Lívia de Souza Vieira
Professora de Jornalismo na Faculdade IELUSC e pesquisadora associada do ObjETHOS

“Menina se recusa a cumprimentar Bolsonaro durante cerimônia de Páscoa”, noticiou o Estado de S. Paulo na última sexta-feira, dia 19. Com base em um vídeo publicado no Twitter do próprio presidente, o jornal afirmou que “quando ele cumprimenta as crianças que estavam na última fila do grupo, a menina cruza os braços e faz sinal de negativo com a cabeça diante da investida do presidente. O momento ocorre aos 28 segundos do vídeo”.

A notícia rapidamente viralizou nas redes sociais. A partir da comparação que o próprio Estadão fez, começou a circular imagens que associavam o ato a uma foto de 1979 que virou símbolo da resistência à ditadura militar, quando uma menina se negou a cumprimentar o então presidente João Baptista Figueiredo durante uma parada cívico-militar.

O que seria uma história com alto valor simbólico mostrou-se, dois dias depois, um erro jornalístico. E é sobre ele que vamos tratar neste artigo.

No dia 21, o Estadão publicou uma correção, em que afirma não ser possível dizer que a menina se recusou a cumprimentar o presidente.

A filmagem – postada pelo presidente em suas contas no Facebook e Twitter – é coberta pelo som do Hino Nacional e não é possível ouvir com clareza o que Bolsonaro conversa com as crianças. O Estado teve acesso por meio de uma fonte do governo ao vídeo com legenda onde é possível ouvir o presidente perguntando às crianças se elas eram palmeirenses. É nesse contexto que a menina faz sinal de negativo para o presidente. A nota não foi publicada na versão impressa do jornal. O texto foi corrigido. 

Sobre a última frase, valeria uma errata da errata, já que o texto não foi corrigido, mas apagado. O jornal excluiu de seu site a notícia original e tal fato não passou despercebido. No dia 20, portanto um dia antes da correção, o site Diário do Centro do Mundo não só observou que a matéria não estava mais no ar, como questionou a “falta de uma explicação para o sumiço”.

A exclusão da página da notícia não impediu que a informação errada continuasse circulando, e isso acontece por dois motivos: primeiro porque a notícia foi divulgada pela agência Estadão Conteúdo e reproduzida em diversos sites jornalísticos do país; e segundo porque esta é a dinâmica da internet: uma vez no ar, é praticamente impossível apagar o rastro que o erro deixa. Uma rápida busca no Google mostra que hoje, quatro dias após a divulgação da correção, a notícia com o erro ainda existe. Selecionei um exemplo de um veículo jornalístico, de um site hospedado no portal R7, de um vídeo no YouTube, de um post de um site no Facebook, e de um post de revista jornalística no Twitter. Em todos eles (e há muitos outros exemplos) não existe menção ao erro.

Houve pelo menos três consequências importantes:

– O site Metrópoles ouviu a menina, e ela disse que está com medo de ir à escola. Os pais inclusive votaram em Bolsonaro. Isso só reforça algo que sabemos bem, mas que não é objeto de devida reflexão ética na rotina profissional: o erro jornalístico pode causar danos à vida das pessoas.

– O repórter do Estadão que fez a matéria está sofrendo ataques virtuais e teve sua foto divulgada em páginas que apoiam Bolsonaro. Esse fato me preocupa não só como jornalista, mas também como professora, já que o repórter é meu ex-aluno e não cometeu o erro intencionalmente – o que me leva ao terceiro ponto.

– O erro jornalístico foi amplamente chamado de fake news por perfis e sites de direita, mas não são a mesma coisa. Essa confusão beneficiou o governo (que faz ataques constantes à imprensa) e prejudicou a credibilidade não só do Estadão, mas do jornalismo como um todo. A seguir exploro mais essa argumentação.

Erro jornalístico não é fake news

Conceitualmente o erro jornalístico não é intencional. É algo que pode acontecer na prática jornalística, muitas vezes por afrouxamento de procedimentos de apuração (como foi este caso), outras vezes por equívoco da fonte, etc. Mas em tese o veículo não quer errar (e aqui não estou me referindo à manipulação, que é outro conceito). Em minha dissertação de mestrado, tentei definir um conceito de erro jornalístico:

De natureza técnica e ética, o erro jornalístico é a incorreção, falsificação ou imprecisão na publicação de uma notícia, causado por negligência, imprudência ou imperícia. A não admissão do erro ou sua ocorrência deliberada afetam a qualidade e a credibilidade do produto jornalístico junto ao público leitor ou a outros grupos interessados.

