Salvador – O martírio de um povo

Por Diego Cardoso
Acadêmico de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

Um dos primeiros filmes de Oliver Stone escancara a violência das disputas políticas em El Salvador e a frieza dos jornalistas no campo de combate
Depois de ver na televisão algumas cenas da guerra civil em El Salvador, Richard Boyle liga para alguns colegas da imprensa. Ele pede uma credencial de repórter, dinheiro para viajar e uma chance para fotografar outro conflito armado. Com várias coberturas de risco na bagagem, Boyle vê naquele país da América Central uma oportunidade de sair do vermelho e recuperar a reputação perdida. Este faro jornalístico e os desdobramentos da crise salvadorenha conduzem o espectador em Salvador – O martírio de um povo, filme que mostra um dos mais violentos embates políticos latino-americanos.

Lançado em 1986, Salvador é uma das primeiras obras de Stone, ex-combatente estadunidense no Vietnã e responsável por filmes como Platoon (1986), Nascido em 4 de Julho (1989) e Assassinos por natureza (1994). O longa é inspirado na história de Richard Boyle, fotojornalista e roteirista que cobriu os conflitos salvadorenhos na década de 80 e que co-assina o roteiro com Stone. Na trama, Boyle (interpretado por James Woods) e o amigo Dr. Rock (Jim Belushi) embarcam numa viagem de carro até El Salvador para buscar novas oportunidades e aventuras. Com vidas regadas a álcool e drogas, eles se deparam com uma realidade diferente, permeada por conflitos diários entre militares governistas e rebeldes. Num primeiro momento, o fotojornalista joga nos dois lados da guerra para conseguir as melhores imagens e salvar a própria pele. Porém, o relacionamento com a nativa María (Elpidia Carrillo) e o sofrimento cotidiano da população sensibilizam o personagem, que muda de opinião a respeito do governo e do apoio norte-americano ao regime.
Tanto Boyle quanto outros correspondentes internacionais têm comportamento discutível na cobertura dos conflitos. Nada foge às lentes da mídia: execuções de nativos, crianças mutiladas, pilhas de corpos em decomposição… Enquanto alguns tratam a guerra com indiferença, outros buscam a glória em El Salvador – um dos colegas de Richard, por exemplo, sonha em ser o novo Robert Cappa, grande nome do fotojornalismo. Tudo isto deixa o compromisso com a informação e os direitos humanos em segundo plano. No front salvadorenho, o importante é garantir espaço nos canais de notícias e continuar vivo por mais um dia.

A violência do conflito (e a falta de tato dos jornalistas para retratá-la) é realçada com a direção de Oliver Stone, que não poupa os espectadores de cenas sangrentas. Acontecimentos históricos – como o assassinato do padre Oscar Romero – são mostrados de um ponto de vista próximo, como se fossemos cúmplices do crime. A fotografia contribui para o clima de guerra – recurso que posteriormente foi explorado ao extremo por Stone em Platoon. O realismo da trama também foi beneficiado pela trilha sonora assinada por Georges Delerue, com canções de época e hinos da guerrilha como El Salvador ta Venciendo.

Salvador – O martírio de um povo consegue mostrar sem pudor os conflitos armados em El Salvador, mas exige um pouco de estômago. É uma violência justificada, pois materializa a crueldade da guerra civil e a frieza de alguns jornalistas, que deixam a ética de lado em nome de dinheiro e reconhecimento.

 FICHA TÉCNICA

Título original: Salvador
Ano: 1986
Direção: Oliver Stone
Roteiro: Oliver Stone e Richard Boyle
Trilha sonora: Robert Richardson
Origem: Estados Unidos
Gênero: Drama
Duração: 122 minutos
Elenco principal: James Woods, Jim Belushi, Michael Murphy, John Savage