Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

Um estudo recente apontou que as comissões de ética dos jornalistas no Brasil têm pouco espaço e força junto aos sindicatos da categoria. Fiz um levantamento das 31 unidades sindicais do país, tentando “medir” a visibilidade delas nos sites das representações classistas e me pus a “ouvir” seus membros para saber de suas estruturas, funcionamentos e apoios. Os resultados foram publicados em dezembro numa importante revista científica e encaminhados aos sindicatos.

No geral, o que a pesquisa mostrou é que as comissões de ética têm pouquíssima visibilidade nos sites dos sindicatos, que geralmente mencionam suas composições e oferecem links ao Código de Ética do Jornalista Brasileiro. A maioria dos sites não apresenta quem são os membros das comissões, e sequer explica como elas recebem e processam as denúncias. Quase sempre também falta um e-mail específico ou formas de contatar a comissão, o que dificulta a apresentação de queixas de profissionais eticamente faltosos.

Apesar de quase invisíveis, essas comissões são bem consideradas pela categoria, sendo objeto de respeito e reconhecimento moral. Entretanto, o baixo encaminhamento de casos e seu raro acionamento dá a elas um status meramente formal e simbólico, distante das funções para as quais foram criadas.

Particularmente, acredito que isso pode mudar se os sindicatos derem mais divulgação e condições de trabalho para esses órgãos, seja criando páginas/seções dedicadas ao tema da ética e referentes às tarefas das comissões, ou mesmo facilitando o acesso de jornalistas e outras pessoas interessadas. Isso não custa mais necessariamente, e está mais na alçada das prioridades políticas, sejamos francos. Trocando em miúdos: se os sindicatos definirem como uma bandeira importante o estabelecimento e fiscalização de altos padrões éticos, poderão se concentrar neles como um foco relevante e definidor de suas missões, sem sobrecarregar seus já combalidos orçamentos.

Felizmente, existe mais gente no movimento sindical que pensa parecido. O Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, por exemplo, fez uma reforma em seu site e entre as novidades está uma seção exclusiva para a comissão de ética local, explicando didaticamente como funciona e até oferecendo um e-mail exclusivo. Em Minas Gerais, aconteceu outra iniciativa importante. A comissão, que estava desativada desde 2011, foi recomposta, criou uma seção própria no site e ainda disponibilizou um formulário de pesquisa para conhecer “os principais dilemas éticos enfrentados pelos colegas no cotidiano das redações” e para colher suas expectativas sobre o trabalho da comissão.

Não se trata, obviamente, de uma retomada das comissões de ética no Brasil, mas revela traços para uma disposição para desburocratizar esses órgãos.  Da forma como se apresenta hoje, o sistema de acompanhamento ético dos jornalistas brasileiros contribui para uma falsa sensação de segurança, uma imagem fantasma. Como as comissões de ética recebem poucas denúncias sobre desvios, a impressão que se tem é de que repórteres, editores e redatores erram pouco e que o jornalismo nacional se rege estritamente pelas suas normas éticas. Um auto-engano, sejamos francos, mais uma vez.

Penso que é preciso fazer com que as comissões de ética deixem de ser peças decorativas junto à categoria. Dar espaço, visibilidade e condições de trabalho para elas pode resultar nos primeiros passos do caminho contrário. O que impede os sindicatos de trilhar nessa direção?

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