Thiago Amorim Caminada
Mestrando em Jornalismo (UFSC) e pesquisador do objETHOS

A cultura da participação aliada às novas possibilidades tecnológicas vem transformando o processo de consumo dos produtos jornalísticos. Ao mesmo tempo em que a velocidade de transmissão de informações acarreta na diminuição daquilo que podemos chamar de “vida útil da notícia”, afinal a obsolescência de fatos e versões se dá a cada novo desdobramento; paradoxalmente o espaço (e o tempo) de reverberação podem tomar proporções estratosféricas na Internet. A decisão de prosseguir em uma cobertura jornalística e sua consequente discussão na esfera social não pertencem mais exclusivamente aos profissionais das redações.

O caso mais recente na mídia brasileira de grande reverberação dos públicos a partir de matérias jornalísticas foi o caso da pesquisa “Tolerância social à violência contra as mulheres” desenvolvida pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Os veículos jornalísticos divulgaram os dados publicados pelo órgão oficial com destaque para o resultado da seguinte questão: 65% dos entrevistados concordaram total ou parcialmente que “mulheres que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Com isso, uma infinidade de compartilhamentos e comentários nos sites de redes sociais aumentaram a visibilidade das notícias e, consequentemente, da pesquisa.

Além da reverberação do que é noticiado, outro fato interessante é a apropriação do conteúdo jornalística por parte dos públicos para a produção de outros conteúdos. E esse foi o caso da campanha “eu não mereço ser estuprada” encabeçada pela jornalista Nana Queiroz e pela infinidade de outros textos, imagens e comentários que a repercussão desta pesquisa causou (Veja na notícia publicada pelo Estadão). Estes novos produtos midiáticos são também espalhados pela rede, causando maior reverberação das notícias referentes à pesquisa e ocasionando novos desdobramentos que, por sua vez, se tornam outras notícias. A repercussão foi tamanha que chegou a gerar uma fala da presidenta Dilma Rousseff apoiando a campanha não mereço ser estuprada.

Entretanto, um novo fato surgiu para abalar a composição do enredo. De acordo com o próprio Ipea, que executou a pesquisa, o dado estatístico divulgado estava errado. Ao invés de 65% concordar que “mulheres que mostram o corpo merecem ser atacadas”, na realidade, se tratava de 26% dos entrevistados. De acordo com o instituto, os gráficos foram trocados. (Confira a errata no site oficial do órgão)

Neste caso, ponto para os movimentos sociais que foram os grandes responsáveis por alargar a reverberação e criar novos fatos e reflexões sobre os dados da pesquisa. Tudo isso, provavelmente, deve ter grande parcela de responsabilidade na postura do instituto em voltar aos dados coletados e perceber o erro. Ponto para o jornalismo, porque é através dele que a grande maioria da população toma conhecimento de diversos estudos e pesquisas realizados por diversos institutos, sejam públicos ou não. Entretanto, menos um ponto para os jornalistas, porque, afinal, ninguém questionou o órgão público sobre a veracidade dos fatos nela divulgados. Desconfiar é uma virtude jornalística e neste caso faltaram maiores questionamentos públicos sobre o cuidado na elaboração do relatório e dos gráficos apresentados.

Em tempo

O fato de 26 e não 65 por cento dos entrevistados acreditarem que “mulheres que mostram o corpo merecem ser atacadas” diminui a proporção, mas não exime do fato de que um quarto ainda concorda parcialmente ou plenamente com esta sentença. Outra questão a ser levantada é que o 65% que foi trocado na apresentação dos dados corresponde aos entrevistados de acordo com outra sentença a de que “mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”. Outra demonstração do preconceito enraizado na sociedade. Trocaram os números, trocaram as questões, mas os dados ainda apontam para os mesmos caminhos.

Advertisements