNICA
Título original: Bob Roberts
Estados Unidos, 1992
Direção: Tim Robbins
Elenco: Tim Robbins, Giancarlo Esposito, Alan Rickman, Ray Wise, Gore Vidal, Brian Murray, Rebecca Jenkins, Susan Sarandon
Roteiro: Tim Robbins
Gênero: comédia
Idioma: inglês

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