Jeana Laura da Cunha Santos
Pós-doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo/UFSC e pesquisadora do objETHOS

Quando a imprensa tradicional se torna risível, é natural que as pessoas busquem na sátira algum indício de precisão jornalística. Temos assistido nos últimos tempos a uma profusão de notícias tão impactantes quanto descabidas sobre fatos políticos recentes, tratadas periodicamente pelos analistas deste espaço do objETHOS e de tantos outros e que têm gerado manifestações acaloradas nas redes sociais.

O que se verifica no ciberespaço é que para além da indignação – quase sempre legítima – em relação a como a mídia tradicional vem abordando tais fatos da cena política contemporânea, há uma recorrência cada vez maior ao humor como válvula de escape. Paródias, memes, piadas, simulações de toda a ordem fazem supor que viramos a curva do que nos horroriza para nos deleitarmos no território do riso, do sorriso ou simplesmente da gargalhada. Algo como rir para não chorar. E, no entanto, em sua aparente futilidade, eis que a burla nos redime, nos eleva e desempenha sua crítica social em forma de comédia.

Descendente direta da Commedia dell’arte, a arte burlesca, popular entre os séculos XV e XVII na Itália, caracterizava-se por representar exageradamente a realidade, parodiando personagens públicos ou temas dramáticos. Inspirava-se, muitas vezes, nas comédias romanas e gregas que traziam personagens cômicos como o Arlequim e a Colombina. Não por acaso personagens recorrentes em tantos carnavais.

E como estamos em pleno Carnaval (não me levem a mal, hoje é Carnaval…), vale a pena recuperar um pouco do significado de tal festa pagã justamente porque ela também traz em sua origem o deboche sobre temas sérios, burlando as interdições dos sistemas vigentes. Não é a toa que as máscaras preferidas dos foliões este ano são as que trazem o rosto de personagens da cena política nacional, como Cunha, Dilma e Lula.

Mikhail Bakhtin formularia o conceito de carnaval a partir de sua etimologia de Karne ou Karth, ou “lugar santo”, e de val (ou wal), referente a “morto”, “assassinado”. Carnaval significaria, portanto, “procissão dos deuses mortos” ou “procissão dos deuses destronados”. O carnaval, na sua inversão das hierarquias e na sua suspensão das leis, proibições e padrões vigentes – e onde o marginalizado, o periférico e o excluído apropriam-se do centro –, converte-se em um princípio de compreensão do mundo. Para o autor, a relativização do poder dominante e a ridicularização de tudo que se diz verdadeiro ou imutável, transcendente ou definitivo, promoveria o riso nas suas múltiplas manifestações e celebraria a mudança e a renovação do mundo.

Arte burlesca, carnaval e jornalismo

Depois de uma explanação ligeira sobre as formas de inversões do que se toma como verdade, como poder ou como hierarquias, buscamos no jornalismo, ou no “contra-jornalismo”, exemplos eloquentes desta carnavalização em que os sentidos se encontram nas dobras, nos interditos. E que trazem à tona aquilo que muitas vezes a imprensa considerada séria ou tradicional mascara tal qual indumentária de Pierrô e Colombina.

Não é a toa que nos últimos tempos vários jornalistas e pesquisadores qualificados vêm postando pelas redes sociais imagens de sites e blogs humorísticos. Replicam e comentam, entre eles, o Sensacionalista – este cada vez com mais audiência – que fazem rir justamente porque apresentam uma inversão que revela a verdade por trás dos fatos. Mais ou menos como os escravos brasileiros faziam quando pintavam o rosto de branco e imitavam a indumentária da realeza para pular o Carnaval. Aquilo que a mídia séria faz calar, ou porque omite ou porque exagera, cai nas graças dos “jornalistas humoristas” que a transformam em matéria-prima que sacode a poeira do que está engessado e bota o carro alegórico para passar. O Sensacionalista e suas recorrentes paródias burlescas das notícias “sérias” revelam, por uma reversão dos sentidos, que estas notícias “oficiais” são tão exageradamente falsas que elas próprias assumem a posição de farsa que o teatro do grotesco imortalizou…

“Se a canoa não virar…”