Nesta definição, o que chamo de “ocorrência deliberada”, ou seja, quando algo é feito propositalmente, se aproxima do entendimento de fake news (em 2014, quando defendi a dissertação, essa discussão ainda era incipiente no Brasil). Mas apesar de terem consequências parecidas – afetam a qualidade e a credibilidade – não são sinônimos.

E ainda há mais um ingrediente conceitual importante: há um consenso entre os estudiosos de que a expressão “fake news” é vaga demais para descrever o distúrbio da informação contemporâneo, como afirmou Taís Seibt neste texto. É mais preciso falar em desinformação.

A tipologia criada por Claire Wardle reitera meu argumento de que erro jornalístico e fake news são conceitos diferentes. Ela aponta sete categorias: sátira ou paródia, falsa conexão, conteúdo enganoso, falso contexto, conteúdo impostor, conteúdo manipulado e conteúdo fabricado. Mesmo que na primeira (sátira ou paródia) não exista necessariamente a intenção de confundir, sua produção presume ciência de que o conteúdo não corresponde à realidade (é o caso de sites como o Sensacionalista, por exemplo).

Assim, embora os danos e consequências do erro jornalístico e da fake news possam ser bastante semelhantes, é o contexto de produção que os diferencia. A notícia ou informação feita por um veículo jornalístico tem o objetivo de ser factualmente verdadeira e, embora o erro possa ser descoberto posteriormente, ela não foi divulgada com essa intenção. Já a fake news guarda em si o caráter deliberado de desinformação, utilizando para isso artifícios como falta de contexto e manipulação, por exemplo.

É preciso destacar que tal diferenciação conceitual não torna o erro jornalístico menos grave. Falhas de apuração e checagem, interferência de elementos externos, razões ideológicas, descuido ou falta de gestão na cadeia informativa – que são algumas das causas do erro – são bastante preocupantes e a meu ver, não têm ainda a atenção que merecem por parte dos veículos jornalísticos.

No caso objeto deste artigo, a confusão é ainda maior, pois também houve fake news (ou desinformação deliberada). De acordo com a agência Lupa, começou a circular nas redes sociais um vídeo com uma falsa legenda atribuída à menina: “não vou falar com você”, ela teria dito a Bolsonaro. Ou seja, embora a notícia tenha sido fruto de um erro jornalístico – e não de uma fake news – houve também a circulação de desinformação intencional.

Procedimentos de correção

É nesse ecossistema extremamente complexo que se encontra a notícia. E como os veículos jornalísticos que divulgaram a informação errada a corrigiram? Neste ponto os procedimentos são diversos e muitas vezes confusos, o que indica falta de padrão na correção do erro (algo que também identifiquei na minha pesquisa lá em 2014). Vejam alguns exemplos:

– Como vimos, o Estadão publicou uma correção de três parágrafos, em que diz vagamente que o texto foi corrigido (mas na verdade ele foi apagado). O jornal deveria ter detalhado mais as causas do erro, pois isso aumenta a transparência junto ao leitor e auxilia no entendimento do contexto. Sem meias palavras, o jornal interpretou as imagens de maneira equivocada por não ter apurado o fato devidamente. Sem o áudio do diálogo de Bolsonaro com as crianças não era possível chegar à conclusão que o Estadão chegou, embora tenhamos que destacar a força das imagens na indução ao erro. Além disso, ao invés de excluir a notícia, o jornal deveria ter publicado a correção na mesma URL da matéria original, contextualizando e explicando para o leitor o que aconteceu.

– O portal UOL manteve a URL original, mas trocou o título da notícia para “Bolsonaro cumprimenta crianças durante cerimônia de Páscoa”, o que causa estranheza porque, fora do contexto do erro, essa informação não seria uma notícia. Neste sentido, o título da agência Lupa é certeiro: “Menina não se negou a cumprimentar Bolsonaro em evento de Páscoa”. O texto publicado pelo UOL é a errata do Estadão, mas a notícia original simplesmente some, o que prejudica o entendimento do que realmente aconteceu (já que a correção do Estadão é ruim).

