Jeana Laura da Cunha Santos
Pós-doutoranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora no objETHOS

Feminicídio, latrocínio, analfabetismo, miséria, subemprego, informalidade, degradação do mercado de trabalho, doenças antes erradicadas e que voltam a assombrar. Prisões e morte de líderes políticos, silenciamento em universidades públicas, espancamento de estrangeiros em fronteiras outrora amigáveis… Manchetes alarmantes sobre um Brasil que retrocede a olhos vistos após o estopim de um golpe jurídico-parlamentar-midiático, cuja consolidação no país nos lembra a cada manhã o quanto a democracia se fragiliza e o Estado de Direito se torna uma tênue quimera.

Os números são contundentes: segundo o anuário estatístico do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou novo recorde com 63.880 mortes violentas intencionais em 2017, uma média de 30,08 mortes por 100 mil habitantes, um morticínio superior ao de países em conflitos armados; a mortalidade materna voltou a crescer no Brasil, registrando, em 2016, 64,4 óbitos de mulheres para cada 100 mil nascidos vivos; os subocupados e desempregados no país somam 26 milhões de pessoas, um quarto da força de trabalho de 104 milhões; 84% dos trabalhadores estão com problemas financeiros e 32% dos brasileiros que pedem empréstimo pessoal o fazem para pagar dívidas.

Tal situação deplorável avançou aceleradamente nos últimos anos desde que um governo ilegítimo vem implantando sua política nefasta e neoliberal de cortes em áreas estratégicas e vitais, levando o país a uma situação econômico-social das mais graves de que se tem notícia nos últimos tempos.

O problema é que a denominada grande mídia anuncia tais manchetes como se nada tivesse a ver com isso.

O “Criança Esperança” da Globo e o fim da esperança

Atrelada até a medula às oligarquias financeiras da qual faz parte, a mídia hegemônica, patrocinadora do golpe, até hoje não fez mea-culpa sobre o papel preponderante que teve no cenário aterrador em que o Brasil se encontra. Nunca estabeleceu uma relação direta entre o golpe disfarçado de impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, e que acabou levando à prisão de Lula, e o fim melancólico das políticas sociais que ela procurou implementar com o objetivo de diminuir as desigualdades sociais e assim evitar o que a sucessão de dados estatísticos aterradores mais acima evidencia. No cenário de hoje, os grupos empresariais jornalísticos apenas matraqueiam notícias sobre um País em crise, mas sem jamais reconhecerem seu protagonismo deletério neste processo. Quando muito, procuram trazer matérias inócuas sobre indivíduos empreendedores que driblam a crise ou campanhas “altruístas” para se sair da miséria.

Um exemplo simples deste cinismo é a campanha da Rede Globo “Criança Esperança”, em parceria com a UNICEF e UNESCO, no ar agora em sua 33ª edição. Enquanto a emissora lança mão de seu casting de atores famosos para passar o chapéu, milhares de crianças voltam ao estado de miséria e abismo perpetrado por esta mesma mídia que sempre combateu e conspirou contra projetos de esquerda que, doce ironia, esses sim poderiam minimizar as desigualdades sociais e, portanto, melhorar as condições de vida de muitas crianças. Um paliativo com ares de pseudo-altruísmo. A Globo finge se importar, mas não é capaz de minimamente mencionar políticas públicas transformadoras ou ações coletivas efetivamente contundentes. Suas pautas cotidianas não tratam sobre concentração de renda e a necessidade de pagamento de mais impostos por parte da elite econômica. E pior: conspira deliberadamente contra qualquer presidenciável que ostente tal agenda em sua plataforma política, ajudando a fundar ou perpetuar o que o filósofo francês Alain Badiou definiu, em entrevista à Carta Capital de 22 de agosto, como “uma ditadura política dos grandes grupos financeiros e industriais nacionais, e também midiáticos”. Falava ele da França, mas poderia perfeitamente estar falando do Brasil.

Contra a mídia hegemônica, a mídia plural

Contra tal ditadura midiática de que fala Alain Badiou só há uma difícil, porém essencial, saída: a democratização dos meios de comunicação no Brasil. Uma solução óbvia, mas que não foi enfrentada por quem se tornaria vítima da falta de isenção e pluralismo com que futuramente seria tratado.

Se nem o ex-presidente Lula nem a ex-presidenta Dilma enfrentaram a questão no passado, pagando um alto preço pela conduta, hoje essa é uma questão imperativa na pauta do atual candidato petista Fernando Haddad, que pretende investir fortemente na garantia da universalização da banda larga, desconcentrar os investimentos publicitários estatais, além de distribuir concessões também para universidades, sindicatos e organizações da sociedade civil. Um marco regulatório essencial e estratégico para restabelecer a democracia no Brasil e para que as notícias ruins apontadas no começo deste comentário sejam veiculadas pelo que contêm de exceção e não pelo que possuem de regra.

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