Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

O ministro Sergio Moro mudou de lado ontem (19) na sessão da Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, ao ser interrogado por mais de nove horas sobre sua conduta na Operação Lava Jato. Acostumado a crivar de perguntas testemunhas e depoentes, o ex-juiz repetiu insistentemente que não se lembrava das mensagens que trocou com o procurador Deltan Dallagnol, que não tinha mais acesso a esses diálogos, e que havia sido vítima de hackers. Manteve-se dentro de um roteiro estreito que teve como alicerce uma estratégia: desqualificar as denúncias feitas pelo The Intercept Brasil, questionando a ética de seus jornalistas. Por isso, Sergio Moro martelou tanto a tecla de que as reportagens são sensacionalistas.

Para Moro, os conteúdos das denúncias foram obtidas ilegalmente, e as práticas relatadas são comuns e normais no meio jurídico. Para Moro, The Intercept Brasil tratou de forma exagerada o caso, fazendo pirotecnias narrativas para criar uma sensação de gravidade que não existe. Para Moro, os jornalistas deveriam revelar tudo o que tinham de uma vez, e não conforme têm feito. O ex-juiz da Lava Jato disse várias vezes que teria sido melhor se os jornalistas tivessem apresentado o conteúdo a autoridades em vez de publicá-las. Quer dizer, para Sergio Moro, o caminho mais acertado seria que jornalistas não fossem jornalistas.

Nas cordas, Moro criticou que não foi ouvido pela reportagem antes da publicação. Ele tem razão nos primeiros lotes de denúncias, mas não nos mais recentes. Neles, The Intercept tenta incluir sua versão, mas a assessoria do Ministério da Justiça e Segurança Pública repete que “não comentará supostas mensagens de autoridades públicas colhidas por meio de invasão criminosa de hackers e que podem ter sido adulteradas e editadas, especialmente sem análise prévia de autoridade independente que possa certificar sua integridade”.

Editar ou adulterar informações é outro problema ético no jornalismo, pois pode contribuir para que o relato se distancie da verdade, de como ele se deu originalmente. Moro chama The Intercept Brasil de sensacionalista e planta a dúvida de que os conteúdos sejam distorcidos e de que haja manipulação da opinião pública. Sem acesso à íntegra das denúncias, sem saber de onde teriam vindo e sem poder prever como e quando esses conteúdos serão oferecidos à sociedade, Moro não pode negar com força a autenticidade das falas nem antecipar um plano de defesa. Resta o quê? Desmoralizar quem publica as denúncias, na esperança de que seus apoiadores e as milícias digitais sigam seu comando. A estratégia pode funcionar. Veja o caso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao apontar o dedo e acusar de mentiroso quem escrutina o seu governo. Para Sergio Moro, “é sensacionalismo!” serve como um “you are fake news!”, de Trump.

Parece mas não é

Por nove longas horas, em transmissão ao vivo por TV, rádio e internet, o ministro – que é acusado de parcialidade na condução de julgamentos na Operação Lava Jato – quis colar nas costas de Glenn Greenwald e sua equipe o adesivo de que são sensacionalistas. Mas o que é isso, afinal?

O sensacionalismo não é um tipo de jornalismo, mas um desvio dele. É um conjunto de práticas que apela às emoções mais primitivas das pessoas para capturar seu interesse, causando comoção, assombro, alarma social ou curiosidade mórbida. É apelativo, espetacular, superficial e malicioso. Para causar sensação, os meios sensacionalistas recorrem a uma linguagem empobrecedora, ligeira e ambígua. Cores fortes são dadas aos fatos, imagens impactantes nos chacoalham e outras iscas de atenção são espalhadas com a clara intenção de gerar medo, raiva e desconfiança. O sensacionalismo é exagerado e enganoso, e oferece narrativas que parecem verdadeiras, mas não o são. O sensacionalismo tem uma fórmula simples: parece, mas não é.

Dessa forma, o sensacionalismo é um despiste, uma trapaça, um trambique, e isso não tem nada a ver com jornalismo pra valer. É um desvio de caráter, uma corrupção de sua ética. Isso porque é mentiroso e sem compromisso com um interesse mais amplo, o interesse público.

A julgar pelas reportagens publicadas de 9 a 19 de junho, não se sustenta o argumento de que The Intercept Brasil tenha sido sensacionalista. Sua linguagem não é apelativa nem exagerada. A transcrição de longos trechos do material permite um grau de transparência que permite ao leitor julgar por si mesmo a gravidade do caso. E o trabalho de edição do conteúdo, com o descarte (e a não publicação) de trechos das mensagens de caráter privado, por exemplo, atesta um cuidado ético que os melhores padrões de jornalismo recomendam.

Há ainda um outro aspecto desse caso que ajuda a descaracterizar a atitude do The Intercept Brasil como sensacionalista: o ritmo das publicações. O sensacionalismo busca capturar a atenção das pessoas e aproveita qualquer interesse para manter a audiência. O clamor das redes sociais e a pressão de veículos concorrentes poderiam levar a redação a ser mais oportunista, soltando mais capítulos da novela de forma conveniente de modo a não perder o entusiasmo da plateia.

Os editores Leandro Demori e Glenn Greenwald recusaram-se a isso, afirmando que novas denúncias sairiam conforme a capacidade de trabalho de seus repórteres. Convenhamos, isso contraria a expectativa do público que espera mais novidades, o que seria um risco para quem deseja atrair todos os olhares. Entretanto, a audiência não abandona The Intercept Brasil porque Demori e Greenwald alertaram para o tamanho dos vazamentos que têm em mãos. A disputa das narrativas atiça o apetite das massas, mas o ritmo de publicações tem se mostrado prudente e responsável, atitude contrária ao sensacionalismo. Por mais que sejam planejadas e cuidadosas, coberturas em tempo real tendem a se modificar à medida que as reportagens são publicadas e repercutem junto à sociedade. Quem trabalha em uma redação ou já passou por ela, sabe que ajustes são feitos, que rotas são corrigidas. O próprio The Intercept Brasil modificou sua postura desde o início da sua série, passando a trazer também o lado dos envolvidos. Foi acertado, embora seja também frustrante que os citados evitem se pronunciar ou tentem desqualificar as denúncias. É do jogo!

Sergio Moro sobreviveu a um interrogatório de nove horas, mas o processo de fritura pública parece estar longe de terminar. O ministro pode convencer as pessoas de que The Intercept Brasil agiu com sensacionalismo, mas vai precisar caprichar nos argumentos. Pode se inspirar nos meios fartamente utilizados por uma certa força-tarefa que investigou crimes de corrupção e que pretendia restaurar a moral saneadora no país. Ela foi pródiga em vazamentos seletivos, em prisões espetaculares e em episódios ruidosos. O ministro Sergio Moro também pode fazer com que as pessoas acreditem que as denúncias são exageradas e especulativas, mas terá trabalho adicional: como convencer que os conteúdos revelados não têm interesse público e que sua publicação não é legítima?

> Leia ainda: Intercept Brasil revela o nosso Watergate

> Leia: The Intercept escancara falhas da Lava Jato e lança discussões sobre ética e interesse público

> Leia também: Atuação de Moro já chamava a atenção de analistas

> Leia ainda: Caso Moro/Intercept: sobre hackers, jornalistas e a informação fluida

Anúncios