– O site da revista Exame também manteve a URL original, mas acrescentou um ponto de interrogação ao título, que ficou assim: “Menina se recusou a cumprimentar Bolsonaro em cerimônia de Páscoa?”. Tal artifício é comum em sites especializados em checagem de boatos, como o e-farsas, e serve para despertar a curiosidade do leitor e levá-lo a clicar na notícia – já que o título da Lupa, por exemplo (Menina não se negou a cumprimentar Bolsonaro em evento de Páscoa) já diz claramente que a informação é errada. Partindo do pressuposto de que a conhecida prática do caça-cliques (ou click bait) não deve ser praticada por veículos jornalísticos que prezam pela credibilidade junto ao leitor, o título da Exame deveria ser repensado. O texto começa com um destaque em itálico: “Atenção: O conteúdo desta reportagem foi corrigido pelo Estadão neste domingo (21). Pelo vídeo publicado pelo presidente, não é possível afirmar que a criança se negou a cumprimentar Jair Bolsonaro”. No entanto, o conteúdo em seguida é a notícia original, com o erro: “Uma menina se recusou a cumprimentar o presidente Jair Bolsonaro durante celebração de Páscoa na última quarta-feira, 17, no Palácio do Planalto”. A sensação para o leitor é a de uma informação anacrônica, que desdiz e depois reafirma o erro. Como citado acima, é preciso trabalhar o texto, reescrevê-lo, contextualizando e explicando para o leitor o que aconteceu de forma clara. É uma relação direta de proporcionalidade: quanto mais confuso o contexto do erro, mais transparente deve ser sua correção.

– A Carta Capital manteve o título e o texto originais incorretos e só no último parágrafo, sem qualquer destaque, acrescenta: “Neste domingo (21), o Estadão informou que teve acesso, por meio de uma fonte do governo, ao vídeo com legenda onde é possível ouvir o presidente perguntando às crianças se elas eram palmeirenses. É nesse contexto que a menina faz sinal de negativo para o presidente”. Tendo em vista que muita gente só lê o título da notícia, é muito arriscado deixar a errata no fim do texto, como se fosse somente mais um parágrafo da matéria.

– A revista Veja e o jornal Estado de Minas publicaram correções mais adequadas. A primeira acrescentou um “não” à URL original, mas ambas levam para o texto corrigido (o que contribui para uma indexação correta pelos buscadores). O título é “Menina não se recusou a cumprimentar Bolsonaro durante cerimônia”, o texto explica que a Veja reproduziu o conteúdo do Estadão e em seguida vem a errata. O título do Estado de Minas também é bom (Reportagem apura que menina não se recusou a cumprimentar Bolsonaro em cerimônia) e o texto é trabalhado no sentido de explicar o erro. O grande problema do Estado de Minas foi ter mantido em outra URL a notícia original incorreta, inclusive sem qualquer menção ao erro.

Pelos exemplos acima, é possível perceber a falta de um padrão de correção do erro jornalístico, que pode gerar falhas de entendimento por parte do leitor e acabar contribuindo para a desinformação. Para tentar solucionar isso, reproduzo abaixo um trecho da política de correção de erros que consta em minha dissertação de mestrado, que me parece ser ainda atual:

– Ao ser descoberto, o erro deve ser corrigido, sem subterfúgios. A correção do erro deve ser feita o mais rapidamente possível, pois ela gera confiança e credibilidade.

– A retificação deve ser necessariamente disseminada pelos mesmos canais nos quais a informação incorreta foi divulgada (redes sociais, site, blogs, etc.).

Ao identificar o erro, deve-se seguir os procedimentos:

           – Em casos de erros de informação (que pode ser uma palavra ou até a notícia inteira), o texto da correção deve ser inserido na notícia original, em local visível na página. O repórter deve corrigir a informação e publicar a errata simultaneamente. O gerenciador de conteúdo do web jornal deve prever um campo específico para as correções, visando facilitar o procedimento para o repórter.

– Em caso de uma notícia inteiramente falsa, imprecisa ou incorreta, é possível substituí-la por uma explicação completa acerca daquele fato, mencionando o erro. O título da notícia, inclusive, pode ser modificado para alertar sobre a correção, desde que todo esse procedimento seja feito na mesma URL (sem a criação de novos links desconexos com a notícia original).

– O texto da correção deve ser claro e objetivo. É recomendado informar o tempo em que a notícia permaneceu com erro, para contemplar os leitores que tiveram acesso a ela em diferentes momentos. Sugestão de padrão de texto, cujo tom pode variar de acordo com a linha editorial do veículo: “Das (x)h às (x)h, informamos incorretamente que (…). No entanto, a informação correta é (…) e o erro ocorreu porque (…). O texto foi corrigido. Pedimos desculpas aos nossos leitores”.

– Uma notícia jamais deve ser despublicada, mesmo que ela contenha graves erros jornalísticos. Tentar apagar o rastro do erro nunca é a melhor solução.