Clarissa Peixoto
Mestranda no POSJOR e pesquisadora do objETHOS 

Menos de um mês nos separam das eleições. Os últimos acontecimentos promovem discursos contraditórios e atordoam a todos com uma enxurrada de informações. O atentando ao candidato à presidência pelo PSL, Jair Bolsonaro, permeou os noticiários dos últimos dias e inaugurou uma nova etapa no processo eleitoral. A primeira pesquisa de intenção de votos, realizada após o atentado, não apontou para um crescimento significativo do candidato como muitos esperavam, embora ele ainda lidere o ranking da corrida presidencial.

A situação ainda é órfã de respostas mais assertivas, porém, permite apontarmos algumas considerações sobre o papel dos meios de comunicação hegemônicos neste processo. Eles seguem no esforço de manejar a opinião pública, questionando o discurso ultraconservador de Bolsonaro que ajudaram a construir, ao mesmo tempo em quemantêm a tensão contra a esquerda, embora o candidato deste campo com maior viabilidade, Luiz Inácio Lula da Silva, esteja preso e impedido de concorrer à eleição. Esses veículos de comunicação, que incluem jornais, portais na internet, emissoras de rádio e de televisão, foram exitosos ao criar o sentimento de polarização social, reproduzindo e massificando o pensamento de Bolsonaro para jogar toda a esquerda na contraofensiva. No entanto, não obtiveram sucesso em alavancar o “centrão”, campo político que representa seus interesses.

Ainda nos meses que precederam a campanha eleitoral, assistimos ao crescimento de narrativas controversas sobre os campos políticos em disputa. A grande mídia buscou equalizar os acontecimentos ao gosto de suas interpretações e apostou na polarização como mote para dar nova roupagem a grupos políticos de direita. Manteve a campanha anti-PT e, embora não tenha estancado a força popular de Lula, foi preponderante para tirar do páreo eleitoral o ex-presidente que figurava no topo das intenções de votos, até a decisão do Supremo Tribunal Eleitoral no dia 1. Agora o Partido dos Trabalhadores aposta em Fernando Haddad, que precisa de muita campanha para conquistar no eleitorado de Lula os votos necessários para chegar ao segundo turno. Sintetizando a política entre extremos, a mídia promoveu o entendimento de que o restante da fauna política brasileira se constitui em um bloco de centro, embora a realidade comprove que esse conjunto de partidos defende a aplicação de uma agenda neoliberal, já em curso no Brasil.

Neste cenário de polarização, sustentado pela ideia de ouvir os contraditórios e com base na neutralidade jornalística que, bem sabemos, é fantasiosa, a mídia hegemônica se empenha na defesa do bloco liderado por Geraldo Alckmin, do PSDB. Para “equilibrar a balança” do alvoroço social que ajudou a criar, aposta no “centrão” capitaneado por uma sigla de expressa matriz neoliberal, representante dos interesses do capital financeiro e internacional. Geraldo Alckmin, que parece consolidado como o candidato da grande mídia, busca os votos para chegar ao segundo turno no eleitorado ultraconservador de Bolsonaro. A ação parece contraditória, considerando o apelo ao equilíbrio apresentado nos programas eleitorais de Alckmin, consonante com as ideias que a mídia tradicional construiu sobre a sua coligação. No entanto, se mostra uma estratégia razoável diante da proximidade ideológica do eleitorado de ambos.

Em A sociedade do espetáculo, Guy Debord escreve que “no espetáculo, imagem da economia reinante, o fim não é nada, o desenrolar é tudo. O espetáculo não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo”. Nestas eleições, o vácuo da desinformação se completa pelo rebaixamento do debate político na esteira do espetáculo. Debates e entrevistas com candidatos se traduzem mais em performances pessoais de políticos e jornalistas – com raras exceções – alheias aos temas candentes da realidade brasileira. As agendas dos candidatos ganham mais espaço do que um trabalho jornalístico aprofundado sobre a real situação de setores sociais e de serviços públicos. Há lacunas na investigação e na interpretação dos fatos e na elucidação do processo eleitoral como fundamental para uma ideia amplamente propagada e raramente exercida: os direitos democráticos.

 

Referências:

DEBOR, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

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