O beijo no Asfalto

Por Greyci Girardi
Jornalista graduada pela Universidade Federal de Santa Catarina

“O Beijo no Asfalto”, peça de Nelson Rodrigues, vira filme dirigido por Bruno Barreto em 1980. Além das temáticas características do autor da peça, como repressão social, moral hipócrita e bloqueios sexuais, o drama mostra uma vida destruída por um jornal. Ao retrato da imprensa sensacionalista, mistura-se a análise do comportamento abusivo de alguns policiais.

O filme gira em torno de um único episódio. Um ônibus atropela um desconhecido. Outro homem que passava por perto, Arandi, interpretado por Ney Latorraca, ajoelha-se em frente ao corpo e beija a boca do morto. O beijo vira capa do jornal em que trabalha o repórter Amado Pinheiro, interpretado por Daniel Filho. Não satisfeito com o fato inusitado, ele procura detalhes que vendam jornal. Passa a insistir na idéia de que Arandi era amante do falecido e que, por ciúmes, o teria jogado em frente ao ônibus. E para publicar essa versão, que em nenhum momento ficou provada no drama, conta com a parceria do delegado.

A primeira conversa entre os dois, logo no início do filme, mostra a relação de interesse entre o repórter e a polícia. Pinheiro propõe que acompanhe o delegado nas investigações do atropelamento e, em troca, publique uma matéria favorável ao trabalho dele. Faria isso para compensar uma outra reportagem que denunciou tortura durante interrogatórios.

Acordo fechado, começa o drama dos interrogados pelo delegado, que assimila a versão de assassinato de Pinheiro. Mesmo com o depoimento de Arandi de que não conhecia o morto e apenas tinha atendido a um pedido dele minutos antes de falecer, o jornal de Pinheiro publica que eram amantes e que foi assassinato. Isso sem ter prova nenhuma. Era a versão mais interessante para a Polícia e para o jornal. Além das agressões na delegacia, Arandi, sua esposa Selma (Christiane Torloni) e a cunhada Dália (Lídia Brondi) passam a toda hora por constrangimentos na vizinhança por causa das manchetes de Pinheiro. Arandi perde o emprego, acaba perdendo Selma também e ainda tem que fugir.

O mais interessante é observar as estratégias do jornalista para transformar a história que quer ver estampada nos jornais em verdade. Chantageia fontes e assiste a todos os interrogatórios. Não apenas assiste, como interroga as testemunhas. E segue o estilo do delegado, praticando tortura psicológica contra Selma. Ultrapassa a função de repórter, publica denúncia sem provas, interfere no andar da investigação, ameaça testemunhas para que deponham da maneira que lhe convém e não respeita a privacidade das fontes. Exemplo do poder de coesão que um jornalista pode ter sobre a vida das pessoas. Poder também de destruição quando publica informações irresponsáveis e difamatórias.

O drama intercala a apuração jornalística de Pinheiro e a brutalidade do delegado com triângulos amorosos e conflitos sexuais que conduzem a história: o casamento feliz de Arandi, a paixonite despertada na cunhada e o amor que o sogro (Interpretado por Tarcísio Meira) tem por ele. À bela obra de Nelson Rodrigues corresponde uma boa  representação dos personagens por grandes atores brasileiros.

FICHA TÉCNICA

Título original: O beijo no Asfalto
Produção: Brasil, 1980
Direção: Bruno Barreto
Direção: 80 minutos
Elenco: Ney Latorraca, Daniel Filho, Tarcísio Meira, Christiane Torloni, Lídia Brondi

 

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