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Quando o grito sério dos indignados se torna inaudível, o humor muita vezes faz refletir. Rir, gargalhar, galhofar, carnavalizar, é uma boa forma de se fazer ouvir. Exemplo disso é a profusão de posts debochados que se seguiu a uma matéria da Folha de S. Paulo do último dia 30 de janeiro. O texto assinado pelo jornalista Flávio Ferreira (já mencionado em outras críticas deste espaço) apresenta uma “prova” da ligação irregular de Lula com um sítio localizado na cidade de Atibaia (SP): uma “embarcação de alumínio, com seis metros de comprimento, modelo Squalus 600, da marca Levefort, com capacidade para cinco pessoas, sem motor”. O tal “barco de pesca” de Lula, comprado por sua mulher Marisa Letícia, não passa, entretanto, de uma modesta canoa de aço, no valor de R$ 4.100, como se esse montante fosse incompatível com a renda de um ex-presidente. A matéria, em seus esforços de investigação, traz à luz uma nota fiscal fornecida pela fabricante do barco e o depoimento do caminhoneiro que entregou a embarcação na propriedade.

O que a matéria não esclarece é o porquê de um ex-presidente não poder ancorar uma modesta canoa no sítio de um amigo, propriedade essa que nunca negou frequentar. A reportagem, na busca de provar que há um fato por trás do factoide, subestima a percepção de leitores inteligentes e deixa supor que tenebrosas transações estão sendo tramadas, entoando, sem dizer, a canção de Carnaval de Chico Buarque: “Dormia / a nossa pátria mãe tão distraída / Sem perceber que era subtraída / Em tenebrosas transações”.

Paulo Pimenta, no artigo “Os maiores factoides da mídia durante o recesso”, do último dia 3 de fevereiro, não perdoa o exagero da Folha e elenca, em tom satírico, as inúmeras pérolas da imprensa brasileira ao longo do mês de janeiro. Aproveitando que é tempo Globo de Ouro e Oscar, faz suas indicações ao troféu Frambroesa de Ouro – prêmio que é uma paródia do Oscar – do jornalismo brasileiro. Entre suas indicações está o de “Pior filme do ano: a canoa de Lula”. Para o jornalista e deputado federal, nenhum episódio da imprensa brasileira foi mais patético do que o destaque para a compra da embarcação: “A ‘canoa de Lula’ é a síntese da decadência e da falta de credibilidade da ‘grande imprensa brasileira’”.

“Lata d´água na cabeça”

img objSe a “grande imprensa” apresenta sinais de decadência, exagerando o que parece pequeno, então exagerar demais pode revelar a verdade, tal qual caricatura que expõe o nariz grande de alguém que não se via assim ou não se assumia assim. Foi o que fez o Sensacionalista quando, recorrendo a notícias veiculadas na Folha e na Veja, distorceu-as tanto que trouxe à luz o não dito: que há um afã incontrolável de boa parte dos setores da mídia em fazer a canoa virar para que o ex-presidente não chegue lá. Com a manchete “Lula é flagrado levando frigorífico avaliado em R$ 6 milhões na cabeça”, o Sensacionalista traz foto do ex-presidente com um isopor na cabeça no sítio de Atibaia e menciona que o registro complicaria ainda mais a sua situação diante da Justiça. Conforme a matéria, que menciona uma reportagem exclusiva da Folha de S. Paulo, “Lula é dono de cinco porta-aviões e quatro discos voadores, além de ser o proprietário dos últimos 150 andares do prédio Burj Khalifa em Dubai, o mais alto do mundo”. Ainda em tom de galhofa, diz que o cerco teria se fechado ainda mais com a divulgação das imagens de Lula carregando um “frigorífico na cabeça” que, “de acordo com uma reportagem da revista Veja”, estaria avaliado em “seis milhões de reais”.

O tom de humor aqui é dado pelo descompasso entre o discurso sério da narrativa jornalística e o despropósito das informações exageradas que traz, revelando o caráter da inversão que mencionávamos sobre o burlesco. Ao usar o tom sério da narrativa jornalística convencional, buscando inclusive referências na mídia tradicional, o Sensacionalista sinaliza que o exagero não está na paródia, mas no próprio original. Ao rir daquele que tem a pretensão de ser verdadeiro – e que, no entanto, não é – consegue burlar a farsa, tornado-se paradoxalmente sério. Enquanto ri da Folha e da Veja, denuncia-as.

Como se vê, o humor, a pura pilhéria, instaura a comédia dentro da tragédia. E faz pensar…

Referências
BAKHTIN, M. M. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, 1999.

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